Desnredo - Capítulo: 28

 Capítulo: 28

 

— Onde estou? Mariah? Onde Mariah está, o que aconteceu com ela? — meu campeão perguntou, com lágrimas rolando bochechas abaixo, pateticamente rastejando nas mãos e joelhos enquanto olhava ao redor.

— Ela está morta. Bem como todos os seus amigos, seu exército, sua ex-exposa, seu sogro e sogra, e tantos outros — respondi, fazendo a forma do esbelto avatar andrógeno que eu assumia sorrir em seu trono genérico.

Todo o espaço ao nosso redor era um breu completo, eu estava tão focado, tão empolgado que não havia me dado o trabalho de construir um espaço complexo para aquele encontro.

Minha cativação era tanta que eu batia os dedos de uma mão no apoio de braço do assento, me perguntando como eu deveria prosseguir com tudo aquilo.

— Q-Quem é você?

— Seria o desenvolvimento mais interessante dos acontecimentos simplesmente deixar que Haicard execute meu campeão, e depois transplantar a consciência do Verônico do presente no seu eu do passado?

— Que...? V-Você é Deus?

— Não, Verônico seria capaz de massacrar Haicard em qualquer momento de sua vida que não agora, isso não seria divertido...

— Divertido?! — meu campeão se levantou abruptamente, fechando os punhos. — E o que isso importa?! Me mande de volta! Me mande para o passado, e eu vou matar aquele desgraçado!

— Hmm, ao invés disso, talvez eu devesse salvar sua vida por um triz e permitir que Haicard governe Álfheim, tornando você um herói trágico?

— Você não está me ouvindo, seu Deus de merda?! — Verônico correu em minha direção com os punhos cerrados, mas a cada passo que ele tomava, não apenas seus atributos, mas também sua constituição passava por mudanças drásticas.

Aos pés do meu trono, o esquelético e espinhento garoto colegial de cabelos negros caiu de joelhos, enxarcado de suor, segurando o peito e respirando com dificuldades. Ainda vestia o mesmo uniforme amarrotado e com marcas de botas dos chutes que levara antes de atirar-se à rua, desesperançoso.

— Oras, por favor, você não tem nada do que reclamar, tem? — me levantei e desci os degraus de meu trono até o garoto. — Sim, eu posso te mandar para o passado ou para o futuro, posso esmagar Haicard como uma mosca, ou fazer qualquer outra coisa. Mas eu não vou. E você deveria estar agradecido a mim. Afinal, você foi livre em sua última vida, e o que isso te resultou? Qual foi seu último desejo quando eras livre mesmo? “Que tudo se acabe”? “Só quero descansar”? — me agachei frente ao colegial que mordia o lábio inferior e tremia por completo. — Mas agora é diferente, não é? Me diga. Me diga como seu último desejo é diferente agora, no final de sua nova vida. Na vida que EU te dei. Na vida que eu cuidadosamente construí somente para você. Na sua vida de escravo.

Agarrei seus cabelos e o fiz me encarar, e a face que o rapaz me mostrou foi uma encharcada de lágrimas e muco, quase comicamente colorida de vermelho, e tão cheia de rugas que simplesmente jamais teria espaço em meu mundo, não no rosto de um de meus favoritos.

— ...Eu não me importo se eu ou o mundo inteiro somos seus escravos, brinquedos, ou o que seja. Mas se você não vai me dar Mariah de volta, então ao menos me dê poder para matar Haicard!

— Concedido.

҉   

O metal divino sob meus pés derreteu e evaporou, e o ar ao meu redor entrou em combustão, tornou-se plasma, e meu próprio corpo não se viu intocado pelos efeitos da esmagadora inundação de poder que surgiu dentro de mim: minha pele foi ejetada à força da superfície de meu corpo e foi substituída por crescimentos ósseos similares a uma armadura, e um novo braço emergiu de meu ombro amputado, fundindo-se com Alvorada e terminando numa lâmina alva. Nunca antes, nem em minha vida como Herói, nem quando eu era ninguém, eu havia sentido tamanha dor como eu senti naquele microinstante.

Mesmo se meu corpo fosse dilacerado por completo, porém, eu não me permitiria me distrair de meu objetivo:

— HAICARD!!! — persegui o Rei das Sombras, que havia sido atirado para fora da torre por minha explosiva transformação, voando tão rápido que a explosão sônica que deixei para trás parecia mover-se em câmera lenta.

Brandi minha espada contra o gorjal de meu oponente, e este conseguiu desviar minha lâmina por pouco com sua própria arma profana, antes de ativar qualquer tipo de mecanismo que movia sua armadura robótica, e tentar escapar de mim com um jato de fogo saindo das ventoinhas às suas costas e cotovelos.

— Haicard! — repeti voando atrás do odiado fugitivo por sobre um mar de lava, enquanto me cobrindo de aura pura, exalando mais estamina mágica numa fração de segundo do que metade da espécie élfica produziria numa vida inteira; quando passei por entre os diabos que banqueteavam-se com os corpos carbonizados de meus soldados, estes foram reduzidos às cinzas pela minha aura apenas. — Eu nunca vou te perdoar! — agarrei os pés do alvo de minha vingança, o girei em pleno ar e o atirei nos portões do Inferno que ele havia trazido à superfície com qualquer Feitiço profano que usara.

Mergulhei na lava atrás do Rei das Sombras, e quando o alcancei, o soquei com tamanho força que a lava ao nosso redor foi expelida para longe e parti aquele mar de chamas como Moises partiu o mar vermelho com meu próprio punho. E não parei com um único soco.

— Por que?! — soquei sua costela, e os ossos que ele vestia como armadura partiram-se e perfuraram seu próprio corpo. — Por que você não calou a porra da boca e ficou satisfeito?! — soquei sua clavícula, e esta afundou-se para dentro como uma lata de refrigerante. — Eu tinha tudo aqui! Tudo! Tudo! — soquei seus braços e pisei em suas pernas, partindo seus pistões e achatando-as, os membros no interior da proteção macabra evacuando por vãos que eu colocava na armadura ao amassá-la, sua carne e osso sendo esguichados como uma pasta homogênea. — Você acabou com tudo — comentei lutando para controlar minha própria respiração. — E agora eu vou acabar com você — cravei minha espada em seu coração.

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