Capítulo: 24
Azai
Mais de trinta mil soldados entre atiradores, soldados montados (a maioria sobre os lombos de chacais-monarcas, apenas alguns poucos montados em cavalos e menos ainda nos camelos) e infantaria, e outros três mil cintilantes, as tropas dos magos contendo tanto os seguidores do sol quanto os das luas, e ainda outros dois mil canhões e balistas puxadas a por animais marchavam pelos campos, pelas plantações de trigo mortas e pela larga estrada que levava a Serenia, centro e capital da província de Serenia, uma das províncias crasirianas que estendia-se sob a sombra da Cordilheira Gris, terra das quais o vilarejo no alto das montanhas e a cidadezinha mineira, Berço, que Azai tomara faziam parte. E ainda assim, aqueles mais próximos ao Maioral-Mor, Caleb, Tiago, Tadeo, e então Jéssica, Miguel e João, estavam em silêncio, de humor sombrio, em luto porém ainda firmes, sabendo que não havia tempo para chorar, a próxima batalha já logo à frente.
Benjamim morrera e ainda assim, mal houvera tempo para cerimônias, logo toda a tropa ficando ocupada com a guerra, partindo em pouco tempo para a próxima batalha, aquela batalha. Os amigos próximos do sátiro enterraram-no, seu túmulo sendo em Berço, onde caíra, seu cadáver, como um soldado de baixa patente, sem retornando à sua terra natal, e disseram algumas poucas palavras enquanto despejavam a terra sobre o corpo, mas Azai sequer pôde comparecer no momento, estando ocupado discutindo planos de guerra, mesmo que sua mente e coração pesassem-lhe em sofrimento.
Além de Benjamim, outros sete soldados do grupo de vinte e um que partira à frente das tropas principais do Comandante-Mor sob as ordens do mesmo em investidas rápidas e precisas no território inimigo, liderados por Azai, também vieram a falecer no mesmo confronto. A guerra estava apenas começando a mostrar-lhes sua verdadeira face, Azai sabia, afinal, já experimentara situações parecidas.
— Lá está. — Comentou Azai, indicando a cidade que já adentrava o campo de vista.
A muralha da cidade era dourada azul e branca, com muitas canaletas, gárgulas e partes de metal brilhante refletindo a luz do dia claro que então era, possuindo vinte metros de altura e outros cinco de largura, constituída de grandes blocos de rocha e argamassa, pontilhada em intervalos regulares por milhares e milhares de merlões e outras tantas torres que, assim como a muralha (que estendia-se em frente a um grande e circular lago azul e límpido) e o castelo, tinham o formato de lua crescente. Por trás da muralha, viam-se erguer os telhados mais altos e a fumaça em filetes negros vindas das chaminés da cidade, e, ainda mais distante, o castelo, uma construção de escala grandiosa e indiscutivelmente linda, com paredes inteiras de vidro, detalhes em metal polido e brilhante intrincados demais para serem vistos de tão longe, além de possuir também aberturas que despejavam água em cachoeiras artificiais, as gotículas dispersas pelo vento formando arco-íris aqui e ali.
— ..Por que estamos atacando esse lugar e não o Censura? — Perguntou Caleb, que não conseguia ir contra sua natureza faladora por muito mais tempo ou deixar-se levar pela tristeza.
— É que que uma de nossas cidades foi tomada pelos crasirianos, Meia-Ponte, se eu não me engano. — Respondeu Miguel, direto.
— E dai? — Tornou a perguntar Caleb.
— Oras, isso é uma represália, o troco por nossa perda. — Respondeu-o então Tadeo, dando de ombros. — E uma tentativa de não sair no prejuízo, uma vez que não há muito o que saquear num forte do exército.
— Mas isso...! — Começou Caleb, aumentando sua voz, exaltando-se, até seu irmão, Tiago, interrompê-lo, antes que Azai o fizesse:
— Caleb, é o suficiente.
Quase no mesmo instante em que a discussão cessou-se, os tambores mudaram de ritmo, passando da ordem de "marcha" para a ordem de "proceder" e "dispersar" como havia sido previamente planejado e combinado pelos nove Maiorais-Mor e o Cintilante-Comandante na reunião estratégica de três dias atrás, quando estavam ainda em Berço. E, como o instruído pelos tambores e pelos gritos de ordens do oficiais daquela grande tropa, o exército dividiu-se em dois, metade seguindo para o nordeste, outra metade para o noroeste, dirigindo-se aos flancos da cidade. Azai levantou sua mão bem alto e, em resposta, Tadeo gritou ordens, o Maioral-Mor guiando então sua tropa junto da metade que seguia para o nordeste.
Antes de montarem a estratégia para a ofensiva, haviam sido enviados batedores à frente para avaliar a cidade e suas defesas, que retornaram com a notícia de que a ponte que cruzava por sobre o lago, levando ao único portão da muralha, havia sido destruída, provavelmente pelos próprios moradores. Grande parte dos Maiorais-Mor, incluindo o próprio Azai, votara então para que a cidade fosse posta sob cerco, vencendo os crasirianos pela fome, mas, de repente, chegara também, junto de um mensageiro exausto, uma mensagem do rei, que exigiu os resultados mais imediatos possíveis, o que forçou o exército a uma investida contra as muralhas sólidas, utilizando-se dos canhões e dos magos. Muitos não ficaram satisfeitos com o resultado, principalmente o Cintilante-Comandante, que via aquilo como apenas um risco desnecessário a se colocar seus subordinados, mas não havia mais o que ser decidido.
O ar estava pesado, corações acelerados e mãos suadas, mesmo os mais experientes dos soldados sabiam que desta vez as coisas seriam diferentes. Era uma batalha numa escala muito maior do que qualquer um daqueles soldados já haviam enfrentado uma vez sequer em suas vidas, provavelmente várias milhares de pessoas morreriam em ambos os lados do confronto que estenderia-se durante horas e horas, talvez dias de combate intenso. Pesando nisso, Azai apertou o cabo de sua nova arma, uma alabarda que saqueara de um dos cadáveres de Berço.
Sim, além de fiéis subordinados e um amigo próximo, o Maioral-Mor havia perdido também um outro bom companheiro: seu machado. A arma havia caído junto do cadáver no qual prendera-se sobre as chamas de uma casa que era incendiada e sua lâmina fora destruída após horas sob o calor intenso, não sobrando nada do antigo, porém de boa qualidade, praticamente nunca ficando cego, machado, apenas as cinzas do cabo e uma massa disforme de aço.
Não houve demora para circundar o lago, a tropa movendo-se determinada e rapidamente, liderada pelo ogro e Maioral-Mor Joel, posição determinada com antecedência na reunião estratégica, que era acompanhado por Azai e mais outros dois Maiorais-Mor, além do Cintilante-Comandante. Fora somente quanto já aproximavam-se da muralha quase o suficiente para iniciar o ataque, que um Tadeo notou:
— Não há muitos poucos cintilantes conosco? — Sussurrou o tigromem a Azai. Naturalmente, Tadeo estava a par do grosso quanto a estratégia e sabia o suficiente, mas não possuía conhecimento dos detalhes, já que, por conta de sua baixa patente, não participara de todas as reuniões em Berço.
— Sim. — Respondeu Azai, sussurrando de volta. — De fato, a maioria dos cintilantes amarelos acompanham a tropa do oeste, mesmo que o número de cintilantes azuis tenha sido dividido igualmente para cada parte do exército. — Respondeu Azai.
— E a que isso se deve?
— Isso deve-se a minha presença deste lado. — Respondeu então o Cintilante-Comandante, intrometendo-se na conversa.
Logo em seguida, o ritmo dos tambores tornou a mudar, Joel passando as ordens para seu subordinado imediato, que as repassava aos berros para os tamboristas. As fileiras de soldados organizavam-se e todas as conversas, brincadeiras e risadas (forçadas) cessaram-se, ouvindo-se apenas os passos e respirações de homens e animais, o tilintar das armaduras e o tamborilar que ditava a formação da tropa, quando o velho completou, trocando olhares com Joel, que assentiu levemente com a cabeça:
— E está na hora de eu mostrar o porquê disso.
O Cintilante-Comandante Adriel montava num chacal-monarca negro armadurado com peças de aço douradas que contornavam-lhe suas formas, e usava, além de sua máscara, que era diferenciada das dos demais magos por um par de chifres, e das muitas camadas de tecidos negros, uma armadura dourada, moldada de forma que parecesse estar em chamas, formas sinuosas subindo de seus ombros peitoral, grevas e manoplas.
Adriel era apenas uma patente superior a Azai, mas trajava-se como um Patrono-Comandante-Mor (patente mais alta dentro do exército namoriano), de longe o indivíduo mais imponente daquele exército, demonstrando um ar totalmente diferente dos Maiorais-Mor de aparência bronca que vestiam-se desiguais com apenas algumas poucas peças avulsas de aço a mais que seus subordinados, partes delas saqueadas de cadáveres, a única semelhança entre eles sendo a braçadeira vermelha que identificava-os a todos como aliados. Porém, é claro, ele era um cintilante e em Namória, assim como na maioria dos outros países, os magos eram tidos como o topo das divisões militares, a elite da elite.
Ainda assim, mesmo como um veterano de incontáveis batalhas, Azai nunca vira um mago lutar realmente, embora já tivesse visto os cadáveres que Miguel deixara para trás na aldeia nas montanhas, e a destruição causada pelo mesmo mago na missão posterior a esta. Vendo o mago avançar à frente das tropas, sob a luz do dia que fazia sua armadura brilhar como o próprio sol, o Maioral-Mor não pôde deixar de sentir-se curioso se ele conseguiria mesmo cumprir com o que prometera na reunião estratégica. Com tudo o que tinha aprendido sobre a magia até então, descobrira que os magos eram muito mais próximos a pessoas normais do que imaginara e que mesmo aqueles poderes estranhos não eram onipotentes, afinal. Deveria ser impossível para aquele velho fazer qualquer coisa sozinho para aquela muralha que erguia-se a sua frente...
E, erguendo as mãos de forma dramática, Adriel, já sob o alcance dos atiradores das muralhas e bastante próximo a esta, criou, diferentemente de Miguel sem um grande estardalhaço luminescente porém com um barulho equivalente a um trovão, como o disparo de um canhão, o ar levantando altas nuvens de poeira aso céus enquanto deslocando-se, com apenas um leve cintilar azulado, três mãos de aço que instantaneamente cercaram-o de três direções, a esquerda, a direita e sobre sua cabeça, deixando sua visão da frente e da muralha desobstruída ao mesmo tempo que protegiam- o dos disparos vindos do alto, a estrutura simples que surgira num piscar de olhos protegendo, impenetrável, o velho de uma chuva de flechas, setas, munição e bolas de canhão vindas do topo da muralha. Sem perder mais tempo, Adriel continuou sua investida,apontando as mãos à parede, o enorme obstáculo a sua frente, e conjurando o próximo feitiço.
Do chão, escamosas, cilíndricas e enormes, como torres infinitas que erguiam-se aos céus, negras serpentes de ferro surgiram e dispararam a toda velocidade contra a construção que cercava a cidade, chocando-se a parede enquanto perfurando-nas com suas pontiagudas e cumpridas presas, como enormes arites atirados a um portão, girando-se, contorcendo-se a rocha, continuando a penetrá-la, espalhando grandes fissuras enquanto derrubando os segmentos da muralha. As serpentes retorciam-se dentro da muralha, quebrando-a cada vez mais. Dezenas delas.
Quando já vermelhas, incandescentes, soltando nuvens de vapor, como se tivessem saído das chamas de uma forja, por conta do atrito, atacavam o ponto da muralha sob a visão do mago, revirando e penetrando a construção. Não tardou até uma sessão inteira da muralha vir abaixo numa nuvem de centenas de metros de poeira e chuva de escombros, que engoliu, num instante, o mago e encobriu todo o exército namoriano.
— AVANÇAR! — Ordenou Joel, sem esperar esperar um segundo sequer, sem perder tempo ao fazer que seu subordinado imediato repassasse as ordens, tirando seus homens do estado de pasmidade que estavam, boquiabertos enquanto surpresos com o poder do Cintilante-Comandante, forçando-os a correr em direção à abertura que surgira na muralha derrubada.
Mesmo com toda a destruição causada por Adriel, a passagem para os namorinos não tinha mais do que cinquenta metros, notou Azai, enquanto sobre um chacal-monarca à frente de sua tropa. Aquele fora o real motivo da divisão do exército, ele sabia: um espaço de cinquenta metros teria de servir para mais de dez mil homens, caso estivessem todos juntos. Seriam demais afunilados e os números então seriam irrelevantes, nesse caso.
— POR NAMÓRIA — Berrou o Maioral-Mor, como sempre fazia em batalha.
— PELO REI!
Em segundos sua montaria já tinha escalado os destroços da muralha, onde viam-se aqui e ali os cadáveres daqueles lentos demais para escapar do ataque das serpentes de aço de Adriel, e saltado para dentro da cidade, onde já haviam conflitos por toda a parte, os soldados crasirianos tentando cercar os namorianos, impedindo seu avanço, começando a erguer uma barreira de escudos frente à tropa da Aliança Vermelha. Soldados trocavam golpes e tiros a torto e a direito, os corpos empilhavam-se, a poeira grudava na pele úmida de suor e sangue, gritos de dor e de homens ensandecidos pela batalha ecoavam por sobre o tinir do aço batendo em aço, e a típica carnificina bárbara e impiedosa prosseguia.
Tentando romper o bloqueio que se formava na passagem, a guarda da cidade reunindo-se para empurrando os namorianos com seus escudos e armas de volta à fenda aberta na muralha, Azai incitou seu chacal-monarca contra o meio dos inimigos. O animal provou então que não era uma montaria de guerra por acaso e que não era apenas sua aparência que deveria ser temida rasgando a garganta de dois soldados enquanto arremessava outros três para longe com coices ou abatia-os com golpes de suas garras afiadas. Sem perder para o animal, o Maioral-Mor agitou sua alabarda para sua direita, num semicírculo horizontal, cortando duas gargantas, e depois numa estocada para a esquerda, perfurando através do peitoral de um inimigo, alcançando seu coração, e mais uma vez para a direita, então num golpe diagonal, cortando fora o braço de um crasiriano e depois a parte superior de sua cabeça.
O bloqueio fragmentava-se enquanto os crasirianos eram mortos ou fugiam assustados, e logo a tropa de Azai pode continuar seu avanço, permitindo a entrada de mais e mais soldados na cidade, que espalhavam-se por todos os cantos. Azai liderou seus homens numa linha reta, seguindo por uma rua larga que era ladeada por altas residências e lojas, dirigindo-se diretamente para o castelo. Não demorou para depararem-se com outros inimigos, que bloqueavam o caminho com seus escudos erguidos e suas cumpridas lanças apontadas contra os invasores.
Nem o Maioral-Mor nem o chacal-monarca deixaram-se intimidar pelos oponentes, continuando a avançar a toda velocidade à frente dos subordinados de Azai, ambos urrando e berrando, havendo até certa confusão em distinguir quem era o animal. A montaria conseguiu desviar-se facilmente das lanças e jogou-se, empurrando, usando de todo seu peso e da alta velocidade em que estava, contra os escudos erguidos, derrubando vários inimigos. Com oponentes muito próximos e de ambos os lados, Azai sacou um de seus revólveres com a mão esquerda e descarregou-o para a mesma direção, sem nem mesmo mirar direito, abatendo dois crasirianos e ferindo mais um, enquanto com a mão direita brandia a alabarda com habilidade, decepando membros, cortando gargantas e atravessando corações, matando outros cinco inimigos. Com a chegada de seus companheiros, os crasirianos ao seu redor distraíram-se, voltando sua atenção para aqueles que avançavam e trespassavam a barreira de escudos pela brecha deixada por Azai, mais uma vez quebrando a formação dos crasirianos. Porém, desta vez, os inimigos não deixaram-se abater com facilidade ou fugiram enquanto deixando suas armas caírem ao chão ou implorando por suas vidas.
Entre ataques a esquerda e a direita, o Maioral-Mor viu Caleb brandindo a lâmina curvada de sua cimitarra em golpes em ágeis golpes vindos que, para seus inimigos, pareciam vir de todas as direções. Viu Tiago atravessando dois oponentes de uma vez só com sua lança longa e deixando-a fincada lá enquanto sacando sua espada bastarda e prosseguindo com a matança, viu Tadeo, montado em seu Cavalo, abatendo seus oponentes um após o outro com golpes precisos de sua alabarda, que girava e movia-se cortando o ar como um borrão vermelho, já encharcada de sangue, viu João, com movimentos rápidos e precisos, disparando flecha após flecha em tiros certeiros, viu Miguel separando a metade superior de um inimigo da inferior com seu machado de duas mãos, enquanto, ao mesmo tempo, conjurava feitiços que protegiam-no e abatiam vários outros crasirianos, e viu Joel, que aproximava-se de sua tropa enquanto cercado pela própria, sendo pego numa emboscada dos crasirianos, que reconheceram-no como líder, e surgiram de repente nos telhados das casas, empunhando rifles, revólveres, bestas e arco e flechas, visando a vida do Maioral-Mor responsável pela invasão da cidade.
Incitando o chacal-monarca na direção de Joel, Azai rapidamente alcançou seu líder e jogou-se sobre este, derrubando-o de sua sela enquanto os disparos dos inimigos transformavam seu cavalo numa pilha sangrenta de geleia vermelha.
— Obrigado, homem! — Agradeceu Joel.
Como um soldado tão experiente quanto o próprio Azai, o ogro não perdeu mais um segundo sequer em procurar proteção contra os disparos inimigos, jogando-se contra a porta de uma casa próxima, arrombando-a e seguindo, furioso, escada acima atrás daqueles que tentaram matá-lo.
Percebendo que os emboscadores recuavam apressados uma vez que sua investida falhara, Azai retornou a seu caminho, surpreendendo-se ao deparar-se com seu chachal-monarca, sua montaria, completamente ilesa, ainda que muitos outros soldados e animais tivessem caído, sem vida, pegos pelos disparos, a todo seu redor.
Subindo em sua sela, empinando sua montaria, já coberto de sangue e surdo aos gritos ao seu redor, Azai apontou sua alabarda para o castelo e prosseguiu, ensandecido, o sangue em sua cabeça preenchendo-lhe seus pensamentos com matança.
Quando o Maioral-Mor e sua tropa alcançaram a praça em frente ao castelo, Azai já empunhava um machado longo de duas mãos, o cabo de sua alabarda tendo a muito quebrado, a arma ainda fincada no peito do último homem que matara (o que fazia-o apenas irar-se ainda mais quanto à perda de seu machado de guerra uma mão). Outras tropas juntavam-se na praça em forma de lua crescente, vindos de várias outras ruas, saindo também de becos e portas e janelas das casas que saqueavam.
Além de um chafariz brilhante e uma série de postes de luz a óleo e alguns bancos e barracas de vendedores, a praça era bastante vazia, um lugar de aparência simples para uma cidade que mostrou-se até então tão exuberante. Mais à frente, um fosso cheio d'água separava o castelo do resto da cidade, impedindo o progresso do exército.
Os soldados reuniam-se, já começando a discutir ou voltando-se para o saque, quando uma chuva de flechas e munição caíram sobre eles, vinda de um milhão de janelas e seteiras que surgiram de repente no castelo, muitas das paredes de vidro deste tendo sido quebradas para possibilitar os disparos, além das bolas de canhão que vinham de bocas de gárgulas, blocos de pedra e calhas de metal polido que eram deslocadas de repente e davam espaço para as armas. Azai incitou sua montaria de volta para o interior da cidade, percebendo então o porquê da falta de qualquer grande construção na praça enquanto buscando proteção para si e seus homens, ao mesmo tempo que os outros Maiorais-Mor agiam como ele.
Azai já pensava numa estratégia, numa forma de aproximarem-se do castelo sem serem imediatamente massacrados pelos atiradores e de trespassar o fosso, quando ouviu a ponte levadiça do castelo baixar rapidamente, sua extremidade chocando-se com um estrondo de encontro com o outro lado do poço, o barulho seguido imediatamente pelos berros de soldados prontos para a batalha e do trotar de suas montarias que avançavam em busca de seus inimigos. Era um ataque suicida, um último golpe do povo da província de Serenia, ele soube na hora, mas não havia tempo para admirar a bravura (ou idiotice) daqueles homens: ainda haviam muitas mortes reservadas para aquele dia.
De volta à praça e ao conflito, o Maioral-Mor e sua tropa investiram contra aqueles suicidas ensandecidos e coléricos, que, além de mostrarem-se num número muito maior do que Azai imaginaria que estivessem (aproximadamente seis mil), atacavam com uma ferocidade sobrenatural, sem medo e com força e vigor, aparentemente, ilimitados, o que fez o Maioral-Mor lembrar-se das histórias dos feitiços que o Golem lançara sobre os soldados namorianos há mais de setenta anos atrás.
Em meio ao combate, Azai, mesmo com suas incríveis habilidades perceptivas, não conseguiu sentir o golpe vindo em direção a suas costas, uma vez que ataques e mais ataques vinham de todas as direções e o caos reinava no campo de batalha, seus instintos sendo confundidos. Fora derrubado de sua sela por um golpe de martelo de guerra, que, sentiu o Maioral-Mor, quebrou-lhe algumas costelas.
Ao chão, sem ar e agonizando de dor, Azai observou impotente, sua visão turva pelas lágrimas que enchiam-lhe os olhos, o momento exato em que o mesmo martelo de guerra que acertara-o esmagava o crânio de Tiago de uma vez só, transformando a cabeça do íncubos numa geleia vermelha, espalhando seus miolos para todos os lados, seu corpo caindo sem vida imediatamente após o golpe.
— Tia...! — Tentou gritar o Maioral-Mor, sua voz lhe falhando porém, Azai não conseguindo emitir mais do que um ruído deplorável por sobre sua própria dor.
O portador da marreta era uma aberração, uma mutação raríssima, praticamente num nível impossível de absurdidade a respeito de suas características herdadas. Era um mestiço (como a maioria esmagadora de todas as pessoas de toda a Asatna eram), muito alto e forte porém as normalidades cessavam-se por aí, pois ele herdara as características de não apenas um (como geralmente acontecia) de seus parentes, nem dois (como raras vezes acontecia), nem de três (como foram registradas pouquíssimas vezes em toda a história), mas de quatro deles: tinha o corpo de um ogro, asas de vampiro, chifres de um draconiano e o exoesqueleto de um fantasma. Mal vestia algum aço como proteção além de suas simples grevas, empunhando, de peito desnudado, seu martelo de guerra.
O mestiço deformado berrava e brandia seu martelo como um animal que parecia, sua aparência sendo o suficiente para afugentar qualquer oponente. Ele e prosseguiu na direção de Azai, com olhos vidrados, e o namoriano tentou recuar arrastando-se no chão, fugindo para qualquer lugar longe daquilo, procurando seu chacal apenas para encontrá-lo caído, espetado por uma dúzia de lanças metros à frente. O Maioral-Mor jogou-se de costas contra um corpo morto de um cavalo, ficando de frente para a coisa horrenda que aproximava-se, encarando-a em desespero, forçando-se a pensar em qualquer coisa que pudesse ajudá-lo.
Somente quando o mestiço deformado ergueu seu martelo sobre sua cabeça, pronto para descer sua arma contra Azai, sorrindo de forma horripilante, que o Maioral- Mor sacou o segundo revólver e descarregou-o contra seu inimigo, atingindo-o em cheio com todas as seis balas. Mesmo assim, surpreendentemente, o mestiço deformado não morreu, caindo de joelhos com os ferimentos jorrando rios de sangue, partes de seu exoesqueleto destruídas pelos disparos, e tornou a pegar no cabo do martelo que, com os tiros, deixara cair.
— PELO REI! — Berrou mais uma vez Azai, tirando forças sabe-se lá de onde para ficar de pé e jogar-se contra seu oponente, ignorando a dor que rasgava-lhe a alma causada pelo osso quebrado.
Os dois feridos e cobertos de sangue, tanto o seus próprios quanto os daqueles que eles mataram, engalfinharam-se, trocando socos, cotoveladas e chutes. Azai espremeu os olhos do mestiço com seus polegares, uma vez que estava por cima do oponente, apenas para ver-se jogado metros para trás por um soco vindo do mesmo.
Ambos ficaram de joelhos e voltaram a se atacarem, o mestiço deformado ficando agora por cima de Azai e tendo vantagem por conta de seu peso superior, desferindo-lhe um, dois, três, quatro socos, antes do Maioral-Mor atingisse-lhe sua têmpora com uma pedra, um pedaço de destroço que conseguiu por as mãos. Com a cabeça sangrando e atordoado pelo impacto, o mestiço não conseguiu defender-se do próximo golpe, a rocha indo mais uma vez de encontro à sua têmpora, dessa vez o ataque jogando-o contra o chão, morto ou desmaiado, mesmo que para Azai, naquele momento, isso não importasse realmente, afinal, o Maioral-Mor continuou batendo e batendo e batendo, até não sobrar mais da cabeça do mestiço deformado do que uma geleia vermelha, como acontecera com Tiago, só então Azai permitindo-se ceder ao cansaço que pesava-lhe as pálpebras, tendo a impressão de ouvir a voz de Tadeo chamar-lhe enquanto deixava-se cair ao chão, que então parecia-lhe tão confortável:
— Azai! Azai...! ...!
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