Guerra A Ruína - Capítulo: 30

Capítulo: 30

Azai.


Avistaram a casa, uma construção de pedra e argamassa escurecida pelo incêndio, seu telhado estando meio tombado e constituído pelo esqueleto negro que era sua ruína; ainda muito longe, percebendo as luzes que vinham das janelas e das frestas que moldavam a porta serem rapidamente apagadas uma vez que o cão na varanda pôs-se a latir incessantemente, o som ecoando pela imensa planície carbonizada que cercava toda a região. Uma flecha disparada por um dos soldados silenciou o animal de uma vez por todas.

A liderança de um grupo de soldados montados, fosse em chacais ou cavalos, Azai sua tropa e sua não demorara a chegar na casa e cerca-la por todos os lados. Desmontando de Milagre, seu chacal-monarca, nomeado dessa forma por ter milagrosamente ficado ileso quanto a emboscada a Joel e ter sobrevivido mesmo após ter sido espetado tantas vezes durante a mesma batalha, em Serenia, já empunhando Camponesa, sua espada montante, o Comandante gesticulou para outros quatro soldados fazerem o mesmo, enquanto os demais mantinham a posição.

Seguindo a instrução de Azai, um dos soldados, que segurava em seu braço esquerdo um grande escudo, derrubou a porta da casa com um único e poderoso chute, avançando construção adentro quase que instantaneamente, os demais acompanhando-o logo em seguida, assegurando uma invasão segura, o Comandante entrando por último.

Ao interior da casa, Azai confirmou a informação de João, um homem e uma mulher de meia idade e uma jovem garota, um casal de agricultores e sua filha a julgar pela aliança nos dedos dos adultos e as roupas simples que usavam. O casal estava à frente da criança, protegendo-a, ambos tremendo de medo e suando frio, visivelmente esforçando-se para mesmo manter-se de pé frente aqueles soldados invasores. Três dos quatro soldados espalharam-se e investigaram os demais cômodos, não encontrando mais ninguém. Azai suspirou e saiu da casa, ouvindo as risadas de seus subordinados, que começavam a se divertir com a mulher e sua filha, estas soluçando, chorando e balbuciando enquanto o agricultor gritava qualquer coisa em sua língua, cheio de medo e depois de ódio, até que, depois de uma confusão de passos e xingamentos, havendo o som de uma lâmina raspando o couro, de uma arma sendo desembainhada, e logo em seguida de carne sendo cortada, ouviu-se sangue caindo ao chão em jorros, e os gritos do agricultor cessaram-se.

O Comandante dirigia-se então para o Fé, seu próximo alvo: um antigo forte ao oeste da província, onde estavam abrigados, segundo a "Princesa", como os soldados chamavam a prisioneira, não apenas o Representante Provincial e o restante de seus soldados, como também todos os civis da capital Serenia. A Princesa havia confessado que, antes do ataque às muralhas começar, os civis, aqueles que não podiam lutar, mulheres, idosos, crianças e incapacitados, tinham sido acolhidos dentro do castelo e, com a queda das defesas da cidade, fugido pelo túnel no qual ela fora capturada, motivo pelo qual não havia sido feito um único prisioneiro ao final da batalha.

Azai partira há três dias da capital da província, no segundo dia de marcha deparando-se frequentemente com grandes extensões de plantações queimadas e poços envenenados com carcaças de animais mortos, a terra tendo sido assolada pelos soldados do próprio Representante Provincial, que não planejava deixar saque ou recompensas para seus invasores namorianos. Porém, naquela noite, um de seus batedores, João, voltou com a informação de uma fazenda apenas semi consumida pelas chamas, localizada a apenas alguns metros da estrada que seguiam. O orc arrependera-se de ter trazido aquela mensagem a Azai durante todo o resto de sua vida.

O resto da tropa do Comandante surgia da escuridão da noite, aproximando-se da fazenda rapidamente e, tão rápido quanto chegaram, puseram-se a levantar acampamento. Eram quinhentos soldados, incluindo os magos, aqueles que trouxera consigo. Uma ordem vinda do rei decidira, por fim, que a maior parte das tropas deveriam permanecer na cidade a fim de guardá-la, "um importante ponto estratégico", como dito na carta entregue para Joel, em Serenia. "Ou seja: 'eu não quero arriscar perder minha riqueza obtida com a morte de milhares por apenas um forte velho, então levem apenas essa fração insignificante das tropas e façam o impossível!'", como dito por Tadeo.

De qualquer forma, Azai sabia que, com aquele número, chegariam várias vezes mais rápido ao seu destino e, como já havia lá uma tropa sob o comando do Maioral-Mor Noah, os soldados sob a liderança do Comandante servindo apenas como um reforço e sua própria presença como a de líder, concluiu que seu rei havia, afinal, tomado uma inteligente decisão.

— Bom trabalho, senhor Comandante. — Cumprimentou-o Caleb, que aproximou-se montado em seu chacal-monarca, acompanhado de João, ambos batendo continência. 

— Eram apenas alguns miseráveis indefesos, não fizemos nada de verdade. — Retrucou Azai, que não pode deixar de perceber a expressão de desconforto e nojo em João em resposta aos sons vindo da casa. — De qualquer forma, obrigado, senhor Maioral Caleb, e, espero que minha tenda já esteja montada, certo?

— É claro, senhor Comandante. — Respondeu Caleb, não conseguindo deixar de sorrir ao ouvir a palavra "maioral" sendo atribuída a ele. Sempre sorria ao ouvi-la antes de seu nome.

— Esses bichos são mesmo assustadores.  Comentou Caleb, indicando com a cabeça um chacal-monarca.  E assim deve ser, eles são monstros afinal.  Continuou, orgulhoso.  Vocês devem ver o estrago que isso faz no campo de batalha!

— Imagino que mais do que você. — Retrucou Jéssica, sorrindo ao ver Caleb franzindo as sobrancelhas, irritado e envergonhado.

— Na verdade, o chacal-monarca já não é mais considerado um monstro, apenas um animal há pelo menos uns cem anos. — Acrescentou Miguel, aumentando, inconscientemente, o rubor que subia às bochechas do Maioral.

— Vocês apenas sentem inveja, porque eu, como um Maioral, recebi a minha própria e exclusiva montaria, enquanto vocês têm de usar o que lhes é oferecido, montando sobre os lombos de éguas fracas e velhas. — Retrucou o íncubos, empertigando-se, sorrindo à menção de sua própria patente.  Quem sabe, talvez, num dia muito, muito, muito distante, vocês também tenham o próprio chacal-monarca. — Disse, zombeteiro.  Não é, Matador?  Concluiu, voltando-se a sua montaria.

— Por favor, poupe-nos! — Disse Tadeo, que, como aparentemente o recém-promovido Maioral esquecera, já era um Maioral-Mor e recebera sua própria montaria a tempos. — Estes chacais-monarcas fedem como ratazanas, suas costas são cheias de calombos, são extremamente desconfortáveis de se estar sobre e gastam uma fortuna em alimento, comendo uns cem quilos de carne por dia, como se carne já não fosse cara o suficiente. Não, obrigado, eu prefiro meu bom e velho Cavalo.  Concluiu, Tadeo, que escolhera, estranhamente, Cavalo como o nome de seu cavalo.

— Eu não acho tão ruim assim.  Apontou Azai.  Afinal, basicamente tudo no exército fede; após dez horas no lombo de um animal, qualquer montaria é desconfortável. Além de que eles comem trinta quilos por dia, no máximo, não cem, e comem de bom grado frutas, insetos, ovos, cereais e basicamente qualquer outra coisa que você os oferecer.

A conversa prosseguiu, a discussão entre Caleb e Jéssica apenas aumentando uma vez que Benjamim não mais estava ali para apaziguá-los, enquanto Miguel de tempos em tempos fazia um comentário frio e explicativo quanto as palavras do íncubos ou as corrigia, Azai apenas gargalhando com o desenrolar da cena e as constantes trapalhadas por parte de Caleb, até que, enfim  percebeu, a melancolia que cercava a outro de seus subordinados.

— Você está bastante quieto, não, João?  Perguntou o Comandante, notando o quão cabisbaixo o homem estava. Ele não sabia, mas ainda naquele momento alegre, cercado por amigos, luz e risadas, o orc podia ouvir os gritos da família que condenara ao pior dos infernos, uma família igual a sua.

— Apenas um pouco cansado. — Respondeu o orc, dando de ombros.

— Todos estamos, eu acho, mas é preciso saber se aproveitar três coisas nessa vida: a primeira é uma boa bebida, a segunda, o calor de uma mulher e a terceira, a felicidade de se estar com amigos!

Com um meio sorriso sombrio curvando-lhe os lábios, João respondeu:

— Minha patente é baixa, então não posso ingerir álcool e logo aproveitá-lo está fora de questão, nossos amigos continuam a diminuir em número a cada batalha, nenhum de nós sabendo se ainda vai estar aqui, em volta a uma brilhante fogueira, na noite seguinte, e quanto ao calor de uma mulher... Só amei a uma. E ela foi estuprada e morta por um grupo de bandidos há muitos anos. — Levantando-se e deixando o grupo em silêncio, concluiu:  Sinto sono, vou dormir. Até amanhã.

— Ele é um bom homem. Então, por que se alistou? — Comentou Azai, suspirando.

— Ele é um idiota. — Respondeu Jéssica. — Importa-se demais com coisas desnecessárias.

— Coisas desnecessárias?  Perguntou o Comandante.

— Os outros. — Respondeu a cintilante. — Tenho certeza de que você compreende, senhor Comandante, embora de uma forma distorcida, mas a grande maioria de nós, soldados normais, simplesmente segue ordens a fim de sobreviver, seguir em frente. Deixamos as decisões para aqueles acima de nós, assim como a responsabilidade por nossas ações. Um exemplo disso, sou eu. Mas, bem, tenho certeza de que há alguém muito mais próximo de você que compreende isto muito bem. — Concluiu Jéssica, indicando Tadeo.

Após a deixa de João, o grupo não permaneceu junto por muito mais tempo e logo Azai já via-se a meio caminho de sua barraca, quando sentiu o chamado da natureza. Desviando seu rumo original, seguindo para um canto mais afastado das luzes da fogueira, o Comandante abaixara as calças e começava a evacuar toda a cerveja que bebera durante o jantar, olhando tranquilo para a escuridão à frente enquanto aliviava-se.

Observava o céu noturno pontilhado por um número sem fim de estrelas, Vitória e Valêntia escondidas por nuvens lá no alto, e o campo, a antiga plantação então carbonizada, cinzas espalhadas até próximo ao horizonte por todos os lados, conseguindo pensar apenas em o quão infeliz era aquela perda para sua nação e que maravilhas o rei faria com as riquezas de todo o grão que conseguiriam ali. Apenas conseguiu desembainhar sua espada, que mantinha sempre próxima a si, mesmo ao dormir, então presa a cintura, quando ouviu a voz chamar-lhe a atenção de repente, sem nem mesmo levantar as calças, deixando que elas caíssem ao tornozelo:

— Por que vocês estão fazendo isso?  Perguntou a Princesa, cuja expressão era de medo e ansiedade mas também verdadeira curiosidade. Azai não percebera até então, mas a garota estava presa numa gaiola numa carroça ali perto.

Bufando, zangado e envergonhado, tornando a embainhar Camponesa e levantando as calças, o Comandante retrucou:

— Isso o quê?

— A guerra.

— Ora que? Foram vocês que cuspiram na cara de toda a Aliança Vermelha e declararam guerra contra nós do nada!

— Foram vocês que declararam guerra do nada, aproximando-se da fronteira com o exército!

— A é? E como você explica todo o investimento militar dos seus novos reis, hein? — Perguntou Azai, aproximando-se da Princesa, verdadeiramente prestando atenção ao seu rosto pela primeira vez.

A garota, cujo o nome verdadeiro era Sofia, tinha dezoito anos e era uma harpia. Seu cabelo era comprido, passando das costas, loiro, quase platinado, assim como as penas de suas compridas asas de pássaro, seus olhos sendo verdes e seu corpo esbelto, definitivamente, em qualquer lugar do mundo, uma belíssima mulher, do tipo que seria almejada pela realeza. Sem dúvidas, quando fosse vendida como escrava, seria entregue a um grande Mestre ou mesmo à família real namoriana.

— Vocês aliaram-se a Crát, aceitando aquele contrato antes destinado a nós, com as coisas ficando tão tensas como estavam e com um aliado de um concorrente tão próximo, estávamos... com medo. Vocês também dedicaram esforços ao exército, não é?

— É claro que o rei aumentou as defesas do reino, vocês, afinal, estavam constantemente atacando nosso aliado e juntaram-se a Horac, tentando roubarem toda a Ruína só para vocês. Não podíamos relaxar enquanto os fugitivos traidores tramavam contra nós!

— Nós não somos Cael!  Respondeu a Sofia, elevando a voz pela primeira vez na conversa, ficando verdadeiramente furiosa, esquecendo-se por um segundo do medo que sentia... E que, na verdade, era uma prisioneira.

— ...É claro que não.  Respondeu Azai, franzindo as sobrancelhas e erguendo o queixo enquanto encarando por sobre o nariz empinado, furioso, com verdadeiro nojo, a garota, que voltava a encolher-se em sua cela.

O Comandante já tinha dado meia volta, seguindo o resto do caminho a sua tenda, quando a garota voltou a falar, perguntando:

— Então, tudo o que vocês fizeram foi em nome de uma nobre causa?

— Sim.

— ...Até mesmo o que fizeram com aquela família naquela casa?

Uma vez que o Representante Provincial encontrava-se no Fé, junto do restante de suas tropas e com todos os civis de Serenia, era vital investir contra o forte antes que os reforços enviados da capital crasiriana chegassem e os demais líderes da província reunissem-se ao resgate de seu chefe e sua população, um golpe vital contra Nova Crasíria, que permitiria então agilizar a concentração das tropas namorianas daquele lado da Cordilheira Cinzenta, encerrando com as ameaças em Serenia, para enfim investirem contra o Censura, deixando todos um passo mais próximo do fim daquela abominável guerra, mais próximos de impedir os perverso planos da Aliança Azul, que usurpam todo o poder e Ruína, um momento glorioso e de virtude inegável. Ou assim pensava o Azai, que já havia colocado-se em marcha com sua tropa. Teve de ler a carta trazida pelo mensageiro três vezes para finalmente compreendê-la, buscando ali alguma lógica ou sentido ali.

Suas novas ordens, estas de urgência extrema, consistiam em guiar sua tropa de volta para o nordeste, para investir contra uma mansão nas montanhas fora mesmo dos limites da província de Serenia, com a prioridade de guiar um Coletores-de-Guerra aos cofres do alvo.

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