Guerra A Ruína - Capítulo: 2

Capítulo: 2

Álex

 

— ...Então, uma última e rápida revisão, ressaltando apenas os mais importantes

pontos: a antiga Darco, o país que originou Crasíria, que por sua vez deu origem a Nova Crasíria, nossa atual nação (que, a propósito, será o conteúdo do próximo semestre: "O Declínio de Darco e Ascensão de Crasíria e Nova Crasíria", abrangendo desde o ano de 930 da ducentésima décima nona Era do calendário darcense, do início do Pandemônio, até as últimas décadas dos dias atuais, até o retiro do posto de "Alto-Crasir")... Perdão, voltando a assunto: Darco era uma monarquia, governada pelos Draks, uma linhagem descendente de Alexandre Drak, "o Fundador", que a, aproximadamente, mil e duzentos anos atrás assassinou o líder de seu vilarejo, tomando-o para si e, em seguida, iníciou uma série de batalhas e guerras com as aldeias, cidades e vilarejos vizinhos, conquistando uma considerável porcentagem de terra do leste da Cordilheira Gris até o fim de sua vida.

"Seu filho, Átila Drak, seguiu adiante com as guerras do pai, continuando a expansão do país, também até seus dias finais, quando foi morto em batalha, assim o neto de Alexandre Drak, Augusto Drak, assumindo o poder. E foi durante o reinado de Augusto que surgiu (ao menos então oficialmente como uma religião) a Sacro-Unocrença, justificando a escravidão de todos os povos não-humanos, que veio a se tornar-se a religião oficial de Darco em pouco mais de um século depois..."

Ignorando grande parte do monólogo do professor das matérias de História e Marionetismo, Henrique, um velho sátiro de barba cumprida, Álex, apoiando sua face no punho direito, fitava as grandes janelas da sala a sua esquerda, observando, entediado, as nuvens cruzarem lentamente os céus, seguindo sempre sem rumo. Virando-se para sua colega e (única) amiga próxima, Miranda, cochichou:

— Pensei que era uma "rápida" revisão...!  Disse, dando ênfase no "rápida".

Abafando os risos, sua amiga respondeu-o, imitando o velho professor que continuava incessante lição:

— "Então, uma última e rápida revisão, ressaltando apenas os mais importantes pontos: comecemos pela criação do mundo!"

Com isso, ambos tiveram de se esforçar para não gargalhar em meio ao discurso do professor, tapando suas bocas com as mãos, seus olhos chegando a encherem-se de lágrimas enquanto retraiam suas barrigas.

Álex Calibrium tinha apenas dezessete anos, um pouco mais baixo que o normal, de aparência mediana ostentava um grande topete, que recusava a cobrir com o pontudo chapéu cônico de seu uniforme, deixando o acessório sempre pendurado as costas (uma vez que não era permitido circular livremente pela ilha sem este), tinha muitas cicatrizes das espinhas, que assolaram sua puberdade e agora começavam a sumir de sua face, marcando sua pele azulada, típica dos fantasmas. Como um membro desta espécie, Álex possuía um endo e um exoesqueleto ao mesmo tempo, o aspecto mórbido, seus ossos negros externos (o esqueleto interno dos fantasmas sendo branco), seguindo exatamente por sobre o endoesqueleto enquanto revestindo seus membros por sobre todo o corpo, sobre sua pele, com exceção do crânio.

Enquanto Miranda era um ano mais nova que seu (também único) amigo, uma estrangeira horaciana, a garota era uma lebromem, o que significava que, apesar de, no geral, muito parecida com uma humana comum, tinha orelhas, mãos e pés cumpridos e peludos, características parecidas com as de um coelho, além de um pequenino nariz. De pele branca, seus olhos e cabelos eram castanhos de mechas e longas porém constantemente arrepiadas, que ela costumava esconder sob o chapéu cônico, uma garoa tímida e bastante chorona mas que costumava se abrir, agir de forma natural quando com Álex.

— ...Os territórios de Darco eram divididos entre cinco "Grãos-Condes": os Círcinus, os Mandraks, os Talueiros, os Condrístas e os Gurtres, cada um deles liderado por um patriarca ancião. Eles tinham autoridade sobre todos os nobres menores, plebeus e escravos de sua terra. Os cinco líderes destas famílias mais o Grão-General (obviamente o general das tropas de todo o país) e o Grão-Sacro (o líder da Sacro-Unocrença, eleito pelos Sacro-Sacerdotes), constituíam o Conselho do Rei, onde opinavam sobre importantes decisões do país. Quanto aos Mandraks...  Continuava a revisão, o velho professor, sem calar-se por um segundo sequer, até ser interrompido pelo badalar do sino da Torre do Grêmio, que anunciava o meio-dia e o intervalo para o almoço.  Ah! Não se esqueçam de estudar a origem, representatividade e história em geral das cinco grandes famílias nobres de Darco!  Anunciava ele, enquanto os alunos, espreguiçando-se, levantavam e saíam da sala de aula.

— Ah! Finalmente! — Comemorou Álex, levantando-se do banco e, acompanhado de Miranda, dirigindo-se a porta que dava ao corredor. -Isso é inacreditável. Simplesmente inacreditável! Quando saí da minha cidade, pensei que aqui eu aprenderia todo tipo de feitiço, que quando me formasse eu seria tão poderoso e teria tantos feitos quanto a própria Presidente, mas já faz dois anos que frequento este lugar e aqui estou eu, desperdiçando meu tempo tendo aulas de história! Isso eu posso aprender por mim mesmo, droga! Se eu quisesse aprender sobre história, teria me tornado aprendiz do ancião da vila!

— Ah, nem me fale... — Concordou a garota, suspirando. — Vim para cá dizendo aos meus pais: "vou estudar muito, me tornar uma grande maga e, quando eu voltar para o vilarejo, o farei prosperar, fazendo as plantações crescerem férteis, o gado gordo e construirei casas para todo mundo num piscar de olhos!" ...Chegando aqui, a primeira coisa que descubro é que isso tudo é impossível.

Seguindo pelo largo corredor fora da sala de aula, este repleto de grandes janelas a direita, que davam visão a todo o pátio lá fora, e a esquerda, salas das quais os demais gremistas (que era o termo usado para referir-se a qualquer membro do Grêmio, fossem empregados, como professores, jardineiros, bibliotecários, guardas, secretários, enfermeiros, médicos, ou fossem os alunos) saíam para o intervalo, os dois amigos, conversando, viraram num corredor a direita, logo em seguida rumando a esquerda, e novamente a esquerda e então desceram as escadas ao térreo, chegando a um gigantesco hall de entrada pela escadaria a direita.

O lugar tinha uma forma circular, com altas estátuas de mármore de homens e mulheres de todas as espécies em nichos nas paredes, representando os heróis que acompanharam a Presidente Milly em sua viagem de volta a Dentre-Flume, um teto abobadado, repleto de gravuras retratando as crônicas da Presidente, desde suas primeiras conjurações de feitiços, até a seu triunfo sobre os Sábios-Ídolos, também haviam primorosos vitrais coloridos em vários tons de azul e verde, ilustrando cada uma das matérias dos estudos do Grêmio, tanto as mágicas (estas sendo: Concepção de Ferramentas, Projéteis e Outras Estruturas Físicas Espontâneas, Criação e Controle de Energias, Aumento das Capacidades Regenerativas e Intensificações Físicas, Comprometimento de Alvo, Resistência Mágica, Controle de Flutuação de Objetos, Transmissão de Energia Mágica Entre Indivíduos, Criação e Manipulação de Marionetes, Imbuição Mágica), quanto as científicas (História, Matemática, Geografia, Línguas, Medicina, Estudo dos monstros e Alquimia).

— É verdade.  Concordou o garoto, suspirando.  Eu acho que todo mundo

se decepciona com a realidade quando se trata de magia.

— Ou mesmo ciência. — Apontou Miranda. — Afinal, se não fosse o caso, o professor de alquimia não precisaria dizer já em sua primeira aula que não é possível transmutar outros metais em ouro...

Desviando dos demais gremistas, Álex e Miranda atravessaram as grossas portas duplas, que eram ladeadas por um par de estátuas, saindo ào campus da ilha, que era muitas vezes maior que todo o vilarejo no qual Miranda nascera (segundo ela mesma). Nele, seguindo direto em linha reta, uma estrada de lajotas verdes saía d'A Ponte, que conectava a Ilha do Grêmio as partes sul e norte da cidade adiante, até as portas do Palácio Magno, o prédio principal do Grêmio do qual os jovens haviam acabado de sair, onde ficavam todas as salas de aula, além de quadras de esporte, uma academia, uma biblioteca, todo os laboratórios, duas enfermarias, e alguns depósitos. O Palácio era como o sonho de qualquer rei ou rainha pelo mundo: gigantesco, belo e extravagante, todo de tons de azul e verde, construído em forma de "H", voltado em direção a Dentre-Flume, ao leste, repleto de pontes, torres, arcos, abóbadas, e de telhado pontudo, cheio de estátuas, pinturas, gárgulas, tapeçarias, grandes janelas e vitrais e jardins por todas as partes.

Dessa longa estrada de lajotas verdes, saíam ainda várias outras, que davam a todos os tipos de lugares, como os dormitórios, que eram divididos em masculino (ao norte), feminino (ao sul) e dos professores (em frente ao Palácio Magno), o magnífico planetário, localizado ao lado da biblioteca, esta que ficava ao sudeste do Palácio Magno, o mais longe possível de toda a algazarra dos gremistas, próxima ao jardim botânico, que era o terceiro maior do continente, possuindo qualquer planta que os gremistas algum dia sonhassem em precisar, ou os inúmeros depósitos espalhados por toda parte.

Também haviam: o arsenal, que guardava milhares de equipamentos mágicos de treino e de combate, como espadas e armaduras, localizado em frente ao dormitório dos professores, cada um destes prédios ladeando um lado da estrada que levava A Ponte; a secretaria, sempre cheia de comerciantes preparando a papelada para comprar os tão preciosos itens mágicos, bem a leste, logo a lado do portão da muralha (que cercava toda a ilha, com oito metros de altura); o porto, cujo o qual nunca houve um dia no qual não estivesse repleto de gigantescas embarcações, fossem a vela ou a vapor, descarregando ou sendo carregadas de mercadorias, ao oeste; a Torre do Grêmio, uma torre de cem metros de altura, com quatro sinos no topo, que servia tanto como um abrigo para todos os gremistas que não fossem os professores ou os alunos, como um relógio que marcava as horas, localizada no centro do campus, cercada por uma praça; e o estádio, onde eram feitos treinos práticos que pudessem causar qualquer dano ao ambiente, e, em ocasiões especiais, celebrações, festas e torneios, que se tornou o centro de um pequeno vilarejo que formou-se dentro das muralhas da ilha, e o local para o qual Álex e Miranda dirigiam-se, o bazar.

— Imagino que isso não seja uma surpresa, afinal o mundo inteiro conhece a história da Presidente Milly e muitos dos estudantes foram atraídos a esta ilha por ela. — Disse Álex, relembrando-se da própria história.  "Ela alcançou a imortalidade", dizem. E "conseguiu criar um objeto permanente" ou mesmo "ela consegue ler mentes e transformar pessoas em animais". Bem, se ela aprendeu tudo isto em Eter, então o Grêmio está longe de ser o maior centro de conhecimento mágico do mundo!

— Na verdade, você já se perguntou o que a Presidente trouxe de lá? De Eter, eu digo.  Perguntou Miranda.  Afinal, ela matou os Sábios-Ídolos, os líderes dos magos da ilha, e o país foi arrasado logo depois por Crat durante sua conquista, então não dá de se saber exatamente que tipo de conhecimento se perdeu, não?

— Bem, dizem que os heróis que vieram com ela eram professores de cada uma das matérias mágicas, então duvido que aprendemos qualquer coisa muito diferente do que eles ensinavam lá, apesar de que, é claro, o conhecimento atual possa ser mais avançado. Além disso, bem, ela também trouxe estes chapéus idiotas. — Respondeu Álex.

— Estes chapéus não são idiotas!  Retrucou Miranda.  Milly teve muito bom gosto em trazê-los como uniforme para cá, sabe.

— Você só fala isso porque é tem vergonha demais para mostrar o próprio cabelo ou sequer penteá-lo, mas se tivesse o mínimo de bom senso, perceberia o quão ridículos eles são. — Tornou a responder o garoto, Miranda emburrando-se quase que instantaneamente, corando envergonhada e recusando-se a conversar com Álex enquanto continuando a caminhar, seguindo então à frente do garoto. — Certo, certo, me desculpa, eu só estava brincando! — Disse Álex, sorrindo enquanto apressava o passo para acompanhar a amiga.  Não são chapéus tão ridículos assim.

O bazar era um emaranhado de lojas, estalagens, tavernas, prostíbulos, feiras e muitos outros prédios e barracas, onde se podia encontrar todos os tipos de coisas ao norte da ilha, encostado aos pés da muralha. Não era à toa que a Ilha do Grêmio era comumente chamada também de "Cidade do Grêmio", uma vez que era quase que completamente autônoma e dava-se de encontrar tudo o necessário para se viver confortavelmente dentro dela.

— Qual é a próxima matéria?  Perguntou Álex, com a boca ainda meio cheia do espetinho que comia.

— ...Criação e Controle de Energias. — Respondeu Miranda, entre mordidas, também devorando um espetinho.

Pessoas os cercavam a toda volta, uma multidão de transeuntes que produziam uma confusão de conversas aleatórias, risadas, gritos e passos apressados, além do relinchar de cavalos que puxavam carroças e os estrépito dos objetos que as mesmas transportavam ao deslizarem de um lado para o outro. Ambos já estavam no bazar, sentados num longo banco de madeira em frente a uma barraca que costumavam visitar, na beirada de uma praça circular que cercava uma fonte d'água.

— Energias, hein... Bem, podia ser pior. — Comentou o garoto, dando de ombros. Com um sorriso surgindo em sua face, continuou: — Podia ser alquimia ou regeneração.

— Ei!  Retrucou Miranda, ofendida.  Como se você pudesse falar qualquer coisa... Volte quando descobrir uma utilidade para Marionetismo!

— Como assim, "quando descobrir uma utilidade"? — Disse Álex, então defendendo-se e também a sua matéria favorita.  Marionetismo tem várias utilidades. Você pode lutar com uma marionete, por exemplo.

— Você pode lutar de mãos vazias também. E com uma espada. E com uma arma de fogo. E com, basicamente, qualquer outro feitiço.

— Dá de se criar um exército de marionetes só seu.

— Ora, é mesmo? E você poderia me mostrar isso aqui e agora? Eu adoraria vê-lo.  Respondeu a garota, agora com um sorriso que ia de orelha a orelha, sabendo que Álex não tinha uma grande reserva de mágica ou mesmo habilidade quando se tratando em conjurar feitiços.

Vendo as portas se fecharem, sendo encurralado pela amiga, o garoto decidiu mudar de estratégia:

— Enquanto a você? Para que serve alquimia, hein?

— Criar remédios, perfumes, vacinas e outros itens medicinais e de limpeza, e estes são apenas alguns poucos exemplos.  Respondeu Miranda, dando de ombros.

— E... — Álex perguntaria agora "e quanto a regeneração?", mas mesmo ele sabia da tamanha importância que esta matéria tinha. Já desistindo da discussão, o garoto apenas tentou mudar de assunto, ainda que sua opinião sobre sua matéria favorita permanecesse a mesma:  Você ficou sabendo da notícia?

— Que notícia?

— Horac organizou uma expedição ao Continente sem Nome. Parece que houveram alguns problemas na viagem, dizem até que algumas pessoas morreram, mas que eles conseguiram explorar o lugar até o fim. E também que eles descobriram algo lá...  Continuou Álex, levando a conversa num tom mais misterioso, quase sombrio.

— O que foi que eles descobriram? — Perguntou Miranda, entrando no clima, inclinando-se na mesa para ouvir melhor.

— Magia.  Disse o garoto, quase num sussurro. — A manifestação física da própria magia.

De repente, caindo em gargalhadas, Miranda revirou-se em seu lugar ao terminar de ouvir a história do amigo, calando-se ao perceber que atraía alguns olhares.

— Você tem lido histórias demais, Léx! — Disse a garota entre uma risada abafada e outra, chamando o amigo pelo apelido que só ela conhecia (que, na verdade, ela mesmo criara).  É isso que dá ficar viajando sobre aventuras, heróis e lendas!

Também sorrindo, terminando de comer seu espetinho, dando uma última mordida, Álex disse por fim:

— E o que há de errado em ler sobre aventuras e fantasias? Eu gostaria de participar de uma.

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