Guerra A Ruína - Capítulo: 11

Capítulo: 11

Álex.


Ali, de alguma forma, as estrelas pareciam mais brilhantes e o mundo mais silencioso. A grama era macia e a brisa refrescante, quase gélida, completamente diferente do abafado dormitório masculino. Ultimamente, Álex vinha com muita frequência para trás da biblioteca, para sob a árvore na qual conhecera Milly. Sentava-se recostado no tronco (do lado oposto as lápides, é claro) ou deitava-se na grama, como então fazia, pondo-se a fitar os céus.

Porém, geralmente, quando o garoto decidia ali isolar-se e pensar, fazia-o em seu tempo livre, entre uma aula e outra, ou durante os intervalos de almoço, nos quais vinha sentindo-se bastante solitário, sem sua fiel e chorona amiga a seu lado, não durante a noite, depois de sair de fininho de seu quarto. Isso devia-se a sua difícil e recente situação com a chegada de mais más notícias, estas que pareciam não ter fim.

Nova Crasíria evidentemente preparava-se para a guerra, recrutando aos montes a população enraivecida, carroças cheias de novos soldados saindo da cidade o tempo todo, levando-os aos campos de treinamento, navios repletos de armas, amaduras, equipamentos e ferramentas apinhando o porto (ao menos, como o prometido pelos então novos eleitos Senadores, "revivendo" o comércio), e os assoladores (os magos que trabalhavam para o exército do país) esforçando-se para recrutar qualquer um com mais de quinze anos e treinando-os ali mesmo, no Grêmio, no estádio (aparentemente contra a vontade da diretora, que já tivera de incomodar-se para impedir que os assoladores simplesmente forçassem o alistamento daqueles que já haviam alcançado a maturidade legalmente), ensinando aos recrutados magias sombrias, do tipo que nunca eram, por receio ou por medo, mencionadas no Grêmio, voltadas para, segundo alguns, o verdadeiro, o motivo de origem ou mesmo o real propósito da magia: matar os oponentes. Também fora noticiado recentemente que Horac vinha sofrendo grandes derrotas nas mãos de Crát, que desembarcava seus soldados ao oeste, de Thirlundia que invadia imparável pelo norte, e de Namória, que seguia sem derrotas do sul. E, ainda por cima, o destino ainda insatisfeito em tamanho caos e desgraças, a terra natal de Miranda, o vilarejo no qual a garota nascera, fora uma das áreas então recentemente tomadas pelos conflitos entre exércitos.

A lebromem, que já mostrava-se a tempos melancólica, tornou-se completamente depressiva, nem mais comia ou saía da cama, diziam suas colegas de quanto. Fazia dias que Álex não a via, a última vez que trocaram palavras sendo quando despediram-se um do outro dias atrás, depois da garota ter deixado a aula de matemática, enquanto justificando-se dizendo que estava sentindo-se mal.

— ...Faz só seis meses que os boatos da Ruína começaram. — Disse Álex, deitado sobre a grama, com os braços para trás da cabeça, servindo como travesseiro, olhando para cima. — É engraçado pensar o quão rápido alianças foram quebradas e feitas, e como a guerra surgiu quando esse recurso misterioso e maravilhoso foi descoberto. Queria que a Ruína nunca tivesse existido... — Seu coração enchia-se de preocupações, pensamentos sobre seu próprio futuro, o futuro de sua amiga e de seu país percorrendo sua mente, pela primeira vez sentindo a real ameaça que vivia. — O que eu devo fazer? — Não era a primeira vez que Álex perguntava-se isso, na verdade esta pergunta sendo o verdadeiro motivo pelo qual suas visitas àquele lugar ficaram mais frequentes.  O país partirá a guerra em poucos meses, e talvez eu também, afinal não há garantia de que Milly poderá impedir que os assoladores forcem o recrutamento de todos os gremistas se eles alegarem crise, e minha única amiga está desolada, sem saber se ao menos seus entes queridos estão vivos ou não. O que eu devo fazer em tempos tão difíceis!?  Uma rajada de vento soprada ajeitou a grama e as folhas da árvore, e, como se um sussurro provocado por isso, uma voz veio a mente de Álex, uma resposta, que pensou em voz alta: — "São em tempos difíceis que surgem os heróis..." — Corando levemente por seu devaneio, Álex prosseguiu, refletindo:  Herói, hein? Me pergunto, como os heróis sabem quais decisões tomar? O que os impele para frente? De onde vem a coragem dos heróis, aquela que os faz dar o primeiro passo?

Refletindo sobre o problema, Álex, concluindo que de nada adiantaria pensar sobre a guerra ou política, que nada poderia ele fazer para mudar ou mesmo impedir o que acontecia (e envergonhando-se por isso), tentou, procurando ao menos algo que pudesse realmente fazer, se colocar sobre a situação de Miranda.

Ele havia nascido num vilarejo muito ao sul, numa grande planície, um lugar sustentado principalmente pelas plantações, pelo cultivo de trigo. Seus pais eram meros camponeses, ambos fantasmas (o que na verdade era bem raro, um casal formado por ambos membros da mesma espécie). Tinha alguns amigos de infância lá, mas já não tinha contato com nenhum deles há tempos. Quando seu pessoal, sua família, amigos e vizinhos, descobriu que ele, na verdade, era um Talentoso (como eram chamados aqueles com talento mágico em Nova Crasíria), todos ficaram eufóricos. Houve festa, e presentes, e risos e promessas. Álex prometera que, quando voltasse a sua cidade, seria conhecido no mundo todo, teria grandes riquezas, cuidaria de todos lá e abriria sua própria escola de magia. Nada além do esperado para aqueles que descobrem-se talentosos.

Imaginou, então, toda a vila arrasada, as casas queimadas, as plantações destruídas, o gado mutilado e apodrecendo aos cantos, e seu pessoal, aqueles com os quais ele dividira tantos anos de sua vida, todos mortos, aos pedaços, em poças de sangue.

Álex não percebeu quando começara a chorar.

— O que eu posso?  Mais uma vez perguntou a si mesmo, abafando os soluços e secando ás lágrimas que escorriam-lhe pelas bochechas.

O rapaz calou-se, e durante muitos minutos ouviu apenas o silêncio. Nesse tempo, todos os livros que lera e todas as histórias e canções que ouvira, voltaram a sua mente, e, quase como se todas lhe contassem a mesma coisa, Álex levantou-se, sorridente, orgulhoso e determinado.

— Não é a coragem, nem é a raiva, é um outro sentimento, um sentimento mais forte, que move os heróis, que os faz dar o primeiro passo. Ser um herói é fazer o certo, fazer o que pode ser feito! Não posso parar a guerra ou salvar o país, mas, ao menos, posso ajudar minha amiga! — Disse, anunciando sua decisão a si mesmo, como numa promessa.

Saindo em disparada do lugar, Álex parou em frente as lápides. Fitando o tumulo de Édrik, sorrindo, finalmente compreendendo a admiração da diretora e a grandiosidade daquele homem, Álex sabendo então que Édrik, aquele que lutou e sacrificou-se por aqueles que amava, fora um grande e verdadeiro herói.

De repente, tomar sua decisão pareceu a parte fácil, uma vez que o rapaz encolhia-se desconfortavelmente sob os arbustos que circundavam o dormitório feminino, escondendo-se de um grupo de garotas que resolvera sair para trás do prédio para fumar. E elas já estavam ali há pelo menos uma hora.

O garoto sentia seus músculos implorarem por um descanso e seus braços e rosto estavam cobertos por pequenos arranhões causados pelos galhos e folhas espinhentos, e cobertos de terra, sua roupa já completamente imunda. Seu plano inicial era esgueirar-se para a parte traseira do dormitório e usar da cobertura do próprio prédio para camuflar a luz produzida ao conjurar um feitiço, uma marionete, sua especialidade, que o levasse à janela do quarto de Miranda, agindo com discrição e furtivamente, mantendo tudo em segredo até a hora certa, mas começava a considerar seriamente jogar a discrição de lado e, simplesmente, explodir a porta dos fundos junto com aquelas garotas que não saíam nunca.

— ...Por todos os deuses, vocês já fumaram o suficiente para uma vida inteira...!

— Reclamou Álex, aos cochichos, irado.  Vão acabar com seus pulmões assim...!

Finalmente, depois de mais de uma hora, as garotas voltaram para dentro do prédio, gargalhando de qualquer coisa do assunto estúpido que discutiam, a última delas fechando a porta atrás de si, Álex podendo então enfim levantar-se e se espreguiçar.

Depois de agitar-se, se esticando, tirar a terra de sua roupa e dar um longo suspiro de alívio, o garoto aproximou-se do dormitório, olhando para cima, para as janelas no segundo andar. O prédio era idêntico ao dormitório masculino, mudando apenas as palavras na placa ao lado da porta da frente, de "masculino" para "feminino". Um grande edifício retangular verde, de telhado pontiagudo, com três andares, sem nenhuma janela no primeiro andar, mas com muitas delas a partir do segundo.

Contando as janelas da esquerda para a direita, uma, duas, três janelas, Álex encontrou o quarto de Miranda. As luzes estavam apagadas e as cortinas fechadas.

— Certo!  Disse Álex, estalando os dedos e, levantando sua mão direita, assim, conjurando o feitiço que o levantaria.

Houve uma grande luz azul vinda de baixo de si, um leve agito no ar e leves estalidos como o barulho de uma centena de folhas secas sendo pisoteadas ou de uma corrente elétrica percorrendo o metal; e logo em seguida, Álex, tendo de se agachar para manter o equilíbrio, fora erguido centímetro a centímetro no ar por sua especialização mágica: uma marionete.

A criatura que conjurara era uma aracne, um enorme monstro parecido com uma aranha, porém, cujo o dorso era algo próximo ao de um humano, apesar dos seis olhos, presas enormes e pelos que cobriam-lhe todo o corpo, aquela marionete sendo uma especialista em escaladas e transporte de cargas (em alguns lugares de Asatna, na verdade, os monstros daquela espécie eram até mesmo utilizados como montarias).

Álex endireitou-se sobre a criatura tentando alcançar o peitoril da janela, mas viu-se mais para a esquerda do que deveria. Controlando sua marionete, fazendo-a dar alguns passos para a direita, o garoto, finalmente, alcançou o peitoril da janela.

Ajeitou o cabelo, mais uma vez sacudiu as roupas, tirando o que ainda tinha de terra nelas, e, quando prestes a bater no vidro, Álex lembrou-se então que, assim como no dormitório masculino, eram várias as pessoas que dormiam no mesmo quarto, dividindo-o. Percebendo que não podia simplesmente bater no vidro e chamar por sua amiga sem correr o risco de acordar uma outra garota, Álex, entrando em desespero sobre o que fazer, sabendo que se não tomasse alguma atitude naquele momento, talvez nunca mais o fizesse, decidiu por fim abrir a janela e adentrar ao quarto. Se fosse pego ali, sua jornada estaria terminada antes mesmo de começar!

Por sorte, a janela não era trancada por cadeado ou fechadura, apenas por um simples sistema com um pino em "L" como tranca, cujo o qual o garoto conseguiu facilmente lidar conjurando um cartão de metal bastante fino (durante a conjuração, ele torcendo para que o estalido e a luz não acordassem ninguém) e usando-o para levantar a tranca da janela.

Uma vez que as janelas se abriram, o rapaz afastou as cortinas e tomou todo o cuidado ao tocar o chão com a ponta dos pés. Por dentro, o lugar não era muito grande, apenas um cômodo quadrado com cerca de quinze garotas em beliches por todos os cantos. Escutava os nada femininos roncos das garotas que ali dormiam. Infelizmente, o piso era de madeira, e já sem reparos há tempos, e com cada passo, mesmo ao mais leve toque, um rangido assombroso preenchia todo o quarto, fazendo com que cada pelo do corpo do garoto arrepiasse-se enquanto ele não conseguia tirar da mente a imagem daquelas garotas acordando e capturando-o. Nervosamente, ainda mais do que vinha estando nos últimos dias, quando sua cabeça ainda estava cheia de dúvidas, Álex procurava pela amiga, seus olhos percorrendo todo o quarto de um lado para o outro. Quase gritou de pavor enquanto saltando para trás quando pegou-se sendo fitado por um par de grandes e arregalados olhos.

Mas Álex ficou apenas parado, encarando-os enquanto retribuindo o olhar. Não estava realmente sendo corajoso ou desafiador, apenas apavorado demais, imaginando sua vida no Grêmio e seu futuro ir por água abaixo quando, a qualquer momento, a dona daquele par de olhos começasse um alarde, berrando por ajuda e anunciando um invasor. Suor frio escorreu de sua testa para o queixo e caiu ao chão, gotejante, durante os segundos infinitos do desconfortável confronto que seguiu-se sob os barulhos de roncares, aquela troca de olhares, até que, por fim, a garota que fitava-o cochichou:

— ...Léx, o que você está fazendo aqui?

Só havia uma única pessoa que o chamava por aquele apelido e ela era sua única e mais querida amiga:

— Miranda...! — Cochichou em resposta o rapaz, sem conseguir conter o sorriso. — Eu vim por você.

Silêncio. Os olhos ainda fitavam-no, porém agora tinham um brilho diferente. Por um momento, o rapaz percebeu neles um brilho de confusão, ou embaraço, talvez até mesmo esperança ou incredulidade.

— Vamos fugir. Juntos.  Continuou o rapaz, aproximando-se com cuidado da garota. Álex não era um idiota, sabia muito bem como a conversa estava soando, mas concluiu também que era assim que deveria agir naquele momento, romântica. Ainda sentia-se estranhamente entusiasmado e quase não acreditava na sua própria decisão, quase como se não tivesse sido ele mesmo que a tomara. Por fim, já próximo o bastante de Miranda para vê-la corada, concluiu:  Vamos numa aventura...!

Quase que instantaneamente, a expressão sem jeito de Miranda tornou-se séria, dura, suas bochechas rosadas perderam toda a cor e seus olhos ficaram frios.

— Você é um idiota?  Ela perguntou.

— Be... Bem, primeiro vamos a um lugar onde possamos conversar sem ser aos sussurros.  Retrucou Álex, voltando a janela.

Ambos desceram para o lado de fora usando a marionete de Álex e lá, sentados

num banco sob a luz de um poste, continuaram:

— Não estava conseguindo dormir. Tem sido assim recentemente, fico deitada na cama, sem ânimo para me levantar, querendo dormir o dia inteiro e o dia seguinte também, mas não consigo. — Explicou Miranda. Álex pode ver o quão abatida ela estava. Parecia ainda pior que da última vez que a vira.  Mas, pergunto novamente, o que você estava fazendo lá? E o que é isso de fugirmos juntos para uma aventura?!

Então, finalmente, no momento de explicar-se, Álex sentiu-se envergonhado. Para si mesmo, a decisão que tomara, a decisão de ajudar sua amiga, de dar-lhe alguma esperança, era o natural, a coisa certa e o óbvio a se fazer, mas explicar isso em palavras era...

— Bem...  Começou o rapaz.  Miranda, você vem sendo minha, não, minha única, verdadeira e melhor amiga desde que eu cheguei aqui. Conversamos e nos divertimos juntos, trocamos segredos e brincamos muito. Você sempre me apoiou quando eu precisei. E eu quero fazer alguma coisa por você, para retribuir-lhe, e agora é o momento para isso, agora que os tempos são difíceis é o momento de ser o herói! Miranda, eu quero ajudá-la, quero que você saiba que ainda há esperança.

— ...E por que devemos fugir para isso?

— Vamos para Horac, para seu vilarejo, procurar seus entes queridos! É verdade que aquela região está sob ataque inimigo, mas também é verdade que um exército é lento e barulhento, é possível que o povo de sua terra tenha descoberto sobre o avanço deles há tempos, ou mesmo que eles já tivessem sido alertados pelo governo do seu país. Esse tipo de notícia, notícias de esperança e salvação, não é importante para os jornais daqui que apenas querem atirar mais lenha na fogueira do ódio (isso vende mais, afinal), mas há esperança! ...Mas, se ficarmos aqui, nunca saberemos o que realmente aconteceu.

Álex acabara de explicar-se e ambos, o fantasma e a lebromem, tornaram-se a se encararem, sérios e em silêncio. Miranda estava pasma. Estava boquiaberta e logo seus olhos encheram-se d'água e seus soluços preencheram a noite. Ela agarrou-se ao peito de Álex e desabou em lágrimas. Nenhuma outra palavra foi dita daquela vez, nenhuma resposta, mas o garoto soube que conseguira transmitir seus sentimentos à garota e que ela com certeza o acompanharia na jornada por vir.

Nenhum comentário:

Postar um comentário