Capítulo: 23
Álex
A água fria escorria pelo seu rosto e pingava do seu queixo, sua imagem, então abatida, sendo refletida naquele riacho límpido. Álex via-se com grandes bolsas arroxeadas sob os olhos, olheiras, marcas de seu cansaço e estresse, o cabelo, que até então fazia questão de manter sempre bem penteado, um monte arrepiado repleto de nós e sujeira, e alguns pelos soltos sobre o queixo, bochechas e pescoço, uma pelugem rala e desigual que brotava-lhe a face. Suspirando, cansado de sua imagem refletida que, embora ele ainda tivesse apenas dezessete anos, era velha e cansada, o rapaz voltou caminhando para sob as raízes onde ele e sua amiga haviam levantado acampamento. Uma fogueira ardia a apenas alguns passos das desconfortáveis camas improvisadas que haviam montado, em frente à grande árvore que estendia-se a quase cinquenta metros sobre as cabeças dos jovens. Não houve necessidade de levantarem ou apoio para as paredes ou construírem um telhado para o abrigo, tendo apenas de apoiarem algumas das largas folhas de algumas das plantas da região sobre as emaranhadas raízes da árvore, que eram altas o suficiente para um elfo comum andar de pé sob e montavam uma proteção natural contra as chuvas que eram tão frequentes ali, enquanto escavavam o solo.
Sobre as chamas da fogueira, exalando um cheiro pouco agradável, na verdade, porém, com o estômago vazio como estavam, parecendo àqueles jovens uma dádiva divina, espetado num galho, assava-se um único sapo, que serviria de almoço para os dois, Álex e Miranda. Fugir mostrara-se mais cansativo do que imaginavam, tendo de correr e saltar durante horas, embrenhando-se cada vez mais no interior da mata, que tornava cada vez mais difícil a locomoção, ambos tendo de evitar também quaisquer aberturas entre as copas das árvores e outros espaços abertos aos céus, por onde o grifo poderia atacar-lhes, afinal, toda aquela floresta era a área de caça do monstro, o que deixava-lhes ainda mais famintos.
Na verdade, nunca haviam sentido tanta fome em suas vidas. Um outro problema apresentou-se então no momento de recolher alimento. Não traziam consigo quaisquer coisas além das roupas do corpo e seus sacos de moedas, logo tentaram capturar, usando da magia, aves, macacos e outros e pequenos e médios animais que eram avistados por todos os cantos, mas falharam miseravelmente. Os feitiços eram barulhentos e criavam luz, fazendo os animais fugirem antes de qualquer coisa, os jovens nem chegando perto de obter sua carne, além de que usar a magia cansava-os tanto quanto correr, deixando-os ainda mais famintos. Certa vez, o estômago dando nós dentro de sua barriga, Álex tentara usar uma descarga elétrica para matar ou, ao menos, atordoar um alvo, mas descobrira então que não era possível ou ele não sabia como controlar a direção do raio, que, simplesmente, descendo ao chão quase que em linha reta.
— Bem, pelo menos, água tem em abundância aqui. — Disse o garoto, sentando-se em frente ao sapo que assava sobre o fogo, ao lado de Miranda. A garota não respondera, como vinha fazendo desde o ataque do grifo, apenas fitando as chamas com os olhos vermelhos, marcados pelas lágrimas, cabisbaixa. — Tem muitos animais também, só não sabemos como pegá-los. Para matar esse sapo, já foi um trabalhão... — Continuou Álex. — ...Viemos conseguindo sobreviver de insetos e animais que são lentos demais para fugir dos feitiços, mas e quem sabe amanhã? — Comentou, abraçando os joelhos, dando voz aos seus próprios pensamentos, quase como se falando apenas para si mesmo. — Não, nós vamos dar um jeito. Como fizemos até agora. — Concluiu o rapaz, mesmo que, para ele, aquelas palavras não significassem realmente nada.
Desde o ataque à caravana, simplesmente ocupara sua mente em sobreviver o hoje, não refletia sobre o passado nem pensava no amanhã. E nem queria pensar sobre estas coisas. Sabia que, na verdade, estava apenas fugindo.
O meio-dia veio e passou junto do almoço, e a tarde também, e mais uma noite caiu, a única refeição do dia, depois do sapo, sendo uma meia dúzia de cogumelos que Miranda reconheceu como comestíveis de sua aula de alquimia. A garota chorou sobre Álex durante quase uma hora na noite em que fugiram do grifo enquanto balbuciando quaisquer coisas inteligíveis a este, que supôs serem agradecimentos por ter salvo sua vida. As habilidades dela, porém, ali mostraram-se muito mais valiosas do que as de Álex, ela conseguindo tratar do braço quebrado do rapaz, mesmo que não com perfeição, utilizando de uma tala improvisada para botar o osso no lugar e imobilizar o braço, massageando-o e dando-lhe poções, sempre que conseguia por as mãos nos ingredientes necessários para fazê-las, para aliviar a dor. A pedido do próprio Álex, ela evitava usar sua magia de cura, que estimulava o corpo do rapaz a regenerar-se mais rapidamente, pois exigia muito da garota. Não era incomum, também, ela encontrar raízes, folhas, frutinhas e flores comestíveis naquela floresta.
Amanheceu, como muitas outras vezes já haviam amanhecido, tantas que o garoto já nem mais se lembravam do número, fossem dias, semanas, meses ou anos, e os jovens voltaram a caminhar. O chão da floresta era escuro, a maior parte da luz do sol bloqueada pelas copas das árvores, encoberto de folhas mortas, galhos quebrados, arbustos densos, raízes grossas e, não muito raramente, como Álex e Miranda vieram a descobrir poucos dias depois de perderem-se na floresta, cobras, aranhas, centopeias e outros bichos peçonhentos. No início, os jovens temeram-nos, mas com o passar das horas, mais um meio-dia chegando, a barriga vazia de ambos roncando e contorcendo-se de fome, passaram a olhá-los de outra forma.
Após intermináveis horas de caminhada por cima de raízes e troncos mortos, sobre o chão úmido da floresta, e através de muitos riachos e regatos, viram-se aproximando-se perigosamente das margens de um rio. Já iam dar meia volta, quando Álex avistou, bebendo da água do rio, um estranho e grande roedor. Uma capivara. Estava suja de lodo, parecia pouco apetitosa e, definitivamente, estava coberta de carrapatos e pulgas... Mas era grande e carnuda e, de qualquer forma, não tinha como ser pior que cobras, aranhas e vermes que vivam em árvores mortas.
Porém, a proteção das árvores contra os céus terminava muito antes das margens do rio e daquela presa. Uma vez que os sobreviventes da caravana deixaram os jovens para trás, Álex imaginou, esperançosamente, embora se sentisse envergonhado por isso, que o monstro perseguiria as carroças e aqueles que as conduziam, porém essa ideia logo tenha mostrado-se equivocada. Algumas horas depois do ataque a caravana, o grifo voltou a sobrevoar a floresta, pairando sobre as copas das árvores e piando com frequência, e assim continuou no dia seguinte e no próximo e em todos aqueles que vieram depois deste, até então. No início, o rapaz pensara que o monstro perseguia a ele e Miranda, determinado, com uma obsessão extrema, a exterminar aqueles que resistiram a seu ataque, ou que ele, de alguma forma, sabia que fora Álex que conjurara o minotauro, mas, quando escutou o alarde vindo da margem de um riacho próximo, identificando os piados do monstro e os urros do que quer que fosse sua vítima naquele momento, soube que aquela era, na verdade, a rotina do animal.
Forçou-se a lembrar-se das aulas de Estudo dos Monstros as quais frequentara para ter uma melhor imagem da criatura que desejasse conjurar, puxando a memória o grifo, concluindo que o monstro tinha seu ninho, ou melhor, sua torre de ossos (uma característica típica dos machos daquela espécie sendo empilhar os ossos das presas em seu ninho, até formarem altas torres pálidas de vários metros de altura, que atraíam as fêmeas, e o rapaz sabia que o grifo era macho por conta da coloração das penas e pelos, afinal, as fêmeas tinham elas de cor branca e castanha, enquanto os machos de cor branca e dourada) em algum lugar da Montanha Perdida e que proclamara toda a floresta como seu território de caça.
Normalmente, aqueles monstros não afastavam-se da Cordilheira Cinzenta, passando suas vidas inteiras nos picos mais altos, caçando bodes e ovelhas, usando de sua habilidade mágica, conjurando um feitiço com seu piado, que identificava o contorno de todo o território e os seres que nele estavam, que funcionava numa área de quilômetros, para acharem suas presas, porém a guerra deveria ter afugentado o grifo para longe da cordilheira, até ali, a última montanha ao oeste. Ainda assim, o grifo não deveria ter atacado a caravana, que era grande e constituída de muitas pessoas, Álex sabia, monstros raramente atacavam dessa forma, a menos que houvesse uma aproximação perigosa de seu lar ou filhotes, ou estivessem famintos, ou em época de reprodução... mas, enquanto nas montanhas mais ao leste o monstro sobrevivia com um bode magro por semana, muitas vezes tendo de competir com outros grifos rivais, ali, na floresta, deveria estar, usando de seu piado rastreador mágico, numa grande fartura, mais forte do que qualquer um membro selvagem de sua espécie jamais estivera e mais confiante também, sem dúvidas não querendo ser expulso de seu novo lar novamente por pessoas.
— Não. — Disse Miranda, encarando Áelx com um olhar firme. — Nem pense nisso.
— Se continuarmos comendo cobras e aranhas e vermes é só uma questão de tempo até nossos estômagos não aguentarem mais. — Retrucou o rapaz, tornando a olhar para a capivara, que, de tempos em tempo, levantava a cabeça, deixando de beber a água, e olhava de um lado para o outro.
— É só uma possibilidade! E estamos dando um jeito até agora, como você disse!
— Estas malditas nojeiras podem nos servir por alguns dias, mas, se continuar assim, logo vamos ter diarreia e nos faltará nutrientes! Além disso, também é só uma possibilidade do grifo me atacar, Miranda. — A garota não respondeu-o novamente, ficando simplesmente a encará-lo tensa, lágrimas já vindo-lhe aos olhos.
Apesar de suas palavras determinadas, Álex moveu-se relutantemente para próximo da margem do rio, sentindo o suor começar a brotar de sua pele de repente. A capivara não estava a mais de dez metros dele, mas o rapaz também não possuía plano algum. Já tentara atirar lanças conjuradas nos animais antes, mas, além dele próprio não ser um excelente atirador, os animais sempre fugiam, e também não queria atrair a atenção do grifo conjurando qualquer coisa muito grandiosa... Mas isto estava certo? De qualquer forma, o monstro podia localizar qualquer animal da floresta com seu piado, e ele já estava numa área sob o céu aberto.
— Que se foda. — Disse Álex, deixando a furtividade de lado.
Conjurando no limite de seu alcance, a quatro metros de distância, o mais rápido que conseguia, o que, ocasionalmente, resultou num barulho e clarão azul muito maiores que o normal, um chupa-cabra, um tipo de canídeo, um monstro parecido com um cachorro comum, porém com o dobro do tamanho de um cão, sem pelos e com três pares de patas, além de possuir também orelhas duas vezes maiores que a própria cabeça e três fileiras de longos dentes pontiagudos, como os de um tubarão. A marionete, enquanto ainda apenas metade conjurada, já disparava contra a capivara, que pôs-se a fugir, urrando de medo. A perseguição foi rápida, em cerca de cinco segundos apenas, e o chupa-cabra já estava com o animal debatendo-se entre os dentes.
— Isso! — Álex comemorou, disparando até a presa. Lá de trás, da orla da floresta, ele ouviu Miranda praguejando a respeito do estardalhaço que ele fizera, ansiosa, mas não prestou atenção em suas palavras, concentrado na capivara.
Foi então que, o garoto já a apenas alguns poucos passos do animal então morto, vindo de dentro do rio com uma explosão de água e um horrendo urro, um outro monstro surgiu, destroçando o chupa-cabra conjurado com um par de patas cascudas, como as de um cavalo, porém muito mais robustas e escamosas. Com a repentina aparição, Álex caiu ao chão, perdendo toda a força nas pernas, ouvindo Miranda começando a gritar, desesperada, às suas costas.
Aquilo que saltara de repente do rio era um hipocampo, Álex percebeu, um monstro meio crocodilo meio cavalo, com a parte traseira do corpo escamosa, espinhosa e com barbatanas, terminada num longo rabo, que ainda estava submerso, enquanto a parte superior lembrava a de um cavalo, porém sem crista e com a cabeça de um crocodilo.
O monstro do rio pegara a capivara morta com a boca e arrastava-se novamente para sob a proteção das águas e seu lar, mastigando a carcaça, estraçalhando-a em pequenas explosões de sangue e vísceras com sua poderosa mandíbula, prestes a engoli-la, encarando ao rapaz, quando Miranda surgiu, puxando Álex pelos ombros.
— Vamos logo! — Gritou a garota, com tanto medo e desespero quanto o próprio Álex. — Deixa isso para lá!
Tornando a olhar para o corpo semi-mastigado da capivara ainda na boca do hipocampo, sentindo-se decepcionado com a conclusão de tudo, que seu esforço fora em vão, e, ao mesmo tempo, envergonhado ao encarar sua amiga, Álex, de repente teve uma ideia, lembrando-se das outras caçadas recentes com resultados tão convenientes quanto aquela. Ele desvencilhou-se das mãos de Miranda, e saltou em direção ao hipocampo ou, ao menos, para próximo do animal, desviando-se de uma investida das patas dianteiras dele, mantendo-se fora de seu alcance, chegando a apenas um passo da água e, torcendo para que fosse poderoso o bastante, numa tentativa desesperada, conjurou uma poderosa descarga elétrica, um raio, enquanto berrando, ensandecido em sua tentativa desesperada de recuperar o alimento, e esticando a mão boa para cima do rio (embora isso fosse totalmente desnecessário).
Forçou-se a manter o raio pela maior quantidade de tempo que pode, apesar daquele feitiço custar-lhe bastante de sua reserva mágica, o barulho estrepidante da conjuração silenciando toda a floresta e seus habitantes selvagens e até mesmo o burburinho da corrente do rio. Instantes depois, exausto pelas recentes e apressadas descargas de magia, voltou seu olhar para o hipocampo, que estava ainda na mesma posição, porém então com os olhos virados para cima, fumaça levantando-se de sua pele e baba escorrendo em jorros da bocarra escancarada, que exibia a carcaça pendente da capivara.
Álex não acreditava que o monstro estava de fato morto, mas era sua oportunidade, uma que ele mesmo criara e não poderia perder. Somente quando pôs-se a avançar, cambaleante, na direção do hipocampo, percebera o quão cansado estava, mal conseguindo manter-se de pé, ofegante e coberto de suor. O monstro remexera-se, seus olhos voltando à clareza, enquanto ele próprio lutava para manter o equilíbrio.
— Não, não, não! — Disse Álex, vendo aquilo pelo que esforçara-se, sua chance, esvaindo-se frente a seus olhos, apresando-se apesar de que, a este ponto, não conseguia fazer muito mais que arrastar-se vergonhosamente.
Como uma flecha de gelo, veloz, Miranda então, todo seu corpo brilhando em azul, num salto que levantou uma nuvem de poeira de três metros ao ar e rachou o chão sob seus pés, chegou ao monstro as margens do rio, enfeitiçando o próprio corpo. Enquanto mal conseguindo controlar a tremedeira nas pernas, tão apavorada quanto qualquer outra pessoa ficaria em sua situação, cara a cara com um monstro, ainda que este estivesse lentamente se recuperando do ataque do garoto, a lebromem meteu a mão na boca do hipocampo e recuperou o cadáver semi-devorado da capivara, afastando-se do hipocampo tão rápido quanto aproximou-se.
— Vem, vamos embora rápido! — Disse Miranda, ajudando Álex em sua fuga, deixando aquele lugar junto do garoto.
— Me desculpe, não vou poder te tratar muito melhor hoje. — Desculpou-se Miranda, percebendo a dor e agonia vindas do braço quebrado do rapaz, que fazia-o suar frio e gemer baixinho, embora ele estivesse evitando expressar suas complicações. De repente, a garota pensou se não teria sido melhor continuar comendo vermes e animais peçonhentos ao invés dela ter exigido tanto de si para recuperar a carcaça.
— Não se preocupe com isso! — Respondeu Álex, forçando um sorriso. — De qualquer forma, valeu a pena. — Concluiu, olhando para a carcaça da capivara, que pingava gordura enquanto era assada sobre a fogueira, o rapaz sentindo a saliva inundar-lhe a boca com o cheiro exalado da carne.
— Talvez... — Concordou Miranda, pela primeira vez desde o ataque à caravana conseguindo sentir algo que não desespero, tristeza ou arrependimento.
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