Guerra A Ruína - Capítulo: 15

Capítulo: 15

Azai.


— Obrigado pela hospitalidade, senhor Comandante. — Agradecia Azai ao Comandante responsável pelas tropas do forte, que era constituída apenas por harpias, vampiros e fadas, as pessoas aladas, aqueles que chegaram muitos dias antes para impedir a passagem de qualquer tropa inimiga pelo Estreito de Gutrok. — Devemos partir agora.

— Não há o que agradecer, senhor Maioral-Mor, apenas cumpri com meu dever.

— Respondeu o vampiro. — E, se me lembro bem, você e os seus têm também um dever a cumprir. Agora vocês montam em animais apropriados e estão descansados, então devem partir imediatamente. Adeus!

Azai assentiu com a cabeça, virou-se e guiou sua tropa pelo estreito passadiço, onde não muito mais que quatro pessoas conseguiam andar lado a lado, o único caminho entre a muralha e o forte. A inclinação negra que cercava todo o lugar, a muralha, tinha a forma de uma rampa, uma subida muito inclinada do topo, que caía bruscamente para seu interior, a um fosso seco e repleto de estacas, espigões de ferro, que estendia-se por metade do espaço entre a muralha e a fortaleza. Numa quantidade tão grande quanto o próprio número de espigões, haviam esqueletos por toda a parte, daqueles que pensaram que o emaranhado de ferro do lado de fora da muralha eram uma tolice que apenas a deixavam mais fáceis de se escalar.

— Sei que já disse isso antes, mas que visão assustadora.  Comentou Tadeo, franzindo as sobrancelhas numa expressão angustiada. — Os darcenses eram mesmo cruéis.

— Bem, eu acho que, na verdade, isso é algo bastante inteligente. — Retrucou Azai, olhando em volta, admirado. — Vendo tudo "aquilo" do lado de fora, a primeira coisa que se pensa é em escalar para tomar o lugar não é? Bem, quando chegam ao topo os invasores descobrem que não é bem assim, enquanto caem direto para a morte.

— Verdade. — Concordou Jéssica. — Talvez o melhor forte já construído. Impenetrável, eu diria... embora também sombrio e definitivamente nada confortável. Espero nunca mais ter de passar uma noite aqui!

A mulher era uma humana, tinha a pele morena e era forte mas ainda não mostrava as marcas, as cicatrizes de um veterano. Seus cabelos chegavam na altura dos ombros, porém estavam sempre presos num coque sob seu turbante. Uma vez que deixou o acampamento, afastando-se dos demais cintilantes, tirou a máscara dourada e não a usou pelo resto da viagem. Parecia odiar aquela coisa.

— Bem, eu ouvi falar que há uma fortaleza tão resistente quanto esta do outro lado do estreito. — Apontou Caleb, levando a mão ao queixo, pensativo, quando completou: — Qual era seu nome mesmo?

- Censura.  Respondeu Miguel, impassível como mostrara-se até então, sua voz abafada pela máscara. — O nome da fortaleza crasiriana que guarda o Estreito de Gutrok é "Censura". E não fica ao fim da passagem, mas abrange todo um trecho dela.

Miguel, ao contrário de sua companheira, tirava a máscara apenas na hora das refeições e para dormir. Suas feições sob o crânio de metal, porém, eram tão comuns que mal valiam a pena serem citadas, quase idêntico aos outros vinte membros da tropa, embora, visivelmente, o mais jovem dali, com cerca de vinte anos, a máscara praticamente servindo como sua própria identidade: nariz visivelmente quebrado mais de uma vez, pele morena, cabelo cortado muito curto e de barba cheia. Um humano.

Felizmente, os dois cintilantes adaptaram-se muito bem ao grupo. Azai ficou aliviado quando percebeu que não teria problemas com aqueles dois, não reclamavam mais do que os outros, eram obedientes e tão bem treinados quanto qualquer um, embora ainda sentisse-se relutante quanto à presença de uma mulher no grupo.

— Irmão, o Censura é a chave para nossa vitória, como você pode esquecer seu nome e localização? Eu cansei de lhe falar sobre... — Comentou Tiago, suspirando, desapontado pelos esforços desperdiçados com seu lento irmão.

— Tch, eu sabia o nome, apenas tinha me esquecido!  Retrucou o íncubos, estalando a língua, envergonhado pelas risadas que brotaram das gargantas dos demais soldados. Voltando-se então para Miguel, continuou, zangado:  E você, não pense que eu sou um idiota!  Mesmo o mago não fazendo um ruído sequer, Caleb ainda disse: — E não atreva-se a rir!

O olhar carrancudo e penetrante que Jéssica colocou sobre o íncubos deixou mais que bastante claro então que, embora Miguel possa não ter se importado nem um pouco com a ameaça, apenas respondendo-a com um dar de ombros e um "certo", a elfa irritou-se em dobro com Caleb. Azai relaxou quanto à possibilidade de deparar-se com problemas por conta de ter uma mulher no grupo quando o íncubos sentiu seus ombros estranhamente pesarem muito mais sob o fitar de Jéssica, até que Benjamim interveio, calmo e sorridente, com os olhos estranhamente avermelhados, apaziguador:

— Não precisam brigar, pessoal, Caleb tenho certeza de que Miguel não o corrigiu com más intenções, e, pessoal, até eu esqueço as coisas, mesmo as importantes, de vez enquanto!

— Bem, não é uma surpresa que você se esqueça das coisas.  Respondeu Azai, levando seus soldados a mais uma vez gargalharem.

— Ainda assim, o trânsito de suprimentos e reforços deve ser é bastante lento por conta do mesmo motivo que torna esse forte tão inexpugnável.  Comentou Caleb, tentando corrigir o deslize que cometera com o último comentário ao exibir um pouco sua compreensão militar.

— Isso não é realmente um problema. — Retrucou o Maioral-Mor, dando de ombros. — Normalmente apenas alguns poucos homens ficam aqui (e já o suficiente para conter um número muitas vezes maior de inimigos que atrevam-se a atravessar o estreito), de vigia, então, mesmo que o reabastecimento aconteça apenas duas vezes por ano e ainda demore dias para que tudo entre de fato nas dispensas, nunca falta suprimento. Na verdade, o exército faz questão de manter as reservas aqui para que sempre tenha-se o suficiente para mil soldados sobreviverem despreocupadamente por três anos.

— Não dessa vez. — Apontou Tadeo, sorrindo, embora de sobrancelhas franzidas e com um ar de preocupação ou aversão a algo. — Você viu o número de soldados que haviam lá, Azai, mesmo que os líderes tenham mandado os alados o quanto antes ao início desta guerra, ficou claro para mim que já haviam realocado um número consideravelmente grande de soldados para lá... antes mesmo disto começar.

— Você fala como se nossos líderes já estivessem planejando uma guerra, senhor Maioral Tadeo, mas é claro que esta não é sua intenção, não é?  Retrucou o Maioral- Mor, empertigando-se, incomodado com o comentário ousado demais do amigo para com membros superiores da sociedade.  Afinal, isso seria traição.

-...Não senhor Maioral-Mor Azai, não era esta minha intenção. Peço desculpas, senhor Maioral-Mor. — Respondeu o tigromem, dando de ombros.

Azai havia guiado sua tropa severamente, pondo-os a avançar o mais rápido possível, desde que recebera sua missão. Desejava conseguir, pelo menos, três dias de vantagem com sua corrida, imaginando se haveriam problemas em subir pelas estreitas trilhas da Cordilheira Gris ou se a guarnição do vilarejo daria um desafio maior que o esperado. O Comandante-Mor fora claro também quando disse que, quando suas tropas se reunissem, o posto avançado já deveria estar consolidado, afinal.

Quando partiram do acampamento, pernoitaram nos lombos de seus cavalos, cavalgando o mais rápido que atreviam-se, guiados pela luz de Valor e Valentia e das estrelas distantes enquanto seguindo pela tortuosa e esburacada estrada de terra que inclinava-se cada vez mais, subindo por entre os vales até o estreito e a fortaleza, que servia de abrigo a outra parte do exército, homens de incontáveis outras bases militares sob a futura liderança do Comandante-Mor. O dia amanheceu, o sol percorreu todo seu caminho pelos céus e anoiteceu mais uma vez quando finalmente, após dois dias rumando em velocidade intensa, Azai e sua tropa avistaram o Forte das Correntes.

A fortaleza ficava bem em frente ao Estreito de Gutrok, um enorme bloco de rocha e argamassa, construído de forma hexagonal, com uma alta torre em cada ponto de união da estrutura de seis lados, seteiras e canhões pontilhando toda a superfície escura da construção. Era cercada por uma muralha, também hexagonal, da qual pendiam um milhar de correntes, algemas, gaiolas e jaulas que originavam-lhe seu nome. Ambos os portões, do forte e da muralha, ficavam ao leste, lado oposto ao estreito.

A visão do forte não era nada agradável, uma coisa negra e opressora contra a massa cinzenta e fria da cordilheira, ele fora construído em épocas passadas, quando Darco ainda era jovem e desejava expandir-se para o oeste. Sabia-se que os darcenses, para intimidar qualquer que fosse o povo que habitava o lado oposto da cordilheira, prendiam naquele aglomerado de ferro das muralhas vários escravos e deixavam-nos lá, para morrerem de sede ou comidos pelos pássaros. Ainda viam-se esqueletos esquecidos pendurados à muralha aqui e ali. Mesmo assim, foi com um grande alívio que todos ouviram as ordens de Azai, que disse que descansariam lá naquela noite. Finalmente teriam comida quente, camas feitas e um teto sobre suas cabeças, o que parecia para aqueles soldados então quase um luxo digno da nobreza, uma vez que aqueles homens passaram dois dias sobre os lombos de suas montarias, quase sem descanso, comendo a carne seca e pão e bebendo água com gosto de couro velho, do qual eram feitos os cantis.

Finalmente, com equipamentos próprios para as altitudes e montados dessa vez em burros fornecidos pelos homens do forte, que, embora mais lentos que os cavalos, estavam acostumados a seguir pelas trilhas traiçoeiras das montanhas, a tropa de Azai voltou à estrada. Ainda havia um caminho bastante longo pela frente e o tempo corria.

Tinham chegado ao início das trilhas nas encostas das montanhas pouco mais de duas horas depois de deixarem a fortaleza e vinham seguindo por elas desde então, alcançando uma altitude bastante razoável. Lá embaixo, viam, o planalto erguia-se muito acima dos morros, que, por sua vez, eram várias vezes maiores do que as colinas mais adiante, à frente da planície e da floresta, que então observavam como apenas um tapete verde escuro muito, muito ao longe, uma linha tênue no horizonte. Não conseguiam ver as tropas em marcha, que deveriam estar escondidas por algum vale entre os morros. Estava frio.

O vento era implacável, traspassava as muitas camadas de roupas grossas dos soldados como se eles nada vestissem, fazendo até seus ossos doerem enquanto arrancava todo o calor de seus corpos, e seu rugido era incessante, um alto e irritante ruído que percorria toda a encosta da cordilheira a todo momento, enquanto os homens reclamavam que não havia qualquer combustível para uma fogueira ali.

A primeira concavidade na parede escarpada e cinzenta da montanha à esquerda, Azai decidiu então levantar acampamento, dando um descanso tanto aos soldados quanto as próprias montarias, não apenas incomodado pelo frio, mas evitando que seus subordinados adoecessem devido à rápida subida.

Na irregularidade da rocha, então protegidos do vento, embora ainda batendo os  dentes, o frio noturno revelando-se quase doloroso, os soldados aglomeravam-se o mais próximos uns dos outros o possível, deitados ou recostados nos burros, ignorando o mal cheiro dos animais em troca do calor compartilhado, comendo a carne e as frutas secas e o pão, empurrando goela abaixo a comida sem gosto e dura com goles de água, jantando.

— Espero que o vento nesse vilarejo seja menos forte. — Reclamou Caleb, esfregando as mãos e baforando nelas.

— Com ou sem vento, o vilarejo vai ser mais frio do que aqui. Ele fica quase próximo aos altos picos, afinal. — Apontou Miguel para o incômodo do íncubos. — Pode estar até nevando lá.

— Ah... — Suspirou Jéssica. — Não sei como os povos do norte sobrevivem neste frio!

— Vocês não podem fazer uma fogueira para nós, não?  Perguntou Benjamim, esperançoso.

— Não é assim que funciona. Poderíamos até nos esquentar, mas isso viria em troca de uma dose de cansaço, o que não realmente melhoraria nossa situação, e ainda temos mais longas horas de caminhada à frente.  Retrucou Miguel.

— Ei, cintilantes, suas tropas de não são sequer divididas entre masculinas e femininas? — Perguntou então Azai, o Maioral-Mor, que já vinha curioso desde que visitara o acampamento dos magos dias atrás, finalmente não conseguindo mais aguentar-se e interrogando os cintilantes.

— Bem, não. — Respondeu Miguel. — Não são muitos os que nascem sob a bênção da Santa Arcana, então não há distinção de gêneros: todos são levados para os fortes secretos ainda jovens e rigidamente treinados e instruídos na magia, homens e mulheres de todas as espécies. Mesmo se o filho de um escravo nasce sob a bênção, a esta família de escravos é concedida a liberdade em troca da criança.

— Não há problemas com, bem... o sexo? — Perguntou Caleb, sorrindo como uma criança, bobalhão.

— As chances de nascer um abençoado da relação entre outros dois são maiores do que o normal, então, na verdade, esse comportamento nos é estimulado.  Respondeu Miguel, dando de ombros, o íncubos ficando então boquiaberto enquanto passava os olhos do cintilante para Jéssica e de volta a Miguel.

— E aqueles que não são filhos de escravos, como vão parar nos fortes secretos?

— Perguntou Azai, interessando-se ainda mais no assunto, ele, a quem a magia e seus praticantes sempre foram tão misteriosos.

— É uma grande honra ter um filho servindo como cintilante e uma garantia de um futuro à criança. É sabido que comida, roupas e estudos são nos concedido afinal... E, se isso não for o suficiente, há uma recompensa generosa de alguns milhares de dotes aos pais, caso seja provado que a criança é de fato um abençoado pela Santa Arcana. — Respondeu Jéssica, seus olhos mostrando-se distantes, sua voz pesada, suas mãos alisando a máscara dourada, que estava presa no antebraço. Estava claro que o assunto a incomodava e Azai decidiu parar por ali, sentindo-se então um tanto estranho. Culpado de alguma forma?

— Ah, que sono, que sono! — Comentou Benjamim enquanto bocejando, já apenas meio acordado.

— Sim, já é hora de dormirmos. — Disse o Maioral-Mor, deixando para lá os pensamentos e sentimentos difíceis. — Amanhã acordaremos cedo e percorreremos o último trecho, então vão logo dormirem!

Era hora do crepúsculo, o lado leste da cordilheira já coberto por sombras, apenas alguns poucos pontos de luz pintando os picos das montanhas de vermelho, enquanto, de uma elevação rochosa, Azai via os soldados chegando, seguidos um atrás do outro, em fila indiana, até uma área mais plana da montanha, um terreno que, embora ainda bastante inclinado, era aberto, onde nasciam algumas pequenas árvores com formatos estranhos, entortadas pelo vento, que mostrava-se ainda mais violento. Observando os picos, que ficavam cada vez mais próximos, e uma nivelação mais à frente e acima, onde as árvores fechavam-se numa floresta baixa e contorcida, de aspecto sinistro, o Maioral-Mor retirou da mochila o mapa dado-lhe pelo seu superior, desenrolando-o, estendendo-o numa pedra próxima e confirmando suas suspeitas.

— Chame Benjamim e João.  Ordenou a Tadeo, que esperava paciente ao seu lado. O tigromem assentiu e saiu em busca dos soldados.

— Aqui estão, senhor Maioral-Mor. — Anunciou Tadeo, que voltou pouco depois, acompanhado dos outros dois homens.

— Estamos nos aproximando do vilarejo. Daqui para frente, esta trilha vai se alargar, vai cruzar aquelas árvores, contornar algumas rochas grandes demais e virar abruptamente para a entrada da vila, numa depressão cercada por rochas. Mas não queremos ser surpreendidos, podem haver sentinelas e sabe-se lá quando este mapa foi feito, as coisas aqui podem muito bem ter mudado desde então. Dito isto, vocês servirão de batedores. Confirmem a posição e estado do vilarejo, se há homens guardando-o e se a geografia do lugar bate com a deste mapa.

Em uníssono, os dois responderam:

— Entendido, senhor Maioral-Mor!

Com os dois seguindo velozes mais à frente, adentrando por entre as árvores e sumindo da vista, Azai voltou a guiar o grupo, cauteloso. Os demais soldados perceberam que a batalha aproximava-se e empertigaram-se, suas caras fecharam-se em carrancas sérias e eles passaram a cavalgar com maior cuidado, silenciosamente, já afrouxando as tiras de couro que prendiam suas armas, as espadas, os revólveres, os rifles.

Quando partira, Azai, a fim de evitar os frequentes incômodos causados pelos novatos, que tremiam frente a luta, não paravam de falar e relutavam em desferir o golpe final ou perdiam a cabeça em ataques de pânico e partiam desenfreados contra os inimigos ou ficavam paralisados (como ficara acontecera durante a caçada do entelodonte), o Maioral-Mor escolheu para a expedição somente aqueles que estavam a, pelo menos, três anos sob seu comando, homens experientes que já haviam participado de uma ou outra perseguição a foras da lei, missões contra piratas ou bandidos de estrada, homens que já tinham banhado suas lâminas com sangue do inimigo. Tinham que suportar um longo dia de caminhada e ainda árduas horas de batalha. Mais uma vez Azai sentiu-se aliviado quanto aos cintilantes que trazia consigo, pois ambos mostraram-se tão competentes quanto os demais até aquele momento e não pareciam estar com medo, ou ao menos esforçavam-se em escondê-lo, embora, como qualquer um, a tensão antes do confronto estivesse evidente sobre os dois.

A noite caiu e apenas a fraca luz das estrelas possibilitava que enxergassem qualquer coisa. Como o indicado pelo mapa, a estreita trilha começou a alargar-se cada vez mais quando o terreno começou a aplanar-se, finalmente tornando-se uma estrada, marcada por velhos sulcos de cascos fendidos e rodas de carros de boi. Nesse ponto o Maioral-Mor ordenou que seus subordinados desmontassem dos burros e os amarrassem no interior escuro daquele emaranhado retorcido de madeira. Foram bastante úteis na subida, mas Azai não iludia-se a considerar deixá-los perto demais da batalha.

Estavam todos em alerta, quase em silêncio total, arregalando os olhos para enxergarem através da escuridão da noite, quando ouviram passos descendo a estrada, ainda distantes, a pelo menos cinquenta metros adiante. Em questão de segundos, com a ordem de Azai, que percebera que havia apenas uma pessoa aproximando-se, concluindo então que provavelmente não eram seus batedores, os soldados dividiram-se em dois grupos e esconderam-se atrás das árvores que ladeavam a estrada.

Houveram alguns suspiros de alívio quando João finalmente aproximou-se o suficiente para que os soldados o identificassem. Saindo do esconderijo, o Azai ordenou, sentindo uma sombra pairar em seu coração por conta da ausência de Benjamim:

— Relatório.

— Sim, senhor Maioral-Mor.  Respondeu o homem, que mostrava-se apenas um pouco ofegante. Empertigando-se e, como o ordenado, prosseguindo: — Avançamos escondidos pelas árvores, às margens da estrada, que segue como no mapa, e não demoramos muito a alcançar as rochas que são contornadas. Lá, a floresta acabava abruptamente e não havia onde esconder-se de quaisquer olhos atentos, então nos desviamos por entre as rochas à esquerda, e chegamos ao topo de uma elevação. De lá tínhamos uma visão parcial do vilarejo.

"Vimos um muro de rocha de mais ou menos três metros de altura ao redor do lugar, com um portão grande de madeira guardado por um par de soldados de armadura média (peitoral, capacete, manoplas e botas de aço sobre manto e cota de malha) no final da estrada, que levava bem à vila. Benjamim disse então que vocês já aproximavam-se (o caminho não é longo, afinal) e que eu deveria voltar e os informar do que já tínhamos confirmado. Disse que tentaria contar os homens que a guardavam, procurar pela casa do ancião ou da guarnição, ou uma falha no muro. 'É bom que seja baixo, mas seria ainda melhor se não existisse', ele disse quanto a proteção do vilarejo. Por último, disse-me para avisá-lo, senhor Maioral-Mor, que devemos encontrá-lo nas rochas, no ponto em que a rua faz um semicírculo para contorná-las antes de seguir ao portão do vilarejo." Azai assentiu, a preocupação com o sátiro aplacada, a sombra em seu coração desaparecendo. Antes de continuar a guiar seus subordinados, o Maioral-Mor sacou seu machado de guerra de uma mão e tirou o escudo das costas, prendendo-o firmemente no braço esquerdo. Seus soldados, sem a necessidade de qualquer ordem, fizeram o mesmo. Azai e seus subordinados sabiam muito bem que o barulho do raspar da lâmina no couro da bainha poderia ser facilmente ouvido no silêncio da noite, enquanto carregar as armas já desembainhadas por muito tempo apenas era um cansativo desperdício de energia, deveriam fazê-lo numa distância que fosse o suficiente para que o inimigo não os ouvissem e ao, mesmo tempo, que não precisassem carregá-las por aí por tempo demais.

Não demorou para chegarem às rochas, ao ponto onde a estrada fazia um semicírculo e descia à vila, e lá estava, recostado numa rocha, agachado, Benjamim. O sátiro levantou-se quando viu seus companheiros aproximarem-se. Adiantou-se a Azai e, sem delongas, começou:

— Vinte e cinco, dois no portão, doze de vigia sobre o muro, dois à frente da casa do ancião, que fica no extremo oeste do vilarejo, no fim da rua mais larga que corre por entre as casas, e nove em patrulhas pelas ruas, divididos em três grupos de três. Vestem algum aço e não parecem novatos ou simples camponeses brincando de guerra.

— Alguma falha no muro ou na vigia? — Perguntou Azai.

— O muro é baixo, apenas três metros e meio, mas circunda toda a vila, com exceção do extremo sul, onde há uma parede natural, mas não há nenhum buraco, pedra velha ou solta ou argamassa se esfarelando. Na verdade, o muro parece ter sido erguido há pouco tempo, não há nenhum musgo ou mancha nas pedras que o constituem. Quanto a vigia, prestam bastante atenção nos trechos mais próximos à estrada e ao norte mas não parecem acreditar que uma tropa possa passar por entre as rochas e escalar ao sul, e, além disso, estão cegos pela luz de suas próprias tochas. A menos que tenham um vampiro entre eles (e eu garanto que não há), não devem conseguir enxergar muito bem nessa noite sem lua, sem As Três.

Em compreensão, Azai assentiu com a cabeça, já silenciosamente ponderando, montando sua estratégia. A diferença numérica não era grande, apenas três soldados inimigos a mais, mas, se o que Benjamim disse fosse verdade, os soldados inimigos eram tão habilidosos quanto os seus próprios e seria desagradável verem-se cercados por mesmo que apenas um ou dois oponentes a mais. Poderiam escalar o muro ao sul, parte que parecia estar menos vigiada, mas assim Azai teria de guiar todos os seus vinte e dois soldados por entre as rochas e confiar apenas na noite para escondê-los dos olhos dos inimigos enquanto escalassem o muro.

— Aproximem-se.  Disse Azai enfim, gesticulando.  Vocês serão divididos nos seguintes grupos: ...

Fora com uma chuva de balas direcionadas aos guardas no portão e aqueles que andavam de um lado para o outro sobre plataformas por trás dos muros que o ataque começou, os clarões amarelados dos disparos transformando a noite em dia e logo o cheiro de sangue misturando-se ao de pólvora sendo queimada impregnando o frio ar da montanha. O par de soldados que guardava o portão sequer teve chance, uma dezena de balas alojaram-se, atravessaram e rasgaram seus corpos, matando-os instantaneamente. Pelo menos outros dois dos muros tiveram o mesmo destino, caindo para trás, saindo da visão dos atacantes, e não retornando.

Mostrando-se tão competentes como o insinuado por Benjamim, os inimigos não esperaram por uma segunda rajada, sob ordens sendo gritadas do interior da muralha, do vilarejo, eles organizaram-se num instante, reunindo-se nos muros e disparando incessantemente contra a posição dos homens de Azai, que protegiam-se atrás de rochas, ao norte da estrada.

As faíscas voavam sempre que um tiro ricocheteava na rocha, fosse num dos blocos do muro ou na penha que servia de abrigo aos atacantes, cintilando a centímetros de seus alvos com um penetrante "plim!". A cada rajada inimiga, as balas erravam por um espaço menor, eles sempre corrigindo a mira, chegando assustadoramente perto, até mesmo ricocheteando no capacete de um homem à direita de Azai, que simplesmente ignorou o sangue que começava a escorrer por sua testa, continuando a puxar o gatilho ensandecido vez após vez, até que este chegou aos seus olhos, cobrindo-os de vermelho, embaçando sua visão e ele se viu forçado a voltar à proteção da rocha para desimpedi-la.

O tiroteio seguiu-se com ambos os grupos revezando nos disparos, seu barulho ecoando por toda a montanha numa tempestade de fogo e aço, até que, uma vez que os tambores dos rifles e revólveres esvaziaram-se, os homens jogaram as armas ao chão, sabendo muito bem do tempo necessário para recarregá-las, tirando os arco e flechas e bestas das costas e carregando-os com os projéteis, retesando as cordas e, em segundos, retornando a trocação de disparos, agora com as setas e flechas de madeira e ponta de aço assoviando o caminho até seus alvos, partindo-se ao acertar uma proteção, ou cravando-se no soldado até as penas com um ruído surdo, os corpos sem vida desabando com baques das plataformas por trás do muro ou, como um dos homens de Azai, caindo, aos berros, ao chão de terra, ferido, com uma flecha fincada no ombro.

Dezenas e dezenas de hastes de madeira jaziam quebradas à base do muro que cercava o vilarejo, enquanto o campo rochoso onde os soldados escondiam-se estava agora pontilhado também por outras tantas penas de pássaro, e, a este ponto, os defensores da vila já tinham perdido, ao todo, nove homens, enquanto apenas dois dos subordinados de Azai encontravam-se fora de combate, um deles sem uma orelha e grande parte do couro cabeludo pendurado apenas por uma tira de carne, e o outro com uma flecha cravada no ombro direito, ambos gritando e agonizando deitados sob as pedras, seu sangue criando poças sob seus corpos.

Os soldados crasírianos, apesar das baixas, uma vez que superaram o elemento surpresa, colocando o grupo do Maioral-Mor sob intensa pressão, eles não mais conseguindo revidar os disparos, quando, com um clarão azul, como um relâmpago de gelo, um estalido, o barulho do ar deslocando-se rapidamente em todas as direções, os portões de madeira ao fim da estrada foram arremessados muitos metros adiante e pelos ares, a forma de grossas portas revestida de ferro reduzida a um esfacelado de milhares de estilhaços, quando um enorme aríete de ferro fora jogado contra ela.

De repente, um outro grupo surgiu das sombras, parecendo ter vindo de lugar nenhum, os homens, pelo menos quinze deles, avançando aos berros, protegidos pelos seus escudos levantados, agitando suas armas em frenesi. Os crasirianos dos muros viraram suas atenções, desnorteados em busca da origem do aríete, metade para o grupo invasor ao oste, que aproximava-se espantosamente rápido do, então, buraco onde antes estavam os portões, os namorianos tendo de cobrir, na verdade, apenas um espaço muito pequeno de terra, pois quando mostraram-se, já estavam bastante próximos, e outra metade para o interior do vilarejo. Azai, aproveitando-se do momento de distração, num instante levantou-se, deixando o abrigo das rochas, levantando o escudo e juntando-se aos seus homens, berrando e correndo, então empunhando seu machado de guerra de uma mão.

— POR NAMÓRIA! PELO REI! — Berrava o Maioral-Mor, avançando imparável à frente de seus subordinados, contra os inimigos à frente.  PELO REI!

Em segundos, o Maioral-Mor já subia, três de cada vez, os degraus das plataformas por trás do muro, onde os inimigos ainda resistiam. Já próximo ao topo, viu um golpe descer verticalmente sobre sua cabeça, uma espada bastarda afiada e veloz prestes a fender-lhe o crânio, quando levantou seu escudo, aparando o golpe, que se fez reverberar por todo seu esqueleto. Ignorou a dor e instantânea insensibilidade no braço e, com um poderoso golpe, decepou a mão do atacante que brandiu a lâmina, logo em seguida seu machado voltando, dando continuidade ao golpe, cortando o ar num sibilo sinistro, e abrindo a garganta desprotegida do agressor antes mesmo que ele se desse conta da ausência da mão. Ignorando o corpo sem vida a cair ao chão, o Maioral-Mor prosseguiu, chegando ao topo da plataforma e disparando numa corrida frenética em direção ao próximo alvo.

Um outro soldado impedia-lhe o caminho, berrando qualquer coisa em sua estranha língua, uma ofensa, um grito de guerra ou ainda, talvez, uma exaltação a sua pátria, como Azai então fazia, ainda gritando "pelo rei!" ou "Namória" ou "pela nação!".

Não importava, Azai matou-o mesmo assim, desviando a estocada do oponente e cravando a parte afiada de sua arma entre os olhos do homem.

Já lutando contra um outro inimigo, Azai esquivou-se do golpe de sua alabarda, o crasiriano, em desespero a rápida aproximação do Maioral-Mor tendo brandido sua lâmina num amplo ataque semicircular  horizontal que fora facilmente frustrado, quando próximo o suficiente Azai num único e poderoso golpe de lâmina sedenta de sangue, atravessou numa chuva de faíscas seguidas por sangue, o elmo do oponente, arrancando-lhe o escalpo e parte do cérebro, o crasiriano caindo ao chão na mesma hora, seus olhos revirando-se e seu corpo debatendo-se, enquanto emitia um ruído gutural que logo cessou-se, macabro.

Azai tirou os olhos do oponente morto e a matança seguiu-se, um próximo inimigo investindo contra ele com uma estrela da manhã, errando seu ataque e sendo decapitado logo depois, e um seguinte crasiriano depois deste tendo disparado inutilmente uma sequência de flechas que o Maioral-Mor aparou facilmente com o escudo, até tirar por fim a vida do arqueiro, que tentou desembainhar a espada curta presa ao seu cinto tarde demais, Azai abrindo-lhe caminho por entre sua pele, carne e ossos do ombro ao coração com seu machado.

Vendo-se no fim da plataforma, o Maioral-Mor deu meia volta, observando seus homens massacrarem os últimos inimigos nos muros. O sol já nascia, transformando o sangue daqueles caídos em ouro. Nas ruas lá embaixo estavam, como previamente ordenara, os cadáveres dos soldados que no início do ataque não subiram aos muros, a patrulha da cidade que reuniria-se em frente aos portões à espera de uma possível invasão.

A estratégia que planejara, horas antes, era bastante simples, visando deixar qualquer risco no mínimo. Dividira sua tropa em três grupos, um deles com o dever de atrair a atenção dos inimigos nas muralhas, composto por três soldados com todas as armas de fogo do grupo, que deveriam simplesmente atirar e matar o máximo possível, chamando a atenção para si, enquanto o segundo grupo, composto apenas por Benjamim, João e Miguel, pulavam o muro ao sul, matavam os soldados ainda no vilarejo e utilizavam da magia do cintilante para arrombar o portão, abrindo assim caminho para o terceiro grupo, os outros quatorze soldados que invadiriam e tomariam de uma vez por todas o vilarejo. Deixou Jéssica afastada da batalha, ordenando trazê-la apenas uma vez que a matança tivesse fim para fazer seu trabalho como curandeira.

Ao longo da plataforma, outros tantos cadáveres estendiam-se gélidos, de olhos vidrados e pingando sangue, e seus homens pilhavam-nos e comemoravam, gritando e descendo as plataformas em busca de mulheres ou tesouros. Viu os habitantes do lugar espiando temerosos das janelas de suas simples casas, escondendo-se por trás das cortinas quando ele passava seus olhos por sobre eles, ouviu suas preces aos seus deuses ou demônios ou o que quer que acreditassem, e percebeu que o vilarejo havia sido tomado. Haviam vencido aquela batalha.

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