Capítulo: 20
Álex
Um piado estremecedor ecoou sobre a floresta, que era densa e escura. As árvores muito altas entrelaçavam suas copas umas às outras, tentando sobrepujarem-se, competindo pelos mais ínfimos raios de sol, muralhas de madeira erguendo-se paralelas a estreita estrada que a caravana seguia.
— Já cacei aqui antes. — Disse Eder. — Quatro dias inteiros seguindo os rastros de um basilisco. Criatura vil e mortal. Mas não se preocupem, monstros não costumam aproximarem-se de grandes grupos de pessoas, a menos que vejam-se encurralados ou famintos.
Álex sentiu-se empolgado com o relato do Coletor, estava prestes a pressioná-lo para contar em mais detalhes sua história, mas ficou um tanto decepcionado em saber que não haveria nenhum ataque de monstro ali, sem espaço para que ele demonstrasse suas habilidades.
Alguns dias atrás, quando saíram da província de Abastança, província vizinha a Dentre-Flume, a capital, e entraram nas terras de Sétera, o líder da caravana concluiu que deveriam repor o tempo que perderam ao serem obrigados a parar durante um dia inteiro por conta de uma tempestade, e decidiu levar o grupo por um atalho, guiando-os por uma estrada que cruzava a Floresta da Montanha Perdida, uma extensa área de intermináveis quilômetros de um emaranhado verde sob a sombra de uma montanha, a mais distante ao oeste, a mais afastada de suas irmãs na Cordilheira Gris, a Montanha Perdida.
A elevação rochosa erguia-se a mais de dois mil metros sobre as copas das árvores, na extremidade leste da floresta, ainda muito distante, cinzenta, escarpada e imponente, a rota original da da caravana, a estrada principal que ligava as cidades, contornando-a e a floresta que cercava-a num longo desvio. Era evidente que, embora fosse um caminho sombrio, estreito e pouco usado, mesmo que todo o grupo percorresse a estrada mais devagar que o usual, aquele atalho economizaria longos dias de viagem, evitando um longo trecho, cortando caminho pelo coração da floresta quase em linha reta até Sétera.
— E mesmo que alguma destas criaturas malévolas surgisse, tenho certeza, nosso guerreiro a deteria. — Retrucou Isabela, abraçando sua filha. Em resposta, Eder fez uma saudação gentil, sorridente.
— Isso mesmo! A propósito: me pergunto se carne de monstro tem um gosto bom... — Apontou Dino.
— Mesmo que o gosto seja não seja dos melhores, duvido que algo preparado pelas boas senhoras Matilde e Isabela fique ruim. — Respondeu Álex. Como Ede, as mulheres mais velhas sorriram e fizeram uma breve saudação ao garoto em resposta.
— Mas, vocês, o casal de magos, já devem ter provado, não? — Perguntou Dino, brincalhão. Miranda corou e deu olhadelas de esguelha a Álex, enquanto balbuciando, envergonhada, negações quanto a afirmação de serem um casal, o garoto, porém, simplesmente sorrindo como todos os ouros à brincadeira. — Carne de monstro, digo.
— Imagina. Muitos deles têm a carne tóxica às pessoas e, a não ser que você seja alguém realmente muito rico, não dá de se pagar um Coletor para ele ir numa expedição atrás de um monstro apenas para você come-lo depois.
— Por que? — Tornou a perguntar Dino. Dessa vez, quem respondera-o fora Eder, com uma sobrancelha erguida, como se a pergunta já tivesse sido respondida antes mesmo de ser feita:
— Porque é caro, horas. Não são os próprios magos que contratam os serviços de minha organização (que, a propósito, fica com boa parte da grana dos contratos!), mas sim o Grêmio em si, que é financiado pelo governo, ou um representante provincial a pedido do ancião de um vilarejo ou cidadezinha ou mesmo um ricaço qualquer, como o dito por Álex (embora a maioria destes prefira que capturemos os monstros para suas coleções ao invés de matá-los). Uma pessoa pagaria algumas dezenas de milhares de ligas, dependendo da criatura até mesmo centenas de milhares ou milhões, apenas para comer o prêmio? Não, isso é impensável.
— Sim, geralmente grupos de alunos e professores fazem os pedidos à presidência do Grêmio para que financiem os Coletores. Dissecamos os monstros, os estudamos, retiramos suas partes que possuem fins alquímicos, vendemos as peles e escamas para artesões e reconstruímos os esqueletos. Tentamos sempre utilizar em cem por cento a carcaça da criatura. — Acrescentou Álex.
— Mas que pena! — Praguejou Dino, parecendo verdadeiramente cabisbaixo. — Isso acaba com meus recentes planos de montar um novo empreendimento com estes bons senhores e senhoras: "Espetinhos de basiliscos"... — Todos gargalharam com a piada, principalmente Eder, enquanto Dino suspirava, fazendo-se de decepcionado.
Mais uma vez o piado soou por toda a floresta, chegando aos ouvidos dos caravaneiros como um tinido penetrante e agudo. Os companheiros todos entreolharam-se, sérios por um segundo, ainda com a conversa de monstros fresca na memória. E voltaram a rir.
— Quase me esqueci da Montanha Perdida. Águias não são comuns longe das cordilheiras, mas com aquela montanha não é de se admirar que tenham algumas delas por aqui. — Comentou Eder.
Raios de sol de repente atingiram o rosto de Álex, que sentava-se na beirada da carroça coberta, fazendo seus olhos arderem por um momento enquanto adaptando-se à claridade. Olhando de novo ao seu redor, percebeu então que a paisagem abrira-se numa das raras e bem iluminadas clareiras daquela floresta.
Uma área circular livre de árvores, coberta por uma relva baixa e flores, a natureza mais viva e bela do que nunca naquele espaço, o cheiro da grama, e das muitas plantas multicoloridas, agitadas pelo vento em ondas, como um mar dentro da floresta, chegando ao nariz de Álex, que não conseguiu conter o sorriso. Os olhos do rapaz passaram por um fino regato que corria próximo à extremidade oeste da clareira, fitando um par de gatos-do-mato que bebiam da água cristalina.
— Olhem! — Indicou Álex, apontando aos animais que bebiam do regato. Nesse exato momento, ouviram mais uma vez o piado, uma sombra cobriu o sol, e os animais dispararam mata adentro.
Numa fração de segundos, Álex ainda apontando para onde os gatos-do-mato estiveram apenas um momento antes, um sibilo, como o de uma flecha cortando o ar, como o de uma bola de canhão aproximando-se, ressoou, seguido por um alto estrondo, e, de repente, o mundo transformou-se num borrão indefinido à frente dos olhos do rapaz. Houveram gritos, de pessoas e animais, os cavalos que puxavam as carroças indo a loucura, estilhaços de madeira e pedaços rasgados em tiras da lona voaram metros adiante, caindo na grama da clareira e sobre as raízes grossas das árvores, a luz quente do sol e a escuridão da floresta densa. Algo encharcava as roupas de Álex e pintava numa cor estranha a grama sob seu corpo, de forma contrastante à paisagem verde ao redor.
Foi com a dor aguda que subiu-lhe o braço direito que Álex voltou a respirar, fechando e abrindo os olhos bem devagar, a razão voltando a si. Conseguiu apoiar-se sob o braço esquerdo e sentar-se na grama, ainda desorientado, quando percebeu, em meio à confusão de piados, berros e gemidos de dor, que o vermelho que cobria suas roupas e parte de seu rosto, além da grama a seu redor, não era apenas água ou qualquer líquido. Era quente e viscoso. Sangue.
Álex levantou-se, sem conseguir controlar a tremedeira nas pernas ou proferir ao menos um grito de medo. Ou dor, mesmo que seu braço direito tivesse quebrado e pendesse numa posição estranha ao lado de seu corpo, também o exoesqueleto que revestia o membro tendo sido arrancado da pele, deixando apenas uma ferida em carne viva.
Seus olhos saindo de todo aquele sangue e voltando-se para a carroça estraçalhada, para o corpo quase irreconhecível, uma vez que o vermelho tingiu seus cabelos furta-cor e um pedaço grosso de madeira fincara-se através de sua face, de Isabela e para a garotinha que sacudia-o, atônita, cutucando o cadáver da mãe, olhanto também para o cavalo ali próximo que urrava, estremecia e debatia-se sob as sombras das asas da criatura que bicava sua barriga de novo e de novo, imobilizado pelas patas de leão, pelas cumpridas garras do monstro. O cavalo, de repente, parou de urrar e debater-se, enquanto o grifo levantava sua cabeça, o bico amarelo coberto de sangue, ainda segurando uma das vísceras do animal. Os olhos amarelos de pupilas verticais do grifo caíram sobre o rapaz e o monstro tornou a piar, sacudindo a juba de penas e pelos do pescoço enquanto erguia-se, ameaçador.
O grifo estendeu suas asas, saltou sobre o cadáver do cavalo e planou para à frente, Álex simplesmente cedendo, a força abandonando seus joelhos e sua bexiga, as lágrimas e urina escorrendo soltas enquanto soluçava baixinho. O vulto do monstro passou sobre sua cabeça assim que seus joelhos tocaram o chão, o monstro caindo sobre Matilde, que gritava e e chorava poucos metros atrás do garoto. A sátiro calou-se num segundo, quando o monstro cravou suas longas garras em suas costas e crânio, a vida e o calor deixando imediatamente o corpo daquela velha mulher.
— Não era para ser assim... Não era para ser assim... — Resmungava o garoto, arrastando-se até a borda da clareira, atravessando o riacho. — Não era para ser assim... Não era para minha aventura ser assim!
Quando os homens começaram a disparar as armas de fogo, as bestas, e os arcos e flechas já haviam morrido duas pessoas e o monstro balançava uma terceira vítima em seu bico: Dino. Os tiros apenas enfureceram o grifo, que tornou a piar, ainda mais violento, o sangue manchando suas penas e pelos amarelos e brancos. A criatura saltou para a fileira de defesa que formava-se, derrubando dois homens, matando um com suas garras, e atirando outro metros adiante, deixando-o inconsciente, com um coice. O monstro não demorou-se mais do que vinte segundos ali e os defensores que ainda viviam fugiram, deixando suas armas para trás, dando meia volta e correndo o mais rápido que podiam, cada um deles apenas torcendo para não ser a próxima presa da criatura.
Álex já alcançava a floresta, apoiando-se num grosso tronco de árvore, quando reconheceu uma familiaridade perturbadora num dos gritos. Não queria voltar seus olhos para trás, não queria encarar aquela realidade, mas forçou-se a isso, espiando por cima de seu ombro: e lá estava Miranda arrastando-se de costas no chão, o grifo aproximando-se calmamente, saltitando como um gato que encontra uma barata ou rato, um novo brinquedo para seus jogos cruéis. Mais atrás, viu também Eder, que segurava sua espada, de carranca fechada, coberto de suor, nervoso.
O Coletor percebeu que Álex fitava-o. Ele retribuiu o olhar, disse alguma coisa que o rapaz não conseguiu ouvir, deu as costas e guiou os outros membros da caravana no caminho de volta para a estrada.
— ...Não. — Disse Álex vendo o Coletor fugindo, liderando os demais, deixando ele e Miranda para trás... Miranda!
Tremendo tanto que mal conseguia ficar de pé, Álex apoiou-se no tronco de uma árvore próxima, retornando sua atenção à garota e ao monstro. Trincando os dentes, observando enquanto o grifo estava a apenas um segundo de atacar a garota com suas garras, pensando num milhão de criaturas a se invocar, em todas as magias que já conjurara e em qualquer estratégia possível, Álex, a visão embaçada pelas lágrimas, lutando contra o puro terror que tomava-lhe conta dos membros, levantou sua mão boa em direção ao monstro e conjurou, com um clarão azul e um estampido do vento deslocando-se em todas as direções, um braço cinzento, que, vindo do nada, atingiu em cheio a face do grifo, afastando-o da garota. Logo em seguida, surgindo o resto do corpo peludo, uma cabeça chifruda, um dorso, outro braço e um par de pernas curvadas e de cascos fendidos nos lugares dos pés; a marionete conjurada continuou a atacar o grifo.
— VENHA PARA CÁ! — Berrou Álex, chamando a garota. — RÁPIDO!
Miranda ficou em pé num pulo na primeira oportunidade e disparou para a orla da clareira, encontrando-se com o rapaz, quando os dois continuaram a correr mata adentro enquanto o minotauro conjurado continuava a lutar contra o grifo, até que o monstro destruiu-o, numa explosão de estilhaços, a marionete então desfazendo-se em partículas luminescentes azuladas. Álex escutou, enquanto saltava ensandecido por sobre raízes e pedras, deixando que os galhos baixos das árvores atingissem-no sem preocupação, o piado estridente do monstro furioso vindo da clareira lá atrás.
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