Guerra A Ruína - Capítulo: 1

Capítulo: 1

Octávio


Em seu escritório, um cubículo de não mais de quatro metros quadrados, um bonito e jovem homem, filho de um comerciante bem-sucedido e uma habilidosa secretária, trabalhava perseverantemente na pilha de documentos a sua esquerda, segurando numa mão uma caneca cheia de café e noutra uma prancheta repleta de dados referentes aos gastos da guarda da cidade. Movimentando as peças de seus ábaco, reorganizando as informações, escrevendo novos regulamentos e exigências e, por fim, carimbando o documento, o jovem Octávio de Pesos colocava o papel de lado, numa pilha a sua direita, junto dos demais documentos nos quais já tinha trabalhado, seus assuntos já encerrados.

Octávio tinha vinte e três anos de idade, acostumado a vida de escritório, de barba mal feita e cabelos longos, que caíam por sobre seus ombros e até metade de suas costas. E ele era um vampiro.

Sua pele tinha um tom cinza claro, cada fio de cabelo em seu corpo era branco e seus lábios eram, assim como suas unhas, azulados, além de possuir um par de longas e cinzentas asas de couro, que pendiam de suas costas, servindo como uma capa. Octávio, como todos os membros de sua espécie possuía olhos de um intenso verde, mais adequados à escuridão, e assim vendo-se obrigado a sempre usar óculos escuros quando durante o dia.

Seu trabalho como um membro da Assembleia consistia em: supervisionar e gerenciar órgãos e bens públicos, como hospitais, quartéis da guarda e postos de bombeiros e estradas, recolher impostos, agir como um contador e regulamentar documentos e licenças, organizar eventos e festivais de datas comemorativas, e, por fim, ouvir reclamações e pedidos dos cidadãos e propor projetos ao senado. E, diga-se de passagem, Octávio fazia-o muito bem.

Terminava de redefinir os gastos da guarda da cidade, de forma a suprir a recente necessidade de mais pólvora sem prejudicar qualquer outra demanda da organização, redirecionando pequenas quantidades do donativo da própria guarda das partes que eram dispostas em reservas de: tiras de couro, argolas de metal, ferro, pregos, tecidos, tinturas, cordas e demasiados outros materiais, quando, com pesados e apressados passos, chegou a seu escritório, seu colega de trabalho, Cézar, um goblin.

Cézar era apenas um pouco mais velho que seu colega, Octávio, um homem que,


embora esforçado e honesto, não era tão capaz quanto o vampiro e nem compreendia tão bem o ramo político. Como todo o goblin, Cézar tinha metade do tamanho de um humano comum, sua pele era verde e tinha dois pares de largas e peludas orelhas. Ele estava ofegante e com uma expressão um tanto constrangida, quando pediu a Octávio:

— Sinto muito, Octávio, você poderia me dar uma mãozinha?

Saindo do Prédio da Assembleia, acompanhado por Cézar enquanto ele explicava a situação, Octávio dirigia-se ao ponto do caso a ser resolvido, descendo a escadaria em frente ao edifício e cruzando a Grande Praça, esta repleta de pessoas de todas as espécies, como na maioria das vezes estava. Digna da capital do país, a praça pela qual os dois colegas de trabalho passavam naquele momento tinha o formato de um enorme "U", com os magníficos prédios do Senado e da Assembleia cercando-a, grandiosas mansões de cor azul e repletas de gárgulas, grandes janelas, abóbodas, e de telhados verdes e pontudos, a sede do governo do país, de Nova Crasíria.

— Então, a algumas horas atrás, três navios comerciais vindos de Crát, prestes a zarpar, foram revistados pela guarda, e o que eles descobriram foi que eles estavam transportando instrumentos, grimórios, equipamentos e outras ferramentas "mágicas" sem as licenças necessárias. Porém, quando foi tentado confiscar a mercadoria do comerciante responsável pela embarcação, ele fez um tumulto, dizendo que comprara justamente a mercadoria e que era de seu direito transportá-la e revendê-la, quando, onde e como quisesse. Agora ele exige conversar com o "responsável" por tudo isso. — Disse Cézar, os dois já saindo da Grande Praça e adentrando no emaranhado de ruas da cidade. "Ou seja: 'Me chamaram para tentar resolver a situação, mas aparentemente ele é um importante membro membro das Guildas Mercantis de Crat, e ameaçou levar isso como um caso de pirataria, roubo, ou qualquer coisa do tipo, às guildas, então resolvi te chamar para lidar com esta situação, uma vez que ela é delicada demais para mim', não é"

— Entendo. Você fez bem em me chamar, Cézar.  Retrucou Octávio, já ciente da situação.

Mesmo uma vez fora da Grande Praça, a paisagem não mostrou-se menos bela. Os edifícios erguiam-se ladeando a rua, altos e baixos prédios, casas, lojas, estalagens e depósitos, alguns novos e outros com milhares de anos, presentes desde a fundação da cidade, mas, ainda assim, sem uma única rachadura.

Seguindo o estilo arquitetônico do Prédio do Senado e do Prédio da Assembleia, os edifícios da cidade tinham todos um similar padrão: pintados a maioria de verde e azul, eram construções cheias de arcos, telhados pontiagudos, muitas janelas, pontes interligando prédios de um lado ao outro da rua, gárgulas e estátuas de outros monstros e heróis por toda a parte e muitas abóbodas, além de, é claro, inúmeros jardins suspensos, fosse nos telhados, em varandas ou pendurados nas paredes, exibindo cascatas de folhas e flores e paredes inteiras cobertas por trepadeiras.

A cidade e capital do país, de Nova Crasíria, em si era dividida entre norte e sul por um grande rio chamado Largo-Flume, o que dava-lhe seu nome: Dentre-Flume, com duas grandes pontes, uma chamada Mais Nova e outra Mais Velha, conectando uma parte a outra da cidade. O porto era extenso e cercava a foz do rio. Mais à frente, vinda de uma consideravelmente distante ilha, ao oeste da cidade, com mais de dois quilômetros de comprimento, uma gigantesca ponte em formato de "Y", chamada simplesmente de A Ponte, com as extremidades conectadas uma ao norte e outra ao sul de Dentre-Flume, levava ao real motivo do tamanho desenvolvimento do país, de seu agitado comércio e avançada tecnologia, mesmo que Nova Crasíria tivesse sido fundada a apenas setenta anos, e também, sabia Octávio, do interesse das Guildas Mercantis de Crát ali, o: Grêmio de Desenvolvimento Mágico e Científico de Nova Crasíria, ou apenas "O Grêmio".

Já no porto, na parte sul da foz do rio, Octávio, guiado por Cézar, abriu caminho pelos inúmeros transeuntes dali, os vendedores ambulantes, os marinheiros, que carregavam e descarregavam barris, caixotes, sacos de aninhagem, baús e caixas carregados de todos os tipos de coisas para suas embarcações ou para os depósitos, além de carroças, carros de boi, palanquins e animais que eram conduzidos aos navios ou deles saíam. Do cais por onde os dois passavam viam-se todos os navios ancorados, em sua maioria embarcações comerciais vindas de todos os cantos do mundo, navios a vapor ou a vela de todos os tamanhos. Haviam também navios pesqueiros e baleeiros, ancorados aqui e ali nos píeres.

Antes de avistar de fato o desordeiro que causara toda aquela confusão, Octávio ouviu-o gritando com um sotaque característico do extremo ocidente:

— Ei, não toque nisso, seu desgraçado! Essa mercadoria é minha!  Dizia ele.

— Você sabe quem eu sou!?

Adiantando-se, Cézar chamou os guardas, que abriram caminho na multidão de curiosos que se aglomerava ao redor da cena, deixando Octávio e seu colega aproximarem-se. Enquanto os guardas da cidade esforçavam-se para manter os espectadores afastados, um par deles acompanhava os dois membros da Assembleia, ao mesmo tempo que estes dirigiam-se ao capitão da embarcação que estava criando aquele tumulto. Imediatamente, Octávio avistou o carregamento de produtos "mágicos" que o cratense transportava, que foram retirados do interior do navio pelos guardas da cidade e empilhados, uma série de caixas de madeira apinhadas dos itens em questão.

Dentro destas caixas, que já estavam sem suas tampas, viam-se, muitos deles repletos de gravuras de símbolos desconexos e frases de puro delírio: anéis, colares, luvas, óculos, capas, espadas, escudos, armaduras, arco e flechas, armas de fogo e munições para estas. Quase imperceptivelmente, Octávio suspirou, pensando: "essa questão já estava decidida desde o começo, afinal. Sinceramente, qual minha necessidade aqui? Ou melhor, o quão incompetente você pode ser, Cézar?".

— Então você é o chefão aqui, hein! — Gritou o cratense, um homem humano baixinho e gorducho, apontando o dedo para Octávio. — Quero que explique-se! — Continuou aos gritos, sem que dar qualquer tempo para o vampiro responder. — Estes homens estão "confiscando" minhas mercadorias, estas que comprei honestamente, aqui, nessa mesma cidade, com o meu dinheiro! — Disse, dando uma ênfase sarcástica no "confiscando".  O que no mundo civilizado, o qual supostamente esse país pertence, justifica essa injúria!?

— Chamo-me Octávio, meu bom senhor, sou um membro da Assembleia e fui chamado aqui a fim de resolver de uma vez por todas essa infeliz ocorrência, mas antes disso, ouvi dizer que o senhor é um importante membro das Guildas Mercantis de Crat.

— Retrucou Octávio, ignorando ao capitão enfurecido. — Se isto não lhe é inconveniente, poderia me mostrar seu certificado?

Com um largo sorriso no rosto, como se com aquilo já tivesse ganhado sua causa, o gorducho, metendo a mão num bolso interno de seu manto, tirou um tubo vermelho repleto de detalhes em dourado, o qual abriu e retirou o documento, passando-o logo em


seguida para que Octávio o analisasse. O papel dourado, com bordas esplendidamente trabalhadas em vermelho, continha um longo texto escrito a mão declarando a associação daquele capitão baixinho as Guildas Mercantis de Crat como uma Vanguarda-Indicada (o que significava que, pela indicação de um superior, ele tinha a autoridade de comandar autonomamente, pelo menos enquanto seus superiores assim permitissem, uma pequena frota de navios comerciais, podendo ser composta de três a seis embarcações), com a assinatura de cada uma das testemunhas, o carimbo das Guildas e todo o resto também em ordem.

— Aí está, senhor... "Alguma-Coisa". Creio que encontrará tudo em ordem aí. Comentou o cratense.

— Sim, de fato, está tudo em ordem. — Respondeu Octávio, devolvendo o documento. — Peço desculpas por estes infelizes acontecimentos, meu bom senhor, estou muitíssimo envergonhado por toda esta situação, não, toda a cidade está. Mas não se preocupe, tudo será resolvido agora. Espero que na próxima vez que meu bom senhor atracar nestes portos este tipo de problema não se repita. — Continuou Octávio, displicentemente, alargando ainda mais o sorriso presunçoso do gorducho, que já dava o sinal para seus subordinados recuperarem a carga.  Então, guardas, por favor, levem a mercadoria confiscada para os depósitos sob sua autoridade. — Disse por fim o vampiro.

— O que!?  Gritou o capitão, o sorriso esvaindo-se, franzindo as sobrancelhas, fechando a cara numa feia carranca que deformou todo seu rosto gordo, enchendo-o de profundos sulcos.  Pensei que você tinha dito que tudo estava em ordem!

— E está, meu bom senhor, não tenho dúvidas de que você é, definitivamente, um membro das Guildas. — Disse Octávio, que já dirigia-se novamente ao Prédio da Assembleia, tornando-se ao capitão, com uma expressão de quem não entendia o que se passava, provocando a ira do gorducho. — Porém, não posso permitir a importação destes produtos, que não apenas são ilegais como também representam um grande risco a segurança do consumidor.

— Você é idiota!?  Tornou a berrar o cratense.  Faz ideia do que está prestes a fazer?! Se você levar isso adiante estará comprando briga com as Guildas! Esse porto, essa cidade, não, esse país inteiro afundará se isto acontecer!

Ainda impassível, Octávio retrucou:

— Acredito que tenha sido a primeira vez que o senhor faz comércio aqui, não é mesmo? Realmente é uma vergonha para toda a cidade, mas este tipo de coisa ocorre com relativa frequência: capitães de todo o mundo atracam neste porto para comprarem mercadorias mágicas, mas ao depararem-se com os preços e toda a burocracia do Grêmio, acabam sendo atraídos por tentadoras ofertas de charlatões e magos ineptos e desonrados que vendem caixas cheias destas quinquilharias falsas e defeituosas por menos da metade do preço de um único equipamento magicamente imbuído legítimo. Eles simplesmente gravam símbolos e frases sem sentido em qualquer lixo que nem mesmo possuem qualquer imbuição mágica e revendem, ou pior, imbuem toscamente uma ferramenta com algum aspecto, seja qual for, sem se preocupar com os futuros usuários, o que pode custar a vida de alguém, diferentemente dos produtos legítimos que o Grêmio produz e vende, que são feitos por profissionais e passam por vários testes para receber toda a documentação que lhes garante sinal verde ao mercado.

"Entendo que meu bom senhor Vanguarda-Indicada tenha planejado uma viagem grandemente lucrativa com tudo isto, mas devo dizer-lhe que, infelizmente, foste enganado. Quanto aos problemas que possivelmente eu possa provocar as Guildas: não se preocupe, enviaremos uma justificativa aos seus superiores, deixando claro que simplesmente não podemos permitir a saída de mercadorias que comprometeriam não só a imagem do Grêmio, como a de todo o comércio de equipamentos mágicos, e também, tenho certeza, de toda nossa nação. Porém, como um pedido de desculpas, lhe será concedida uma licença especial, que lhe concederá alguns benefícios quanto a compra das mercadorias do Grêmio, como a isenção de certas taxas."

— Tem certeza disso, Octávio?  Perguntou Cézar, ansioso.  Simplesmente confiscar tudo, lhe apresentar uma justificativa e ceder uma licença especial...

— É o procedimento padrão, o confiscamento, e a justificativa foi bem fundamentada, não se preocupe com isso. — Respondeu o vampiro, ajeitando sua gravata.

— Mas ainda assim, as Guildas são importantes clientes, e os Senadores podem não gostar muito do jeito que você tratou um dos membros dela.

— Não, eles não vão se importar muito com isso. Os Senadores não são completamente idiotas sabe? — Retrucou Octávio, após um longo suspiro. — As Guildas não vão parar de comprar de nós só por conta disso. Na verdade, aquele capitão gordo pode até mesmo vir a ser promovido com uma licença daquelas, e os Senadores sabem bem disso.

Após alguns instantes de silêncio entre os dois, enquanto ambos já cruzavam a ponte Mais Velha, voltando a Grande Praça e ao Prédio da Assembleia, Cézar voltou a falar, dessa vez um tanto irritado:

— Mas que droga, então até eu poderia ter resolvido isso! Desculpe-me, Octávio...

— Por favor, não se desculpe, Cézar. Não precisa se acanhar quanto a este tipo de coisa. Pode me chamar sempre que precisar de ajuda. — "Afinal, isto apenas melhora minha reputação", pensou o vampiro consigo mesmo.

— Obrigado. — Disse o goblin, sorrindo a Octávio. — Sabia que podia contar com você, amigo.

"Amigo?"

Deixando-se cair na cadeira, Octávio voltara a seu cubículo, seu escritório. O vampiro esticou os braços, estalando os dedos, espreguiçando-se e após alguns momentos de descanso, já voltava ao trabalho, prendendo na prancheta uma outra folha da pilha a sua esquerda, analisando-a, escrevendo e reescrevendo dados, ordens e solicitações, tirando a folha da prancheta e passando-a a pilha a sua direita, e então tomando um grande gole do café, que, para a infelicidade de Octávio, é claro, ficara a muito frio. Com um longo suspiro, o vampiro levantou-se e pôs-se em busca de mais uma caneca de café, quando, passando pelo cubículo à frente do seu, um colega o chamou, um tanto envergonhado, coçando a parte de trás da cabeça:

— Octávio, ei! Desculpe-me, mas... estou tendo um problema com estes pedidos.

Será que você poderia me dar uma mãozinha...?

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