Guerra A Ruína - Capítulo: 27

Capítulo: 27

Azai


— Camponesa. — Nomeou-a Azai, sabendo o nome da espada no mesmo instante em que pôs pela primeira vez seus olhos nela.

Camponesa era uma montante cuja lâmina, esta de um tom acobreado, tinha um metro e trinta centímetros de comprimento e a guarda da mão, dourada, esculpida em forma de espigas de trigo cheias de dez centímetros, protegendo as mãos daquele que empunhasse a espada, enroscando-se por alguns centímetros na própria lâmina. O cabo era macio, enrolado com tiras de couro, e o pomo esculpido no formato de uma foice.

— Definitivamente um belo nome, senhor Maioral Azai, e digno da lâmina. — Apontou o enviado, sorrindo.

— Diga ao senhor Maioral Joel que agradeço pelo presente.  Respondeu Azai, sem conseguir conter o sorriso, alegre por ter finalmente conseguido um bom substituto para seu antigo machado.

— É claro. "É apenas o digno de sua posição, um símbolo de minha felicidade, tanto à sua promoção, quanto à sua boa recuperação, e meus mais sinceros agradecimentos por ter salvo minha vida", o senhor Maioral Joel mandou-me dizer. E, "o senhor Comandante-Mor José manda-lhe congratulações. Ele também está bastante satisfeito com suas realizações".  Acrescentou o homem, indicando o orc careca que liderava a base onde Azai estava meses atrás. — Porém, além disto, há uma outra mensagem: o Comandante Joel pede por sua presença, a qualquer hora, uma vez que o senhor mostrar-se descansado, ela diz.

Duas costelas fraturadas, incontáveis lacerações entre pequenos e médios cortes, arranhões e ferimentos a balas (de raspão) e a vida de quarenta e dois de seus subordinados, incluindo Tiago, um amigo próximo, fora o preço que Azai pagara por sua promoção a Comandante. Recuperara-se de seus ferimentos físicos em pouco mais de duas semanas de cama (ossos eram mais difíceis de reparar do que carne, explicou Jéssica). Ainda sentia a dor em seu coração pela perda de seu amigo e demais subordinados.

Joel também fora promovido a Comandante e fora incumbido de guardar a cidade, começando seu árduo trabalho quase que imediatamente após a promoção, distribuindo tarefas, organizando homens e ordenando a reparação das muralhas e da ponte, facilitando a ida e vinda dos Cobradores-de-Guerra. "Pediu" pela presença de Azai uma vez que ambos estavam na mesma patente militar por mera questão de respeito, a verdade sendo, provavelmente, a incumbência de uma nova ordem a Azai e sua tropa, esta então ainda maior, uma convocação, Joel estando como verdadeiro líder naquela cidade.

Ainda assim, se fosse realmente urgente, Azai sabia, Joel teria marcado um horário para o encontro ou viria vê-lo ainda em sua cama, o Azai deveria tratar de seus assuntos enquanto ainda podia, uma vez que finalmente recuperara-se o suficiente para poder andar sozinho, deveria lamentar a morte de seus amigos e mostrar a face a seus subordinados.

— É claro.  Respondeu Azai.  Tenho assuntos a tratar, mas agilizarei-os para assim logo me encontrarei com o senhor Comandante Joel.  Concluiu, embainhando sua nova arma, pondo-a dentro da bela bainha que mostrava gravuras de plantações, ferramentas, camponeses e animais.

O refeitório era majestoso, um grande salão iluminado por muitos lustres de velas e altas janelas, com três níveis, os dois acima do térreo formados por plataformas de madeira, alcançados por escadas espirais encontradas nos cantos, repleto de mesas e estas abrigando um sem número de solados, as risadas, conversas e o barulho de passos preenchendo o lugar.

Azai percorreu por entre as fileiras de mesas, cumprimentando conhecidos, subordinados que batiam continência a ele, ignorando as pontadas de dor que sentia nas costelas, esforçando-se para manter-se ereto e parecer já totalmente recuperado (o que não era bem verdade). Já passara muito tempo de cama, afinal, algo que não era bom para um soldado, ainda mais para um de patente tão alta, deveria mostrar que ainda estava apto ao exército e à liderança.

Era meio-dia e o almoço fora servido: pão, manteiga, carne, queijo, arroz e feijão. Definitivamente melhor do que as comidas secas e os biscoitos duros, alimentos em conserva que os soldados tipicamente comiam durante as expedições e marchas, embora inferiores a primeira semana após a tomada da cidade, quando Joel permitira, como comemoração, muita cerveja e porções muito maiores de comida, o que servira tanto para fazer os homens esquecerem da perda de seus amigos, quanto para acalmar seus ânimos quanto ao fato de não conseguiram fazer um único prisioneiro sequer com a queda da cidade, misteriosamente não encontrando um único civil fosse nas ruas e casas ou nos becos e esgotos.

Por conta de sua patente, Azai recebera também cerveja, uma sopa, linguiça e maçãs, um privilégio que aceitara de bom grado, afinal, sabia que com falsa modéstia não ganharia seus homens, e que deveria mostrar certa superioridade a eles... Além de que estava realmente satisfeito para com aquele prato e desejando como nunca sentir o gosto do álcool em sua boca uma vez que este lhe fora negado enquanto recuperava-se.

A refeição terminara, e o refeitório começou, aos poucos, a esvaziar-se. Notando a ausência, que desde o princípio incomodara-o, de seus amigos mais próximos, Azai aproximou-se de uma outra mesa, onde reconheceu Adriel.

— E quando chegarmos à capital e encontrarmos aquela puta da Milly, o Comandante-Cintilante vai simplesmente humilhá-la! — Disse um cintilante meio bêbado por entre as gargalhadas, brindando com seus companheiros.

— Aquela velhota não vai ter nem uma chance! — Concordou uma de suas colegas, uma maga.

— Não vai dar nem para o cheiro!  Acrescentou o outro mago.

O Comandante-Cintilante, porém, não respondeu aos elogios nem pareceu contente com eles, sua expressão tornando-se então sombria, sua face fechando-se numa carranca carregada de lembranças de outra época e apreensão. De medo. Os demais magos logo perceberam a repentina tensão surgida no ar e calaram-se um a um, voltando sua atenção a Adriel, que finalmente, de olhar distante, disse:

— Não lutaremos contra Milly.

— ...Por quê?  Perguntou então o primeiro cintilante meio bêbado.

— Ela vai se render uma vez que cheguemos a capital, vai evitar um banho de sangue, se possível, provavelmente num acordo que garanta a proteção dos seus.

— Ela vai ficar com medo de você, do maior mago do mundo, não é? — Concluiu a cintilante, tornando a gargalhar, parando apenas quando percebeu que era a única no refeitório a rir, seu superior ainda sob uma atmosfera, um semblante sério.

— Não vou fingir uma falsa modéstia: eu sou realmente forte. O mais forte de Namória, talvez um dos mais fortes de toda Asatna... Mas eu não posso sequer me comparar àquela mulher.  Retrucou Adriel, fitando seus tolos subordinados.

"Ela é a maga mais poderosa de todo o mundo, e respeito-a por isso. Reconheço- a por isso. E vocês deverias fazer o mesmo, moleques. Antes de ter metade da idade de vocês, ela já tinha alcançado a supremacia da magia, o próprio infinito, fazendo não apenas uma mera conjuração, mas a verdadeira criação permanente, além de ter matado quatro semideuses, afinal.  Concluiu o Cintilante-Comandante, pondo um ponto final ao assunto.

Repentinamente desconfortáveis, logo os soldados voltaram a conversa para qualquer outra coisa, as risadas e bebedeira retornando ao normal enquanto deixavam a tensão para trás, buscando naquele momento apenas uma distração, esquecerem-se por um segundo que suas vidas estavam em risco enquanto o mundo afundava-se em guerra.

— Senhor Adriel. — Chamou Azai, aproximando-se do mago e batendo continência, sentindo ainda leves pontadas na costela, tendo um tanto de dificuldades para andar sem o apoio da muleta.

— Senhor Comandante Azai! Meus parabéns pela promoção. — Respondeu o cintilante, levantando-se e batendo uma continência.  Você fez realmente um excelente trabalho desta vez, assim como das outras. Todos ficaram sabendo como você salvou a vida do senhor Comandante Joel e lutou bravamente, mesmo contra aquela aberração deformada. Devo admitir que sinto-me orgulhoso por meu filho estar sob seu comando, definitivamente eu não estava errado em indicá-lo a você.

— Sinto-me lisonjeado, senhor Cintilante-Comandante. E, quanto a seu filho e Jéssica, são ambos excelentes soldados, ambos sendo uma parte vital de minha tropa, sem dúvidas. A propósito: estou a procura do Maioral-Mor o senhor Tadeo. Por acaso, você saberia onde encontrá-lo?

— Ah, o tigromem, sim, é claro. Ele está no "Lapidal". Devo enviar alguém até ele, chamá-lo para você? — Respondeu Adriel, indicando um antigo jardim da cidade que fora transformado num cemitério, onde foram enterrados tanto os soldados namorianos, quanto os crasirianos, originando assim o nome que os soldados deram-lhe por conta das inúmeras lápides.

— Não, obrigado, senhor Cintilante-Comandante Adriel. Depois de tanto tempo deitado, prefiro esticar um pouco as pernas. Vou encontrá-lo eu mesmo.

Durante o calor da batalha, Azai não tivera tempo ou oportunidade para prestar atenção aos detalhes da cidade, as ornamentações em metal polido e brilhante, as muitas colunas, janelas e entalhes no formato de lua crescente que viam-se por todas as partes e, em algumas casas, paredes inteiras de vidro.

Na verdade, Serenia era uma das províncias mais ricas de Nova Crasíria, estendendo-se ao pé da cordilheira, dona de inúmeras minas de todos os tipos, grandes florestas e cortada por muitos rios de água límpida, os namorianos, sem dúvida, conseguiram tomá-la graças ao elemento da surpresa, uma vez que os inimigos esperavam um ataque a, na verdade, o Forte Censura, lá estando a maior parte das forças reunidas deles a fim de conter este possível ataque, assim restando poucas tropas a capital daquela província. Ainda, sem dúvidas, porém, teriam problemas se quisessem manter a cidade, afinal, ainda haviam muitos os fortes, vilarejos e cidades daquela província totalizando um grande número de inimigos, sendo que seriam enviados, sem dúvidas, mais tropas crasirianas a fim de retomar aquela capital provincial.

Já Lapidal, que até antes da tomada da cidade era um parque, um lugar de passeios tranquilos pelas trilhas que cruzavam por entre as colinas e árvores, e descansos relaxantes a vista de um pequeno lago negro esverdeado, tornara-se um ermo, sombrio, silencioso e coberto por cinzas, um cemitério onde antes as árvores brotavam firmes e velhas erguiam-se então apenas lápides toscas, espadas fincadas no chão, estatuetas e outras memórias aos mortos.

A fim de evitar a propagação de doenças, diferentemente de como faziam em batalhas em campo aberto, onde os namorianos simplesmente deixavam os corpos dos inimigos onde caíam, ali, os corpos foram todos (após pilhados, é claro) amontoados em grandes valas e enterrados aos montes. Para agilizar o trabalho a fim de prevenirem-se o mais rápido possível para um possível ataque inimigo, os cadáveres foram sepultados sem fazer distinção de nacionalidade, aliados e inimigos acomodados juntos sob a terra e junto dos vermes, aqueles que eram namorianos simplesmente tendo suas identificações enviadas de volta para a casa como única cortesia além.

No cinzento cemitério, Azai não precisou andar muito para encontrar Tadeo, seu amigo: avisou-o sentando num banco em frente ao lago, junto de João e Miguel, este então sem a máscara, em respeito aos falecidos como era a tradição em Namória, que colocava como desrespeito o uso de chapéus e afins em cemitérios.

— Olá. — Cumprimentou-os o Comandante, deixando-se cair no banco, descansando, mesmo que não tivesse andado por mais de trinta minutos desde o castelo até ali, já sentindo as pontadas nas costelas como se agulhas arranhassem-no por dentro.

Em uníssono, seus companheiros responderam-no:

— Olá.

— Vejo que você melhorou... Um pouco, ao menos.  Apontou Tadeo.

— O suficiente, eu diria, para derrubar mais uma ou duas cidades em nome do rei. — Respondeu Azai.

— Sozinho, sem dúvidas.  Brincou João, com um meio sorriso forçado. Azai retribuiu o sorriso e continuou:

— Onde estão os outros? Jéssica e Caleb, eu digo.

— Jéssica, assim como todos os outros cintilantes azuis, está muito ocupada. Muitos se machucaram durante a invasão e ainda agora há trabalho a ser feito. Quanto a Caleb: ele ainda está lamentando a morte de seu irmão. — Respondeu Miguel, direto como sempre. — Estávamos com ele até agora há pouco. Caleb ainda está muito deprimido. — Concluiu o mago.

— Entendo. — Disse o Comandante, levantando-se e perguntando: — E onde ele está?

Era uma enorme pilha pálida onde dezenas e dezenas de corpos foram jogados, indistintamente, e soterrados, nela contendo pedras empilhadas, espadas gretadas, partidas e enferrujadas, flores e outras memórias aos mortos. Haviam ali também, substituindo a antiga beleza alegre e verdejante do Lapidal, centenas de outros montes iguais aqueles.

— Sabe...  Disse Caleb, fitando o monte, com uma das mãos apoiadas na antiga lança de seu irmão. O íncubos estava com uma aparência horrível, como se ele fosse o verdadeiro cadáver ali, com olheiras enormes, fedendo a álcool e vômito, pálido e magro. — Eu sempre pensei que seria eu aquele a morrer primeiro. Eu sempre fui o palhaço atrapalhado, afinal, o "alívio cômico", enquanto ele era o certinho, quieto e aquele que sempre me corrigia...  Deu uma curta risada amarga antes de prosseguir: Lembro-me de quando nos alistamos no exército. Na época, estávamos morrendo de fome, eu e meu irmão, sabe. Trabalhávamos feito condenados, passávamos as noites em becos escuros e favelas suspeitas e lutávamos com outras dezenas de moleques para conseguir qualquer porcaria para encher a pança. Nosso pai era um mineiro, um lebromem, mas nossa mãe era uma súcubos, a filha de um ex-escravo, um liberto de quando aquele rei... Alguma-coisa Algum-número pôs um fim à escravidão baseada no preconceito racial.

— Josias II.  Apontou Azai.

— Isso, esse mesmo. Quando eu tinha uns dez anos, nosso pai morreu num acidente no trabalho, soterrado por toneladas de rocha e terra, e a partir daí nossa vida, que já não era das melhores, marcada por espancamentos e xingamentos constantes vindos dos outros garotos por causa do preconceito, transformou-se num completo inferno.

"Nossa mãe ficou doente de tanto trabalhar nas fábricas, mas não tínhamos dinheiro para os remédios e ela morreu. O governo tomou nosso lar e nós tivemos de ir morar nas ruas. Não conseguíamos empregos decentes por causa do preconceito, tendo de trabalhar quinze, dezoito horas por dia nas fábricas para ganhar quase nada... Foi então que Tiago, que na época tinha apenas treze anos, dois anos mais novo do que a idade necessária, alistou-se no exército. Ele disse que era a única forma dele subir na vida, que cuidaria de mim, mas, é claro, eu não o deixei fazer isso sozinho e me alistei junto. Eu tinha onze anos."

— Eu lembro. Na época, eu já era um Maioral e tinha uns vinte anos. — Apontou o Comandante um meio sorriso surgindo em seus lábios, as memórias voltando à sua mente. — O preconceito ainda era grande, os mais velhos tinham a escravidão e aquela besteira de "soberania racial" ainda na mente, e muitos descendentes de escravos alistavam-se ainda crianças, mas, bem, a idade mínima para o alistamento está mais para uma indicação, uma idade recomendada, e não uma regra.

— Pois é, e você sempre foi incrível. Na invasão à favela Santa Bela, na perseguição aos Caçadores do Deserto ou na Batalha da Última Praia, você sempre se destacou, Maio... Comandante. — Disse o íncubos, corrigindo-se quanto à patente de seu superior.  Já, nós, ao contrário do senhor, nunca fomos realmente incríveis. Não éramos fracos também, mas, bem...

— Isso não é verdade. Vocês foram todos ótimos soldados, você, seu irmão, Benjamim, todos. Lutaram ao meu lado incontáveis batalhas por mais de dez anos, nunca questionaram minhas ordens ou fugiram.

"Seu irmão foi um dos melhores lanceiros que eu já vi, empalando dois, três inimigos numa única estocada, sempre corajoso, nunca recuando, Benjamim era perfeito em missões de infiltração, rastreamento e combate furtivo, rápido e sábio em agir. Ambos foram bons homens. Ambos foram bons amigos. Nunca me esquecerei deles. — Azai sabia que não deveria demonstrar fraqueza frente a um subordinado. Mas, frente a um amigo...  Agora venha!  Disse o Comandante, limpando as lágrimas e voltando por onde veio, então acompanhado por Caleb. — Vamos convidar os outros e beber alguma coisa e, quem sabe, tomar algumas mulheres. Logo partiremos novamente e não sabemos quando vamos ter outra oportunidade para nos divertirmos ou mesmo quantos de nós nos reuniremos da próxima vez.

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