Guerra A Ruína - Capítulo: 21

Capítulo: 21

Azai


A inconveniente tempestade havia surgido do nada, um tapete negro que cobrira o sol e desabara em água, ventos intensos e uma chuva de raios durante um dia inteiro, o que atrasou o progresso da tropa de Azai. Felizmente, a tempestade começara quando já estavam bastante próximos a base da montanha e não houveram acidentes. Então, porém, a pressa tomara conta do grupo mais uma vez e eles avançavam para o norte com as roupas ainda úmidas.

A estrada que guiava-os a Berço e ao destino da missão transformara-se num lamaçal e as montarias seguiam com dificuldade, tanto os cavalos quanto os chacais-monarca, deixando profundos sulcos no caminho e fazendo um barulho de sucção no processo. Os soldados já não estavam mais tão bem-humorados quanto durante a descida das montanhas e quase não haviam conversas. Foi quando, finalmente, Azai e sua tropa passaram a ver, ficando cada vez maior no horizonte, por cima da floresta à esquerda, um braço vindo das montanhas e estendendo-se mais longe do que qualquer outro, afundando sob as copas das árvores ao oeste. Atrás daquela elevação rochosa, em partes coberta de árvores, estava o Berço, sabia o Maioral-Mor.

— Paramos aqui por hoje!  Anunciou o Maioral-Mor, levantando uma mão e fazendo suas tropas pararem às suas costas.  Levantem o acampamento na floresta! — Completou, desmontando de um chacal-monarca e guiando o animal às árvores, enquanto seus subordinados faziam o mesmo, embrenhando-se no interior da floresta.

Muitos daqueles soltando suspiros de alívio tinham pernoitado sobre os lombos de suas montarias, como quando deixaram o acampamento do Comandante-Mor há tempos atrás, e de repente as conversas e brincadeiras voltaram a surgir, alguns percebendo que após tantas horas de caminhada suas roupas já estavam secas. Um descanso acalmou o coração dos soldados, mesmo que soubessem que aquela seria a última parada antes da batalha por vir, e, talvez, a última do resto da vida deles.

O acampamento fora montado a cerca de cento e cinquenta metros da estrada, as barracas erguidas, as fogueiras acesas (mesmo que houvesse tido problemas quanto a encontrar lenha seca), os cavalos amarrados e os turnos de vigia decididos. Os soldados juntaram-se ao redor das chamas jantando, jogando, apostando e conversando. Caleb, Tiago, Bejamim, Tadeo, Miguel, Jéssica e até mesmo João, que desde a última missão aproximara-se bastante daquele grupo, reuniam-se em frente a uma fogueira, alguns deles sentados em um tronco caído e outros em rochas, afastados do chão encharcado da floresta. Azai sentava-se numa pedra meia coberta de musgo no limiar da tremeluzente luz amarela e alaranjada das chamas, aproveitando sua refeição enquanto divertindo-se com seus amigos no que, para qualquer um de fora, pareceria apenas mais um encontro normal.

— E quanto a você, João, há uma mulher te esperando em casa? — Perguntou Tadeo, entre as colheradas que levavam o caldo da cumbuca à sua boca.

— É, há sim...  Respondeu João, um meio sorriso surgindo em seus lábios. — É uma baixinha irritante e arrepiada que vive se metendo em confusão, mas a forma como seus olhos brilham quando ela sorri... É simplesmente linda.

João era um orc careca e sem barba, de estatura baixa e magricelo se comparado aos outros de sua espécie, mas tão experiente e capaz quanto qualquer um de seus companheiros naquele momento, o corpo coberto de cicatrizes e os olhos cansados eram uma prova disso.

— Você deve mesmo ama-la muito. — Comentou Tadeu, compreendendo o significado das palavras de João.

— As baixinhas é que são boas! — Disse Caleb, sorrindo... num entendimento completamente diferente do qual os seus dois companheiros conversavam. — Sem dúvida você já deve estar morrendo de saudades! Mas, não se preocupe, amigão, ninguém vai te dedurar se você se consolar com qualquer garota agora, afinal! — Concluiu o íncubos, às gargalhadas.

O orc franziu as sobrancelhas com o comentário daquele soldado lerdo, trocando olhares com Tadeo, que simplesmente balançou a cabeça em negativo, sem jeito, como se pedindo desculpas.

— Sem dúvidas ela se tornará um mulherão.  Apontou Jéssica, terminando de tomar seu caldo.  E muito inteligente, diferente de um certo alguém.

— Que?  Perguntou Caleb, confuso.

— É claro. Como a mãe foi.  Completou João, com um grande sorriso.

— Heim?  Tornou a perguntar Caleb, ainda perdido na conversa.

Passaram-se alguns instantes a conversa seguindo enquanto o íncubos sentia-se cada vez mais por fora, os comentários que eram feitos apenas confundindo-o ainda mais, até que o Tiago, seu irmão, explicou-lhe do que se tratava, Caleb então corando e calando-se de uma vez.

— Mas e vocês dois?  Perguntou Azai, que vinha estando curioso quanto aos magos a algum tempo. — Vocês... estão juntos? Digo, ao tomarmos o vilarejo não vi vocês com ninguém. Entendo que há pessoas que repudiem o... — Pensou por um momento, procurando uma palavra polida o suficiente que substitui-se "estupro", antes de continuar: — Os abusos, e não tenho nada contra se vocês forem ambos desse tipo, mas, uma vez que ambos sumiram juntos, é um tanto suspeito seu relacionamento.

Os cintilantes entreolharam-se antes de responder em uníssono, cada um com uma sobrancelha levantada:

— Sim, estamos.

— Achei que vocês fossem irmãos!  Apontou Benjamim, surpreso.  Ou que dividíssemos o mesmo hobby como "apreciadores e degustadores de consumíveis conceituosos variados".

Jéssica gargalhou antes de respondê-lo:

— Não, é claro que não somos irmãos! — Suas risadas cessando aos poucos, completou:  Eu lhe garanto que nossos pais não têm nada a ver uns com os outro, certo? Bem, talvez algumas moedas de quando o Cintilante-Comandante me comprou, mas é só.

- Nem somos viciados.  Apontou Miguel enquanto já recolocava a máscara, na verdade, sendo um tanto desconcertante saber que ele só a tiraria quando fosse dormir depois disso, mesmo que Jéssica reclamasse do desconforto da coisa sempre que pudesse, sem suavizar as palavras como fizera o sátiro, mesmo que suas intenções não fossem realmente ferir o companheiro. Felizmente Benjamim, mostrava-se bastante tranquilo e bem sabia como funcionava a personalidade do cintilante, e sorrindo respondeu-o:

— Que pena. Já pensava ter encontrado alguém com quem compartilhar minhas experiências!

— Então... — Começou Azai, encurvando-se na pedra, retomando o assunto levantado por Jéssica com uma curiosidade repentina, reavivando uma pequena dúvida de algum tempo atrás.  Miguel, seu pai é o Cintilante-Comandante?

— Sim, ele é.

— E ele sabe que vocês se gostam, hein? Então é por isso que ele sabia onde vocês estariam e que estariam juntos na noite que fui até ele, ele conhece seu filho, afinal.

— Concluiu o Maioral-Mor era uma resposta simples, para uma pergunta simples, mas tirara-lhe do peito uma sensação incômoda, percebendo cada vez mais que os magos eram apenas pessoas, que o velho não tinha usado nenhuma magia obscura para encontrar aqueles dois naquela noite. Ou ao menos, ele pensou que havia retirado essa sensação incômoda, o que pensava ser mera curiosidade, do peito vendo-se apenas então deixando-a de lado... Como fizera no vilarejo, quando recebera sua segunda tarefa. Mais uma vez ignorando pensamentos desnecessários, resolveu que já era hora de dormir, o dia seguinte seria bastante agitado, afinal.  Bem, eu já vou para a cama. Boa noite para vocês.

Toda a tropa prendia a respiração num silêncio quase absoluto, dando-se de ouvir o farfalhar das folhas com a mais leve das brisas sobre suas cabeças, os estalidos dos passos de pequenos animais ao pisarem em galhos ou revirarem arbustos, o canto dos pássaros pendurados nos galhos e o burburinho do rio, mesmo que ele estivesse do outro lado daquele aclive. Esperavam pelo retorno de Benjamim e João, os batedores que Azai enviou à frente, para sobre aquele braço da montanha, para observar e tirar notas do alvo.

Os minutos passaram-se lentos, o tempo parecia quase parado, e, uma eternidade depois, os batedores voltaram. Azai, antes de qualquer um, primeiro ouviu os passos leves dos dois subindo o aclive, seus pés esmagando folhas secas, e só então as fogueiras surgiram no topo do monte de terra para desce-lo rapidamente logo em seguida. O Maioral-Mor levantou-se e aproximou-se dos batedores. Benjamim não perdeu tempo, relatando tudo:

— Uma muralha de madeira de oito metros cerca a cidade. Parece recente, como no vilarejo anterior, então é provável que planejem enviar reforços para cá. Contei trinta homens sobre as plataformas atrás da muralha e mais vinte, cinco estando em cada torre erguida nas extremidades da muralha quadrada. As torres erguem-se quase cinco metros acima das muralhas. Só consegui contar seis patrulhando pelas ruas, divididos em grupos de dois. Os inimigos vestem armaduras de aço (peitoral, capacete, grevas e manoplas) sobre cota de malha. Cada um deles carrega ao menos uma pistola, armados também com diferentes tipos de armas de curto e médio alcance, espadas, machados, alabardas, enquanto os da muralha e torres levam consigo um rifle e ou arco e flecha ou besta... Não parecem novatos e estão bem equipados, mas, como o senhor Maioral-Mor Noah nos informou, a notícia de nosso sucesso montanha acima não parece ter chegado aqui ainda, não esperam por um ataque.

Cinquenta e seis soldados inimigos. Era um número preocupantemente grande, mais que o dobro de sua tropa então. Normalmente, Azai liderava uma centena de soldados, mas com as missões urgentes que recebera uma atrás da outra, não havia tempo para reagruparem-se. Seus subordinados agitaram-se com as notícias e não foi para menos, a muralha era alta, dessa vez não podiam simplesmente saltá-la com a ajuda de um apoio, os números também não estavam a favor e haviam torres de vigia, o que dificultava a aproximação furtiva do grupo. Azai sabia, e seus soldados provavelmente também, que seria improvável todos saírem vivos dessa vez, ou mesmo que sequer tomassem com sucesso aquela cidadezinha, mas ainda assim tentaria, e esforçaria-se para diminuir as baixas o máximo possível. Precisava pensar no melhor plano...

— Miguel, aquele aríete que você disparou antes, acha que conseguiria usá-lo para derrubar essas torres de vigia? — Perguntou Azai, voltando-se ao cintilante mascarado. Miguel balançou a cabeça de um lado para o outro em "não", diminuindo as esperanças de Azai.

— Com aquele aríete? Não, eu não conseguiria... Mas posso fazer coisas muito mais incríveis do que um aríete. — Respondeu o mago, trazendo novamente a luz da esperança ao Maioral-Mor e sua mente pelejadora, Azai assentindo e virando-se então à outra cintilante de sua tropa, continuando:

— Jéssica, sei que esta não é sua função como seguidora da lua, um cintilante azul, mas...

Era noite. Esta foi a única parte do plano que ficara clara para Azai desde o começo: deveriam atacar de noite. O rio, de nascentes com origem nas montanhas, estava largo e gélido, ainda estava cheio por conta da tempestade, a água chegando à altura do pescoço de Azai em seu ponto mais alto, ele burburinhava e espumava contra as pedras. Nas margens, escondido sob os arbustos, meio enterrado na lama, o Maioral- Mor já não não sentia as pontas de seus dedos e, tinha certeza, muitos de seus soldados também não, observando os inimigos sobre as muralhas e nas torres, esperando, já a dez longos minutos, por... Bum! Por exatamente isso, por esta explosão.

De repente, uma das torres, a mais distante de Azai e dos outros soldados, a torre esquerda do norte, desabou numa chuva de estilhaços de madeira e chamas, as estruturas que serviam de suporte completamente destruídas por um tiro de canhão. Alguns dos que esperavam junto ao Maioral-Mor remexeram-se, mas Azai censurou-os com um olhar severo, que dizia para eles continuarem em suas posições. Eram soldados experientes, mas o frio congelante do rio e o nervosismo da batalha evidentemente desvantajosa tinha efeito em qualquer um. Sinos tocaram, ordens foram gritadas passos apressados subiram as muralhas e o fogo que consumia os destroços da torre começou a ser suprimido com muitos baldes d'água. Mesmo daquela distância, Azai podia ver a confusão e o medo crescente sobre os crasirianos, um canhão havia sido disparado contra eles mas não havia nenhum sinal de tropas inimigas, afinal.

Logo depois do assombroso sibilar que prenunciava o desastre, uma segunda esfera de ferro atingiu uma outra torre, a direita do lado norte da muralha, que cedeu como a primeira, mas, dessa vez, os inimigos haviam percebido algo, haviam notado um rastro ou sinal do atacante, os crasirianos aglomerando-se no lado norte das muralhas, incluindo os vigias nas torres também ao sul. Nesse momento, Azai deu o sinal, levantando a mão direita, cordas foram tensionadas, arcos apontados, e as flechas disparadas, indo ao encontro de seus alvos distraídos, abatendo-os todos, e, num instante, as torres que ainda permaneciam de pé já estavam livres de olhos.

O Maioral-Mor levantou-se e disparou numa corrida até a muralha, liderando seus subordinados, os quinze, incluindo Jéssica. Do lado norte, Miguel continuou a conjurar o canhão, dispará-lo, e desfazê-lo num instante, acompanhado de cinco homens, que disparavam seus rifles contra os soldados inimigos num segundo e escondiam-se nas sombras das árvores noutro. A estratégia que Azai pensara era, na verdade, muito parecida com a anterior, confundindo o inimigo, distraindo-o com um pequeno grupo num lado, usando da floresta e da noite (além do canhão conjurado de Miguel) para fazer os crasirianos pensarem estar lidando com uma força maior do que na realidade estavam, enquanto noutro canto o corpo principal de sua tropa avançaria quando tivesse a oportunidade, porém, desta vez, as tropas principais não esperariam por uma brecha no muro ou no portão para invadir a cidade com tudo, afinal, com quatro torres e vários outros inimigos armados nas plataformas por trás da muralha, seriam dizimados se assim o fizessem.

— Jéssica, agora! — Ordenou Azai, sem olhar para trás, já empunhando seu machado de guerra de uma mão e seu escudo.

E, como quando Miguel conjurara o aríete, o vento deslocou-se para todas as direções num estampido repentino, houve um clarão azul e, vindo do nada, uma rampa de terra, larga o suficiente para apenas duas pessoas seguirem lado a lado, surgiu sob os pés do Maioral-Mor, enquanto ele ainda corria.

Num pulo, Azai já estava sobre as plataformas atrás da muralha, seus soldados chegando de dois em dois, todos acompanhando-o, com exceção, então, de Jéssica, que, como ele decidira previamente, ao montar seu plano, afastou-se, novamente esperando pelo momento de tratar dos feridos. Ele gesticulou, apontando com o machado para a direita, para o oeste, e sua tropa se dividiu em dois grupos de sete, cada um seguindo por uma direção nas plataformas.

Os crasirianos só perceberam seus oponentes quando eles já estavam a apenas alguns passos de distância, quando os namorianos começaram a berrar e gritar qualquer coisa em sua língua. Alguns dos soldados inimigos tentaram ainda voltarem-se para os namorianos e dispararem seus rifles, mas era inútil, a distância que os separava sendo muito pequena e logo as lâminas foram brandidas na diagonal, vertical e horizontal, sangue jorrou e membros foram amputados.

Azai já tinha decapitado um humano num único golpe e torado fora o antebraço de um lebromem noutro ataque, quando os inimigos ofereceram resistência, jogando para o lado as armas de fogo e sacando suas armas de curto alcance. O Maioral-Mor bloqueou um golpe horizontal de alabarda vindo de seu lado direito com o machado (Azai encontrando-se então na extremidade direita da plataforma, ao seu lado direito somente uma queda livre de oito metros, uma posição ruim para usar o escudo do braço esquerdo), desferido por um sátiro. Revidou-o com uma cusparada na cara do inimigo, seguido por um chute em sua virilha e um golpe com o escudo em sua cara, deixando o sátiro atordoado, em seguida segurando seus cabelos com a mão esquerda e arremessando-o da plataforma.

Os crasirianos estavam cercados de quatro lados: do norte, da floresta, de onde, embora Miguel já não conseguisse mais conjurar feitiço algum, sua reserva mágica esgotada, seus companheiros disparavam incessantemente contra os crasirianos, abatendo-os um a um, do leste e oeste, do qual os namorianos brandiam suas armas ensandecidamente contra seus inimigos num banho de sangue, e do sul, uma queda direta para a morte. Não houve tempo para descanso e os inimigos pressionados começaram revidar ferozmente, agitando-se uma última vez de forma ainda mais veemente.

Enquanto Azai via seus companheiros dando tudo de si na batalha, não sendo instantaneamente massacrados apenas por conta da largura da plataforma, que anulava em parte a vantagem numérica crasiriana, a cada soldado namoriano caído (estes crescendo preocupantemente em número), um de seus companheiros substituindo-o numa barreira viva, numa muralha de carne que via-se frente a uma luta intensa como nunca, o próprio Maioral-Mor não viu-se sem dificuldades ali, já coberto de suor e sangue, este que não mais sabia dizer em que quantidade pertencia aos seus inimigos ou a si, uma centena de pequenos ferimentos já cobrindo-lhe o corpo.

Um fantasma crasiriano tão coberto de vermelho quanto a arma que empunhava então abriu caminho pelo flanco esquerdo, pelo oeste, trespassando os soldados de Azai. O Maioral-Mor, sabendo que, antes que a mesa virasse para os inimigos, que mais crasirianos atravessassem pelo lado oeste, o que acabaria com a formação e a estratégia pensada, os inimigos ainda estando em grande número, em pelo menos quarenta ainda de pé, Azai decidiu que ele próprio deveria contra-atacar, novamente encurralando os inimigos. Cravou o machado no crânio de um ogro à sua frente, sacou o revólver do coldre sob seu braço, virou-se e disparou contra o fantasma, a bala trespassando as argolas de aço de sua cota de malha e perfurando o pescoço do inimigo, saindo do outro lado numa explosão de sangue.

Seus subordinados, com o fantasma já então morto, logo retomaram a posição original, enquanto Azai tornara a dirigir sua atenção para à frente, quando vira um lampejo cinza, repentinamente caindo-lhe diagonalmente sobre sua cabeça. O Maioral- Mor erguera o escudo no último momento, desviando o golpe, ao mesmo tempo, porém, viu o cadáver do ogro caindo da plataforma com seu machado ainda cravado na cabeça.

Sem outra opção, Azai disparou contra a parte sob o ombro direito do inimigo, uma área desprovida de qualquer proteção além da cota de malha, que não demonstrou grande resistência contra o disparo. O inimigo que atacara visando sua cabeça deixou sua espada cair e levou a mão esquerda ao ferimento. Aproveitando a oportunidade, Azai baixou o escudo, colocou o cano da arma sob o queixo do crasiriano e disparou, a queima-roupa, sem nem mesmo prestar atenção de qual espécie aquele homem era, explodindo sua face com o disparo. Um golpe de maça sobre a coxa esquerda de Azai, porém, atingiu-o logo em seguida, jogando-o para fora da plataforma.

O Maioral-Mor mal conseguiu segurar-se na beirada da plataforma, a dor do golpe fazendo lágrimas escorrerem sobre suas bochechas e pingarem de seu queixo enquanto Azai via o próprio grito de dor sendo afogado na confusão de sons que era a batalha, sua lamúria sendo apenas mais uma dentre centenas.

Um enorme e musculoso elfo surgiu então em seu campo de vista, empunhando a maça, a mesma que encontrara sua perna, encarando-o com uma carranca horrenda. O homem ergueu a arma e baixou-a... para que pudesse levantar o próprio escudo, defendendo-se de um poderoso golpe de cimitarra que teria-o matado de qualquer outra forma.

— Benjamim!  Gritou Azai ao avistar o subordinado aproximando-se em seu apoio.

O sátiro desferiu outro ataque e outro e mais um contra o crasiriano, porém, embora um soldado habilidoso, não comparava-se ao elfo, e logo a trocação de golpes tornou-se uma luta bastante unilateral, a lâmina do sátiro vendo-se mais usada como um bloqueio a maça do elfo do que como de fato uma arma. O último golpe, porém fora uma finta, o crasiriano utilizando de seu escudo para desequilibrar Benjamim e, dando continuidade ao movimento, sua maça para, num golpe certeiro, amassar a parte de trás do capacete do sátiro, misturando o aço do elmo ao sangue e miolos de Benjamim. Tudo ocorrera em poucos segundos, enquanto Azai ainda tentava ao mesmo tempo voltar à plataforma e procurar qualquer coisa que pudesse usar como arma.

— NÃO!  Berrou o Maioral-Mor, a ira e tristeza sobrepujando a dor e, desta vez, ele fazendo-se ouvir em mesmo em meio a todos os gritos disparos de armas de fogo e tinidos de aço batendo em aço.

O elfo tornando sua atenção ao Maioral-Mor, percebendo como ele já reequilibrava-se, mais uma vez brandiu a maça, acertando, porém apenas a madeira onde antes estava uma das mãos de Azai, soltada a fim de evitar o golpe.

O Maioral-Mor viu-se sem seu revólver, o que ainda estava no coldre sob o braço direito, inalcançável pelo mesmo. Estava sem o machado, um dos revólveres e, se soltasse a mão esquerda da plataforma para sacar o revólver sob o braço direito cairia de oito metros de altura, mas não podia fazer nada sem uma arma. Seus olhos percorreram numa fração de segundo, todos os seus arredores, enquanto o elfo, sem levantar a maça novamente, simplesmente deslizou-a pela madeira para sua direita, indo de encontro à mão esquerda de Azai... até que o Maioral-Mor, quando a arma do inimigo estava a apenas alguns centímetros de transformar sua mão numa geleia sangrenta, segurou o cabo da espada que caíra da mão do último crasiriano que matara e brandiu-a contra o joelho desprotegido do elfo, num ataque carregado com tanta força, brandindo a lâmina com todo seu sofrimento pela morte do amigo e ódio ao seu assassino, que amputou a perna do elfo num único golpe.

Azai voltou a plataforma e chutou o elfo para o chão lá embaixo, voltando-se mais uma vez à matança, descarregando sua frustração em todos aqueles coitados à sua frente. Descobriu, porém, que restavam então apenas alguns poucos inimigos, que, no momento de maior desespero, começaram ou a se renderem-se, jogando suas armas ao chão, ou a atirarem-se da muralha, apostando na ínfima chance de sobreviverem caso alcançassem o chão, torcendo para que não quebrassem suas pernas e conseguissem alcançar a orla da floresta.

Soldados não eram feitos prisioneiros e nenhum dos que saltaram sobreviveram.

Até então o Maioral-Mor não percebera mas já havia amanhecido há tempos.

Todos os inimigos estavam mortos. A tropa de Azai gritava e comemorava, alguns já descendo para os saques e estupros, com o sangue ainda fervendo. A cidade fora tomada.

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