Guerra A Ruína - Capítulo: 22

Capítulo: 22

Octávio


Quando Octávio concordou em partir numa visita a um vilarejo no extremo norte da província, percebeu a incerteza num arquear momentâneo de uma sobrancelha de Vincente, o mordomo-chefe que viera lhe entregar aquele convite de Pablo. Levara consigo toda sua comitiva, sua guarda armada e até mesmo o cocheiro. Fora acompanhado também por outros doze soldados de Pablo, liderados pelo sub-chefe da guarda, Caio, como o Representante Provincial antes prometera.

Deixaram Plateus três dias atrás, a última visão da cidade por parte do comboio, antes deste seguir seu caminho pela longa e tortuosa estrada estreita, esburacada e cheia de poças d'água e pedras, sendo dos moradores reconstruindo suas casas e esforçando-se para replantar os campos, trabalhando arduamente, agilizando o processo de replantio na esperança de recuperar a colheita a tempo. Felizmente, durante o caminho não houve qualquer tempestade e Octávio pôde apreciar, pela primeira vez desde que deixara a capital, uma viagem tranquila e agradável, com a vista dos campos e colinas verdejantes que estendiam-se até os horizontes, embora não tão confortável quanto na cabine de um trem, ainda seco e em silêncio.

O vampiro já adentrava no vilarejo, observando-o passar pela janela da carruagem, percebendo como o lugar não era nada além do esperado, uma cópia idêntica das tantas outras centenas de vilas espalhadas pelo país: pouco mais de meia dúzia de casas baixas de madeira e rocha com teto de palha dispostas ladeando as únicas duas ruas que cruzavam o lugar, o único lugar que pudesse ser considerado um estabelecimento comercial sendo a taverna suja e impregnada pelo cheiro do mofo e da fumaça ("que, a propósito, vendia uma péssima cerveja, mas que possuía um frango assado de excelente qualidade"). Via-se também, aqui e ali, pequenas criações de galinhas, ovelhas, porcos e algumas vacas. Os únicos pontos que podiam ser destacados lá eram a casa do ancião, que possuía três ou quatro cômodos a mais do que as demais residências, além de um salão que servia de hall de entrada, sala de estar e sala de jantar, e o templo, que era a segunda maior construção do lugar, feito todo de rochas e argamassa com telhas de barro.

Uma vez que a carruagem estacionou, parando em frente a casa do ancião, e um dos acompanhantes da comitiva abriu a porta para Octávio, que desceu os degraus até o chão sorrindo simpaticamente ao velho que fazia uma saudação desajeitada a ele, ainda que isso não significasse muito para o homem que mal conseguia ficar de pé, mesmo com a ajuda da bengala, conseguindo exibir apenas uma leve inclinação da cabeça.

— Bem-vindo sejas ao nosso humilde vilarejo, meu bom senhor! — Disse o ancião, o íncubos, levantando a cabeça, dirigindo-se a Octávio com um largo sorriso, exibindo os poucos dentes amarelados, manchados por anos de fumo, que ainda lhe restavam, e mesmo estes já muito corroídos pela cárie.

"E quem não tem uma cárie ou outra? Digo, mesmo eu que escovo bem os dentes todos os dias não consigo evitá-las" pensou o vampiro, de repente questões sobre higiene bucal invadindo-lhe a mente. "A viagem foi agradável, mas vejo que estou ficando realmente entediado", percebeu, lembrando-se que desde que os primeiros boatos sobre a Ruína surgiram, sua vida vinha sendo, no mínimo, bastante agitada. "Não tenho escolha, tenho de ser paciente agora".

— Eu e, tenho certeza, toda minha comitiva, agradecemos por sua gentileza, meu bom senhor, ancião do vilarejo.  Respondeu o vampiro, fazendo uma breve saudação.

— Estamos sob seus cuidados.

Após a simples refeição na casa do ancião, que fora considerada pelos habitantes locais, porém, como um banquete, mesmo que contivesse apenas algumas carnes, queijo, pão e frutas, Octávio saíra rua afora, apreciando o ar noturno naquele lugar distante de qualquer poluição, da fumaça do carvão ou do fedor das multidões. A vista das estrelas, de tão afastado de qualquer lâmpada a óleo era maravilhosa, uma infinidade de pontos brilhantes e gigantescas nuvens multicoloridas distantes. Surpreendera-se também que, mesmo com a criação de animais, o mal cheiro fosse inexistente. Na verdade, os porcos eram bastante limpos, vagando pelos campos e fungando moitas, e não comendo e rolando em sua própria bosta, como o vampiro esperava que aqueles animais fizessem.

Percebendo que mais uma vez seus pensamentos desfocavam-se, Octávio suspirou e voltou a seguir ao templo. A construção era um grande retângulo, o interior iluminado por muitas velas presas em suportes nas paredes ou colocadas no chão, sobre o piso velho de madeira. Octávio não seguia a nenhuma religião, nunca nem sequer se questionara quanto às próprias crenças ou sentido ou origem da vida ou mesmo o que havia depois da morte, já que, como tudo que poderia obter eram suposições, considerava esta atividade apenas como uma perda de tempo, mas, ainda assim, surpreendeu-se com o templo.

Era voltado a adoração de Verdum, o deus das colinas, planícies e campinas do Nartlismo, uma religião originária daquelas mesmas bandas, mesmo que seus fundadores fossem desconhecidos. Possuía também, além do altar maior na extremidade oposta a da porta de entrada, outros altares voltados a outros deuses da mesma religião, mas as oferendas e velas aos pés destes não chegavam sequer próximos a Verdum. Não foram as oferendas, porém, ou os altares e gravuras sobres estes, nem o evidente capricho colocado naquela construção, ainda que aparentasse-se bastante rústica, que chamou a atenção de Octávio, mas sim o fato do único templo do vilarejo inteiro ser centrado em apenas numa religião.

Como um país fundado por ex-escravos, o principal valor da nação era a liberdade, o atributo sendo exaltado na política, economia e religião, todas as pessoas eram iguais perante a lei, não havia distinção de camponeses ou nobre (estes status sociais sequer existindo) nem quaisquer barreiras quanto ao amor (algo um tanto repudiado no mundo estrangeiro), todas as espécies eram livres e todas as religiões eram aceitas, contanto que não violassem a liberdade do próximo: "Independência e Isonomia" era a frase gravada sobre o brasão da bandeira de Nova Crasíria.

E, por conta disto, na capital, em Dentre-Flume, assim como haviam bairros comerciais, repletos de lojas de qualquer tipo que se pudesse imaginar, como a Rua Larga, ou bairros residências, dos mais ricos aos mais pobres, compostos de apartamentos, casas e mansões, como o Laborioso e o Lady, ou industriais, onde as empresas aglomeravam-se, soltando fumaça e produzindo mercadoria, como o Tormenta, havia um bairro voltado as culturas religiosas, uma extensa rua ladeada por templos e mais templos, muitos deles trazendo as crenças de países distantes ao oeste, além ainda de Crát, voltados a adoração de um ou vários deuses ou deusas ou santos ou criadores e várias outras denominações atribuídas as suas entidades sagradas.

Não passou-se muito tempo, Octávio observando os altares e suas oferendas, quando soaram, vindos lá de fora, passos de outro alguém. Não haviam janelas no templo, logo o vampiro não conseguiria, nem se tentasse, identificar aquele que aproximava-se. "Acalme-se, é somente aquele humano simplório... De qualquer forma, Pablo não me mataria agora. Estou bem longe, num lugar isolado, ele pensa que não posso fazer nada contra ele daqui" pensava Octávio, sentindo o suor frio brotar e escorrer por sua pele enquanto a preocupação crescia dentro de si conforme aqueles passos aproximavam-se cada vez mais. Quando as portas duplas do templo finalmente se abriram-se, porém, o vampiro viu-se suspirando de alívio, enquanto o cocheiro aproximava-se.

— Finalmente.  Disse Octávio, tentando disfarçar o alívio que sentiu quando vira o homem, direcionando a frustração que sentia por conta do medo do momento anterior ao cocheiro. — Você demorou.

— Desconfiariam se eu deixasse o salão logo depois de você, oras. E você me disse para vir em segredo.  "É verdade".  De qualquer forma, aqui estou eu, como meu bom senhor pedira. Então, o que deseja deste cocheiro?

— Em Tunextenço o informante me disse que você sabia para onde me levar, mas, supostamente, eu estava voltando para a capital para o povo daquele castelo, para levar a Fernando a notícia do êxito de minha tarefa. — Comentou Octávio.

— Não foi o que eu fiquei sabendo.  Retrucou o humano. Octávio encarou-o impassível, o silêncio estendendo-se tenso entre os dois. Desviando o olhar, cedendo, o cocheiro corrigiu-se: — Me pagaram ta bom! Duzentas ligas para me manter calado e levá-lo a Plateus, merda!

            —  Eu acho que você não está entendendo nossa situação, meu bom senhor: se você não for honesto comigo agora, nós dois podemos morrer.  A repentina ameaça e a recusa do vampiro em aceitar a justificativa do humano tiveram certo impacto no cocheiro, que recuou um passo para trás, aproximando-se da porta.

— O que você quer dizer com isso?  Perguntou o homem simplório, confuso.

— Fernando me enviou para Plateus para depor Pablo, cocheiro, mas aquela fada é mais esperta do que parece e descobriu nossa verdadeira intenção. — Ainda mais surpreendente que a ameaça anterior, a revelação daquela verdade assombrou o humano, que empalideceu e suou frio quando Octávio continuou:  Por isso eu fugi para cá, para me afastar do castelo de Pablo, onde está concentrado seu maior poder: seus esquadrões, que ele planeja usar para dar um fim em mim e em todos aqueles que me acompanharam! Consegui barganhar com Caio, oferecendo entregar a ele a posição que cobiça uma vez que eu tiver êxito: chefe da guarda, por isso ele ainda não mandou seus homens cortarem nossas gargantas... ainda. Como mercenários, não devemos confiar neles, é apenas uma questão de tempo até se voltarem contra nós. E, por isso precisamos de ajuda, meu bom homem, e só você pode trazê-la até nós!

— C... Certo, o que você quer saber? Eu conto tudo! — Respondeu o humano, desembuchando logo em seguida toda a história que Octávio sabia já a tempos. Ainda assim, o vampiro fez questão de ouvir a tudo, fingindo surpresa, tensão e empolgação nos momentos necessários, como uma boa plateia.

"Resumindo: 'Bla, bla, bla, trabalho fácil e oferta de dinheiro tentadora, bla, bla, bla, me tornei um informante de Fernando e devo relatar tudo sobre você para para ele'".

— Entendo... Não o culpo pelo que você fez, meu bom homem. — Disse enfim  Octávio, esquecendo-se de repente do nome do homem simplório, mesmo que ele o tenha revelado a minutos atrás.  Qualquer um teria feito o mesmo se estivesse em seu lugar... Mas, na verdade, estamos com sorte, pois isso apenas facilita as coisas! Sim, isso é nossa chance de sobrevivência! O que você deve fazer agora é enviar a seguinte mensagem a Fernando em meu nome:...

Mais tarde, Octávio, tudo o que deveria fazer sendo esperar, ficou fitando o teto de palha de seu quarto enquanto revisava mentalmente a conversa que teve com o cocheiro. "Se ele fosse um pouco mais inteligente que um dos cavalos que guia, teria percebido que eu disse que só ele podia trazer a ajuda para nós antes mesmo dele revelar que era um informante do Senador e eu fingir surpresa a isso..." pensou. "E se eu fosse mais inteligente, não teria cometido este erro", censurou-se. Suspirando, concluiu: "vai ser uma longa espera... Estou mesmo entediado".

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