Guerra A Ruína - Capítulo: 31

Capítulo: 31

Octávio


Cada um dos membros do grupo montado por Fernando deixou o trem em estações diferentes, tendo encontrado-se, até então, somente na cabine de Octávio para apresentarem-se e discutirem mais detalhes da missão, logo em seguida separando-se. Octávio fora o último a deixar o trem, descendo na última estação na província de Abastança, o mais a dentro do continente que aquele qualquer trem chegava.

Ainda era manhã quando o vampiro pôs os pés na plataforma da estação, esta muito mais simples do que o grande edifício da capital, que era repleto de compridas janelas e até mesmo lojas em seu interior, ali sendo apenas uma plataforma coberta, com alguns bancos em sua extremidade oposta aos trilhos e uma casinha, a bilheteria, ao lado da escada à direita, que dava para uma estrada de terra que seguia ziguezagueante campo adentro, por entre as colinas, até bifurcar-se mais à frente.

— Com licença, meu bom senhor, como posso chegar à cidade capital Abastança?  O sol brilhava alto e quente, quase queimando a pálida pele de Octávio e fazendo seus olhos arderem mesmo sob as lentes escuras de seu óculos, quando o vampiro perguntou ao bilheteiro.

— Ah, meu bom jovem, é muito fácil, só seguir reto por essa estrada aqui, ignorando todos os desvios. — Respondeu o idoso por detrás das grades que separavam-o de Octávio.

— Obrigado, meu bom senhor.

Octávio, assim como a maioria dos vampiros de todo o mundo, já havia acostumado-se a irritação causada por luzes intensas, mas não pôde deixar de suspirar observando o longo caminho que teria de percorrer sem nenhuma sombra para proteger-se quando pôs-se a andar.

Os extensos campos cultivados de tamanhos quilometrais e os muitos rebanhos de bois, porcos, galinhas e mesmo cavalos faziam jus ao nome da capital e consequentemente de sua província, a estação ferroviária sendo tão distante para provavelmente não assustar os animais ou poluir os cultivos a todo redor das muralhas com toda a fumaça da queima de carvão ou o alto barulho do impulsionar da locomotiva. Ainda assim, Octávio praguejou internamente sobre todo o caminho que teve de percorrer, que mostrou-se várias vezes maior do que jamais imaginara, chegando de fato aos portões da cidade no meio da tarde, encharcado de suor e com a pele tão vermelha quanto a de um camarão.

Aquela, diferente da maioria das capitais provinciais espalhadas por todo o país, e muitas outras cidades ao redor de todo o mundo, erguidas por povos anciãos, os fundadores de grandes nações, ou espécies já há muito extintas, durante outras eras, era uma construção atual, sendo planejada e edificada há apenas cinquenta anos atrás. Seus engenheiros fizeram questão de fazê-la tão grandiosa quanto qualquer outra cidade milenar, planejando-a na forma de um enorme hexágono, com muralhas fortes e imponentes, com vinte metros de altura, e altas torres repletas de seteiras e janelas para canhões, aquelas encontradas em cada um dos ângulos da muralha alcançando trinta metros de altura, enquanto as outras tendo vinte e cinco metros no demais da extensão da construção. O interior cercado também sendo belo e grandioso, todas as suas ruas lajotadas, praças, postes, fontes e parques tendo o máximo de cuidado em seu planejamento.

— Vinho tinto, por favor.  Pediu Octávio, sentando numa banqueta frente ao balcão da taverna.

— Vinte ligas. — Disse o bartender, despejando a bebida numa caneca e empurrando-a ao vampiro, que entregou-lhe o dinheiro sem demora.

"Tudo isso por uma única caneca? Bem, acho que é de se esperar que o preço de algumas coisas aumente com a guerra."

Não haviam muitas pessoas no bar naquela hora, como o esperado, às duas horas da tarde apenas os mais vagabundos já estavam bebendo, além de um certo grupo de homens, que sentavam-se às sombras, afastados de qualquer um, sozinhos em suas mesas. Estavam separados, espalhados pela taverna, mas Octávio reconheceu imediatamente Cirilo, Lauro, Edmundo e Boris, encontrando-se com todos, como o combinado, na "Taverna do Barbudo", não demorando seu olhar em nenhum deles a fim de não levantar qualquer suspeita desnecessária, e voltando-se ao balconista:

— Vou precisar de um quarto também. — Disse. — Para dois dias. — Especificou.

— Cinquenta ligas.

— E um banho.

— Então sessenta.

Octávio banhara-se e voltara ao bar, onde pusera-se a esperar, com os demais companheiros, por Iandro. O goblin tinha sido o penúltimo a deixar o trem, apenas uma estação antes de Octávio, e ainda assim todos já haviam reunido-se no ponto previamente determinado antes do jovem, que deveria ter sido um dos primeiros a chegar à taverna.

As horas passaram-se, Octávio pedira o café da tarde, depois o jantar, depois mais uma bebida e logo a taverna já estava cheia de estranhos, trabalhadores que haviam acabado de terminar seu expediente, guardas noturnos que vadiavam, prostitutas à procura de clientes e garçons e garçonetes que, aparentemente, haviam surgido do nada para anotar os pedidos, servir as mesas e jogar porta afora aqueles que cochilavam nos cantos.

Velhos agricultores sentados próximo a Octávio relembraram de suas juventudes, as mulheres que conheceram e as aventuras que viveram; uma prostituta subiu as escadas quatro vezes, cada uma delas com um homem diferente, e partiu depois dividir os lucros com o gerente (o bartender), os guardas vadios foram pegos no flagra por seu superior e foram cobertos por uma enxurrada de insultos e arrastados porta a fora a pontapés e promessas de redução de salário. E logo o tempo continuou a correr noite a dentro, e as mesas começaram a esvaziaram-se, os clientes indo embora aos tropeços, o andar característico de um bêbado, e os garçons e garçonetes atirando porta afora muitos outros que não mais conseguiam andar, e, com as pálpebras já pesadas, tanto pelo cansaço quanto pelas boas taças de vinho que tomara, Octávio fora para o quarto, bufando, praguejando o atraso do rapaz que tanto esperara.

A mente do vampiro já estava dividida entre: estender sua estadia ali por mais uma noite, ou: desistir de esperar o goblin e partir logo, uma vez que, poucas horas antes, quando fora ao banheiro, no corredor vazio, fora avisado por Cirilo, que mostrava-se já tão impaciente quanto o vampiro, que os cavalos e suprimentos já haviam sido todos preparados, quando, finalmente, o goblin chegara à taverna, arfante, encharcado de suor.

— Me desculpe, Octávio!  Disse Iandro, jogando-se, exausto, na banqueta ao lado do vampiro, esquecendo-se de que haviam combinado que não mostrariam conhecerem-se ali.

— Você está atrasado. — Apontou Octávio, lutando contra a vontade de jogar seu punho contra o nariz do rapaz.

— Eu sei, mas, por favor, me desculpe... Ah, uma cerveja, por favor!

— Dez ligas.

— Claro, aqui. Obrigado. — "Por todos os deuses, me deem forças para não matar esse incompetente", pensou Octávio, cerrando os punhos, vendo o goblin esvaziar sua caneca de uma vez só antes de continuar: — Eu sei que devo ter te decepcionado, que devo ter falhado com suas expectativas, e isso é culpa exclusivamente minha. — Explicou-se o goblin, mostrando-se verdadeiramente envergonhado, porém não arrependido. — Acontece que eu me perdi no caminho, parando num vilarejo ao oeste daqui.

— Entendo.  "Oh, deuses, eu quero mudar meu pedido: por favor, matem-no! Atirem um raio na cabeça dele e matem-no de uma vez!".  Então é por isso que você se atrasou tanto? Você se perdeu?

— Não! Bem, não por apenas isto. Acontece que tinha uma velhinha lá, e ela estava empurrando um carro de boi cheio de sacos de aninhagem, que pareciam muito pesados. Quando eu perguntei para onde ela ia, ela respondeu: "Celeiro Verde". Eu não sabia na hora onde isso era, então perguntei isso mesmo, e ela disse que era, adivinha só, o vilarejo do outro lado da cidade! Ele teria de contornar toda a cidade até chegar lá!

— O que...?

— Inacreditável, não é?

— Espere aí, você está me dizendo que você a ajudou a carregar os sacos?!

— Sim, eu não podia simplesmente ficar olhando! Acabou que isso levou muitas horas a mais do que eu achei que levaria e acabei me atrasando... Mais uma vez: me desculpe, Octávio.

— ...Que seja. De qualquer forma, partimos hoje. Coma alguma coisa rapidamente e vamos logo. Atrasos como este não serão mais tolerados, esteja avisado.

— Eu sabia, você é mesmo como meu pai falava: parece pragmático e frio, no fundo você tem um coração gentil!

"Não há dúvidas de que aqueles que conseguirem pôr as mãos na Ruína serão os líderes mundiais ao fim de tudo, os países mais ricos e bem desenvolvidos de toda Asatna", pensava Octávio, enquanto montado num cavalo, cavalgando logo atrás de Lauro, à frente de seus demais companheiros, que estavam dispostos em fila indiana, seguindo por uma velha trilha esquecida, ao leste. Deixaram a província de Abastança e sua cidade capital para trás há semanas, cruzando já também desde então a província de Sétera. Encontravam-se naquele momento num atalho na grande e densa floresta da província de Macaria, guiados pelo elfo careca, que mostrava grande conhecimento não apenas daquela região como das matas densas em geral.

Octávio fazia de tudo para ignorar o tagarelar incessante de Iandro, que vinha como o último na fila, dando-se surpreendentemente bem com Boris, ambos discutindo sobre qualquer assunto sem importância, o vampiro concentrando-se em seus pensamentos: "É vital que vençamos esta guerra, qualquer que seja o preço a se pagar. E, para isso, temos de diminuir a influência daqueles que se opõem a nós, mas, por outro lado, para eles cumprirem seus objetivos, eles devem também diminuir nossa influência, e sem dúvidas o tentam. Por isso, toda esta discrição sem dúvidas, não podemos nos dar o luxo de vacilar nesse momento tão tenso da guerra.

"Enquanto o Censura estiver de pé, o leste não será um problema, e não será nem um pouco fácil para aqueles namorinaos derrubarem aquele forte. Devemos investir no norte, se conseguíssemos enviar ou receber apoio de Horac, Namória cairia em questão de semanas, e essa guerra seria facilmente decidida. Porém, é provável que Crát ou invista todas as forças contra Horac para acabar com o país de uma vez por todas e depois descer para o sul, contra nós, nos cercando junto de Namória, ou ao mesmo tempo que atacam nosso vizinho nortista, organizam uma grande frota para investir contra nós do oeste... Eu sei que é esperar demais desta gente, mas esses soldados podiam demonstrar mais efetividade do que o saque de algumas cidades e vilarejos, não? Invistam logo contra o Forte das Correntes, cumpram de uma vez com o objetivo de suas vidas, e, se morrerem, será em prol de um futuro melhor, de qualquer forma."

— Acamparemos aqui hoje.  Anunciou Lauro, interrompendo os pensamentos do vampiro, que percebera somente então que haviam adentrado numa pequena clareira.

— Ainda é um pouco cedo, mas é o último ponto adequado em quilômetros.

O "ponto adequado" não tinha muito mais de dez metros de diâmetro, cercado por uma muralha de troncos, sem nenhum espaço aberto sobre suas cabeças, numa única brecha que deixasse-os avistar o céu acima, percebeu Octávio enquanto os outros levantavam o acampamento, nunca deixando de se impressionar-se e admirar-se com a eficiência do grupo (com exceção de um único membro), que, em poucos minutos já havia ascendido uma fogueira, iniciado o preparo da comida, prendido os cavalos próximos a um regato a apenas três metros fora da clareira, decidido os turnos de vigia e montado as duas barracas que traziam.

— Eles são incríveis, não é? — Perguntou Iandro, sentando-se ao lado do vampiro, aconchegando-se à luz da fogueira e seu calor. — O bom senhor Boris me disse que é um veterano, um mercenário que já trabalhou pelo mundo todo, no Pequeno Continente, no Continente de Muntrídia, nas Ilhas Nitautritas, e até mesmo no Grande Arquipélago, ao sul do Continente de Gal!  "Eu sei onde isso fica, e muito mais, como o seu segundo nome: Semi Continente, sua história, língua e cultura, e de todos os doze dos países do lugar... Quem você pensa que eu sou?"  Parece que ele já trabalhou com Cirilo antes, numa missão em... Ilha Alguma-coisa. E disse também que acredita que Lauro e Edmundo sejam, também, veteranos.

— Entendo. Eles são realmente incríveis. — "Isso estava evidente desde o começo... E, se você tivesse um pouco de cérebro, perceberia que é o único deslocado aqui".

— ...Meu bom senhor, Octávio, você conhece meu pai há muito tempo, não é? 

Perguntou o goblin, uma vez que o silêncio estendeu-se mais do que gostaria.

— Bem, sim. Desde que comecei a trabalhar na Assembleia.

— É. Eu quero ser como ele, sabe? Mesmo que ele não seja o melhor no que faz, ele sempre se esforça ao máximo, tem um grande coração e se importa com todos, sempre tentando ajudar. Bem, com exceção de que eu quero, de fato, ser o melhor soldado!

"É um grande idiota ingênuo, que, embora tente resolver as coisas, sempre acaba tendo de pedir ajuda que, embora eu nunca o tenha tratado como mais do que um conhecido me chama de amigo e é facilmente manipulado", pensou Octávio, decidindo-se quanto a Cézar, sem perceber que, na verdade, sorria enquanto respondia a Iandro:

— Eu tenho certeza de que você já é como seu pai.

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