Guerra A Ruína - Capítulo: 29

Capítulo: 29

Álex.


A tinta do teto estava um pouco desgastada e via-se uma intrincada teia de aranha num dos cantos mais afastados da luz da lamparina a óleo.

— Um teto... — Disse Álex, esforçando-se para emitir qualquer som de sua garganta seca.

— Ha, você enfim acordou! — Perbeu Miranda, curvando-se sobre o rapaz, entrando em seu campo de visão, bloqueando a imagem do teto acima.

Ela usava um vestido cumprido cinza e estava com os cabelos penteados e soltos, sem o chapéu do Grêmio como raramente ficava, com a pele clara, limpa, sem mais o malcheiroso odor das incontáveis camadas de suor e poeira o qual o jovem já havia se acostumado. Ela sorria, percebeu Álex, como nunca, com lágrimas enchendo-lhe os olhos.

— Eu acordei.  Retrucou o rapaz, tentando retribuir o sorriso, confiante, mas apenas parecendo ainda mais fraco.  Água, por favor.  Pediu enfim, logo em seguida percebendo o vazio em seu estômago, concluindo: — E comida também.

— Aqui. — Disse Miranda, virando-se e pegando algo, que colocou sobre seu colo: uma bandeja retangular de madeira, onde estavam postos uma tigela de sopa, um copo d'água, pão e talheres, enquanto o rapaz ajeitava-se, sentando, recostando-se na cabeceira da cama... ou ao menos assim tentando.

Ao se remexer sob o lençol, tentando sentar-se, simplesmente caiu, como se a superfície onde colocara sua mão tivesse, de repente, desaparecido. Não, o que desaparecera não fora uma parte da cama, mas uma parte do próprio garoto, que percebeu então, finalmente, a ausência de metade de seu antebraço direito, incluindo sua mão.

Miranda, olhando-o sensibilizada, a culpa transparecendo com clareza em sua face, disse, entre os soluços, com lágrimas mais uma vez vindo-lhe aos olhos, escorrendo por suas bochechas e pingando de seu queixo, dessa vez carregadas não de alegria, mas de pesar:

— Me desculpe... Se eu tivesse acordado um pouco antes, eu poderia ter curado seu braço... Se eu tivesse acordado mais cedo, você poderia ter seu braço de volta... Mesmo que você tenha ficado assim para nos salvar... Me desculpe...!

Com uma sombra cobrindo-lhe todo o coração, um peso incalculável curvando seus ombros, um sentimento frio e sombrio deformando sua face, suas sobrancelhas curvando-se para cima em infelicidade, o rapaz respondeu-a:

— Não chore... Não se culpe... Não é culpa sua, merda! — Disse Álex, então desabafando, finalmente pondo em palavras aquilo que vinha evitando, tentando esquecer desde o início:  Eu mereci isso! Foi tudo culpa minha, merda! Que amizade, o quê? Que altruísmo, o quê? Eu nunca quis te ajudar de verdade, simplesmente queria ser um herói, sair por aí e me divertir, porra! Eu estava com medo, não queria me alistar no exército!

"...Que 'aventura', o que? Pessoas morreram. Como eu pude ser tão ingênuo? Eu realmente pensei que poderia lidar com monstros e bandidos, que, com meus feitiços, eu sairia de qualquer problema, que eu era invencível? Imortal? Um herói?! Não fode! ...Eu sou mesmo um retardado. Magos não são invencíveis. Bandidos são assustadores. Monstros são fortes. Eu não sou um herói. Pessoas morrem."

"Eu que devo pedir desculpas, Miranda: me desculpe. Por favor, me desculpe. Eu disse que te ajudaria, que partiríamos em busca de sua família, que tudo estava bem, mas isso não é verdade. Eu fiz o que fiz por puro egoísmo e infantilidade. O caminho à frente é perigoso e eu não garanto qualquer segurança. Estamos em guerra. Eu mereci tudo o que aconteceu comigo, Miranda, mereço ainda o pior, então, por favor não chore. Não se culpe...  Ao fim, Álex já tinha a visão turvada pelas lágrimas que não paravam de cair, misturando-se com o que pingava de seu nariz, o garoto apertando com força o lençol sob si, com os joelhos encostados no peito, fitando seus pés, sem coragem de encarar a amiga.

Não houve um minuto de silêncio entre uma vez que Álex terminara de falar e a resposta de Miranda, e as palavras da garota não continham falsidade ou pena, apenas sinceridade e melancolia:

— Eu sabia. No fundo, em sempre soube, desde que saímos do Grêmio, que isso era tudo uma grande idiotice. Mas, sabe, eu... eu não queria acreditar nisso. Eu queria realmente viajar por aí, viver estas 'aventuras' das quais você sempre falava, e, no fim, me reencontrar com meus pais. Eu... eu gostei de passar o tempo com você, Álex, mesmo assim. Eu compartilho de sua culpa, Léx, você não precisa de meu perdão, mas, se isso o fez se sentir melhor, se você acha que é necessário: eu o perdoo. E, mesmo que o caminho adiante seja incerto, mesmo que não sejamos invencíveis, mesmo que pessoas morram: eu quero continuar. Não quero simplesmente desistir agora, não posso fazer isso. Eu quero continuar, com você.

Álex, fitando o que restava de seu braço esquerdo, lembrara-se do que pensara sob as estrelas, na parte de trás da biblioteca, no que parecia ser há anos atrás, das pessoas que conhecera na caravana, na curiosa Alice e sua mãe sempre carinhosa, Isabela, no amigável Dino, na gentil Matilde e no covarde e odioso Eder, no ataque sangrento do grifo, em toda sua devastação e desespero, em seus difíceis momentos na floresta, onde a fome e o desconforto eram constantes, e no confronto contra o próprio grifo, que custou-lhe a mão esquerda. Encarando Miranda, respondeu então, envergonhado por sua ingenuidade e egoísmo, porém sincero:

— Eu também quero continuar.

Após ambos enxugarem suas lágrimas, o rapaz pôs-se, finalmente, a de fato comer, empanturrando-se, grato pela primeira refeição decente em meses, enquanto Miranda explicava o que havia acontecido até então:

— Quando eu acordei, alguns dias atrás, nós já estávamos aqui, nessa pousada. Parece que os guardas nos recolheram e cuidaram de tudo, não precisamos pagar nada. O povo da cidade, principalmente a guarda, que viu tudo do alto da muralha, o considera um herói, e a história de como um jovem mago matou um grifo já deve ter se espalhado por toda esta província.

— E nada quanto a maga que salvou a vida dele pelo menos umas cem vezes? — Perguntou Álex, sendo apenas metade do questionamento uma brincadeira.

— Você sabe: apenas em teoria há igualdade entre gêneros aqui.  Respondeu Miranda dando de ombros. — Como em qualquer outro lugar do mundo, eu acho. Ah, sim! Você sabe em que dia, ou melhor, em que mês estamos?

— Hm... Sei lá, mês sete?

— Mês nove!

— ...E...?  Perguntou Álex, sem entender o que a garota queria dizer com aquilo.

— Seu aniversário! Bem, na verdade, ele já passou há algumas semanas, mas ainda assim: feliz aniversário de dezoito anos, Léx!

— Ah, mas nesse caso, seu aniversário também já passou, não? Então, para você também: feliz aniversário de dezessete anos, Miranda!

— Eu não tenho nada agora, para falar a verdade, mas eu prometo que ainda vou te comprar algum presente legal, certo?

— Certo.  Respondeu o rapaz, sem conseguir conter seu sorriso, mais feliz por ouvir aquilo do que imaginava que ficaria em qualquer outra situação. — Então eu também vou te comprar alguma coisa legal. É uma promessa, hein?

Naquele aposento, no cubículo que era, não sendo muito grande ou luxuoso, onde havia apenas uma janela para o sul, que mostrava parte da cidade, um mar cinzento e ondulado de telhas enegrecidas, além de um milhar de chaminés que erguiam-se como muitas torres de todos os tamanhos e formas, cuspindo a todo momento a fumaça negra do carvão queimado para mover as máquinas das fábricas ou ascender as lareiras e fogões; as batidas na porta ecoaram claras e altas. Em resposta, Álex disse, julgando que era Miranda que saíra a poucos minutos para pedir uma roupa a ele (que usava então apenas um roupão simples), a pessoa ao corredor, do outro lado da parede, avisou:

— Pode entrar!

— ...Olá.  Disse o homem, atravessando a soleira da porta, evitando encarar o olhar pasmo de Álex, envergonhado.

— Você não se atreve...

— Eu sei que você, que vocês dois devem me odiar, mas entenda: eu não tive escolha.

— CALA A BOCA!  Berrou Álex, colocando-se de pé num pulo e dirigindo-se, irado, ao homem, tentando segurá-lo pela gola da camisa, mas agarrando apenas o nada com sua mão esquerda não mais existente, o que apenas mais inflamou seu ódio, uma lembrança, uma marca deixada eternamente em seu corpo, mesmo que indiretamente, por aquele homem.  Você nos deixou para morrer, Dino! Você deu as costas para nós!

— Não havia escolha! — Respondeu o homem, encarando então o rapaz nos olhos e sentindo através deles todo seu ódio, mas, ainda assim, sem vacilar.  Ou você queria que arriscássemos a todos nós, da caravana, para salvá-los? Assim todos teríamos apenas morrido!

— Eu queria que você se arriscasse para nos salvar!  Retrucou Álex, cuspindo a cada palavra, cerrando os dentes e franzindo a face numa terrível carranca.  Você é um Coletor, certo? Um caçador de monstros. Você disse que nos protegeria, na floresta.

— Coletor nenhum conseguiria matar aquele monstro, Álex, não sozinho, não pego tão de repente. — Dino tornou a responder, sério. — Tentar ajudá-los naquele momento teria sido em vão, apenas aumentaria o número de vítimas.

De repente, afrouxando o aperto da gola da camisa de Dino, como enquanto dirigia-se apressado à muralha da cidade, as memórias voltaram numa enxurrada à mente de Álex, todas de uma vez, detalhadas, vividas, as imagens passando frente a seus olhos como se se o garoto visse o presente e não numa lembrança ruim de semanas atrás. Haviam gritos, destroços, vísceras e corpos para todos os lados, e sangue, tanto sangue...

Rubra era então a grama sob os pés de Álex, e as garras dele e seu bico pingavam na mesma cor. E ele não conseguiu deixar de torcer os lábios num sorriso sinistro ao lembrar-se de sentir-se seriamente decepcionado que provavelmente não encontraria-se com um monstro para que pudesse provar seu valor.

Uma vez que Aléx, percebendo a sensatez na resposta do Coletor que apenas ressaltou sua ingenuidade, não demonstrou qualquer sinal de que falaria mais alguma coisa, Dino continuou:

— Depois daquilo, nós demos meia volta e fugimos o mais rápido que podíamos pelo caminho de volta, chegando, alguns dias depois, na estrada principal, onde houveram discussões para decidir um novo líder para a caravana, novas rotas e outros assuntos quanto as pessoas que morreram e aos carregamentos perdidos, quando a caravana se desfez.

"Eu salvei a garotinha, sabe? Alice. Me lembrei então que sua mãe havia dito algo quanto aos avós da criança, que elas estavam indo para Sétera, e decidi terminar a viagem delas. Junto de Alice, rumei para o leste e depois para o norte, pegando o caminho mais longo, evitando o máximo possível a Montanha Perdida, chegando aqui, em Lenhir, quase uma semana atrás. Meu plano era pagar uma carroça para a cidade dos avós de Alice daqui, desde então estive apenas esperando surgir alguma disponível, uma vez que todas já estão em viagem mas..."

— O que está acontecendo, Léx?  Interrompeu a lebromem na porta, fitando os dois, arregalando os olhos em surpresa ao reconhecer então Dino.

— ...Nossa passagem, Miranda, e o próximo passo de nossa aventura. — Respondeu o rapaz, sorrindo para a amiga, e depois voltando-se para Dino, olhando nos olhos, encarando-o friamente. — Nosso amigo aqui, Dino, estava me contando como iria nos levar para Troncôco numa carruagem pega por ele mesmo, não é?

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