Capítulo: 25
Octávio
Octávio ao mesmo tempo que sorria orgulhoso por seu feito, não atrevia-se a tirar seus guardas da porta para seus aposentos no castelo. Passaram os dias, desde que voltara da visita ao vilarejo distante, observando da janela de seu quarto, ouvindo nos corredores e salas e jardins o fruto de seus esforços: inicialmente sussurros de empregadas e guardas ociosos e fofoqueiros aos cantos, breves indicações dos fatos entre as conversas, depois expressões de preocupação e desagrado, o assunto tornando-se mais frequente e evidentemente detestável, e finalmente o descontentamento chegando às ruas, a população agitando-se forçadamente pela raiva gerada do medo, fome, exaustão e pressão colocada sobre si, queixas e protestos surgindo e a criminalidade aumentando descontroladamente.
"Finalmente: o dia prometido" pensou Octávio, observando da janela a caravana aproximar-se da cidade. A espera chegara ao fim.
— Vamos. — Disse o vampiro aos seus guardas, deixando de seu quarto, seguindo para fora do castelo, para os principais portões da cidade.
"Pensando bem, aquela tempestade foi a melhor coisa que podia ter acontecido!", pensou Octávio.
A verdade era que Plateus, diferentemente de Tunextenso, não possuía um comércio vivido e agitado, ainda mais animado pela guerra. Na verdade, a guerra fora um golpe crítico contra a economia daquela província, contra a vida de todos naquelas bandas. Plateus tinha uma economia baseada na agricultura, no plantio, seu principal comprador a província de Tunextenso que, como Octávio percebeu durante a viagem entre as duas províncias, tinha um terreno rochoso e infértil, o Castelo Fedo comprando a grande maioria dos grãos produzidos ali, parte para consumo próprio, parte para a exportação.
E, com a tempestade recente, ainda numa época já próxima à colheita, todas as grandes plantações (ou seja, aquelas ao redor da capital da província; os vilarejos e cidadezinhas distantes sendo apenas uma fração na produção de grãos, servindo apenas como um pequeno complemento, mais importante na produção de gado ou no recolhimento de madeira ou, embora em muito pouca quantidade, minério de carvão) destruídas, a província encontrava-se em sérios apuros.
"Não para eles, porém" concluíu.
Ainda nesta situação, Pablo mostrou-se mais competente do que Octávio esperava ou desejava, o Representante Provincial rapidamente reorganizando as forças da cidade, contratando camponeses de vilarejos e pequenas cidades próximas e dividindo- lhes as tarefas com proficiência, logo as ruas começando a ser desimpedidas, as casas reconstruídas e a plantação, acima de tudo, replantada, a fim de ter a colheita não muito mais atrasada para a venda à Tunextenso. A fada era realmente um excelente governante.
"Isso era um problema".
Foi então que Octávio viu uma oportunidade, que talvez nunca mais fosse ter, a oportunidade de cumprir sua missão. Aceitara partir para aquele vilarejo ermo não para ficar fora do caminho de Pablo, assustado com as ameaças do homem, mas para ficar longe de seus muitos olhos e ouvidos que ele (assim como qualquer político decente) mantinha próximo a si, e usou desta oportunidade para enviar, por intermédio do informante de Fernando, o cocheiro, uma mensagem com dois pedidos ao Senador, pedidos estes que podiam determinar o destino de Pablo como Representante Provincial.
"Era".
Um dos pedidos baseava-se na ideia de problematizar, de agravar ainda mais a situação em Plateus, colocando Pablo numa posição difícil, sem escapatória, jogando o povo contra o Representante Provincial: Octávio pediu a Fernando, logo percebendo com que agilidade os cidadãos trabalhavam nos campos, lembrando-se também de sua conversa com Pablo, para que o Senador exigisse uma cota mensal maior de recrutas de Plateus, assim forçando o Representante Provincial a convocar um grande número de homens, diminuindo a mão de obra e atrasando o replantio, causando uma crise ainda maior a cidade, Plateus não produzindo o suficiente para vender para Tunextenso, criando dívidas à cidade, nem para suprir a necessidade de toda a província, a fome crescente e com ela a criminalidade também.
Quanto ao outro pedido, sua resposta acabara de chegar e Octávio avistara-a da janela de seu quarto, vindo na forma de uma grande caravana composta de muitas carroças e acompanhada de uma poderosa escolta por soldados da capital.
As lojas nas ruas estavam fechadas, as vitrines vazias e a comida das barracas e de vendedores ambulantes a preços absurdos. A situação na cidade parecia ainda pior do que logo depois da tempestade, quando as ruas foram obstruídas e os bueiros transbordavam com sua própria sujeira, quando os maiores problemas eram os telhados e cacos de vidro espalhados sobre as lajotas no chão.
Então, porém, depois de dois meses, os impostos altos, a comida escassa, uma impiedosa convocação militar diminuindo a quantidade de guardas e de mão-de-obra para os reparos ainda necessários aos estragos gerados pela tempestade, a bela cidade de Plateus (mesmo que o vampiro jamais a tivesse visto em seu auge, já tendo sido, de fato, bela), encontrava-se deplorável, mais próxima a uma grande favela ou campo de refugiados.
Octávio, mesmo que desconfortável, optou por dirigir-se aos portões principais da cidade de pé, e sua guarda também às sua ordem, mesmo que apenas uma porção dela o acompanhasse naquele momento, o vampiro visando sempre uma boa impressão a população. Não que os cavalos do castelo fossem maltratados ou estivessem magros, como se também afetados pela crise, ou que a viagem fosse curta demais para ir montado, mas era justamente por isso que ele optou por andar a pé: sair por aí numa cidade faminta com um animal tão bem alimentado, penteado e forte causaria a impressão contrária àquela que ele desejava. Ser seguido por uma escolta grande demais causaria, também o mesmo efeito (mesmo que sua escolta tivesse insistido em acompanhá-lo com pelo menos sete homens, Octávio permitiu, por fim, acompanhar-se de quatro deles), embora Octávio não negasse os perigos a espreita ali (a maioria deles causada por ele próprio, sabia, orgulhosamente... ou ao menos deveria).
Observar as mães e suas crianças todas esfarrapadas e magras o suficiente para suas costelas ficarem à mostra, de braços finos como gravetos, a maioria dos homens tendo deixado para trás a cidade e suas famílias ao partir para guerra, havendo ali ainda pouco mais que garotos jovens demais para alistarem-se, Octávio, viu-se esforçando-se a olhar sempre em frente, evitando fitar a miséria, sentindo, dentro de si, algo revirar-se.
Já era próximo ao meio-dia quando o vampiro alcançou os portões, "ótimo!" ele pensou. "Melhor que isso, impossível". Apenas dois soldados mantinham guarda ali e esperavam ansiosos por Octávio. Cumprimentaram-no quando ele aproximou-se, batendo continência.
— Meu bom senhor Octávio de Pessos, como nosso mensageiro avisou-lhe, um grupo, uma caravana guardada por soldados vinda da capital espera do lado de fora da cidade, senhor. Aquele que diz liderá-la pediu uma conferência com o senhor.
— É claro, meu bom senhor, e, por favor, deixe este homem entrar! — "Na verdade, eu não esperei mensageiro nenhum, vi essa caravana da janela de meu quarto, ainda quando ela era apenas uma mancha no horizonte e já me apressei para vir para cá..."
Os guardas apressaram-se em abrir os portões, puxando uma grande alavanca dentro de uma das torres de vigia, engrenagens giraram, a corrente foi estendida, o portão baixou-se e logo um pequeno goblin adiantou-se por ele cidade adentro.
— Octávio, meu amigo! — Disse Cézar, abraçando o vampiro, sorrindo. — Fiquei sabendo de sua situação aqui. Fernando me contou. Deve estar sendo difícil. Mas não se preocupe! O Senador me mostrou também sua carta, seu pedido de ajuda, e me instruiu a vir ajudá-lo, embora, é claro, eu próprio já estivesse prestes a me voluntariar para isto!
"Perfeito. Realmente Senador, como o esperado do homem em qual eu coloquei minha fé! A ingenuidade de Cézar apenas deixará tudo mais convincente".
— Entendo, isso é excelente, mesmo, e eu também senti sua falta, meu amigo, mas não há tempo a perder. Se você leu minha carta, deve saber da situação em que esta cidade se encontra. Não devemos perder mais tempo, um segundo sequer! — Respondeu Octávio. Voltando-se aos guardas que abriram os portões, concluiu imponente, sem dar espaço em sua voz para questionamentos, "não que eu ache que algum deles queira impedir isto, na verdade": — Estes homens, esta caravana passará!
— Não precisa me agradecer, minha boa senhora. Há alguém aqui, afinal, que realmente importa-se com seu povo. — Respondeu Octávio à lebromem idosa que cobriu-lhe de bênçãos e agradecimentos uma vez que pegou das mãos do vampiro um saco cheio de grãos, pão e carne e frutas secas.
— Não empurrem! Em fila! Há o suficiente para todos! — Gritava Cézar entre o entregar de um saco e outro, ao lado de Octávio, sobre uma das carroças, organizando a população que aglomerava-se na praça da cidade, os soldados que acompanharam-no durante sua viagem fazendo o mesmo enquanto distribuíam o carregamento das demais carroças. — Deixem as crianças, as gestantes e os idosos à frente! Há o suficiente para todos!
— Não precisa me agradecer, meu bom garoto, faço isso porque é o correto, porque é o que nós, políticos, devemos fazer, o que eu e os meus sempre desejamos fazer: ajudar o povo. — Respondeu Octávio, passando o saco a um garoto esfarrapado com não mais de dez anos de idade.
"'Isso, não precisa me agradecer, meu bom garoto, faço isso porque é o correto, porque é o que nós da reconquista fazemos, o que todos os políticos deveriam fazer, mesmo que, infelizmente, não seja o que realmente acontece, o que eu e os meus da do Partido da Reconquista viemos fazendo há tempos: ajudar o povo, diferente do Partido da Irmandade"'.
Aquele era o segundo pedido de Octávio, "'uma solução para os problemas 'causados pela má administração de Pablo'": uma caravana de comida fornecida pelo Partido da Reconquista (o que ficava bastante evidente com os símbolos nos sacos distribuídos e pintados nas laterais das carroças, o brasão de um pássaro verde em chamas, símbolo do partido) para distribuir ao povo faminto, o golpe final na liderança de Pablo.
"Há uma mensagem aí. Todos podem vê-la e compreendem-na, é evidente porém subliminar, e simples o bastante para até os mais idiotas captarem-na: 'fomos salvos pelo Partido da Reconquista! A irmandade é um péssimo partido!'".
"Qualquer um que estivesse familiarizado de fato com o sistema político do país poderia perceber sem dificuldade alguma um segundo ponto que lá estava: o repentino, absurdo e, aparentemente incoerente com a visão do Partido da Irmandade, aumento no recrutamento mensal ao exército Pablo, a origem de todos os problemas, ligando os pontos e chegando à óbvia conclusão de uma ordem vinda de cima, logo em seguida o partido rival ao do Representante Provincial enviando a milagrosa salvação..."
"Mas essa verdade é inexistente para essa gente, como a verdadeira causa desta guerra, por exemplo. Como cães abandonados, uma vez que eu os dê estes restos, esta 'solução', este remendo temporário, me seguirão, sempre contentes com este mínimo, ignorantes a verdade maior... E é por isso que devemos guiá-los, manipulá-los se necessário, da forma necessária, para além disto, para o futuro, devemos guiar o país ao progresso, e eu estou criando o caminho a este futuro" justificou-se Octávio, vendo-se forçando a pensar nisso e repetir este pensamento várias vezes a fim de esquecer o revirar dentro de si.
Não precisamos de agradecimentos, meu bom senhor, agimos pelo povo, como um governo deve ser. — Respondeu Octávio a um velho orc magricelo que mal conseguia erguer o saco de suprimentos, continuando com a distribuição de alimentos.
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