Capítulo: 12
Azai.
"A SEGUNDA TRAIÇÃO BRANCA. ÀS ARMAS!
RECENTEMENTE, NAS ELEIÇÕES DA MALUCA POLÍTICA DE NOVA CRASÍRIA, ONDE O POVO ESCOLHE TRÊS REIS, UM PARTIDO (GRUPO DE CANDIDATOS A REIS) QUE APOIA ABERTAMENTE NOSSOS INIMIGOS, A 'ALIANÇA AZUL' (HORAC, THIR E QHOLO) E PLANEJA ROUBAR, USURPAR TODA A RUÍNA PARA SI E SEUS COMPANHEIROS, O 'PARTIDO DA RECONQUISTA', ASSUMIU O PODER.
ALGUMAS DAS ATITUDES TOMADAS PELOS REIS LOUCOS DO OESTE, ALÉM DA DECLARAÇÃO DE GUERRA PARA CONOSCO E TODA A 'ALIANÇA VERMELHA' (NAMÓRIA,CRÁT, THIRLUNDIA, MUN NHIR E ZUUL), FORAM: A PROIBIÇÃO DA ADORAÇÃO ÀS VERDADEIRAS DIVINDADES (OS SAGRADOS IRMÃOS MERIN E MURIN E SUAS MUITAS ESPOSAS E FILHAS, AS SANTAS), AS SANTIDADES PATRONAS DE NOSSA GRANDIOSA NAÇÃO, E A TOTAL SUBMISSÃO DOS ESTRANGEIROS À SUA 'SOBERANIA PURA, OS DESCENDENTES DE CAEL'.
FOI COM GRANDE PESAR QUE NOSSO GLORIOSO REI, JOSHUA BRILHANTIS III (TERCEIRO), TEVE DE TOMAR A DECISÃO DE ENVIAR OS EXÉRCITOS À FRONTEIRA OESTE, À CORDILHEIRA GRIS, PARA DEFENDER AO SEU BOM POVO E TERRITÓRIO, EVITANDO UM MASSACRE COMO O DE SETENTA E UM ANOS ATRÁS, E OUTRAS ATROCIDADES DOS MALFEITORES QUE SÃO, NA REALIDADE, OS CRASÍRIANOS, QUE NADA MAIS SÃO DO QUE OS DESCENDENTES DE TRAIDORES, BANDIDOS DESONRADOS QUE HÁ TEMPOS FUGIRAM DO ALCANCE DA JUSTIÇA, ESCONDENDO-SE DO OUTRO LADO DAS MONTANHAS."
Estas foram as palavras que foram impressas na primeira página em todos os jornais do reino há mais de um mês atrás, uma semana antes das tropas serem realocadas, enviadas às fronteiras, palavras carregadas de tristeza, que, num último apelo a visão de incrementar as tropas, incendiou o coração dos homens; porém, acima de tudo, inspiraram também a Azai, que durante os vários dias que procederam-se a notícia e a ordem de partida, marchou, comandando seus homens, fervoroso.
Antes mesmo da notícia da guerra ser impressa, um grande número de harpias chegara durante o dia e vampiros durante a noite, ambos mensageiros velozes, trazendo envelopes, cartas e mensagens não escritas, mas fora somente quando um harpia trazendo consigo um envelope negro com o selo branco da família real chegou a base que fora, finalmente, dada a ordem de partida. O Comandante-Mor (soldado duas patentes maior que Azai e responsável por toda a base), tomou a carta e leu-a ali mesmo, no meio do pátio.
Não demorou mais do que dois minutos para o Comandante-Mor então virar-se ao Comandante (soldado de patente imediatamente superior a Azai), seu subordinado direto, e ordenar que todos os homens fossem reunidos no pátio em quinze minutos. Naquele momento, a disciplina foi absoluta, todos olhando ao alto e imponente líder e a espera de suas palavras, atentos a mensagem.
Uma vez que a ordem fora cumprida, os seis mil soldados alinhados em colunas, fora montado rapidamente um estrado em frente ao poste no qual as bandeiras estavam erguidas e aos homens ali reunidos, quando o Comandante-Mor subira nele e apresentara-se, fazendo um grande e inspirador discurso, repleto de palavras duras, palavras de morte e tristeza, mas também de coragem e glória, de orgulho e vitória. Azai não lembrava com exatidão o discurso de seu líder, mas o sentimento que sentira ao escutá-lo, a chama que intensificou-se em seu interior, seu espírito tornando-se grande, isso lembrava-se muito bem. Na verdade, ainda o sentia quando marchava, pensando em seu dever e nas batalhas por vir.
Imediatamente após o discurso, os soldados arrumaram tudo em menos de uma hora (não que ainda faltasse muito a ser arrumado) e partiram ainda no começo da tarde. Seguiram quase sempre em linha reta, seguiram por intermináveis planícies e campos de baixas colinas, cruzaram sobre muitos rios, e atravessaram florestas, a estrada fazendo apenas alguns poucos desvios, contornando penhas grandes demais e matas densas demais, onde os únicos caminhos eram trilhas velhas e escuras, quase completamente encobertas, cheias de buracos, raízes e pedras.
Desde então, vinham todos marchando num ritmo constante, embora um grupo tão grande não conseguisse se mover muito rápido, durante todo o tempo em que o sol brilhava, com apenas rápidos intervalos de trinta minutos de descanso às nove horas, ao meio-dia e às quinze horas. Muitos dos soldados, homens simplórios que nunca haviam saído de um raio de mais de vinte quilômetros de suas cidades e vilarejos, assim por conta de uma noção distorcida da extensão do território do próprio país surpreendendo- se quando, somente após dezessete dias de marcha, a Cordilheira Gris começou a dar as caras no horizonte. "E isso que estávamos numa das bases mais próximas das montanhas..." diziam alguns deles.
Às colinas, as raízes da Cordilheira Cinzenta tornavam-se cada vez maiores até tornarem-se grandes morros e planaltos e, por fim, as montanhas que compunham a fronteira leste do país numa subida ininterrupta. Faltava pouco, talvez mais cinco ou seis dias de marcha para chegarem no Estreito de Gutrok, a única passagem entre o leste e oeste ao sul das montanhas, e nas primeiras trilhas íngremes e enormes escadarias esculpidas que subiam as encostas rochosas escarpadas da cordilheira.
Com a elevação da altura, a temperatura tornara-se mais gélida. Embora em muitos outros países aquele clima fosse considerado agradável ou mesmo quente, para aqueles acostumados com as típicas temperaturas tropicais do sul do continente, o inverno tinha chegado mais cedo, e muitos dos soldados já viam-se completamente agasalhados, enrolados em suas capas e sob o manto do uniforme. Não faziam ideia do verdadeiro frio, o vento cortante que arrancava todo o calor do corpo numa única rajada, que fazia no topo de algumas das montanhas da cordilheira, onde não era raro nevar.
Começavam a levantar o acampamento às dezoito horas, quando a luz começava a dar lugar às sombras, o sol escondendo-se atrás das montanhas mais ao oeste, nisso levando mais uma hora de serviço, e logo eram decididos os sentinelas da noite e divididos os turnos de vigia. Somente então os soldados tinham suas merecidas horas de descanso.
Era num desses momentos de descanso que então encontrava-se Azai, sentado numa pedra meia coberta de musgo, próximo a uma fogueira que ardia intensa, junto de seu amigo Tadeo, e outros subordinados: Caleb, Tiago e Benjamim. Os soldados brincavam e comiam a luz vacilante das chamas, os íncubos apostando alguns dotes num jogo de dados contra Benjamim, Tadeo observando-os e fazendo sua refeição silenciosamente, e Azai constantemente soltando comentários sarcásticos e rindo das trapalhadas de Caleb, que perdia todas.
Com mais uma vitória de Benjamim sobre os irmãos, o sátiro levando todo o dinheiro apostado até então, somando todas as partidas em cinquenta dotes, Azai caíra as gargalhadas enquanto Tadeo lutava para esconder o sorriso que torcia-lhe os lábios, quando Caleb jogou ao chão com um único movimento a bacia com os dados, fulo da vida, afastando-se do grupo, resmungando, seu irmão Tiago acompanhando-o, com um meio sorriso, acalmando-o.
— Merda, acabou a cerveja... — Disse Azai, coçando a barba.
— Tch! — Tadeo estalou a língua em resposta. Dando de ombros, concluiu, mal-humorado: — Pelo menos você pode beber cerveja.
— Benefícios da autoridade superior! — Respondeu o Maioral-Mor, levantando-se com um sorriso. — Vou pegar mais. Já volto.
— Traga um gole para mim, líder! — Pediu Benjamim, ansioso por sentir o álcool mais uma vez. — Uma comemoração pela minha vitória, não?
— Quando você tornar-se Maioral-Mor, quem sabe! — Retrucou Azai, após uma risada sarcástica, assim afastando-se da fogueira e do resto do grupo, dirigindo-se pelo acampamento até uma série de pavilhões, onde estariam os tonéis de cerveja que buscava.
O acampamento era extenso, com mais de mil barracas, tendas, pavilhões e postes, além das carroças e carros de boi, todos organizados, abrigando soldados, montarias, comida e equipamentos, fogueiras acesas por todos os cantos em milhares de pontos luminescentes alaranjados e inconstantes, os carregamentos de suprimentos organizados no centro do acampamento e em fileiras, vários postes onde os animais eram presos pontilhando a região metros acima do topo das barracas. Árvores altas serviam de torres de vigia improvisadas, haviam barricadas cercando todo o lugar e patrulhas percorriam as extremidades do acampamento.
Haviam apenas quatro mil e novecentos homens ali, mas o espaço que ocupavam e o barulho que faziam passava uma sensação estranha de imponência e grandiosidade, quase como se seu número fosse dez ou cem vezes maior. De fato, aquele não era um grande número, não era raro de encontrar-se cidades consideradas pequenas com até cinquenta ou mesmo cem mil habitantes. Azai sabia que, na verdade, era uma fração bastante pequena de soldados, os grandes exércitos chegando aos quinhentos mil homens.
O Maioral-Mor já tinha trabalhado antes com números parecidos com aquele com o qual marchava dessa vez, derrubando organizações criminosas famosas e rebeldes insubmissos, já tinha experimentado aquela sensação de grandeza antes. E também a opressiva sensação de desilusão ao ver os corpos empilharem-se aos milhares quando a batalha começava, todos aqueles números, risos e luzes, que pareciam muitos em momentos pacíficos, esvaindo-se em jorros de sangue, membros amputados e gritos de dor. Sabia que aqueles que sobrevivessem a primeira batalha teriam a mesma sensação, e sabia que dessa vez tudo seria ainda mais árduo, numa guerra de verdade, contra um exército de verdade, em batalhas a altitudes elevadas onde as temperaturas caíam ao negativo e contra cidades cercadas por altas muralhas e fortes repletos de canhões, enfrentariam dali para frente ambientes e situações os quais nenhum deles estava acostumado.
Sim, lutariam nos picos, disso não haviam dúvidas para Azai, afinal o Estreito de Gútrok era intransponível contanto que aqueles do outro lado, mesmo que num número várias vezes menor, assim quisessem. Era uma passagem cujos pontos mais largos tinham, no máximo, cinquenta metros de largura, nos mais estreitos, não muito mais que cinco metros.
Finalmente avistando os tonéis empilhados, Azai adiantou-se, afastando de sua mente as memórias de batalhas antigas.
— Senhor, Maioral-Mor Azai Calian! — Chamou um homem, de repente, de trás de Azai, parando-o. — Senhor, o senhor Comandante-Mor exige sua presença em sua tenda. — Anunciou o mensageiro, uma vez que Azai virou-se para encará-lo.
— Por que? — Perguntou o Maioral-Mor.
— Não me foi informado, senhor. — Respondeu o mensageiro. Suspirando, Azai pôs-se a seguir o homem por entre uma série de postes, fogueiras e barracas, deixando sua caneca vazia de cerveja sobre um barril ali perto, lamentando-se por não poder desfrutar de mais um pouco de bebida.
Os tritões eram uma vista rara na superfície, tão dentro do continente, embora em tempos de paz não fosse incomum haver comércio entre eles e os "pés-secos" (como eles costumavam chamar todos aqueles que viviam em terra), os tritões frequentemente visitando os portos do mundo todo. Eram poderosos, ágeis e quase invencíveis em seu ambiente natural: o mar, e quase nunca saíam dele, por isso, em alguns países escravagistas racistas, valiam um bom preço, o suficiente para os comerciantes de escravos viverem os restos de suas vidas em considerável luxo. Em tempos de guerra, porém, alguns deles eram contratados como mercenários por altos preços, valendo pelo menos vinte homens de qualquer outra raça com exceção, talvez, dos gigantes. Sua força vinha de sua vida sob a água, onde tudo era mais pesado, lento, mais difícil de se mover e as pressões eram o suficientes para esmagar o aço; tudo isso moldava seus músculos para uma massa mais forte que qualquer outra. Embora não fosse certo que todos os tritões fossem tão poderosos quanto as lendas diziam que eram, pois haviam muitos deles, de todos os tipos: aqueles com tentáculos ou com rabos ou bocas de crocodilo ou possuindo com garras, na verdade cada um destes sendo uma espécie diferente, apesar de serem todos classificados como "tritões" pelos pés secos, que não sabiam muito sobre o mundo subaquático.
Azai assoviou, avistando a tenda de seu superior sobre a colina, impressionado. Em alguns momentos, estava atravessando a entrada dos aposentos do Comandante-Mor, guiado pelo mensageiro que o apresentou ao líder com a voz alta e clara enquanto batia continência, respeitosamente:
— Eu trouxe-o aqui, o senhor Maioral-Mor Azai, como o ordenado, senhor Comandante-Mor!
— Certo, agora saia. — Respondeu simplesmente o homem, gesticulando em direção à porta. Uma vez que o mensageiro saiu da tenda, o superior de Azai gesticulou, indicando com a mão para que ele se aproximasse.
O Comandante-Mor estava atrás de uma mesa abarrotada de papéis, notas, cartas, documentos variados e mapas. Atrás dele havia mais dois guardas brutamontes e o Comandante, que então servia de conselheiro ao seu superior. O próprio Comandante- Mor era um orc, com uma barba cheia, musculoso, careca, de dentes amarelados e de sobrancelhas muito grossas e geralmente franzidas, criando profundos sulcos em sua testa.
— Azai Calian, os soldados em geral te veem com bons olhos, mesmo meu mais próximo conselheiro te considera um homem de valor.
— Elogia-me mais do que eu mereço com essas palavras, senhor. — Retrucou Azai, cordialmente.
— Sim, senhor.
— Ótimo. — Disse o orc, gesticulando para que Azai aproximasse-se ainda mais da escrivaninha, no qual o Comandante-Mor esticou sobre, um mapa.
Era uma peça bastante completa, colorida, detalhando inúmeros riachos, picos, depressões, penhascos, trilhas, ruas e vilarejos, voltada exclusivamente para a Cordilheira Gris e apenas alguns poucos quilômetros de seus arredores, apontando as estradas que levavam às montanhas e os rios que nelas nasciam. No mapa estava marcado em vermelho um caminho que saía de um círculo, também em vermelho, que representava o ponto no qual o acampamento fora levantado naquele momento, e seguia até a gravura de um par de torres, representando uma fortificação, esta em frente ao Desfiladeiro de Gutrok. Ali, no Forte da Corrente, reuniria-se o principal contingente das tropas destinadas à batalha contra Nova Crasíria, Azai sabia. Dali o caminho tornava à direita por alguns quilômetros botava-se a subir a encosta das montanhas, percorrendo-a por muito tempo em zigue-zague, até o topo, onde continuava até um grande "X" sobre a gravura de uma casa, que simbolizava um vilarejo, o destino, o objetivo daquela missão.
— Aqui está o mapa, nele está marcada sua rota. Reúna uma tropa de até vinte homens, e não mais do que isso, afinal, precisamos agir o mais rápido possível. Mais, ao menos, que nossos inimigos.
"O posto avançado tem de estar consolidado quando esta tropa juntar-se aos homens que já se reúnem as sombras do Forte das Correntes. Vocês partiram ainda hoje. E leve um cintilante com também. Não há muitas mais instruções, mas tomem cuidado. Pode ainda não haver um esquadrão crasiriano lá ainda, mas deve ao menos ter uma guarda considerável. Os inimigos não podem ter deixado de perceber a importância da região, afinal. Entendido?"
— Sim, senhor. — Respondeu Azai, batendo continência.
— Leve o mapa. — Disse o Comandante-Mor. — Que todos os Deuses e Santas olhem por você, soldado. — Concluiu ele.
Aquela estranheza devia-se aos misteriosos poderes que aqueles rostos sorridentes escondiam? Estariam aqueles homens e, surpreendentemente, mulheres realmente apenas conversando, ou, na verdade, colocando Azai sob um sombrio feitiço? Não. O Maioral-Mor, no fundo, soube, desde o momento em que pôs os pés naquela parte do acampamento, o motivo de sentir-se daquela forma, um sentimento misto de surpresa, desilusão e alívio.
Azai percorria, tentando manter uma posição digna, a parte mais ao oeste do acampamento, onde, sob a sombra de uma alta colina, as barracas dos cintilantes erguiam-se em fileiras organizadas como as dos demais soldados, com o espaçamento padrão exigido entre elas, onde, ao redor de muitas fogueiras os soldados reuniam-se em grupos, jogando e apostando, conversando e comendo, fazendo muito barulho, havendo sons de risadas e conversas, de passos e, aqui e ali, até mesmo música, um soldado tocando gaita ou um violão. Tudo parecia tão... normal.
Não haviam máscaras de crânios de metal dourado, na verdade, o Maioral-Mor ouviu trechos de conversas reclamando delas, de como eram abafadas e desconfortáveis e de como os turbantes e as muitas peças de roupa eram quentes demais e ficavam logo cobertos de suor. Não conseguiu evitar de sorrir ao escutar isso. Também não viu ninguém "acumulando as sombras da noite", a maior demonstração de magia que observara foi de uma mulher, uma súcubo, ascendendo uma pilha de gravetos numa fogueira num instante, conjurando as chamas de uma única vez.
— Com licença. — Pediu Azai, aproximando-se de um homem que descansava sentado num barril, fumando. Percebendo as quatro estrelas que decoravam o uniforme do Maioral-Mor, gravadas em dourado no simples peitoral de aço do mesmo, vendo sua alta patente, o homem desceu do barril e bateu continência, deixando o cachimbo de lado.
— Onde posso me encontrar com o Cintilante-Comandante?
— Ali, senhor Maioral-Mor, ao lado daquela árvore. Na barraca. — Respondeu o homem.
A tenda indicada era apenas pouco maior que as demais e estava a apenas alguns poucos metros dali, ao final de uma série de barracas, sem nenhuma distinção, nenhuma extravagância ou guarda brutamontes destacando-a, apenas de uma faixa negra pontilhada de azul e amarelo na base diferenciando-a das demais.
— Obrigado. — Agradeceu Azai, seguindo o caminho à tenda indicada. Chegando em frente a abertura na lona que servia como entrada, o Maioral-Mor endireitou-se e anunciou: — O senhor Comandante-Mor me enviou, sou o Maioral-Mor Azai Calian, senhor Cintilante-Comandante.
— Entre. — Respondeu uma voz diligente vinda de dentro da tenda.
No interior da barraca, queimava lentamente um incenso, enchendo o lugar com um cheiro agradável, quente, que trazia uma sensação de tranquilidade. Num canto oposto ao saco de dormir, haviam apenas um cavalete improvisado e uma mesa, sobre a qual estavam empilhados organizadamente uma série de rolos papéis, livros, mapas e outros documentos, além de um carimbo e cera negra. Sentado numa almofada, em frente a mesa improvisada, estava um homem velho, um humano de pele morena com uma longa barba branca, o turbante ainda enrolado em sua cabeça.
— Veio pedir alguns de meus soldados, eu suponho. — Disse o velho, sem descansar a caneta com a qual habilmente assinava as folhas a sua frente ou tornar-se a Azai. — Partirá numa expedição e deseja incorporar sua tropa com um mago, um cintilante, não é?
— Sim, senhor. Fui aconselhado pelo Comandante-Mor a isto, senhor.
— ...Então deve ser algo realmente necessário, se ele próprio lhe aconselhou a isto. — Retrucou, sua expressão tornando-se então pensativa, o velho alisando a barba, largando enfim a caneta na mesa e pondo-se a fitar Azai. — Me desculpe, é que, recentemente, muitos oficiais vêm até mim exigindo a companhia meus soldados. Eles pedem quatro, cinco, até dez de meus subordinados para mesmo as mais ínfimas das tarefas. Aparentemente, esses "homens" não conseguem sequer ir ao banheiro sozinhos!
— Disse o Cintilante-Comandante, fazendo aspas no ar ao falar "homens". — Somos poucos, entenda, neste acampamento há apenas duzentos de nós. No Forte da Corrente devem ter mais um ou dois mil cintilantes, no máximo. E os soldados costumam nos superestimar, pensam que ter um mago entre seus subordinados os torna invencíveis, quando, não é bem assim que funciona. — Continuou o velho, levantando-se da almofada no chão e saindo de sua tenda, Azai seguindo-o de perto. — Então, quantos você deseja levar, Azai? Azuis ou Amarelos?
— Meu grupo deve ser pequeno e ágil, então apenas... Mas, perdão, senhor Cintilante-Comandante, "azuis ou amarelos"? A que se refere?
— Me decepciona que tão poucos de vocês, mesmo aqueles de altas patentes, não saibam nem sobre isso quanto aos cintilantes. — Comentou o velho, seguido por entre as barracas até um pavilhão, de onde vinham barulhos de muitas conversas e risadas, uma luz intensa de fogueira e o cheiro de comida. No caminho, os soldados batiam continência ao Cintilante-Comandante e abriam caminho para ele, mostrando grande respeito e admiração ao velho. — Os Azuis são soldados focados em suporte, aqueles que seguem a luz da lua, eles utilizam magias de cura, encantam ferramentas e criam poções e elixires, enquanto os amarelos são a força bruta, atacantes, e dominam as artes assassinas, seguidores do sol. Então, qual destes tipos de magos o senhor planeja levar consigo à sua missão?
— Um de cada, se possível, senhor Cintilante-Comandante. — Decidiu-se o Maioral-Mor, após refletir brevemente, concluindo que o atraso de um homem a mais seria facilmente compensado por aquelas habilidades. Ao mesmo tempo que também, simplesmente sentia-se curioso, ansioso para ver um mago em ação.
— Entendo. Nesse caso... — Respondeu o Cintilante-Comandante, entrando no pavilhão, ainda acompanhado por Azai. A algazarra do lugar cessou quase que instantaneamente quando os soldados dali viram seu superior parado a entrada, todos batendo continência, alguns esforçando-se para manterem-se de pé, já meio bêbados. Azai percebeu pela expressão daqueles homens e mulheres que eles já sabiam o que esperar quando viram o Cintilante-Comandante acompanhado por outro oficial. — Cintilante-Senhor-de-Armas Miguel e Cintilante-Senhora-de-Armas Jéssica, apresentem-se! — Ordenou ele, imediatamente os soldados citados dando um passo à frente e apresentando-se:
— Cintilante-Senhor-de-Armas Miguel, seguidor do sol, senhor Cintilante-Comandante Adriel.
— Cintilante-Senhora-de-Armas Jéssica, seguidora da lua, senhor Cintilante-Comandante Adriel. A partir de agora, vocês estão sob o comando do Maioral-Mor Azai Calian. Sigam-no, obedeçam-no e sirvam-no. O Maioral-Mor lhes dará os detalhes de sua missão. Isto é tudo. — Concluiu o Adriel, dando meia volta e partindo após um breve meneio de cabeça à Azai, deixando os três se encarnando.
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