Capítulo: 10
Octávio.
Havia muita música, bebida e risos, sons de alegria que a cidade já não escutava a muito tempo. O vampiro, recostado num canto do cômodo, próximo a janela, observava os seus companheiros comemorarem eufóricos a grande vitória de seu novo partido, o Partido da Reconquista, sorriso ao seu sucesso. Estavam todos no último andar de um apartamento velho, que vinha até então servindo-lhes de sede. "É estranho pensar que em uma semana deixaremos esse prédio apartamento para partirmos aos prédios mais luxuosos do país, como os líderes da nação" pensava Octávio, imaginando como Fernando e Murilo ficariam sentados no alto estrado dos Senadores. "É estranho pensar que voltarei a pisar no Prédio da Assembleia."
Mesmo Octávio, que geralmente mantinha-se sério e impassível, sempre evitando embebedar-se, mal conseguia conter o entusiasmo para com o sucesso naquelas eleições. "Não é para menos. Nós merecemos isso" concluiu, bebendo mais um gole da caneca de cerveja preta que segurava.
E ele tinha razão. Durante os dois últimos meses, não só Octávio, mas todos os seus companheiros tinham esforçado-se ao máximo: espalharam panfletos, colaram cartazes e organizaram discursos numa grande campanha para os candidatos a Senadores, recolhendo, adotando, aceitando todos aqueles enraivecidos, frustrados e falidos (que não eram poucos), aumentando ao máximo o possível número de partidários.
Mas, mesmo entre todas as centenas de partidários, Octávio destacou-se, mostrando-se um dos mais eficientes membros. Sabia da crescente insatisfação e medo nas ruas por conta da crise que o país vinha enfrentando. E, como seu pai dissera, também sabia como lidar com as pessoas. O vampiro montava os melhores discursos, utilizando as palavras certas, aquelas que inflamavam a ira e determinação nos corações daqueles que o ouviam ao invés daquelas que os acalmavam. Distribuía os cartazes no porto e seus arredores, onde o medo do desemprego, da guerra e dos boatos que vinham nos, então, poucos navios que ali atracavam naqueles dias, e também próximos às partes mais pobres onde, consequentemente, concentrava-se o maior número de pessoas desempregadas e ignorantes, e também era onde os sussurros eram mais fortes.
Não demorou para todo o grupo reconhecer o valor do vampiro e logo ele tornou-se um importante membro do Partido da Reconquista. Octávio era especialmente prezado pelos candidatos a Senadores, principalmente por Fernando, por conta da tamanha eficiência com a qual fazia com que mais pessoas aderissem ao partido.
— O que você está fazendo aí no canto, meu amigo? Venha cá, junte-se a nós! — Chamou Fernando, aquele mesmo elfo o qual Octávio escutara meses antes, quando fora despedido. Ele então, naquela ocasião, apresentava-se como apenas uma sombra daquela figura séria, vigorosa e imponente que discursava na Grande Praça, de pé sobre a mesa e já meio bêbado e despreocupado.
Relutantemente, Octávio aproximou-se da mesa, quando foi puxado pelo homem, que o fez subir também sobre o móvel.
— Venha, vamos dançar, Octávio! — Disse o elfo, já sapateando em cima da mesa.
Sem jeito, o vampiro bebeu mais um longo gole da cerveja preta. "Bem, só por essa noite. Interação social é importante de qualquer forma", pensou, e, dessa vez, permitiu-se também perder a compostura e festejar com todos os outros. Afinal, a ocasião era merecida.
A semana seguinte foi longa, atrasada pela ansiedade, sete ociosos dias que, para aqueles que logo assumiriam seus novos cargos, pareceram uma eternidade, mas enfim o tempo passou-se e era chegada a hora dos novos Senadores adentrarem o prédio e exercerem, pela primeira vez, seu papel, com o Discurso de Entrada. Antes disso, porém, seguindo as tradições, os vencedores das eleições e todos os seus partidários deveriam desfilar pelas ruas, saindo da Grande Praça e seguindo, durante, pelo menos, cinco horas através do sul e norte da cidade, cruzando as duas pontes até darem uma volta completa em Dentre Flume, voltando ao ponto de partida e somente então adentrando de fato ao Prédio do Senado.
A comitiva estava organizada em três partes, cada uma num intervalo regular entre a outra, dispostas em dois grupos, com os recém-eleitos sentados em altas cadeiras sobre os ricos e grandiosos palanquins que haviam sido preparados para a ocasião. Primeiro e à frente vinha Fernando, acompanhado por metade de todos os partidários, incluindo Octávio, vestindo um terno digno de sua posição, depois Murilo, seguido pela outra metade do partido, tão elegante quanto seu companheiro, e por último, vinha o terceiro recém-eleito Senador, este chamado Pedro. Era membro do partido rival ao Partido da Reconquista, o Partido da Irmandade e conseguira eleger-se por pouco por conta dos votos de uma parcela menos desesperada, irada, da região.
Era a hora do crepúsculo, o fim da tarde, quando a comitiva, finalmente, voltou a ver a Grande Praça e os magníficos prédios do Senado e da Assembleia que a cercavam, então iluminados pelos últimos raios de sol, que refletiam nos telhados e nas fontes da praça, brilhando em vermelho. Depois de horas forçando um sorriso, acenando e caminhando ao lado da carruagem, apresentando-se a toda a cidade, seguindo por cima de intermináveis estradas cobertas de flores, sob constantes chuvas de confetes, que, por conta de seu suor, grudavam em sua pele, já sentindo seus olhos lacrimejarem e a pele arder incômoda após tanto tempo sob o sol, Octávio pensava ter a mais bela visão de todo o mundo ao observar o fim do desfile tão próximo.
A carruagem então parou e, ladeado por vários guardas vestidos em extravagantes armaduras completas de aço, o elfo desceu a carruagem, subindo apressado a escadaria ao Prédio do Senado, visivelmente tão cansado daquilo tudo quanto o próprio Octávio. Os demais membros que acompanhavam a Fernando seguiram-no, também atravessando as portas do prédio. Lá, quase em uníssono, todos suspiraram em alívio e logo em seguida dispersaram-se, conversando e parabenizando mais uma vez uns aos outros. Teriam um tempo para descansarem antes dos outros novos eleitos chegarem e, após os antigos Senadores entregarem suas faixas, discursarem, quando teriam então de reorganizarem-se ao pé da escadaria, em frente ao prédio, voltados a todo o povo na Grande Praça.
Octávio aproveitou este tempo, reidratando-se e comendo alguma coisa, logo já sentindo-se melhor com o breve descanso e decidindo dar uma volta pelo prédio. Seguindo pelos largos, bem iluminados e ricamente decorados corredores, o vampiro pensava: "até antes dos resultados da eleição, sinceramente, pensei que nunca mais atravessaria estas portas, que nunca mais andaria por estes corredores, que nunca mais teria a visão destas janelas. Que nunca mais poderia fazer aquilo que sou melhor. Desta vez, trabalharei em dobro e farei este Estado prosperar a todo o custo! E, com a maioria do nosso lado, nem mesmo a irmandade será um problema".
Parando em frente a uma grande pintura retratando uma cena épica de batalha, uma imaginação do último confronto do Pandemônio, os crasirianos todos coroados por auréolas de luz, enquanto desferiam golpes com espadas flamejantes no coração da criatura imortal liderados por Milly, Octávio continuou a refletir, instigado pela cena de batalha: "Guerra. Provavelmente, a este ponto ao menos, não conseguiremos retomar uma aliança com Crát. Agora, com o apoio de Namória eles não precisariam mais nos tratar tão privilegiadamente, não com um aliado militarmente poderoso e cheio de rancor contra nós bem ao nosso lado. Desejam, não, precisam, de nossa tecnologia mágica, não necessariamente nossa amizade, afinal. Assim sobraram-nos duas opções, dois partidos, mas apenas um caminho para o progresso".
"A primeira alternativa é: agora que Crát não mais deseja nossa amizade, rebaixamo-nos e aceitamos gratos qualquer mixaria de Ruína que nos cederem, afinal, uma vez que tomarem Horac (o que não demorará muito) terão toda a ruína para si".
"E a segunda: nos juntamos a esta estranha e recém-formada aliança entre Horac, Qholo e Thir e resistimos contra Namória, Crát e seus aliados, assim dividindo e tomando por nós mesmos nossas próprias 'fatias' da Ruína.
"Bem, felizmente o povo não é cego a ponto de não conseguir ver a opção correta, que os guiará ao futuro e ao progresso. A escolha já foi feita, com sussurros odiosos em becos escuros, com conversas abertas de grupos descontentes e maldizeres daqueles que chamam de covardes nossos líderes, até este momento. Este é apenas o evento de abertura."
Mais uma vez, o vampiro teve de encarar a multidão, porém, dessa vez, verdadeiramente prestando atenção naqueles à sua frente, percebendo a quantidade anormal de pessoas reunidas ali, mesmo para um Discurso de Entrada. Parecia que toda a população da cidade estava presente, dezenas e dezenas de milhares de pessoas apinhadas num grande mar de gente, a ponto de mesmo a Grande Praça não suportar tamanha concentração de pessoas.
Ladeando Octávio, também não haviam poucos membros de seu partido, estes estando alinhados em seis extensas fileiras, uma à frente da outra e voltadas para a praça, havendo ao todo, pelo menos mil partidários. Próximo a eles, porém, um outro grupo organizava-se separadamente. Estavam em menor número e mais afastados do centro da escadaria, mas ainda estavam ali, quietos e firmes. E também tinham poder, servindo não só a Octávio, mas a todos ali, como um lembrete, uma mensagem de que ainda nem tudo estava certo, garantido. Aquele grupo representava o Partido da Irmandade e eram aqueles que seguiam Pedro. "Pensando bem, acho que vou ter que lidar com eles mais tarde."
Assombrosamente, o silêncio fez-se na Grande Praça, que então era iluminada somente pelo tênue brilho d'As Três e as lâmpadas a óleo que queimavam na alta varanda da qual os antigos Senadores começavam a falar:
— Quatorze anos! — Disse Bértil, liderando o discurso daqueles que então entregariam suas faixas. Falava de forma surpreendentemente alta e clara para alguém que parecia tão velho, fazendo-se ser ouvido em toda a extensão da Praça, mesmo nos cantos mais distantes desta. — Muito aconteceu neste tempo, coisas boas e ruins, e é com pesar que chegamos neste momento sombrio da história de nosso país. Arrependemo-nos apenas de não podermos superar esta crise antes de cumprir com nosso tempo no poder.
"Mas chega disto, quatorze anos se passaram e é chegada a hora de passar esta infindável missão de liderança adiante! De qualquer forma, vocês não estão aqui para ouvir nosso discurso, as palavras daqueles que devem abandonar seu cargo. Passamos agora nossas faixas e com elas a responsabilidade de toda esta nação aos novos eleitos Senadores! — Concluiu. A harpia e seus dois companheiros voltaram-se então aos três novos Senadores, cada um passando adiante sua faixa de cor azul e verde e logo em seguida fazendo uma exuberante saudação aos novos líderes do país.
Adiantando-se na varanda, saindo na frente de seus rivais, Pedro começou o Discurso de Entrada, falando num tom muito mais baixo que Bértil, e de forma serena e séria, sem aumentar ou diminuir seu tom:
— Serei breve. — Disse, de expressão impassível. — Uma sombra cai sobre nós e devemos superá-la, estes tempos negros. Eu e meu partido, o Partido da Irmandade, já há tempos viemos nos esforçando para combater esta situação, mas até então não tínhamos forças para tal. Agora, porém, é diferente. Vocês, meu bom povo, me elegeram, e juro: darei o melhor de mim para reverter a situação. Trabalharemos duro, retomaremos os portos e o comércio e, novamente, Nova Crasíria será grande. Então, não mais precisam preocuparem-se, pois agora temos tudo em mãos e logo poremos um fim a esta crise. — Concluiu o homem, como prometido, brevemente e direto ao ponto. Burburinhos percorreram toda a praça, instigando muitos sussurros e conversas, depois uma série de aplausos e gritos daqueles aliviados da preocupação que os afligia desde todo o bloqueio comercial, sabendo que seu novo Senador resolveria tudo de uma vez por todas.
Sem demonstrar qualquer apreensão, Fernando seguiu à frente assim que Pedro deixara de falar. De forma calma, porém imponente e confiante, o elfo, segurando com as duas mãos o parapeito a sua frente, começou então seu discurso, representando ao mesmo tempo todos os seus partidários e seu companheiro Senador Murilo:
-Crise! Sim, isso define a triste, porém verdadeira e atual situação de Nova Crasíria. Há desemprego, pobreza e medo, estamos num terrível estado de tensão que este país jamais vira. — Disse. Aumentando o tom de sua voz, franzindo as sobrancelhas e empertigando-se, continuou: — E eu lhes digo a que isso se deve: estamos sob cerco! Ilhados! Encurralados pelo inimigo, não, pelos inimigos! Forçam-nos a esta situação deplorável não só trancando o comércio, mas também constantemente ameaçando-nos com suas palavras tranquilas, porém repletas de duplos significados e entrelinhas, jogando a sombra de seus exércitos sobre nós! ...Mas também lhes digo: não cederemos tão facilmente, pois somos fracos! — Uma onda de agitação percorreu a multidão, várias vezes mais intensa do que os burburinhos provocados com o discurso anterior, milhares de pessoas gritando "Reconquista!" e "Fernando!", e agitando suas mãos, assoviando ou simplesmente fazendo barulho, batendo os pés e as mãos. Falando ainda mais alto, de forma ainda mais agitada, socando o parapeito, o elfo prosseguiu ao fim do alvoroço: — Vencemos sobre aqueles que reinaram invencíveis por mil anos! Matamos aquele que era imortal! E prosperamos em meio ao preconceito e escravidão como nenhum outro em qualquer lugar no mundo, utilizando somente dos nossos próprios esforços! Não nos renderemos! Nunca nos rendemos! Se necessário, mais uma vez levantaremos nossas armas e marcharemos, imbatíveis! Destruiremos nossos inimigos! Nos reergueremos! Retomaremos! — Concluiu Fernando, arfante, coberto por suor e de olhos vidrados.
Octávio escrevera parte do discurso, logo já imaginava qual seria a reação das pessoas, mas surpreendeu-se com a intensidade com que Fernando comovera o povo. Eles gritavam, aplaudiam e assoviavam, fazendo o som, aquela música de dedicação, ecoar por toda Dentre-Flume. Os olhos daqueles à frente do vampiro brilhavam com uma chama que ele jamais antes vira. Por um momento, perguntou-se se o que via naquelas chamas era uma exaltação ensandecida ou a forte determinação pelo desenvolvimento racional do qual ele compartilhava. No final, decidiu-se que não importava pelo que eles tanto agitavam-se. Mas sim, o que eles fariam a seguir com essa energia.
"Espero que guerreiem tão bem quanto aplaudem."
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