Espírito Legislativo - Capítulo Único


Espírito Legislativo 


    Beberiquei do chá de Yggdrasil, importado da Cidade das Travessuras a grandes custos, me sentindo tão revigorado quanto se eu tivesse morrido ontem. Sem pressa, abri as janelas do escritório e permiti o frescor da manhã arejar o aposento, e a estrela amarela da Terra, “Sol”, machucou os olhos de meu hospedeiro. Ambos preferíamos muitas vezes mais a cor vermelho-sangue da estrela do outro plano, tão mais vivaz, de propriedades hemomanticas que me enchiam de vigor... Mas talvez eu apenas me sentisse dessa forma porque eu só a via durante as férias, preso naquele ramo mundano do escritório.

    — Não devo continuar enrolando — com um suspiro, sentei-me à minha escrivaninha de madeira do conhecimento do bem e do mal, que aumentava minhas capacidades intelectuais em troca de ocasionais episódios de terror existencial, e li os correios do dia, pulando toda a baboseira padrão, indo direto a conclusão do remetente:

“...e por isso, vampiros não deveriam ser acusados de ‘sequestro’.”

    Fechei os olhos massageando a glabela, já exausto.

    — O dia nem começou... — Lutando contra uma vontade desesperadora de pedir demissão já de manhã, tornei a ler, dessa vez com mais atenção.

“A definição legal de sequestro determina: é um ato que priva uma pessoa de sua liberdade. Porém, quando um vampiro usa sua habilidade mágica de Sedução, a pessoa em questão o segue de livre e espontânea vontade! Não existe qualquer impedimento físico que proíba o indivíduo de deixar a mansão do vampiro, e por isso, vampiros não deveriam ser acusados de ‘sequestro’.

Ass. Conde Presafiada.”

    Banhando minha pena em tinta de fada, que só era capaz de escrever verdades (um ato simbólico, já que a tinta não distinguia certo de errado), respondi:

    — Caro Conde Presafiada, em parte alguma da legislação é afirmada que os artifícios que limitem a mobilidade do sequestrado precisam ser físicos; ameaças, químicos e, sim, feitiços podem se encaixar na definição do crime. — Pensei por um minuto. Peguei outro pergaminho já previamente preparado, e requisitei: — Pedido de expedição de mandato de busca e apreensão das propriedades do cidadão Conde Presafiada.

    Terminando aquela tarefa e expedindo as cartas através de pombos correio, beberiquei do chá.

    — Pelo Senhor das Sombras, eu deveria ter escolhido outra pessoa para assombrar... — Amarguradamente, me lembrei de como acabei naquela situação para começo de conversa.

    Depois de minha morte a sabe-se lá quanto tempo atrás, meu espírito vagante chegou até uma torre decrépita na Cidade das Travessuras, a qual decidi que seria um lugar tão bom quanto qualquer outro par assombrar. Infelizmente, a estrutura já tinha dono, um dos figurões do outro mundo, para piorar, e acabei sendo processado por inadimplência por não pagar aluguel por mais de 2 séculos.

    O tribunal foi um pandemônio, literalmente, já que tive de apelar aos profissionais chifrudos para me protegerem do advogado (e exorcista nas horas vagas) do autor do processo, e no fim das contas acabei ainda sendo forçado a pagar uma compensação de 340.000 doces para o senhorio, mais 48.000 para meu advogado. E o pior? Eu fui sortudo, tendo sido livrado de, literalmente, uma eternidade num calabouço, devido a um furo na legislação, que calculava a sentença dos acusados baseada na expectativa de vida de sua espécie.

    Para piorar ainda mais, o tal figurão sabia bem que eu não tinha condições de arcar com essa dívida, e me ofereceu um emprego na mais isolada filial do escritório do conselho legislativo no qual presidia, no mundo humano, uma oferta a qual eu não tive escolhas além de aceitar.

    — Isso mesmo, eu não tenho escolha: enquanto alguns aproveitam o Halloween para praticarem pegadinhas e travessuras, tenho que lidar com essa enxurrada de reclamações de monstros e místicos.

    Documento após documento, despejei rejeições, requisitei revisões, analisei precedentes, e encaminhei roteiros para meu chefe e credor. Uma carta em especial me chamou a atenção, porém, dizendo:

“Por meio dessa, eu, Magnus Arcanus, requisito a reconsideração da prática inútil e injusta de confiscar os objetos de poder de magos em estabelecimentos comerciais ou edifícios públicos.

Existe uma infinidade de motivos para tal requerimento, mas eis apenas alguns destes:

A) Muitos magos são idosos, e precisam de seus cajados para sua mobilidade, e não apenas para conjurações.

B) Permitir a entrada de pugilistas ou antropomorfos ou qualquer outra pessoa cujo próprio corpo é sua principal arma, mas restringir aos magos, é uma forma de discriminação que não pode ser justificada como medida de segurança, independente do que aqueles malditos do Goblin Cinema afirmem!”

    — Entendo de onde vem a reclamação, mas...

    Enquanto eu ponderava a questão, “toc, toc!”, alguém bateu à entrada de meu apartamento.

    — Merda...

    Eu não queria perder tempo lidando com a síndica de novo. A última coisa que eu desejava, afinal, era deixar sobrar trabalho para meu dia de folga...

    “Quer que eu vá?”, ecoou uma voz na minha cabeça: Fana, a dona do corpo que eu possuía para trabalhar, minha secretária.

    — Por favor. — Deixei o corpo da garota como uma fumaça negra amorfa, minha verdadeira forma como espírito obsessor, e ela espreguiçou-se, esticando o corpo magro, ajeitou os cachos castanhos e o vestido social preto, conferiu se a maquiagem elegante ao redor dos olhos verdes não havia sido borrada, e deixou meu escritório. — Vejamos...

    Quanto ao ponto B, seria impossível “desarmar” essas pessoas sem violar os direitos de seus corpos. Sua integridade física é uma prioridade acima de um suposto ato de violência que elas podem vir a cometer num futuro hipotético.

    — Mas o primeiro ponto é surpreendentemente válido, vindo de um mago. Forçar idosos a abrirem mão de itens que suprem suas necessidades pode ser anticonstitucional, já que é garantido a todo cidadão o direito de saúde, trabalho e lazer. Até me foi provido uma secretária que me permite possuir seu corpo a fim de exercer meu trabalho apropriadamente... Mas estamos falando de magos aqui! 70% das nossas leis foram feitas exclusivamente para manter esses caras sob controle! Talvez pudéssemos passar uma lei que obrigasse estes estabelecimentos a prover bengalas para eles? Mas com a miríade de diferentes fisionomias de todas as espécies sapientes da Cidade da Travessura, isso seria um pesadelo... — Tentei alcançar a xícara com chá de Yggdrasil, quando me lembrei que não tinha boca. — Droga. Fana está realmente demorando.

    Com a garganta (metafórica) seca, flutuei em busca de minha secretária.

    — Fana! Mais chá, por favor!

*

    Atendi a porta enquanto meu patrão ponderava questões legais:

    — Olá, como posso ajuda-

    — Os guardas libertaram meu almoço e estão atrás de mim! — Um homem com o rosto tão coberto de protetor solar que sua tez era imperceptível por sob o creme, com incisivos alongados e vestindo trajes que seriam elegantes a alguns séculos atrás me segurou pelo pescoço. — Seu maldito morto-vivo de segunda classe!

    — Ah, você deve estar me confundindo com meu chefe. — Respondi, as mãos magrelas do velho vampiro falhando em impedir minha respiração. — Sinto muito, mas ele-

    — Eu vou te exorcizar! — Conde Presafiada me sacudiu de um lado para o outro.

    — Como eu disse-

    Prisão de Sangue! — O vampiro conjurou, e mordaças rubras surgiram de suas mangas e enroscaram-se ao redor de todo o meu corpo.

    — Francamente...

    — Fana! Mais chá por favor! — Ouvi a voz de meu patrão ecoando macabramente pelas paredes do apartamento, abaixando a temperatura do ar, e excitando as sombras.

    — Reuniões são agendadas por cartas — com pressa, respondi o vampiro, estourando as amarras de sangue com as quais tentou me subjugar, e: — Nhom!

*

    — Era a síndica de novo?

    — Gulp! ...Sim, devido a poltergeists. Enfim, mais de chá, correto? Vou pôr a chaleira no fogo.

    Para um Bicho Papão que se alimentava de emoções negativas, ela era tão prestativa!

    — Bah, se mesmo esse tipo de gente sabe ser civil, aposto que magos podem fazer o mesmo. Quer saber? Deixe-os manter seus cajados.

    Uma vez que a questão mais difícil da semana já havia sido resolvida, Fana retornou com mais chá e biscoitos, e tornei ao trabalho, tranquilo. A próxima requisição?

“Deuses deveriam ser sujeitos às leis mortais também.”

    — E o que poderíamos fazer contra um deus?!

    “Patrão, quando você grita assim, armários deste andar inteiro ficam abrindo e batendo, os vizinhos vão reclamar” Fana me lembrou.

    — Urgh... Eu vou ter que fazer hora extra, não vou?

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