Guerra A Ruína - Capítulo: 32

Capítulo: 32

Álex.


Surpreendentemente, a cidade não era murada, cercada por uma muralha de rocha ou madeira e um fosso como a grande maioria das outras. Isso devia-se à cultura que fundara Troncôco, Álex sabia, que em sua época era uma nação de elfos, um povo que não utilizava de metais ou rochas, e tão pouco cultivavam ou criavam seus alimentos, utilizando apenas do que a natureza provia-os. Não era ausente de proteção, porém, a cidade.

Uma miríade de gigantescas árvores de até oitenta metros de altura, cada uma tão grossa que seriam necessárias várias dúzias de pessoas de mãos dadas para circundá-las, com estranhas copas e folhas, de formatos e cores alienígenas, destoantes das árvores tropicais das florestas do país e suas savanas, plantas trazidas de outras terras pelos primeiros elfos, do norte distante. Ou, quem sabe, tivessem sido carregadas por marinheiros viajantes das ilhas ao sul, do Grande Arquipélago. Ou mesmo, de algum lugar esquecido do extremo ocidente. Qualquer que fosse a verdade, era sabido que a origem daquelas colossais árvores não podia ser daquele mesmo local, ainda que sua terra natal permanecesse como um mistério até aqueles dias. E o real motivo da resistência do povo que a habitara por tantos anos, até seu inevitável fim.

Por sobre as muitas pontes de corda, que interligavam um tronco ao outro, por trás de seteiras e janelas, sentinelas, os olhos dos grossos troncos, cujo o interior era todo esculpido em vários andares com cômodos e quartos e escadas para chegarem a estes, originando assim o nome da cidade, e sobre plataformas escondidas dentre as copas, via-se lá a "muralha" que defendia Troncôco: um milhão de atiradores, arqueiros, besteiros, fuzileiros e pistoleiros escondidos e de prontidão em todos os cantos.

— Aqui estamos: Troncôco. — Disse Eder acompanhando-os até a entrada da cidade.  Posso arrumar um barco ou carruagem para vocês, se...

— Adeus, Eder. — Interrompeu Álex, despedindo-se de sua até então companhia de viagem. — E adeus, Alice.

Ainda em Lenhir o Coletor havia alugado uma carruagem, como prometera que faria, a primeira a mostrar-se disponível, para levar a todos para Troncôco, a capital da província de mesmo nome, o grupo, Álex, Miranda, Eder e Alice, passando assim duas semanas inteiras na apertada cabine do veículo, aos solavancos. A viagem prosseguira do início ao fim em silêncio, com exceção do trotar do cavalo e do estalar do chicote do charreteiro, sem mais grandes encontros, com apenas duas paradas, uma em cada vilarejo que havia no caminho. Durante este tempo, porém, Álex percebera que Alice, a garotinha hiperativa e curiosa que uma vez conhecera, estava totalmente transformada, uma boneca impassível em suas expressões, que não parecia sentir gostos ou mesmo emoções, e, embora respondesse quando a palavra fosse dirigida a ela, sempre era dura, fria e direta em suas respostas.

— Tchau.  Despediu-se Miranda, acenando para a garotinha imperturbável que tornara-se Alice.

— Então é isso. Adeus para vocês dois, e boa sorte também. — Retrucou o homem, dando as costas aos jovens, guiando a garotinha pela mão.  Vamos, Alice.

— ...Eder!  Chamou Álex, fazendo o homem, em resposta, olhá-lo por sobre o ombro. — Obrigado. — Concluiu.

Dessa vez sorrindo, Eder, junto de Alice, voltou ao seu caminho, seguindo na direção oposta aos jovens, de volta à estrada lá longe, continuando o longo caminho até a casa dos avós da garotinha.

— Não imaginei que você o perdoaria.  Apontou Miranda, pondo-se a seguir junto do rapaz cidade adentro.

Mesmo para lá das "árvores-torres-de-vigia", o cenário não tornou-se mais próximo do usual, todas as casas, lojas e armazéns localizados no interior das árvores, em todos os andares, em diferentes níveis e alturas, com uma infinidade de pontes de corda e madeira, cobertas e não cobertas, interligando os troncos uns aos outros, a cidade sendo dividida em vários andares, do chão de terra, este coberto por apenas terra e folhas mortas, às copas, os emaranhados verdejantes de folhas em formatos estranhos. Em alguns poucos lugares viam-se elevadores movidos a bois, mas na maioria dos outros o único modo de subir para os diferentes níveis da cidade eram escadas de mão ou uma espiral de degraus infinitos que circundavam os troncos de varanda em varanda e de porta em porta.

— Talvez o antigo eu não o fizesse, mas, de qualquer forma, mão é como se eu tivesse o perdoado, é mais... como se eu tivesse finalmente o entendido. Ainda sinto raiva dele, poderíamos ter morrido, afinal, mas mesmo que ele tivesse corrido em nosso auxílio, o que ele faria? De vez em quando, o pensamento "talvez sua decisão tenha sido, afinal, a correta" passa pela minha mente agora.

— Então você acha que faria como ele? Que abandonaria alguém naquela situação?

— Não. — Respondeu o rapaz num instante, sem relutância alguma, com uma certeza reconfortante em sua voz. — Mesmo que eu soubesse que seria inútil, eu tentaria ajudar, ainda que a tragédia fosse inevitável, eu correria em auxílio.

— Esse é o Léx que eu conheço! — Retrucou a lebromem a todo sorriso. — Agora só falta começar a tagarelar sobre os mistérios que envolvem essa cidade e seu povo fundador, sua cultura e magia!

— Eu posso fazer, se quiser.  Disse Álex, sorrindo. Levando a mão ao queixo, continuou: — Na verdade, eu venho me perguntando...

— Por favor, não! — Respondeu Miranda, tapando os ouvidos. — Já chega dessa tortura!  Concluiu, deixando ambos as gargalhadas.

— Mas, e quanto a você, o que você pensa disso?  Perguntou Álex.  Quanto a Eder, eu digo.

— ...Eu não gosto dele. — Respondeu simplesmente a lebromem. — É um mentiroso e covarde. Eu acredito que as pessoas deveriam ajudar umas as outras, que é isso que homens e mulheres de verdade fazem.

— Entendo. Então, vamos logo começar a procurar nossa passagem para Horac de uma vez. — Disse o rapaz por fim.

Troncôco era uma cidade portuária, afinal, erguendo-se às margens sul do Rio Profundo, o porto sendo a única parte "normal" da cidade, com o cenário típico: um cumprido cais e muitos píeres de madeira, um lugar apinhado de barcos, tavernas, prostíbulos, vendedores ambulantes e armazéns, e estes todos construídos no chão, de forma normal... Embora não houvessem então mais tantos navios nos portos ou vendedores ambulantes anunciando seus produtos aos berros, as prostitutas estivessem ociosas com a falta de clientes, as tavernas estivessem mais silenciosas do que o ideal e os armazéns estivessem bastante vazios.

— Guerra.  Comentou o rapaz, desgostando da falta de vida daquele lugar. — Por todos os deuses, já fora difícil encontrar qualquer navio disposto a nos embarcar em Dentre-Flume, onde tinham, pelo menos, dez vezes mais embarcações do que aqui, nem quero imaginar o quanto vamos ter de procurar neste lugar!

— E, ainda assim, vamos a procura.  Retrucou a garota, sorrindo de repente.

— Isso é um pouco nostálgico, não é?

— Bem... tenho de admitir que sim.  Respondeu Álex, então sorrindo também.

— Agora, vamos continuar a imergir nessa nostalgia, na parte em que somos rejeitados uma centena de vezes, dispensados sob uma enxurrada de palavrões de línguas estrangeiras e escárnio sobre o quanto podemos pagar por nossas passagens.

E, como dito, assim fizeram. Durante horas, vagaram por toda a extensão do cais até o sol se pôr ao oeste e a escuridão da noite recair absoluta sobre tudo, como resultado os jovens não conseguindo respostas diferentes das que já haviam conseguido em Dentre-Flume, com exceção de que ali os jovens, sob os frequentes olhares de esguelha e cochichos direcionados a si, Álex e Miranda não puderam deixar de sentir uma certa estranheza, uma sensação de tensão, medo ou aversão, cuja origem não demoraram a imaginar: eles eram magos, afinal.

Após passarem semanas juntos, as pessoas da caravana, que tratavam-nos com proximidade, e depois ainda mais tempo na floresta, onde o único contato que tiveram fora um com o outro, haviam esquecido-se de todo o misticismo quanto à magia e seus praticantes, quanto a eles mesmos. E ali, tão longe da capital do país, onde raramente fossem vistos pessoas como aqueles jovens, magos (facilmente identificáveis por conta de seus chapéus pontudos do Grêmio, mesmo estes estando bastante surrados), os mistérios que os envolviam eram ainda mais intensos.

Gastaram ainda ao final do dia, numa estalagem a cerca de quinze metros do chão, oitenta ligas numa refeição completa, um banho para cada um e um quarto que teriam de dividir, o que deixava a ambos nervosos tanto por conta de seu já pequeno recurso financeiro insistir em apenas diminuir, quanto pelo fato de que logo ficariam sozinhos num quarto escuro, dormindo lado a lado.

A estalagem não era realmente esplêndida, mas não era também o típico buraco imundo que se encontraria por aquele preço, provavelmente barateado pela recente falta de clientes: espaços surpreendentemente amplos, tendo dois andares, o superior composto pelos quartos e banheiros, e o inferior pela cozinha e refeitório. Álex não pode deixar, porém, de admirar-se com a visão da varanda durante a noite, onde então encontravam-se, sentados a uma mesa, já após terminarem suas refeições.

A cidade estava simplesmente brilhando em todas as direções, com exceção do norte, onde o rio seguia, refletindo apenas as luzes das estrelas e de Vitória, que estava crescente naquela noite. Reluziam as lâmpadas e velas, daquelas que pendiam oscilantes ao vento penduradas nas pontes, àquelas dispostas nos peitoris das janelas ou penduradas em apoios nas paredes, que emitiam seus contornos dourados. Ainda assim, mesmo aquela belíssima paisagem não pode afastar um pensamento que pairava sombrio na mente de Álex.

— Essa leveza no meu bolso... Aí está outra sensação nostálgica! — Disse o rapaz, por fim, num suspiro.

— Nem vem, Léx, eu me ofereci para ajudar a pagar.  Retrucou Miranda, que falava a verdade, mesmo que tivesse apenas pouco mais de sessenta ligas consigo.

— Ainda assim, com apenas, no máximo, duzentas ligas não vai ser fácil arrumar uma embarcação, mesmo para as Ilhas Penhosas. — Apontou Álex, tornando a olhar para a cidade noturna.

— Talvez devêssemos seguir por terra, afinal.  Concordou a garota, apoiando a bochecha direita em seu punho do mesmo lado, pondo-se a olhar na mesma direção que Álex.

Após alguns instantes de silêncio reflexivo, ambos pensando sobre o amanhã e suas escolhas e opções, levantando-se, Álex começou:

— Bem, amanhã vai ser um longo dia, então eu já...

— Ei, cara! Tu não é o Matador de Monstro?! — Perguntou de repente uma terceira pessoa, surgida do nada, interrompendo o garoto, fazendo-o saltar com o susto da aparição inesperada.  Sim, um jovem fantasma sem a mão esquerda, com o típico chapéu pontudo do Grêmio às costas, acompanhado duma lind... Bem, acompanhado por uma mulher. Não há dúvidas! Embora tu sejas um pouquinho mais medroso do que eu pensei... — Continuou a menina misteriosa, já conseguindo despertar a ira dos jovens nestes poucos segundos que surgiram (principalmente Miranda que, embora estivesse bastante ciente de sua aparência comum, não gostou nem um pouco do que ouviu).

— E quem é você, pirralha?!  Perguntou a lebromem, levantando-se num pulo e cruzando os braços.

Miranda relutou por um instante ao perceber então que a menina, embora não devesse ter mais de doze anos, já era, simplesmente, deslumbrante, mesmo nas roupas masculinas e simples que então usava.

Parecendo uma humana, suas curvas eram bastante avantajadas para sua idade, tinha olhos cinzentos e cabelos compridos, chegando até a metade das costas, e de cor branca... porém não era só isso. Seus olhos não eram simplesmente cinzentos e seus cabelos não eram simplesmente brancos. A cada piscada, a cada leve brisa que agitava os fios pálidos que coroavam-lhe a cabeça, como um halo de divindade, eles brilhavam. Emitiam uma luz branca fraca, quase imperceptível, mas brilhavam, um vestígio do próprio sol sob o céu noturno.

— O que é você...? — Perguntou então Miranda, embora ainda furiosa, espantada.

— Não fique tão irritada, cara! — Disse a menina, após uma estrondosa gargalhada.  E quanto ao "o que eu sou", bem, meu velho sempre me disse que somos descendentes de mestiços de humanos e gigantes. Mas, fala aê, tu é o Matador de Monstro, não é não?  Perguntou a menina, tornando a dirigir-se a Álex.  O cara que deu um jeito num grifo.

— Bem, sim... Embora eu não soubesse de que essa história já tivesse vindo parar aqui ou mesmo sobre este apelido que me deram.

— Ah, cara, isso é legal pra cacete! — Comentou a menina, jogando-se relaxada numa das cadeiras à mesa dos jovens. — E então, como foi que tu matou o bicho? E como é que um feitiço funciona? E como é o Grêmio?

— Ei, o que você pensa que está fazendo, surgindo de repente e enchendo o Léx de perguntas, hein?! — Retrucou Miranda, ainda mais zangada que antes, fervilhando por dentro por conta de não apenas o comportamento folgado daquela menina para cima dela e de Álex, como também pelo fato que jamais esqueceria de ter tido claramente seu charme subestimado.

— Ah, cara, eu já disse, relaxa!

— Eu matei o grifo com uma marionete conjurada, conjurar feitiços é uma arte complexa que utiliza da imaginação e de sua própria reserva mágica, e não tenho permissão para dividir informações do Grêmio para com estrangeiros. — Respondeu simplesmente o garoto, também não gostando nem um pouco da atitude da desconhecida, dando as costas à menina e concluindo:  Vamos, Miranda.

Já estavam quase saindo da varanda quando uma repentina explosão de vento quase arremessou os jovens ao chão, ao mesmo tempo que uma luz azulada forte o suficiente para fazer seus olhos arderem preencheu de repente toda a escuridão da noite. Voltando seus olhos para a fonte de tudo aquilo, o mago conjurador, depararam-se com a menina misteriosa de joelhos no chão, arfante e visivelmente exausta, frente a um boneco, uma pequena estatueta de não mais de trinta centímetros, feita de ferro e no formato de um cavaleiro armadurado.

— Merda, cara... isso é mesmo "uma arte complexa". — Disse a menina misteriosa, por entre as arfadas. Álex adiantou-se e segurou-a pelos ombros, antes que ela caísse ao chão, de repente uma multidão de espectadores aglomerando-se ali ao redor dos jovens e da menina desconhecida.  Ah, cara, eu vou morrer?

— Não, você não vai morrer. — Respondeu Álex, cuja primeira coisa que fizera ao tocá-la, fora checar sua reserva mágica. Tentando deixar seu estado pasmo fora de sua voz, reconfortando a menina, continuou: — Você apenas está cansada, e pode ficar fraca por muito tempo, mas vai ficar bem, afinal.

— Rafaela! — Chamou então um homem grande, com os mesmos cabelos e olhos da menina, saindo dentre a multidão e ajoelhando-se ao lado dela, encharcado de suor, com as sobrancelhas franzidas em preocupação. — Rafaela, por todos os deuses, diga que está bem!

— Ela está bem, apenas desmaiada. — Respondeu Álex, relatando o estado da menina, Rafaela, aos seus braços.  Você é o pai dela, imagino?

— Sim. Você disse que ela está apenas desmaiada, mas quem você é? — Retrucou o homem.

— Me chamo Álex Calibrium, eu sou um mago... e aparentemente sua filha também.

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