Capítulo: 33
Azai.
Primeiro ouviram os disparos das armas de fogo. Ecoavam por todo o caminho adiante, por sobre as copas das árvores e campos mais além, no começo apenas leves estampidos, estalidos distantes, porém inconfundíveis, que foram aumentando conforme a tropa prosseguia marchando pela estrada, ao mesmo tempo que a montanha ganhava mais e mais espaço no horizonte, alcançando os céus, e estendendo-se colossal, engolindo tudo à frente, sua sombra pairando escura por sobre a mata que cercava o Comandante e sua tropa, e seu corpo escarpado tornando-se o mundo inteiro. Então chegaram os gritos de dor e ordens berradas misturando-se aos sons dos tiros e do aço batendo em aço numa canção de guerra.
E lá estava a mansão: um belíssimo casarão todo de mármore, repleto de janelas, estátuas, arbustos cortados no formato de heróis e monstros, com um muro alto cercando a tudo, ainda que transformada num pequeno forte, porém, com as janelas já a muito estilhaçadas, os arbustos queimados, o muro e todas as outras paredes repletas de buracos de balas e com um mar de sangue escorrendo pela encosta íngreme que levava a seu portão. Viam-se por todos os lados poças e córregos vermelhos originados das dezenas e dezenas de corpos, cadáveres de soldados namorianos caídos ao chão, sem vida, no caminho ao seu alvo.
— Pelos Deuses... — Comentou João, arregalando os olhos à cena de morte.
— Ah, finalmente vocês chegaram! — disse o elfo cavaleiro, que aproximava-se da tropa, com o mesmo enorme nariz empinado e expressão presunçosa da qual Azai lembrava-se de ainda o vilarejo nas montanhas. — Demoraram bastante, porém, devo dizer.
— Chamo-me Azai Calian, sou o Comandante e líder desta tropa, senhor...
— Ruben. Patris, Ruben. — Respondeu o elfo narigudo. — Sou o Cobrador-de-Guerra, e fui enviado sob ordens do rei, escoltado por uma tropa do exército, pelo cofre daquela mansão, embora estes homens não tenham se mostrado tão eficientes quanto o esperado... Os incompetentes foram destruídos por aqueles crasirianos que entrincheiraram-se por trás dos muros. — Concluiu o elfo, cuspindo ao pronunciar "crasirianos".
— Então fora o senhor que pediu os reforços? — Perguntou o Comandante.
— Sim. E vocês, vocês todos, estão sob meu comando, entendido? — Retrucou o elfo narigudo, presunçoso, enfiando a mão no bolso interno de seu terno, retirando um cilindro de metal, abrindo-o e, retirando de dentro deste, exibindo um pergaminho no qual, uma vez desenrolado, estava por escrito, com todos os típicos rodeios e bajulações políticas, a ordem que dava ao homem o direito do qual falara, assinado pelo Patrono-Comandante-Mor e o próprio rei.
— Entendido, senhor Cobrador-de-Guerra. — Respondeu Azai, batendo continência, seguido por toda sua tropa.
— E, me escutem: vocês vão subir aquela maldita estrada, atravessar o maldito campo, subir a maldita encosta e conquistar a maldita mansão! Não dou a mínima se vocês, malditos, transformarem tudo em cinzas, se vocês fizerem daquele lugar o próprio inferno, mas: NÃO. ENCOSTEM. NO. MALDITO. COFRE.
A estrada seguia por um campo aberto por quase meio quilômetro, constantemente subindo e descendo, acompanhando as colinas ondulantes, antes de subir a encosta por mais cerca de cento e cinquenta metros antes de terminar repentinamente nos portões do muro que cercava a construção. Em toda sua trajetória, não havia nela uma única rocha ou árvore, apenas as crateras dos projéteis dos canhões servindo como cobertura, como os coitados que então apodreciam nestas mesmas crateras e enchiam-nas de sangue e demais fluidos que frequentemente escorriam nestas batalhas sangrentas bem sabiam. O muro era outro problema: uma resistente linha reta composta de rocha e argamassa, que ia de uma extremidade da concavidade na montanha à outra, tendo sete metros de altura, com três metros de espessura e uma torre em cada extremidade, seus portões sendo a única passagem para a mansão, que era cercada por todas as outras direções pela rocha da Cordilheira Cinzenta. Por outro lado, Azai possuía quinhentos soldados sob sua liderança, quinhentos e setenta e dois, se contando com aqueles da tropa de escolta do elfo que sobreviveram.
Uma vez que Azai chegara, as investidas contra a mansão haviam cessado, ele ordenando imediatamente que todos recuassem para a proteção da floresta. Quinhentos e vinte e dois, se contando somente com aqueles que podiam lutar, descartando os cintilantes azuis (vinte) que acompanhavam o Comandante e os feridos da outra tropa. À primeira vista, todos aqueles soldados ali dispostos, armados e com as caras fechadas, apenas esperando as ordens, parecia um grande número, mas Azai não deixava-se iludir, sabia que, pelo menos, uma centena deles cairiam antes mesmo de atingirem o portão, alvejados por uma nuvem de flechas, setas de bestas, bolas de canhão e munição.
— Algum plano, senhor Comandante? — Perguntou Mikael, o Maioral-Mor que até então liderava os soldados sob as ordens do Cobrador-de-Guerra e militar de maior patente dentro daqueles que escoltavam o elfo.
Mikael era um homem com cerca de trinta anos, um ogro careca e sem barba, sua cabeça lisa como um ovo, porém, então, coberto de sangue seco, fuligem e suor, evidentemente tão cansado quanto todos os outros, ele próprio tendo participado também da batalha.
— Alguma sugestão? — Retrucou Azai, ainda fitando o futuro campo de batalha.
— Bem, quando chegamos aqui, Nariz Maldito nos ordenou para simplesmente avançarmos e tomarmos a "maldita mansão". Ele pode ser um babaca arrogante, aquele Cobrador-de-Guerra, mas ele não estava completamente enganado quando disse isso. Temos de percorrer um longo caminho até os portões, mas os escudos, embora nos protejam da primeira, e quem sabe, da segunda salva de tiros, logo ficam inutilizáveis, e mesmo quando ainda bons, são inúteis contra um tiro de canhão. Acredito que a melhor estratégia é simplesmente separar a tropa o máximo possível e avançar... mesmo que, próximo ao portão, tenhamos de nos afunilar.
— Entendo. Vamos fazer isso... amanhã. Por agora, ordene que levantem acampamento, senhor Maioral-Mor, logo discutiremos mais as estratégias. — Disse Azai, deixando a orla da floresta, de onde observava a devastação adiante, e embrenhando-se mata a dentro, ouvindo os suspiros de alívio daqueles que haviam acabado de regressar do campo de batalha e os martelos começando a acertar as estacas que serviriam de base as lonas das barracas, e as pederneiras sendo riscadas assim ascendendo as chamas das fogueiras, os típicos sons do levantar de acampamento.
— O nome dela é Maria. — Disse Tadeo, respondendo à pergunta de João sobre sua esposa. — Ela é linda.
— E quanto a filhos? — Perguntou João.
— Bem, ainda nada, mas, quando isso acabar, eu planejo criar uns pirralhinhos e pirralhinas, sabe! — Respondeu o tigromem, sorrindo como uma criança enquanto arrepiando os próprios cabelos.
— Bem, eu já vou para cama. Até amanhã, vocês. — Comentou Azai, de repente, levantando-se e dando as costas ao seu grupo e à luz da fogueira na qual eles aglomeravam-se ao redor, deixando seus amigos emergirem em suas conversas saudosistas sobre suas famílias e terra natal.
O Comandante não tinha uma família da qual compartilhar seus planos futuros e sentimentos para com seus amigos, e mesmo quanto à Terra-Solar, sua terra natal, a antiga capital do país, não nutria qualquer simpatia. Era um lugar quente e fedorento, e Azai não possuía qualquer parente vivo lá (ou mesmo em qualquer outro lugar), a cidade ladeando um largo rio, um dos poucos daquele escaldante e lúgubre deserto que era o norte d'A Garganta (uma passagem para o norte entre a Cordilheira Cinzenta) e do Deserto Interregno.
— Você veio salvar seu amigo? — Perguntou então, de repente, a harpia, mais uma vez assustando o Comandante que seguia a sua tenda, Azai sacando num instante sua espada e apontando-a a Sofia, enjaulada ali perto.
— O que você quer, hein? — Retrucou o Comandante, tornando a devolver a lâmina à sua bainha, verdadeiramente zangado com a repetição dos fatos de noites atrás, tanto por ter assustado-se com uma garota presa, quanto pelo fato de relembrar-se das palavras ditas por ela, que causaram um certo estranhamento, uma aflição que instalara-se em seu coração, um ponto negro que vinha lhe incomodando até então.
— Conversar um pouco.
— Então você já o fez. Adeus. — Concluiu o Comandante, dando as costas a garota e prosseguindo com seu caminho.
Insistente, Sofia continuou:
— Minha mãe era namoriana, sabe? — Disse a garota, fazendo Azai estancar na hora. — Inclusive, foi ela quem me ensinou sua língua. Ela nasceu e cresceu numa cidade chamada Car. Me disse uma vez que fica em algum lugar ao sudeste da capital, Terra- Solar, e ao norte de um vilarejo chamado Lar de João. Quanto a meu pai: ele é filho de um comerciante do estrangeiro, de um homem do Semi Continente, da Ilha Hazir. E, antes que você fale qualquer coisa, eu nasci no mar, num navio, então de forma alguma eu sou uma "descendente de Cael", sabe? Então, por que vocês me agrilhoaram e me prenderam nessa jaula?
— Porque seu pai é um Representante Provincial. — Respondeu Azai, olhando por sobre o ombro. — Alguém importante.
— E ainda assim eu não tenho nada a ver com as criaturinhas malignas e traiçoeiras que vocês acreditam que são os crasirianos. — Retrucou Sofia ao juntar o máximo de coragem que conseguiu para desafiar o Comandante daquele jeito, ainda assim sua voz tremendo tanto quanto suas pernas e braços, seus pelos eriçando, ela soando nada confiante.
— Bem, então vamos fingir que você realmente nada tem a ver com esse povo vil: eu lamento por isso... mas, ainda assim, você vai continuar aí nessa jaula, pois é uma refém preciosa, filha de um homem importante. — Tornou a responder Azai, dessa vez pondo um ponto final à conversa, mais uma vez dando as costas à garota.
Estranhamente, sentiu o ponto negro em seu coração afundar-se mais profundamente em sua carne, crescendo, tomando a forma de espinho sombrio que penetrou-lhe ainda mais, maior, espetando-o por dentro.
Eram nove horas da manhã, o sol brilhava alto, não haviam nuvens no céu e os pássaros cantavam alegres em seus galhos e ninhos. Os soldados, porém, suavam, tanto pelo calor, ainda intensificado pela umidade da floresta, quanto pelo nervosismo, cada um deles sabendo que as mortes, uma vez que pisassem para dentro do campo aberto adiante, seriam inevitáveis, cada um deles sem saber se sobreviveria mais um dia. As pernas dos soldados tremiam, o suor pingava de seus queixos, e suas mãos apertavam com toda a força os cabos de suas armas. Com Azai não era diferente, o Comandante também sentia o medo embrulhar-lhe o estômago e não queria de forma alguma dar o primeiro passo, porém ali, à frente de todos e em nome de Namória e do rei, ele não podia simplesmente transparecer esse sentimento, não tinha esse luxo, ele era um líder, afinal.
— AVANÇAR! — Ordenou o Comandante, berrando com todas as forças que seu pulmão permitia-lhe, disparando campo adentro, acompanhado por outras centenas de soldados, seus subordinados.
Dispersados, o mais longe uns dos outros que conseguiam manterem-se, todos conseguiram correr os primeiros cinquenta metros sem baixa alguma, até as primeiras balas de canhão serem disparadas, erguendo-se aos céus pelo clarão amarelado da pólvora sendo queimada, sibilando ao cortarem o ar, atingindo o chão num estrondo ensurdecedor, levantando terra, sangue e vísceras metros acima. Luzes amareladas e fumaça continuaram a erguerem-se do muro da mansão e as balas continuaram a cair, destruindo qualquer coisa em seu caminho, explodindo carne e terra, abrindo crateras por todos os lados.
Com os ouvidos zunindo, já não escutando nada, Azai prosseguiu, correndo, gritando, vendo seus subordinados morrerem a cada novo disparo. Ainda assim, com toda a tropa dispersada, mesmo com os constantes disparos dos canhões, a cada nova cratera aberta, dificilmente morriam, pelo mesmo projétil ao menos, mais de, no máximo, duas pessoas, a estratégia mostrando-se bastante útil até então. Mas logo um terço do caminho já havia sido percorrido e não demorou para as cordas dos arcos e bestas serem retesadas, os rifles serem apontados e a nuvem de projéteis voar sobre suas cabeças, caindo mortalmente no instante seguinte.
Cada membro da tropa possuía então um escudo (mesmo Azai, cuja montante, Camponesa, descansava a bainha) e não demoraram a levantá-los, sem nunca parar de correr, as munições ricocheteando no aço e as duras pontas das flechas e setas trespassando esta camada e fincando-se na madeira.
Dessa vez, a distância entre os soldados apenas impedia a organização de uma defesa eficiente contra os projéteis, muitos cairiam sem vida ali... e fora, justamente por conta disso, por este exato momento, que Azai não hesitou em trazer também seus magos para o campo de batalha, estes possuindo sob uma ordem bastante clara, instruções a cumprir assim que necessário: parar o máximo possível dos projéteis.
O Comandante não parou para observar a cena a suas costas, mas, como se nenhuma outra cor mais existisse, o azul preencheu sua visão numa tempestade monocromática, relâmpagos mágicos seguidos por seus assombrosos e igualmente místicos trovões, e aos céus, monstros, chamas, ventos poderosos e todos os tipos de coisas imagináveis, destruíram, desviaram e carbonizaram completamente as flechas e quase todos os outros projéteis, apenas uma quantidade ínfima, que nem mesmo sequer atingiu um escudo, atravessando a defesa mágica da tropa e chegando ao chão.
Sem surpresa alguma, com a demonstração do poder dos cintilantes do Comandante, a moral dos demais soldados da tropa elevou-se a outros níveis, cada soldado correndo então duas vezes mais rápido e gritando dez vezes mais altos, ao mesmo tempo que os disparos dos crasirianos do alto da montanha e do fim da estrada tornaram-se menos precisos, em menor sincronia e menos potentes e rápidos. Enquanto a coragem elevava o espírito dos namorianos, os crasirianos viam-se afligidos pelo terror. Mais duas nuvens de projéteis foram paradas antes da tropa tornar a aglomerar-se, afunilando-se na subida da encosta íngreme. A maior parte do caminho já havia sido percorrido, mas então era a parte mais difícil, quando os soldados ficavam mais vulneráveis aos disparos dos canhões, uma vez que nem mesmo os cintilantes poderiam parar estas balas.
Aqueles da mansão pareceram perceber isto e não deixaram a oportunidade escapar, disparando, limpando, depositando a pólvora e socando-a e colocando a próxima bala e disparando de novo, repetindo todo o processo vezes incontáveis, atingindo a muralha retangular de escudos na qual transformara-se a tropa, levantando então nuvens vermelhas a cada nova explosão, membros e vísceras voando para todos os lados.
Os últimos metros foram duros, e a moral da tropa inverteu-se repentinamente, os soldados de Azai desanimando-se à medida que o número de mortos aumentava exponencialmente, enquanto os ânimos dos crasirianos tornava a subir, mas a cada passo apressado, o portão do muro da mansão aproximava-se e, finalmente, evitando baixas desnecessárias numa investida típica ao portão, Azai ordenou, como antes já havia feito, numa missão anterior, aos magos que deveriam fazer:
— RAMPAS!
E assim eles fizeram, conjurando, no mesmo show de luzes anterior, tantas e tantas delas e cada uma tão mais grossa que a outra que, num instante à frente de todo o muro desaparecera, coberta por uma extensa rampa de terra, pedra, barro e várias outras rochas, no mesmo instante toda a tropa baixando os escudos e disparando aos inimigos aturdidos.
Azai atirou seu escudo redondo contra a face de um oponente, um íncubos, derrubando-o do topo do muro para dentro do quintal da mansão, saltando sobre o corpo do homem logo em seguida, caindo com a ponta afiada da Camponesa sobre o peito do homem, perfurando seu coração e matando-o na hora. O Comandante não precisou olhar ao redor para saber que todo o muro da mansão já havia sido conquistado, percebendo vários de seus subordinados saltando também para dentro do quintal da mansão e disparando contra a construção principal, da qual os inimigos continuaram sua resistência, disparando seus arco e flechas, bestas, rifles e revólveres das janelas.
Dessa vez, porém, o caminho a se percorrer até os oponentes era muito menor, poucos caíram sob a saraivada de tiros, e logo Azai já estava pisando no peitoril de uma janela e saltando contra um grupo de inimigos, desferindo um golpe contra a cabeça de um deles, um sátiro, antes mesmo de cair no chão, matando-o.
Assim que sentira seus pés tocarem o chão, Azai jogou a cabeça para sua direita, prevenindo-se de um golpe vindo de trás, desviando deste por centímetros, e virando-se logo em seguida ao mesmo tempo que brandia sua espada num semicírculo horizontal, decepando então uma perna de um ratomem enquanto levantava-se e decapitava um orc dando continuidade ao mesmo movimento.
Defendendo-se do contra-ataque de um dos dois oponentes ainda vivo, um humano, Azai chocou sua lâmina contra a do inimigo, uma, duas, três vezes, faíscas voando a cada novo choque, o Comandante então de repente saltando e esquivando-se assim da investida irada do ratomem aleijado, deixando seus pés caírem sobre o pescoço do mesmo, quebrando-o e retomando o combate contra o humano, que não deixara-se impressionar assustado, e não afrouxara seus ataques em momento algum, brandindo sua lâmina num golpe ascendente, depois num corte diagonal descendente e depois... caindo de joelhos com a garganta aberta, gorgolejando seu próprio sangue, levando as mãos ao pescoço, tentando parar o sangramento, e, por fim, juntando-se aos seus demais companheiros, morto.
O Comandante ouviu o bradar de sua tropa, seu nome sendo gritado por outros muitos soldados, que continuavam a adentrar o quintal e a mansão. Ignorando, embora definitivamente orgulhoso de si mesmo, a torcida de seus subordinados, Azai prosseguiu pelo corredor, dobrando numa bifurcação, cruzando a soleira de um par de portas abertas e deparando-se com um outro grupo de soldados crasirianos, estes cercando um número menor dos subordinados de Azai, dentre eles o Maioral-Mor Mikael.
Sem pensar duas vezes, mesmo contra o número superior de oponentes, Azai investiu, sentindo todos os seus instintos, seu medo e seus músculos, gritarem para ir na direção oposta, disparando com sua espada em prontidão. E assim, zunindo, assoviando enquanto cortando o ar, Camponsa pôs-se a trabalhar, colhendo sua safra de mortes.
As faíscas cintilaram como um milhão de vaga-lumes quando a lâmina da montante de Azai percorreu, imparável, através da cota-de-malha do primeiro coitado com o qual encontrou-se, o homem demorando para compreender enfim a ausência de seus braços. Para com os demais crasirianos não foi diferente, ainda aturdidos com a repentina aparição do Comandante, que movia-se veloz e mortal dentre eles.
Dando continuidade ao movimento da espada, Azai, desviou uma estocada, logo em seguida chutando as genitálias do atacante, virando-se para o inimigo a suas costas e acertando-o com o botão da montante, esquivando-se no último momento de um golpe de um terceiro oponente. Voltando ao combate, Azai fincou a ponta da espada no pescoço do último crasiriano a atacá-lo, arrancando-a com um puxão e brandindo-a no mesmo instante num semicírculo a sua esquerda, decapitando três outros inimigos de uma vez. A este ponto, porém, a confusão dos inimigos já havia dado espaço novamente para movimentos planejados e bem desferidos, coreografias em grupo e uma estratégia impecável.
O Comandante ficou de costas contra uma parede e desviou alguns dos golpes, esquivou-se de outros, e contra-atacou alguns, mas o primeiro e inevitável ataque a atingi-lo, uma vez que ele fora cercado por vários inimigos e sua percepção tornou-se confusa, acertara em cheio o Comandante no braço esquerdo, quebrando o úmero, obrigando-o a empunhar Camponesa com uma única mão, deixando não só seus movimentos com a espada mais lentos, como os movimentos em geral, o Comandante aturdido pela dor.
Azai continuou sendo cada vez mais atingido, cortado, quebrado e apunhalado, até finalmente cair de joelhos, simplesmente exausto demais, tanto em corpo quanto em mente, para mover um músculo sequer, sentindo-se coberto de pequenos e médios ferimentos... frente a uma pilha de inimigos mortos.
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