Capítulo: 13
Octávio
O vampiro vinha estado bastante ocupado desde o término das eleições, ainda mais do que quando organizava os discursos ou espalhava panfletos ou organizava as propagandas e liderava outros membros do partido, verificava e assinava pilhas intermináveis de pedidos e documentos, separava as tarefas e enviava subordinados a cumpri-las, supervisionava vários pontos de recrutamento, comprava e confirmava a chegada de armamentos, ferramentas e equipamentos, ou exigia o rastreamento dos produtos ou a contagem deles, além de cumprir uma série de tarefas e favores aos Senadores, principalmente a Fernando. Estava bastante satisfeito.
As coisas haviam mudado no Prédio da Assembleia, logo Octávio comandava boa parte da organização lá dentro, sendo promovido imediatamente ao seu retorno a Alto-Membro-Associado (cargo imediatamente superior ao seu antigo na organização, de Membro Associado). Com a maioria dos Senadores e membros da Assembleia compartilhando do mesmo partido, e, sob o conselho do próprio Octávio, mesmo que seus companheiros não compartilhassem de sua preocupação com o partido rival, com uma forte repressão a irmandade sendo feita, tornara-se muito mais fácil agir.
Em geral, Octávio e os demais membros da Assembleia vinham tratando de assuntos da guerra, na maioria das vezes comprando armamentos de Idris, um país na costa do Pequeno Continente que manteve-se neutro nesta disputa, ou validando cartas de corso. Por conta do pequeno poder militar naval de Nova Crasíria, mais de cem capitães piratas do país, famosos ou não, já haviam sido transformados em corsários, e, pelo menos, outros cinquenta destes foras da lei tinham sido contratados de outros cantos do mundo para batalhar nas águas do oeste e defender o território nacional.
Enquanto nas fronteiras ao norte, nas florestas, savanas e desertos, e no leste, nos altos picos da Cordilheira Gris, as tropas já vinham batalhando há tempos, adentrando o território inimigo, tomando aldeias e pequenas cidades e fortificações, e defendendo o seu próprio, enviando reforços às áreas atacadas e retomando-as; em geral, entre os conflitos diários, os dois lados mantando-se equivalentes quanto as vitórias e derrotas, em ambos os países rivais todos os arredores da cadeia de montanhas sendo desolados pela guerra. Felizmente, não havia qualquer preocupação vinda do sul, os mares de lá sendo tempestuosos demais, a costa do continente sendo apenas uma grande muralha de rochas escarpadas e repleta de velhas torres e fortificações (mesmo que estas tivessem a guarnição um tanto negligenciada) e quase sem praias, ao mesmo tempo que a cordilheira levantava-se do mar, sem nenhum espaço para travessia de leste para oeste.
Já esperava ser chamado, o vampiro, mas fora a natureza de sua convocação que o inquietara, esta sendo bastante destoante das atividades que exercia recentemente, enchendo sua cabeça com planos de guerra. Cézar (que embora afiliado ao Partido dos Filhos, como o antigo Senador Bértil, aparentemente, não mostrava-se pendente nem para a opinião forte e radical da reconquista, nem à voz esperançosa da irmandade) aquela pequena figura tão familiar chegara a sala de Octávio em sua expressão orgulho e surpresa ao ver seu colega naquela posição mesmo após o que ocorrera antes, trazendo uma mensagem curta, porém de conteúdo claro:
— Meu bom senhor Octávio, o Senador Fernando convoca-o à uma reunião em sua sala. Diz respeito a promoção de um Alto Membro Associado a Representante Provincial. — Avisou Cézar.
— Um Representante Provincial? Quem fora o escolhido?
— O senhor Carlos Ruva, senhor.
"Aquelezinho?" pensou Octávio, estranhando a escolha de seu superior do homem para um cargo tão importante. Já vira Carlos antes, era um fantasma, um homem gordo e risonho que praticamente deixava que seus subordinados fizessem todo o trabalho. "Um incompetente." O único tipo de pessoa que despertava a ira do vampiro. "Porém, um incompetente rico" compreendeu. "Fora um dos principais patrocinadores do campanha de Fernando. Agora está apenas cobrando seu preço, hein?"
— Pois bem. — Disse Octávio, organizando os papéis à sua frente para quando retornasse e levantando-se com cuidado. — Eu sei o caminho, Cézar, obrigado. Está dispensado.
— Ah... — Resmungou o Goblin, relutante.
— Sim? Deseja falar alguma coisa?
— Bem, primeiro: parabéns pela promoção. — Respondeu Cézar, sorrindo. — E, sabe, ainda me é meio estranho ter de me referir a você tão formalmente.
— Obrigado. E ainda antes, eu já era seu superior e você não se referia a mim com formalidades. — Retrucou o vampiro, apontando a relação (um tanto unilateral) entre os dois no passado.
— Certo, então: até mais, Octávio! — Disse por fim o goblin, equivocando-se de alguma forma quanto as palavras do vampiro, interpretando-as como m passe livre para a dispensa de formalidades, e seguindo seu caminho antes que Octávio pudesse dizer-lhe qualquer coisa.
"Bem, contando que ele faça seu trabalho direito, acho que tudo bem..." pensou o vampiro enquanto suspirando e dando de ombros, antes de rumar à sala de Fernando.
— Oh, aí está ele! — Disse Fernando, a todo sorriso, por detrás de sua mesa, uma vez que Octávio abriu as grandes portas de sua sala. — Estávamos esperando.
A sala do elfo Senador era enorme, pelo menos duas vezes maior do que todo o apartamento que servira de sede ao partido até antes do fim das eleições, toda iluminada pelas janelas na parede oeste, aquela oposta à porta da qual Octávio entrara. As paredes douradas eram adornadas com grandes quadros magníficos, coloridos e vibrantes, enquanto sobre a mesa do próprio Fernando, onde haviam apenas algumas poucas folhas soltas e um ou dois livros, descansavam estatuetas, cálices e canetas de ouro e vinhos e charutos caros. "Acho que não sou apenas eu que estou contente com a atual situação" pensou Octávio.
— Imagino que o você seja meu bom senhor Octávio de Pesos. É um imenso prazer conhecê-lo. — Cumprimentou-o Carlos, com seu largo e típico sorriso, levantando-se da cadeira à frente da escrivaninha do Senador, sua gordura excessiva transbordando ao redor e envolvendo o exoesqueleto de forma repugnante.
— O prazer é todo meu, meu bom senhor.
— E aí está sua carta na manga, não é, Fernando? — Brincou o homem gordo, tornando a sentar-se. Em resposta, o elfo forçou um sorriso. — Agora, tratemos do que interessa: quanto a minha escolha e consolidação de cargo a respeito da província de Tunextenso...
"Certo, agora eu tenho certeza absoluta de que outros regozijam-se de nossa vitória", pensou o vampiro, também sentando-se.
— Não se preocupe, meu bom senhor! — Completou Fernando, sem dar mais tempo para Carlos falar. Indicando o vampiro, que então descansava ao lado do homem gordo, à frente de si mesmo, continuou: — Tudo já foi preparado: papéis foram assinados, selos foram postos e mensageiros enviados. É muito improvável que venha a ocorrer qualquer problema com sua ascensão, meu bom senhor Carlos.
"Então, voltemos 'ao que interessa'. Como o senhor mesmo já garantiu que daquela cidade poderá diminuir em grande parte nossas despesas com quanto ao transporte dos armamentos e outros suprimentos militares, utilizando apenas de sua própria companhia, e com a construção aprovada e financiada pelo governo de uma estrada-de-ferro esses custos cairiam ainda mais. — Disse o elfo, fitando, sério, Carlos, que mostrava-se bastante desconfortável ao escrutínio do Senador, remexendo-se em seu assento a todo momento, olhando de esguelha para Octávio de tempos em tempos, suando e empalidecido, como se temesse a presença do vampiro, que escutava seus planos, contratos e ambições quieto. — Pois bem, que assim seja. — Concluiu Fernando, empurrando a Carlos um par de envelopes selados com o brasão da bandeira do país (um de escudo em forma de pássaro verde sobre um fundo azul) em cera, fazendo os papéis deslizarem pela mesa até as mãos gordas do homem. — Aí estão os documentos que garantem tanto sua promoção, quanto a aprovação da construção da linha férrea contendo minha assinatura e a de Murilo, a assinatura de dois Senadores, o necessário para a aprovação de qualquer projeto Estadual. Há uma cópia de cada um destes dois, que já foram enviados aos bons senhores da Assembleia, que validarão muito em breve os documentos, dando assim início à construção desta estrada-de-ferro, organizando e supervisionando tudo, e garantindo sua ascensão a seu novo cargo, enviando, num envelope igual a este, o comprovante de sua promoção à província de Tunextenso.
"Porém — Fernando voltou a falar, uma vez que Carlos pegou o envelope nas mãos, deixando seu sorriso morrer em seus lábios. — A guerra demanda de mais que armas e equipamentos, meu bom senhor Carlos, necessitamos algo muito mais primordial, indispensável, a matéria-prima de todo conflito e algo que nós três aqui reunidos, homens sensatos, sabemos que não será realmente necessário tão a sul: soldados."
Após instantes olhando pensativo para o envelope em suas mãos, "decidindo se as pilhas de dinheiro que viriam com aquele acordo valiam a vida de alguns milhares de homens, seu futuro povo", Carlos disse, o sorriso voltando ao seu rosto junto do rosado de sua pele, a resposta já estava decidida desde o início, afinal:
— É claro que sim.
"De fato, homens sensatos", pensou Octávio, com um meio sorriso curvando-lhe os lábios. "Talvez ele não seja um completo incompetente, afinal". Uma dúvida, porém, tomando sua atenção no mesmo instante, forçando-lhe a perguntar:
— Eu compreendo a grande importância deste acordo, meus bons senhores, tanto para o desenvolvimento da guerra quanto para o da própria nação, porém devo me perguntar: para que fui chamado aqui?
— Ah, sim! — Respondeu Fernando, deixando a expressão séria para trás, como uma lembrança longínqua, uma vez que seu sorriso radiante veio-lhe à face. — Octávio, perdoe-me por negligenciá-lo até então, por favor. Chamei-lhe aqui porque, como eu antes já disse, embora seja muito improvável que venha a ocorrer qualquer problema com a promoção de meu bom senhor Carlos, ainda há uma chance disto acontecer! Por isso você, Octávio, meu amigo, será enviado como uma testemunha de que tudo sairá nos conformes. Não queremos qualquer problema ao sul, afinal, já temos muito com o que nos preocupar, logo quem melhor para acompanhar o mais novo Representante Provincial, do que, como disse meu bom senhor Carlos, minha carta na manga?
Passando os olhos pelo homem gordo, que fitava-o sorridente como sempre, e de volta a Fernando, prestes a abrir a boca em questionamento, "é justamente por eu ser sua 'carta na manga' que não deveria ser enviado para tão longe por uma tarefa tão leviana... Estão planejando algo. Não. Fernando está planejando algo" pensou, antes de dar de ombros e responder enfim:
— É claro, Senador. Quando partimos?
Nenhum comentário:
Postar um comentário