Capítulo: 17
Álex
— Vocês podem atirar bolas de fogo? — perguntou Alice, como vinha fazendo desde que partiram da cidade, sempre curiosa quanto à magia.
Depois que Álex e Miranda deixaram Rafa, há quase uma semana atrás, os jovens puseram-se a procurar outro transporte ao exterior. Deixaram o porto, abandonando as esperanças de conseguirem uma viagem de barco para as Ilhas Penhosas ou um navio que os levasse direto a Horac, antes de seguirem para a estação ferroviária da capital em busca de um trem que os levasse a Baía Umbrosa, a cidade vizinha, e o porto mais próximo dali, onde esperavam então encontrar sua passagem... mas esta esperança mostrou-se tão falha quanto a anterior. Mesmo as poucas estradas de ferro que saíam de Dentre-Flume seguiam todas para o interior do continente, para as maiores consumidoras dos produtos vindos do outro lado do mar ou do próprio Grêmio da capital, e às grandes produtoras de alimento, todas cidades de províncias distantes demais do mar para fazerem seu próprio mercado, aquelas que viviam das plantações e criação de animais ou de minas e madeireiras em suas terras. Mais uma vez decepcionados, os jovens decidiram tentar então uma caravana.
Dirigiram-se à Rua Larga, um lugar muito parecido com o Bazar, porém ainda mais apinhado de pessoas, uma passagem ladeada de muitas lojas que empilhavam-se em altos prédios de dois ou três andares, suas fachadas sendo vitrines onde eram exibidos uma infinidade de produtos, naquela organização caótica havendo uma peixaria em cima de uma loja de tabaco ao lado de uma sapataria.
Encantados pelas luzes amarelas das lâmpadas a óleo dos postes que iluminavam a rua e refletiam nas vitrines coloridas e chamativas com suas roupas, armas e comidas exóticas de uma forma totalmente diferente da que normalmente via-se durante o dia nas raras ocasiões que deixavam o Grêmio, Álex e Miranda sentiram-se tentados a gastar algumas boas ligas naquelas lojas, mas com certo esforço contiveram-se, suas memorias ainda frescas de quando Rafa cobrara aquele preço absurdo pelo transporte deles, ressentidos que, na verdade, aquilo fosse o padrão e pudessem vir a precisar de cada moeda.
Quando chegaram ao fim da Rua Larga, deixando as luzes, os produtos chamativos, os transeuntes que abarrotavam todo o caminho e o barulho intenso para trás, adentrando num beco cumprido que dava a uma serie de depósitos, deparando-se com os caravanistas, que negociam com os donos dos depósitos e uns com os outros suas mercadorias, foi com grande surpresa e felicidade que, na primeira abordagem a um daqueles grupos, alguns homens que jogavam cartas num dos cantos, sentados sobre uma pilha de caixas, conseguiram uma vaga numa das carroças da caravana que partiria pela manhã para Sétera e depois para Troncoco, de onde poderiam pegar um barco para Baía Umbrosa, e por apenas cinquenta ligas para cada um.
— Dá de se criar bolas de fogo, na verdade o fogo é uma das primeiras coisas que aprendemos a conjurar, um dos mais básicos dos feitiços, porém não é possível atirá-lo, pois, para controlarmos algo à distância, quando arremessamos estacas, dardos ou lanças de ferro ou pedra, por exemplo, usamos um tipo de feitiço chamado "Controle de Flutuação de Objetos", que funciona como se agarrássemos a coisa em questão e a guiássemos pelos ares. Logo, como as chamas não são físicas, não podemos atirá-las por aí. Como o próprio nome da magia deixa explícito, funciona apenas em objetos. — Explicou Álex à garotinha, sorrindo, cheio de si.
Alice era uma criança de onze anos de idade, cheia de energia, sorridente, brincalhona e facilmente impressionável, como a maioria das pessoas de sua idade. Era uma fada e tinha puxado as feições da mãe, Isabela, outra companheira na carroça na qual os jovens estavam. Ambas, Isabela e Alice, tinham cabelos compridos, até a metade das costas, que eram, assim como os olhos, os glóbulos inteiros, as unhas e todo o esqueleto de todas as outras fadas, tingidos na estranha coloração de furta-cor. Além disso, possuíam dois pares de cumpridas e formosas asas translúcidas, também furta-cor, como as de uma libélula. Embora sempre sorridente como a própria filha, Isabela era mais reservada e falava pouco, bastante responsável e atenciosa com sua criança, e uma mulher de aparência muito bela.
Além de Alice e sua mãe, Álex e Miranda compartilhavam o teto de lona da carroça com mais outras três pessoas: Eder, um tigromem, calvo e de meia-idade, de aparência intimidadora com suas armas à cintura e a armadura leve puída, porém tão falador quanto a menininha, se não ainda mais; Dino, um humano com cerca de vinte anos, bonito, bastante amigável e bem vestido, que passava a todos um ar de nobreza; e Matilde, uma sátiro idosa e simpática, de corpo pequeno e já curvada sobre sua bengala, sempre pronta para contar sobre velhas lembranças de tempos antigos de sua terra natal e sua família.
Cada uma daquelas pessoas estava indo para um lugar diferente, com um objetivo diferente, mas todas eram amáveis e gentis, cheias de histórias a contar, atentos a tudo que Álex e Miranda falavam do Grêmio e de sua aventura, e logo, com o passar dos dias, surgiu um forte laço entre eles, aqueles que seguiam viagem na mesma carroça coberta de lona, todos respeitando uns aos outros, conversando e sorrindo. Álex teve então certeza de que aquele era o início de sua história de heroísmo e grandiosidade, da história que seria contada por todos algum dia, o alegre momento no qual conheceu novas e interessantes pessoas, como sempre sonhara em fazer.
Enquanto Matilde disse estar a caminho da casa de sua filha para ver a neta recém-nascida, Isabela falou de partir da capital, uma vez que o pai de Alice partira à guerra, indo morar na casa dos avós de sua filha, seus pais, e Dino seguia numa viagem de negócios, para comprar tecidos no interior e revender nos portos, tarefa que, confessara ele, vinha tornando-se cada vez mais difícil recentemente, enquanto Eder revelou-se, já nos primeiros dias de viagem, um Coletor, exibindo com orgulho uma meia dúzia de anéis de ferro, cada um deles encimado por um brasão diferente.
Os jovens ficaram surpresos com o colar de corda repleto de anéis nele pendurados do tigromem, vendo, pela primeira vez (o que surpreendeu também ao próprio Eder), um membro daquela organização afiliada e tão importante ao Grêmio. Os coletores eram um grupo armado associado ao Grêmio, contratado pelos magos para coletar plantas e capturar animais ou monstros selvagens ou apenas trazer as partes necessárias deles, muito comumente também contratados nos pequenos vilarejos para caçar monstros que atormentassem a população. Tinham uma hierarquia baseada em força, em duelos, sendo que quanto mais disputas o Coletor em questão vencesse, maior sua popularidade para com os contratantes, muitos tornando-se celebridades no país, como famosos caçadores de monstros. Cada um dos Coletores carregava consigo um anel de ferro com um brasão único e próprio, no qual apostava em um duelo, em que, se vencesse, levava o anel do adversário perdedor, aumentando sua "posição" no grupo, enquanto, se perdesse, tinha ela rebaixada com a perda do próprio anel. Os anéis conquistados nos duelos deveriam ser presos numa corrente, como o próprio Eder fazia, porém o anel pertencente ao Coletor em questão deveria permanecer sempre à vista, na mão direita. Embora eles não fossem mercenários, caçadores de foras da lei especializados em combates contra outras pessoas, o exército estava pagando em quantias generosas a qualquer um com experiência de combate, e muitos dos Coletores alistaram-se às armas, sobrando poucos deles nos últimos tempos para suprir as necessidades do Grêmio e dos vilarejos, monstros então apinhando as florestas densas e outras áreas isoladas.
— Mas vocês podem invocar monstros, não é? Podem, não é? Eu sei que podem!
— Tornou a perguntar Alice, tão animada quanto sempre.
— Até podemos, mas é uma habilidade praticamente inútil... — Respondeu Miranda, caçoando de Álex.
— Ignore-a, pequena, não é inútil, na verdade é uma habilidade incrível e a mais útil delas, talvez! — Retrucou o rapaz, olhando de esguelha para a amiga que abafava os risos. — Nós, magos, podemos conjurar praticamente toda a criatura que possamos imaginar, vesti-las de armaduras impenetráveis, controlá-las mentalmente de longe, e vencer qualquer batalha! Nas mãos de um mago marionetista experiente, criar um exército de monstros e, até mesmo, transferir temporariamente sua própria consciência para o corpo da criatura conjurada e enxergar pelos olhos da marionete é possível!
— Uau! — Impressionou-se a garotinha.
— Já vi num festival, no Dia de Milly, dois magos batalharem com suas criaturas na arena do estádio do Grêmio. Membros de nossa organização não precisam pagar a entrada, de outra forma eu nunca teria conseguido ver aquilo, definitivamente uma apresentação incrível, não é à toa que os ingressos custam uma fortuna. — Apontou Eder, pensativo. — Mas... por que os magos não, simplesmente, conjuravam um dragão e destruíam seu oponente? E por que eles conjuravam armaduras para seus monstros e não os faziam completamente de aço? Não parecia ter nenhum protocolo que os impedisse de fazer estas coisas, afinal.
— Ah, não, não dê corda a ele! — Comentou a garota, suspirando, revirando os olhos quando Álex começou a falar:
— Excelentes perguntas, meu bom senhor Eder! De fato, não apenas estão intrincadas com a profunda arte do marionetismo, como também com a própria magia.
"Os magos, como você provavelmente já sabe, não são onipotentes. Existem, na verdade, alguns impedimentos e riscos quando se trata de magia, e isso molda os feitiços e cria padrões a serem seguidos. Há dois destes impedimentos que chamamos de "limitações", e elas são duas:"
"A primeira é nossa imaginação e compreensão lógica, afinal, não podemos criar algo que não conhecemos. Para criar um relógio aqui e agora, por exemplo, eu deveria conhecer o material do qual cada pecinha dele é feito, o formato do objeto, e o funcionamento de todas as engrenagens. Alguns dos testes que aplicam aos alunos no Grêmio são, de fato, conjurar relógios, fechaduras e outras coisas que exigem maior conhecimento de materiais e formas.
"E a segunda é nossa própria reserva mágica, afinal, conjurar qualquer feitiço, por menor que seja, exige alguma quantidade de magia. Cada pessoa tem sua própria reserva mágica e não deve exceder seu limite nunca, pois isso pode causar danos permanentes ou até a morte."
Nesse ponto, Alice agarrou a perna de sua mãe, que sorriu e abraçou-a gentilmente, sussurrando a ela palavras de tranquilidade. Álex, que sentiu-se um tanto embaraçado por ter assustado a garota, mas logo continuou, sorrindo, tentando também acalmá-la:
— Não se preocupe, pequena, isso quase nunca ocorre, e o cansaço por utilizar demais sua magia não é nada que uma soneca não resolva. Enfim, acredito que estes dois elementos respondem à sua primeira pergunta. Para um mago conjurar um dragão ele tem que compreendê-lo por completo, cada uma de suas escamas, seus olhos, suas asas e outros membros e seus movimentos, o que por si só já é difícil, mas com a falta de registros deste monstro, torna-se quase impossível, mas também é preciso garantir-se de ter magia o suficiente para conjurá-lo. Agora, existem também, outros dois impedimentos, estes que chamamos de "regras". Eles são:
"É impossível 'apossar-se' do feitiço de outra pessoa. — Notando a confusão no rosto dos companheiros, com exceção de, é claro, Miranda, que observava, com um olhar distante e pensador na face, as outras pessoas, carroças e animais que estendiam-se numa longa fila na estrada, o resto da caravana, seguindo em ritmo logo atrás da carroça de seu grupo, Álex tentou simplificar: — Bem, uma vez que um mago conjura um feitiço, um bloco de terra, por exemplo, um segundo mago não pode simplesmente desfazer aquele feitiço, afinal, quem tem a 'autoridade' sobre aquela coisa é somente seu mago conjurador."
"E, é impossível criar qualquer matéria orgânica. Seja carne, ossos, madeira, fruta ou flor, simplesmente não conseguimos. Não dá e pronto. Logo, temos de encontrar substitutos que sejam tão bons quanto e que consumam pouca magia, o gasto da magia sendo determinado pelo peso e quantidade da coisa, além do tempo em que permanece existente. Por isso, Eder, que as criaturas que conjuramos são, em sua maioria, feitas de argila e revestidas de aço.
"Naturalmente, seria mais fácil e útil criá-las de carne e osso, seriam mais leves, ágeis, mais fortes que a maioria, mas isso não é possível. Usamos a argila porque, sabe-se atualmente (anos atrás era usado, muito comumente, um tipo de cristal) que é o que possui melhor custo-benefício. Armamos e equipamos com armaduras as marionetes, acredito que você viu durante as disputas no estádio, apenas para ampliar suas capacidades."
— Trata-se de controlar os gastos de sua 'reserva mágica', não é mesmo? Tentam gastar menos e obter mais resultados. — Concluiu Dino, com um meio sorriso. — Compreendo. É parecido com o mercado, no final das contas. Mas então, porque dar cor, pelos e tantos outros detalhes às criaturas?
— Você tem razão, Dino, controlar os gastos da nossa reserva mágica é uma parte vital da magia... mas isto é apenas quarenta por cento de tudo! Os outros sessenta por cento tratam-se de pura intimidação! Por isso, conjuramos as marionetes com pelos, cores e tudo a mais. Além de que, por exemplo, se você quer conjurar um tigre, mas é um mão de vaca quando se trata de sua reserva mágica, então vai conjurá-lo sem pelos ou cor, sua mente pode acabar se confundindo, entrando em conflito com o que você imagina por "tigre" e o que você planeja conjurar, o feitiço assim tendo altas chances de falhar, o mago conjurador não conseguindo conjurar nada ou conjurando um animal completamente diferente."
— Muito esforço para pouca recompensa. — Disse Miranda, voltando à conversa. — O que um marionetista obtém de resultados em um ano de estudo e treino constante, um mago destrutor obtém em uma semana.
— Há classificações, então? — Disse Dino.
— Sim, é claro, mas apenas duas, quatro se contarmos com suas subdivisões.
Amenos e Impetuosos são estas classificações.
"O primeiro grupo foca-se em atividades relacionadas a ofícios comuns, enquanto o segundo, a atividades de guerra. Bem, não que isso signifique qualquer coisa para os Desoladores, que recrutam magos de qualquer tipo. Alguém capaz de curar com magia num instante um ferimento que, normalmente, levaria semanas a ficar bom, é bastante útil no exército, afinal. Os Amenos são divididos em:
"Curandeiros: que são magos que, no Grêmio, focam-se nas matérias de Transmissão de Energia Mágica Entre Indivíduos, Alquimia e Aumento das Capacidades Regenerativas e Intensificações Físicas. Grupo do qual eu faço parte, inclusive.
"E, imbuidores: aqueles que se voltam-se à Imbuição Mágica e Concepção de Ferramentas."
"Já os Impetuosos são:
"Os marionetistas: como esse idiota aqui, que estudam para conjurar criaturas para lutar em seu lugar, no Grêmio frequentando as aulas de Criação e Manipulação de Marionetes, Estudo dos monstros e Controle de flutuação de objetos."
"E os destrutores: os mais poderosos em combate, dedicados as disciplinas de Resistência Mágica, Controle de Flutuação de Objetos, Projéteis e Outras Estruturas Físicas Espontâneas, Aumento das capacidades Regenerativas e Intensificações Físicas, Comprometimento de Alvo e Criação e Controle de Energias."
Finalmente, quando já não mais conseguia se conter, pulando de empolgação, Alice perguntou, radiante e sorridente:
— Eu posso ser uma maga também?
Os jovens trocaram olhares, relutantes, antes de Álex respondê-la, com um meio sorriso:
— Bem, qualquer um pode ser um mago. Na verdade, muitos têm talento à magia e passam a vida inteira sem saber disso. — O rapaz sentiu-se simplesmente horrível quando continuou, tendo pensado que se começasse com aquelas palavras gentis amenizaria a decepção da garotinha, mas o resultado mostrou-se exatamente o oposto, apenas deixando-a ainda mais decepcionada quando ouviu: — Porém, a menos que você seja uma Talentosa, é muito difícil de começar a praticar e sem as instruções de um professor experiente pode levar décadas para despertar o mínimo de poder para conjurar qualquer feitiço... — Vendo as lágrimas escorrerem pelas bochechas da garotinha, que soluçava parada e cabisbaixa, Álex tentou corrigir-se, gaguejando: — Ah, desculpe! Pode sim, esqueça o que eu falei!
Somente quando Matilde tomou Alice no colo, sorrindo e balançando-a de um lado para o outro gentilmente, a menina parou de chorar. A idosa, que ouvira atenta e em silêncio toda a conversa, não parava de dizer à garotinha: "não se chore, oh, querida, não chore".
— Não se preocupem, por favor. — Disse a idosa, sorrindo para todos os seus companheiros após alguns instantes. — Crianças choram, isso é apenas o normal. Ela vai ficar bem, tenho certeza. Agora, por que não nos desviamos destes assuntos sombrios e falamos sobre histórias mais felizes e agradáveis, hein? O que você pensa, Isabela?
— Acho que seria ótimo, minha boa senhora. — Concordou a fada, lembrando a todos ali que seu marido partira para a guerra.
De repente, um sentimento de culpa pesou a consciência dos jovens, que logo mudaram de assunto, deixando os feitiços perigosos e monstros para trás, perguntando a Eder sobre mais uma de suas aventuras, que pareciam intermináveis, o homem possuindo o que parecia ser um estoque infinito de histórias de emoção e diversão.
Chupa-cabras, oras, qualquer idiota que sabe usar uma armadilha para ursos ou um rifle consegue matar um desses cães sequelados! Quero ver, porém, pegarem um gorila de costas prateadas! Ah, sim, amigos, isso sim é um desafio. Uma vez, quando eu passava no Grêmio para pegar mais uma missão...
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