Guerra A Ruína - Capítulo: 28

Capítulo: 28

Octávio


A bela arquitetura e as cores vivas de Dentre-Flume despertaram um sentimento saudosista em Octávio após tantos meses fora, mesmo que (embora as altas torres e muralha, as pontes que interligavam o norte e o sul da cidade, os prédios, casas e lojas verdes e azuis e seus muitos jardins suspensos, continuassem os mesmos) desde o início da guerra, meio ano antes, as coisas haviam mudado.

Então viam-se do lado de fora das muralhas algumas dúzias de acampamentos de refugiados, coitados famintos e sem lar, enquanto no interior viam-se poucos homens jovens e adultos nas ruas, muitas lojas estavam fechadas, havendo por toda a parte cartazes com propaganda da reconquista e do exército, e militares uniformizados com brilhantes armaduras completas patrulhavam cada esquina.

— Há militares nas ruas.  Apontou Octávio, curioso enquanto observando da janela de sua carruagem.  Militares, não a guarda da cidade.

— ...As coisas vem estado tensas ultimamente. — Respondeu o goblin, mostrando-se apreensivo.

— Como?

— É esta maldita guerra. Está desgastando a todos nós.  Disse Cézar, pondo-se a compartilhar a paisagem com o vampiro, franzindo as sobrancelhas à visão através das janelas. — Ao oeste, do nosso lado, vilas e cidades são pilhadas e incendiadas ou tomadas pelos inimigos ao longo da cordilheira, mas ao mesmo tempo, do lado dos namorianos as coisas não estão melhores: tomamos duas cidades e quatro fortes, além de outros tantos vilarejos.

"Já, ao norte, a situação é outra. As savanas tornaram-se um antro de doenças e morte, ambas as alianças entrincheiradas há meses, trocando disparos de balas de fogo, magias, flechas e dardos, enviando diariamente fileiras de soldados adiante apenas para eles morrerem impotentes perante as chuvas de disparos, no final sem conseguirem avançar um centímetro sequer, ambos os lados sem conseguirem enviar reforços para seus aliados ao norte. Enquanto, ainda mais ao norte, em seu extremo, Thir e Thirlundia guerreiam praticamente a própria guerra, Thirlundia focando todas as suas forças contra seu vizinho nortista, sem enviar reforços para o sul, enquanto Crát parece também não importar-se com a região. E também tem Crát..."

"A terceira ameaça, esta que tanto por não ter dado as caras até agora, quanto por ser a mais poderosa, é a que vem causando maior terror: o império ocidental de Crát. Os ocidentais não desembarcaram nem fizeram qualquer tentativa de ataque direto a nós ainda, embora parte de suas forças constantemente avancem sobre Horac."

"Nenhum dos lados pode enviar ou receber apoio aliado, e, quando a primeira nação cair, o fim da guerra será iminente e rápido, como o efeito dominó. Esta situação é como uma bomba prestes a explodir. Estes tantos impasses e apreensões vêm deixando todos com os nervos à flor da pele e o conflito entre os partidos tem estado quente como nunca, ambos os lados se digladiando agora sem nenhuma dissimulação, sem esconderem sua aversão um ao outro. A reconquista é responsável pelos soldados aqui, 'uma propaganda, um incentivo ao alistamento da população', eles dizem, mas, cá entre nós, acredito que isto não passa de balela! Estes homens estão aqui apenas para evitar que os partidos saiam às armas um contra o outro... Ao menos abertamente nas ruas e durante a luz do dia."

— O que você quer dizer com isto? — Perguntou Octávio, curioso com o último comentário do goblin.

— Bem, enquanto você esteve fora, aconteceram... casos. E não apenas aqui, na capital, mas por todas as províncias. Representantes Provinciais, membros da Assembleia de todos os cargos e afiliados menores tanto a reconquista quanto a irmandade vêm sendo depostos, acusados de todas as coisas, corrupção, desvios de dinheiro, má vontade para com o governo, baixo índice de alistamento militar, e até mesmo estupros e outros crimes do tipo. Além de que alguns simplesmente... sofrem acidentes repentinos ou desaparecem misteriosamente.  Respondeu Cézar, ao mesmo tempo decepcionado e envergonhado, como se aquelas coisas manchassem uma reputação ou simplesmente desiludissem-no.

"Estupros e outros crimes? Não tinha pensado nesta possibilidade...", pensou o vampiro, com o surgimento da possibilidade de ter resolvido as coisas em Plateus de forma mais tranquila, as lembranças das coisas que aconteceram na cidade voltando-lhe à mente. Pessoas famintas e aqueles agradecimentos que ouvira quando entregara a comida à população...

— O país precisa de mais pessoas como você, meu amigo. — Disse Cézar por fim.

— O que?

— Enquanto todos estão por aí agindo tão egoisticamente, você foi o único que mostrou-se realmente preocupado com o povo. — Respondeu o goblin sorrindo em admiração.

Estranhamente, aquelas palavras pesaram no estômago de Octávio e deixaram-no extremamente taciturno, constrangido.

— ...Eu não sou tão bom quanto você pensa, meu amigo. — Retrucou o vampiro, sem compreender exatamente o porquê falara aquilo, sequer percebendo que chamara Cézar de "meu amigo" e honestamente.

— Por favor, perdoe-me, Octávio. Pelo cocheiro, eu digo. — Pediu Fernando, uma vez que ficaram a sós em sua sala, prostrando-se levemente num pedido de desculpas, embora não houvesse qualquer sinal de real arrependimento em sua voz.

— Não se preocupe com isso, por favor. Eu, provavelmente, teria feito o mesmo que o meu bom senhor, Senador, na situação.  Respondeu Octávio, sinceramente. — E, de qualquer forma, sem uma forma discreta de enviar uma mensagem a você, não consigo imaginar como poderia ter completo meu trabalho em Plateus.

— Ah, não diga isto, você está apenas sendo modesto demais! Mas, bem, fico feliz em saber, Octávio, que posso contar com você, pois, que belo trabalho você fez naquela província! Outros não saíram-se tão bem em suas missões ao sul, a irmandade tendo conseguido refutar dois ou três ou quatro pedidos de deposição para Representantes Provinciais, mas aqueles malditos covardes não puderam negar o estrago que Pablo deixou em sua liderança no lugar, sua péssima administração da província, deixando a cidade com altas dívidas, sem trabalhadores para limpar todas as ruas e reparar os estragos deixados nas plantações e nas construções pela tempestade (que, eu tenho que dizer, ao deixar o lugar tão detonado, deu a tudo um toque dramático especial). Definitivamente, um trabalho impecável. O novo Representante Provincial de Plateus já partira a sua cidade e, é claro, é um afiliado do Partido da Reconquista, partido este que "salvou a cidade da fome".

— O senhor me lisonjeia demais, Senador. Cumpri apenas para com o meu dever, tanto como o de um afiliado do partido, quanto como o de um bom cidadão e político.

Fernando fitou o vampiro, com o sorriso congelado em sua face, por alguns instantes, pensando, tentando adivinhar as intenções de Octávio, decidindo se ele era ou não digno de sua confiança, se ele o trairia ou não... quando ele o trairia, até que, finalmente, comentou:

— Fico feliz, também, por saber que há pessoas como você, Octávio, meu bom homem, nas quais eu posso realmente confiar.

— Obrigado, Senador Fernando.

— Tenho um pedido a você. "Pedido? Não ordem ou tarefa?"

— E qual seria este pedido, Senador?

— Na verdade, é algo de fora da política... ao menos usualmente de fora: quero que você busque uma coisa para mim. E então?

— Estou, como sempre, Senador Fernando, mais do que disposto a cumprir para com suas vontades. — Respondeu Octávio, então mais curioso do que relutante com as vagas instruções de Fernando.

— Isto é ótimo! Sabia que podia contar com você, meu amigo! Partirás o mais cedo possível junto de uma escolta preparada: apenas cinco soldados. Esta missão, como suponho que você, meu amigo, já imaginara, deve ser mantida em sigilo absoluto.

— Soldados, senhor Senador? Se me permite, perguntar: para onde serei enviado?

— Sim. Você partirá para a Cordilheira Gris, a linha de frente desta guerra.

Octávio ficara apenas uma semana na capital, tempo o suficiente apenas para um breve descanso, antes de partir noutra tarefa. Não pode deixar de sentir-se cabisbaixo ao observar, da janela de sua cabine no trem, Dentre-Flume diminuir cada vez mais, encolhendo-se até esconder-se no horizonte, o vampiro já pensando a que tipo de lugar ermo dirigia-se então.

— Senhor Octávio...?  Perguntou um orc brutamontes a porta da a cabine do vampiro.

— Eu mesmo. E os outros?

— Logo chegarão.

Embora da última vez seu verdadeiro objetivo também fosse secreto, daquela vez em específico havia uma precaução muitas vezes maior. O Senador havia tido o cuidado de criar um álibi plausível para a deixada do vampiro da cidade, comprara para Octávio uma passagem de trem para o norte e montara uma equipe de escolta e organizara o encontro entre os soldados e Octávio, tudo num segredo culposo, suspeito aos olhos do vampiro, que não podia deixar de fazer suas suposições quanto ao que encontraria ao leste.

"Ele disse: 'buscar uma coisa'... Documentos? Informações? Riquezas? Sem dúvidas, algo do tipo. Algo necessário para as tramas de Fernando e, consequentemente, para o país. Além disso, a única coisa da qual não há dúvidas é que é uma coisa que deve ficar fora do conhecimento da irmandade".

Como dito pelo orc, um a um os homens foram entrando na cabine, em intervalos de cerca de dez minutos. Eram cinco no total, os soldados: o orc brutamontes, um sátiro de meia-idade, um elfo careca, um ogro marcado por horrendas cicatrizes na face, e...

— Iandro?  Perguntou Octávio, surpreso com a presença daquela pessoa, um homem ainda mais novo que ele. O filho de Cézar.

— Meu bom senhor Octávio! — Respondeu Iandro, com um entusiasmo parecido com o de seu pai.  Meu pai costuma falar muito de você! Eu sabia que você era um bom membro da Assembleia e bastante importante, mas não tanto assim. Agindo sob as ordens diretas do próprio Senador, quem diria, hein?

— Nem me fale... — Retrucou o vampiro, ao mesmo tempo pensando "tão ignorante quanto o pai. Já vejo que será uma longa viagem...".  E você, como chegou a este ponto?

— Ah, meu pai se afiliou ao Partido da Reconquista quando soube o que você estava fazendo em Plateus. O Senador não demorou a perceber sua lealdade e empenho, é claro, e ele soube que eu trabalhava na guarda da cidade. Logo, como ele precisava de bons homens para este trabalho, fui um dos escolhidos!

Percebendo a clara diferença de experiência entre Iandro e os demais soldados, Octácio pensou: "uma garantia de que eu vou ficar de bico calado?", sentindo ao mesmo tempo uma estranha confusão de sentimentos, onde via-se frustrado e orgulhoso com a falta de fé do Senador em si ("um homem cauteloso este"), além de achar engraçado o fato de sequer considerar Cézar como algo precioso para si, muito menos aquele goblim à sua frente, fosse ele quem fosse.

— De qualquer forma, vamos direto ao ponto: me chamo Octávio, como vocês bem puderam perceber, e sou aquele incumbido de liderá-los aqui. Então, digam seus nomes, ou, ao menos, como podemos os chamar e suas especialidades.

Sem qualquer relutância ou objeção, um a um, os demais homens responderam-no:

— Me chamo Cirilo, sou um especialista em combate a curta distância.  Disse o orc brutamontes.

— Edmundo. Especialista em armas de fogo.  Disse o sátiro.

— Lauro. Sou um espadachim.  Disse o elfo careca.

— Boris. Machado. — Disse o ogro.

— E eu me chamo Iandro. Posso lutar com, na verdade, qualquer coisa, afinal, o treinamento da guarda é árduo, sabe, mas, se eu tivesse de escolher uma "especialidade", hm... Arco e flecha, talvez? — Todos ali fitaram-no por um momento, suas expressões deixando claro o pensamento que compartilhavam: a conclusão de que a utilidade do rapaz seria quase zero.

Iandro corou levemente e pôs-se a olhar os pés, como uma criança envergonhada.

"Uma longa, longa viagem...". E realmente foi, o grupo tendo passado muitas horas naquele trem, ouvindo incessantemente a voz do goblin, que parecia uma fonte inesgotável de assuntos; falara sobre como fora seu treinamento, de seus feitos dentro da guarda, de sua amada Júlia. Ainda estavam apenas no começo da missão, a muitos e muitos dias de concluí-la, mas mesmo os mercenários desejavam acabar com aquilo de uma vez por todas.


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