Capítulo: 19
Octávio
Pensava que a viagem para Tunextenso tinha sido desagradável, que suportar o falatório de Carlos durante dias era o pior que podia lhe acontecer dentro de uma carruagem apertada. Dias depois, enquanto seguia para Plateus, viu-se quase com saudades dos momentos que compartilhou com aquele gorducho.
Octávio, seu cocheiro, e a pequena guarda armada que o acompanhava, que fora concedida por Carlos, foram pegos por uma terrível tempestade que descera das montanhas a oeste quase seis dias depois de deixarem o Castelo Fedo. Infelizmente, nas terras entre as províncias de Tunextenço e Plateus havia pouco mais que rochas, grama e colinas desnudadas de árvores.
O comboio do vampiro e este próprio passaram duras horas sob a chuva intensa e o vento cortantemente frio, vendo raios caírem a pouco mais de algumas dezenas de metros de distância sobre a planície ao redor, queimando a grama às cinzas enquanto levantando nuvens de vapor, antes de, finalmente, encontrarem uma rocha caída que servira de abrigo, onde esperaram, acampados, por um dia inteiro aquelas nuvens negras irem embora, passarem seguindo seu rumo aos mares ocidentais. Mesmo o vampiro, que encontrava-se dentro da carruagem fechada, estava encharcado ao fim da tempestade, o interior da carruagem tendo ficado úmido e cheirando a mofo durante todo o resto da viagem.
Para a indignação de Octávio, o vampiro viu-se a apenas algumas horas da cidade, em pouco tempo de cavalgada depois de deixarem o abrigo sob a pedra (Octávio tendo decidido seguir o resto do caminho a cavalo, uma vez que não suportou mais o mal cheiro e a umidade do interior da carruagem). As colinas aplanaram-se, as rochas esmigalharam-se em terra fofa e a grama deu lugar a extensas plantações... embora completamente arrasada. "A tempestade fora pior do que eu havia imaginado" pensou Octávio, quando percebendo a destruição causada pelas chuvas.
Então o vampiro via-se a pouco mais de vinte metros de distância dos portões da muralha da cidade, um enorme muro vertical de vinte metros de altura de velhos blocos opacos encimados por incontáveis ameias que estendia-se por muitos quilômetros, vendo-se também torres de guarda em toda sua extensão e em intervalos regulares. O portão encontrava-se fechado até o comboio de Octávio aproximar-se o bastante, quando uma alavanca foi puxada, roldanas giraram e as correntes baixaram o portão por sobre o fosso seco (que encontrava-se, na verdade, então cheio d'água).
Um par de guardas aproximou-se de Octávio, que apresentou-lhes a carta que foi-lhe entregue em Tunextenso, sem dar muita atenção aos homens. A justificativa de sua presença ali era realmente terrível, mas serviria por um ou dois meses enquanto ele agisse de acordo. Dizia que o vampiro estava ali para conferir as ações tomadas pelo Representante Provincial local, uma verificação quanto aos impostos pagos, as colheitas e as reformas e administrações da cidade, que estava numa espécie de treinamento, pois haviam planos de promovê-lo a Representante Provincial. Não era incomum Altos Membros Associados serem enviados a outras províncias para aprenderem juntos de seus superiores... mas o que não era comum era eles serem enviados para aprenderem com superiores de partidos rivais aos seus.
— Um momento, por favor, meu bom senhor Octávio de Pessos. Chamaremos um guarda para guiá-lo ao castelo. — Disse um dos homens que o abordara. Octávio apenas sorriu e assentiu. "Posso muito bem ver o castelo daqui" pensou, olhando para a grande construção que erguia-se acima de qualquer outra coisa na cidade, "mas não quero passar uma má impressão já nos meus primeiros minutos aqui", concluiu esperando pacientemente enquanto os guardas, sem dúvidas, apressavam-se em avisar seu Representante Provincial daquela chegada inesperada, quando logo um homem de armadura chegou, o guarda antes referido, que guiou-o cidade adentro.
O cenário era surpreendente, a cidade parecendo ter acabado de ter passado por um cerco inimigo, como se ele estivesse a centenas de quilômetros ao norte e ao oeste, nas linhas de frente. Árvores tombadas bloqueavam as ruas, telhas, cacos de vidro das janelas quebradas e estilhaços de rocha e madeira estavam espalhados por todos os cantos e os bueiros e esgotos estavam todos transbordando, poluindo o ar com o cheiro de podridão de fezes e coisas mortas. Pessoas vagavam pelos cantos, revirando os entulhos, chorando ou praguejando sobre tudo o que haviam perdido. A tempestade fora terrível para todos ali.
Uma segunda muralha cercava o castelo, esta menor, com apenas dez metros de altura, e ainda mais antiga. O portão de grades de ferro levantou-se e abriu caminho a Octávio e seu comboio, enquanto o guarda que os guiava despedia-se e voltava a seu posto original, refazendo o caminho da muralha externa.
Lá dentro, espalhadas por um grande pátio, construções baixas e antigas, a forja, o estábulo, a casa de guarda e muitas outras tipicamente encontradas ao redor dos castelos, erguiam-se ainda firmes, quase intactas, feitas todas de blocos de rocha e argamassa, diferentemente da maioria das casas da cidade, estas feitas em sua maioria de madeira. O castelo erguia-se alto e imponente adiante, uma construção da mesma rocha das muralhas, de cor terrosa e antiga, em forma de losango, com cinco torres quadradas, uma em cada extremidade e uma no centro, cada uma com, pelo menos, quarenta metros, a do centro com cinquenta, erguendo-se vinte metros acima do prédio principal. Janelas e vitrais abriam-se para o interior do lugar e gárgulas penduravam-se nas calhas dos telhados enegrecidos pelo tempo.
Um grupo de servos aproximou-se da comitiva e ofereceu-se para cuidar dos animais, quando, logo em seguida, do castelo, um homem, um orc vestindo um terno de mordomo apressou-se, dirigindo-se na direção de Octávio.
— Presumo que a viagem tenha sido difícil, meu bom senhor. — Disse o mordomo ao vampiro. — Presumo que o bom senhor seja o Alto Membro Associado Octávio de Pessos, não?
— O próprio. — Respondeu Octávio.
— Excelente. Eu sou Vincente, o mordomo-chefe do castelo. — Anunciou o orc. — Por favor, me siga, mostrarei-lhe seus aposentos. Quanto aos seus companheiros, os demais servos os guiarão, não se preocupe.
— É claro. E, além de um quarto seco e confortável, um banho quente seria ótimo também. — Apontou o vampiro honestamente, desejando então apenas relaxar da dura viagem, cruzando a soleira das portas ao castelo.
— O banho já fora providenciado, meu bom senhor, e, garanto-lhe, o quarto é seco e bastante agradável. — Retrucou Vincente, guiando Octávio.
"É realmente belo" pensou Octávio, observando atentamente o interior do castelo pela primeira vez. "Ao menos mais do que aquela 'coisa' de Tunextenço". Enquanto o mordomo o guiava aos aposentos e a sala de banhos, estava muito cansado para perceber os grandes quadros e tapeçarias penduradas entre as janelas que retratavam figuras de várias religiões com detalhamento impecável, os vitrais coloridos pelos quais a luz do dia trespassava assumindo tons azulados, ou avermelhados, ou esverdeados, as armaduras completas exuberantemente enfeitadas, num ponto que as tornava quase inusáveis, exibindo muitas penas coloridas, entalhes em ouro e prata e encrustadas de pedras preciosas. Mesmo a planta do próprio castelo era digna de apreciação, os corredores limpos e bem iluminados, as grandes salas de tetos abobadados, a biblioteca, a sala de jantar, as galerias e os jardins (que encontravam-se tão desolados quanto as plantações fora da muralha externa).
Chegara ao castelo há algumas poucas horas, quando foi direto ao banho. Estava verdadeiramente exausto da viagem e passou um bom tempo descansando, apreciando uma saborosa refeição e passeando um pouco, mas então, sabia, chegara a hora de fazer o que tinha de fazer, fazer o que fora enviado ali para fazer. "Tenho de cumprir com minha tarefa, mesmo que não seja algo realmente fácil".
Apesar do que o informante falara, em Tunextenço a situação tinha sido completamente diferente, a questão tendo sido decidida apenas, na verdade, pelo tempo, pela rapidez com a qual cada Senador agiu, a interferência de Octávio sendo mínima, afinal, o antigo Representante Provincial de lá, e afiliado à irmandade, ainda não tinha sido oficialmente reeleito por Pedro uma vez que ele ainda não possuía o documento legitimando-o. Tudo o que fizera no Castelo Fedo fora agir conforme o planejado por Fernando, levando um terceiro documento, além de dar espaço para Carlos provar-se digno aos Patrões. Ali, porém...
"Devo tirar um Representante Provincial já estabelecido entre a população e os Patrões, mas como?" pensara Octávio, decidindo-se então começar, bem, pelo começo: quando pediu, fazendo questão de fazê-lo sem mostrar qualquer inimizade, um encontro com o homem uma vez que ele tivesse tempo e mostrasse-se de acordo.
Esperava em frente às portas que davam à sala do Representante Provincial. Minutos antes, fora avisado pelo mordomo-chefe que o senhor do castelo estava disponível para uma conversa. O orc guiou-o até ali, bateu a porta, entrou e, passado alguns minutos, ainda não saíra. Foi quando mais uma vez as portas se abriram e Vincente Anunciou, saindo da sala e indicando-a a Octávio:
— O mestre, o Representante Provincial Pablo Marcos o espera, meu bom senhor.
O interior da sala era espaçoso, o teto era abobadado e colunas circulares estavam
dispostas em intervalos regulares por toda a parede. O lugar era imaculado de qualquer sujeira, e além da mesa, da escrivaninha, das cadeiras, das estantes e dos baús, não havia qualquer outro móvel ou decoração. A escrivaninha e tudo sobre ela e o próprio Representante Provincial eram iluminados por quatro cOmpridas janelas que iam quase do chão ao teto, separadas pelas colunas.
— Alto Membro Associado da Assembleia, o bom senhor Octávio de Pessos! — Disse Pablo, levantando-se sorridente. — Sente-se, por favor. — Indicou ele.
Após uma breve saudação, o vampiro, sorrindo, o obedeceu, sentando-se à sua frente.
— Venho me perguntando, desde que me foi avisado sobre sua chegada, o que
traria um afiliado ao Partido da Reconquista até mim como um, se me permite dizer, "aprendiz"? — Perguntou o homem ainda sorridente.
Pablo era uma fada, de cabelo comprido e liso, caído solto até metade das costas. Era alto, tinha um físico avantajado e um rosto bonito. "isso também é uma, eu esperava, afinal, um velhote, como geralmente os outros políticos da irmandade são, os mais jovens sendo em sua maioria afiliados à reconquista."
— Há mais coisas a se aprender do que fazer guerra. — Respondeu o vampiro, evitando a pergunta, pensando: "É claro que ele sabe o porquê de eu estar aqui, e não vale a pena inventar uma mentira sobre esta outra mais fraca já estabelecida por Fernando", decidindo-se.
"Ele pensa que eu vim usurpar sua posição".
— Pode-se dizer que sim. Me parece ser algo bastante trabalhoso, meu bom senhor, manter a ordem, o estruturamento e a exatidão na cidade... Talvez eu tenha vindo numa hora inoportuna? — Respondeu o vampiro, olhando pela janela. Octávio notou um leve tremor nos olhos do Representante Provincial. "Você tenta se manter imponente, finge que está tudo sob controle, mas não há como esconder o caos lá fora. Este é seu momento de maior fraqueza e ele sabe disso. Aquele maldito aguaceiro serviu para alguma coisa, afinal".
— E aqui está você. — Retrucou Pablo, deixando o assunto de lado. — Sinto-me orgulhoso de ser prestigiado o suficiente para o próprio Senador enviar-me um aprendiz. Mas como você pode ver, este é realmente um momento inoportuno. Talvez suas lições tenham de esperar um ou dois trimestres, antes da situação normalizar-se. Ah, mas não se preocupe! Tenho certeza de que, durante este tempo, meus bons senhores, o mordomo-chefe Vincente e o sub-chefe da guarda, Caio, irão apresentá-lo aos vilarejos da redondeza enquanto você observa... outras coisas que não são fazer guerra.
"O maldito quer me afastar, me enviar para sabe-se lá onde, para qualquer fazenda ou chiqueiro esquecido nos confins da província (ou talvez para cinco palmos sob a terra), e está usando de sua situação ruim como desculpa!"
— Tenho minha própria guarda para me acompanhar, meu bom senhor, além isso, acredito que observá-lo trabalhando nesta situação, revertendo toda a desgraça causada por este desastre terrível, valeria por uma centena de aulas tediosas sobre... bem, sobre cobrar impostos ou cumprir com a taxa média de recrutamento militar.
— Mas eu sou um homem ocupado, Octávio, ainda mais agora. Não tenho tempo para desperdiçar como um professor, mestre ou guia, e o senhor está em meu castelo e em minha província e me obedecerá enquanto aqui permanecer. — Respondeu Pablo o sorriso deixando seu rosto pela primeira vez. Sua voz estava séria e seus glóbulos oculares sem qualquer pupila ou ponto a se fixar o olhar tornaram-se, de repente, assombrosos. — Volte para seus aposentos, escreva seus relatórios, teça as teias de suas tramas o quanto quiser, mas não entre em meu caminho... ou eu te mato. Alguém aqui realmente deseja o bem para seu povo, afinal. Está dispensado.
Por um momento, Octávio não soube como reagir, uma ameaça tão clara, o homem mostrando suas intenções sem os típicos rituais dos povos civilizados, os sorrisos, as bajulações e ofensas indiretas... Tudo o que conseguira fazer foi levantar-se e sair da sala com passos fortes, sentindo um intenso calor subir-lhe à cabeça, sem saber se o que sentia era raiva ou vergonha.
Abrindo seu caminho pelo corredor de forma espalhafatosa, o eco das portas batendo atrás de si ecoando castelo adentro, o vampiro seguiu sem rumo, parando em frente a uma grande janela. Estava no topo da torre mais alta e de lá tinha visão de muitos e muitos quilômetros adiante. Pela janela, viu as pessoas nas ruas lá embaixo trabalhando para limpar o caminho e reconstruir suas casas, viu a larga estrada que descia em direção a Tunextenso e suas ramificações, estradas pequenas e mal cuidadas que seguiam para o oeste ou norte, e viu um rio à esquerda e saindo dele vários desvios que irrigavam as plantações, que então encontravam-se desoladas.
Octávio demorou-se um tempo em frente à janela. Pensou: "É, pode apostar que eu vou tecer as teias de minhas tramas, seu arrogante de merda". Um sorriso surgiu em seus lábios, enquanto assimilava aquela visão, ideias começando a surgir em sua mente, peças juntando-se no que tornaria-se um plano.
"Não se preocupe, Fernando. Cumprirei com minha tarefa... terei certeza de fazê-lo."
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