Desenredo - Pólogo.

 Prefácio:

 

Obrigado a todos os colaboradores que me ajudaram a construir esta história.

E um obrigado em especial a todos aqueles que avaliaram meu último livro, Guerra à Ruína, seja no site de compra, no Skoob ou em seus sites pessoais.

 

Prólogo:

 

— Me dá isso aqui, moleque! — gritou Umberto, me empurrando ao chão e tomando o saco de pães da minha mão.

— Ei! O que você está fazendo?! — Quase caí sobre uma poça de água, onde observei ao meu próprio reflexo, a imagem de um menino de cabelo loiro sujo, olhos verdes amarelados, e orelhas de quase um palmo de comprimento. Uma criança élfica como qualquer outra. — Tem só um pão para cada um aí! — eu protestei, me erguendo da terra dura e massageando minhas nádegas, observando o rapaz muito maior que eu comendo três pães ao mesmo tempo.

— Fofe fão fefifa fofe! — ele resmungou de boca cheia, praticamente ininteligível. Engolindo, concluiu: — Pirralho!

— Urgh. Ótimo, agora não tem nada para eu comer. De novo! — Dando minhas costas para o rapaz muito maior, que infelizmente era ninguém menos que o primogênito de meu pai, eu me dirigi à floresta próxima. — Vou procurar alguma coisa para comer no mato, eu acho...

— Há! Prove as frutinhas vermelhas, são uma delícia! — Umberto casualmente me recomendou uma das frutas mais venenosas da região, conhecidas por paralisar e asfixiar suas vítimas. — Aproveita e traga algumas para seus irmãos também!

Me embrenhei mata adentro e segui até meu esconderijo favorito, frente a uma pedra que exibia uma série de pessoas com halos ao redor de suas cabeças acima de pessoinhas muito menores. Era uma daquelas ruínas divinas que a Ordem dos Historiadores vivia perseguindo, e a coisa atiçava minha curiosidade ao mesmo tempo que me oferecia solitude muito bem-vinda, encontrando-se isolada entre os pés de ultimamora, as frutinhas vermelhas e mortais que não interessavam a ninguém e cresciam por todo o continente de Álfheim.

Quando tive certeza de que estava completamente sozinho, saquei um quarto de um pão de dentro de um sapato, mais um quarto de um pão de dentro de outro, mais outro pedaço de dentro de minhas roupas íntimas, e um último pedaço tirei de baixo de uma faixa que cobria um joelho ralado, totalizando um pão inteiro. Sim, tinha um gosto um pouco salgado demais, e estava um pouco úmido demais, e cheirava suspeitosamente, mas pelo menos eu tinha um almoço garantido, algo que nem todos os meus irmãos poderiam dizer naquele dia (ou na maioria dos dias).

— Babaca... — resmunguei, encarando a pedra.

Eu não realmente cobiçava fama, riquezas e poder, mas isso não significava que eu não tinha anseios. Comparado com outras crianças, na verdade, eu era realmente ambicioso: queria um quarto só meu, três refeições ao dia todos os dias, e algumas moedas para gastar durante raras viagens até a cidade grande.

Faziam já cem anos desde o fim da última guerra sacra, e a terra finalmente passava a se recuperar do plantio desenfreado para suprir o exército, então haviam promessas de prosperidade no futuro, mas eu não tinha certeza se chegaria até lá, não quando meus sete irmãos mais velhos e dois irmãos mais novos todos competiam para herdar a mísera fazenda de meu pai, que sequer conseguia manter a todos nós alimentados. A realidade era logo óbvia: as chances de eu herdar a fazenda eram praticamente inexistentes, enquanto aquelas de eu ser expulso tão cedo quando um dos meus irmãos fosse apontado como o novo dono do lar eram praticamente certas.

Simplesmente construir um novo lar não era sequer uma possibilidade também, já que os nobres só permitiam o uso das terras não normalmente delimitadas aos vilarejos durante tempos de guerra.

E aquele show de força de mais cedo também foi apenas um dos métodos que meus irmãos encontraram de mostrarem-se mais dignos de sua patética herança que os demais, através de atos de violência contra seus “inferiores” e demonstração de força e talento como agricultores, praticamente monopolizando as tarefas de nossa casa.

Isso mesmo, ainda que eu fosse filho de um pequeno agricultor, eu quase não possuía experiência com o campo porque meus irmãos mais velhos não me deixavam fazer muito mais que recolher o esterco do gado dos vizinhos.

Resumindo: já aos dez anos de idade eu sabia que meu futuro era incerto na melhor das hipóteses, e não era improvável que eu fosse morrer mais cedo do que eu gostaria, mesmo empregando todas as ligeiras táticas de sobrevivência que desenvolvi ao longo dos anos, como aquela de esconder minha refeição onde quer que eu pudesse.

Então, sentado frente à pedra e cercado de frutas venenosas, eu pensei sobre minhas alternativas.

Pense, pensei, pensei...

҉   

— Pai, mãe, eu vou me alistar no exército da Liga Sacra — e assim me encontrei anunciando aos meus pais, aos dezesseis anos de idade, que me tornaria um soldado.

Foi a conclusão lógica na qual cheguei depois de anos me questionando qual minha melhor chance para garantir um futuro onde eu não acabava como um cadáver no canto da estrada sem nenhuma possessão.

Digo, imediatamente após o anúncio do surgimento do novo Rei das Sombras há seis anos antes, os esforços de recrutamento deram-se início, e uma força sacra de expedição contra as forças das sombras começou a ser treinada enquanto a família real se pôs à procura do Herói, o maior e mais poderoso dos virtuosos escolhidos por Deus, que deveria encabeçar tais esforços de guerra. Não que eu sentisse grande obrigação moral de colocar minha vida em risco, mesmo que pouco risco, por isso. Não, meus principais motivos para seriamente considerar a vida de soldado eram os seguintes:

— O salário é melhor do que o de um agricultor de subsistência, e a Igreja Jornadista vai bancar todos os gastos com equipamentos, comida e abrigo dos soldados durante a campanha, então eu sequer vou precisar gastar um Solari com isso, assim sendo capaz de guardar um bom pé de meia.

— Em segundo lugar, só de se alistar no exército sacro, soldados recebem o Título: Diácono Guerreiro, que concede um ponto extra permanentemente para cada Atributo, além de autoridade igual àquela de um diácono comum, então mesmo depois do fim da campanha, eu poderia seguir como em muitas profissões que requerem Atributos mais altos, ou até me envolver com a igreja ou a Ordem dos Historiadores.

— E para completar, o Herói sempre vence seu embate contra o Rei das Sombras, então minhas chances de sobrevivência são na verdade bastante altas, talvez até mais do que aqui — me referi à morte brutal de um de meus irmãos por monstros gerados na mata, acabando por se tornar almoço de goblins, terminando minha explicação.

 Meu pai, um homem de pele bronzeada e mãos calosas, sacudiu a cabeça como quem tivesse finalmente retornado a prestar atenção em mim, sem dúvidas minhas palavras tendo entrado numa orelha e saído na outra. Minha mãe, uma mulher de aparência gentil, mas igualmente trabalhadora, já havia há muito se levantado da mesa e se dirigido à cozinha.

Não que eu esperasse algo diferente daqueles dois, é claro, eu estava mais recitando aquelas palavras para confirmar comigo mesmo que eu não estava tomando uma decisão errada, e nesse quesito eu tive sucesso em me convencer.

— É-É claro filho! Soldado, justiça e tudo, hahaha. E quando você planeja partir? Hoje?

— Uhm...

Tudo bem, eu admito, eu já esperava que meus pais se felicitariam com minha decisão de partir, mas esperava que eles me dessem pelo menos alguns dias de celebração ou descanso...

Bem, se esse não iria ser o caso, não havia razão para prolongar mais minha estadia naquela fazenda. Encarando a minha sombra e a silhueta que ela projetava, minha aparência tendo mudado pouca coisa além de minha altura e comprimento do cabelo, que então chegava a meus ombros, eu decidi:

— Amanhã, na verdade. Se eu sair agora, não vou chegar em Pé Direito antes do anoitecer.

— Então, dois pães, um pedaço de queijo e um cantil cheio de água deve ser o suficiente, né?

— Acho que s-?

— Esposo, essa será a última vez que vamos ver nosso filho em muitos anos, provavelmente. Deixe o rapaz levar pelo menos alguma meia linguiça e um terceiro pão — minha mãe interrompeu, entrando de volta na sala carregando uma trouxa. Depositando o saco à minha frente, concluiu:  — Aqui está, meu filho, comida para amanhã.

Eu abri o saco e espiei seu conteúdo, percebendo que havia quatro pães, uma linguiça inteira, e quase metade de um queijo.

Eu sabia que crianças mais privilegiadas recebiam presentes em seus aniversários, e naquela hora me perguntei se era daquela forma como elas se sentiam.

— ...Obrigado — eu provavelmente sorri como um besta naquele dia.

҉   

— Um soldado comum sobe em média nove Níveis durante uma campanha sacra! Isso significa que você se aposenta em média três vezes mais forte, rápido e com maior potencial mágico do que a maioria das pessoas! Mesmo os aventureiros mais experientes muitas vezes não se encontram no Nível: 10!

Assim que pisei no interior da muralha que cercava a “cidade grande” de Pé Direito, meus ouvidos foram assaltados pelos berros de um agente de propaganda do exército.

— Eu já estou convencido a me alistar, poderias falar mais baixo...? — resmunguei comigo mesmo. — Bem, pelo menos é conveniente que não precisei procurar por muito tempo pela mesa de recrutamento — notei um homem ao lado daquele que berrava, atrás de uma mesa simples de madeira, com um pesado caderno, pena e tinta em mãos.

Me coloquei em fila e esperei minha vez. Cercado por muitas mais pessoas do que eu estava acostumado, questionei minha decisão pela primeira vez, não por medo das batalhas por vir, mas porque, como alguém que passava a maior parte do tempo isolado entre frutinhas venenosas encarando uma pedra e pensando na vida, eu não tinha certeza se era sociável o bastante para fazer parte de qualquer grupo, mesmo que este grupo fosse um de guerra. Minha vez de me alistar, porém, chegou rápido demais para que eu realmente tivesse chances de me arrepender:

— Nome, local de origem e idade — perguntou o oficial, sem sequer olhar no meu rosto.

— Haicard de Caminho Errado, 16 anos.

 — Esteja em frente à catedral amanhã ao raiar do sol, soldado — Anotou minhas informações no fichário.

— Sim, senhor.

҉   

— Nghn...  acordei com o barulho crescente resultante da multidão que rapidamente se acumulava frente à catedral da cidade. — Frio! — obviamente, eu não tinha dinheiro para alugar um quarto na cidade grande, então dormi na praça que era o local apontado pelo oficial no outro dia, abraçando minha trouxa de roupas e pouca comida, e dividindo meu canto com outros recrutas.

Tentando me distrair do frio da manhã, me coloquei a observar a impressionante arquitetura da catedral à minha frente: mais alta que qualquer árvore, o prédio possuía uma miríade de torres terminadas em domos, e nenhum ângulo reto, mas com muitas curvas e círculos, sendo construída principalmente com pedras brancas, e repleta de detalhes em dourado. Em realidade, o edifício copiava a arquitetura do Paraíso, a cidade de Deus, que flutuava sobre nuvens de puro branco e se revelava esporadicamente em cantos aleatórios de Álfheim.

Aquilo me fez perguntar: as cidades dos monstros copiavam a arquitetura do Inferno?

— RECRUTAS, APRESENTEM-SE! — ordenou um homem de armadura completa e capa sobre um estrado de madeira, exibindo dentes roxos de pedras preciosas quando abrindo sua boca. Sua voz era tão potente, que eu podia apenas assumir que ele deveria ter alguns pontos colocados no tributo de Força, a julgar pela impressionante capacidade pulmonar.

Como todos os demais que aguardavam na praça, me aproximei do estrado à espera de seguintes instruções. Deveriam haver cerca de trezentos homens e mulheres ali, mas, é claro, aquele não seria o número total de recrutas saído daquela cidade, uma vez que os oficiais recrutadores deveriam ficar ali por muitos meses, se não anos, alistando o maior número possível de pessoas.

  — Vocês serão agora apresentados à sagrada Missão de se tornarem aliados do Herói, servir ao seu lado e lutarem contra as forças das sombras, assim cumprindo a vontade de Deus. Aceitem-na, e imediatamente receberão um benefício de um ponto em cada Atributo — explicou o homem de armadura, e logo deu espaço para uma idosa adornada em roupas brancas e douradas que carregava um pergaminho em mãos.

A mulher tossiu duas vezes, e logo começou a ler o pergaminho:

— Somos elfos, e irmãos, todos filhos do pai ancestral, Deus. Somos nascidos da virtude, e por isso sentimos inclinação natural de perseguir o que é justo... — aquele não era um texto de autoria da igreja, mas o discurso transcrito de um antigo Herói, e aquele que primeiro criou a Liga Sacra. Eu já o ouvi algumas vezes em teatros e peças quando visitei a cidade com minha família no passado, mas então possuía impacto especial, me arrepiava. — ...Nossas divindades perceberam que, se continuassem a combater uma à outra em seu total potencial, sequer sobraria um mundo sobre o qual governar, logo chegaram num consenso: o Herói lutaria como campeão de Deus e representante de sua divina vontade em terra, e o Rei das Sombras lutaria como campeão de Demônia, praga que espelha o vil veneno com o qual a divindade maligna deseja perverter este mundo...

Em parte tocante, em parte esclarecedor, e em parte um pouco longo demais, após quase dez minutos de recitação, finalmente a declaração da mulher chegou ao fim, e quase que imediatamente, fomos todos recebidos por uma janela semitransparente azul, força familiar a todos, o Sistema:

Missão: Ajude o Herói a derrotar o Rei das Sombras.

Recompensa (imediata): +1 ponto em cada um dos Atributos.

Penalidade: Em caso de deserção, você permanentemente perderá

 -1 ponto em cada um dos atributos e será marcado com o Título de Desertor.

Aceitar?

Sim Não

Eu apertei o botão que lia-se “sim”, e a janela foi substituída por outra que, mostrava minha típica página de Atributos:

Nome: Haicard de Caminho Errado

Nível: 1

Força: 4

Percepção: 4

Ocultismo: 4

Força governava quase tudo relacionado ao físico da pessoa, do quão rápido alguém podia correr, quanto peso podia levantar, ou quão resistente a doenças e ataques essa pessoa era.

Percepção, tratava-se de velocidade de reação, flexibilidade e os sentidos em geral.

E Ocultismo determinava a quantidade de estamina mágica de uma pessoa. Quanto mais estamina mágica, mais feitiços esse alguém poderia lançar... Claro, não que pessoas comuns, como eu, fossem ensinadas Feitiços para começo de conversa, então esse Atributo me era praticamente inútil.

Todos mediam 4 graças ao meu recém-adquirido Título. Todos apenas um ponto acima da média. Nem muito bons, nem muito ruins. Eu havia ouvido dizer, porém, que o portador do título de Herói possuía atributos nas centenas... eu mal conseguia imaginar o que isso significava em prática.

— Aqueles que aceitaram a Missão, ouçam-me! — o homem de dentes de ametista voltou a berrar. — Dirijam-se aos vagões à sua esquerda, apresentem seu Título: Diácono Guerreiro aos oficiais, e aguardem instruções!

— E agora, a marcha começa... — suspirei.

É claro, o campo de treinamento não iria se localizar no meio de uma cidade, e eu duvidava que seríamos todos colocados no interior confortável de algum veículo.

Então preparei-me o melhor que podia, e coloquei-me a andar.

҉   

Suspirei, olhando para o céu azul.

— Sério, quando que eu vou obter essa porra dessa Habilidade? — não consegui manter a frustração longe de minha voz.

Estávamos sendo treinados do raiar do sol até o anoitecer, muito além da exaustão, para conseguir um conjunto específico de Habilidades, estas sendo Proficiência em Lanças, Nv. 1, Proficiência em Espadas, Nv. 1, e Proficiência em Armaduras, Nv. 1.

— Pensei que sairia daqui mais cedo que vocês, mas parece que estava errado... Queria ser um daqueles talentosos que sobem de Nível e ganham Habilidades mais rápido que todo mundo — concordou Maicon, um recruta sentado à minha esquerda, que diferentemente da maioria dos outros naquele acampamento, carregava um machado em sua cintura no lugar de uma espada. Fora sua arma atípica, sua única característica marcante era uma orelha cortada pela metade num acidente de trabalho, seu cabelo curto de um loiro escuro e olhos de verde musgo como a maioria dos elfos de berço comum.

Maicon vinha de uma família de lenhadores, e por isso já possuía Proficiência em Machados, Nv. 1 antes mesmo de se alistar, por isso foi permitido manter sua arma de curto alcance preferencial.

— Tch, se eu soubesse que poderia conseguir outra posição só por ter uma Habilidade, eu teria usado mais o arco e flecha enquanto ainda no vilarejo — reclamei.

— De volta com isso, cara? — Maicon questionou com um meio sorriso.

— Digo, eu não acho que vá morrer nas linhas de frente, já que temos o Herói e tudo, mas por que assumir um risco desnecessário assim? Se eu pudesse ter ficado na traseira apenas atirando flechas, eu definitivamente teria escolhido esse destino — dei de ombros, respondendo. — Melhor ainda se eu pudesse usar magia.

— Bem, pelo menos você vai aprender a usar uma espada. Já imaginou ficar preso a uma ferramenta? Algo que serve para cortar troncos? Se estamos falando de melhores chances de sobrevivência, acho que você tem maior possibilidade de sair vivo dessa do que um certo alguém — Conrad, um colega recruta ao meu lado direito, apontou com um sorriso pernicioso no rosto; era outro jovem elfo de aparência genérica, porém com os dentes incisivos centrais bem separados.

— Você tá querendo comprar briga é? Pelo menos eu tenho uma Habilidade! Você não teria chances contra mim, tá bom?!

— Ah, será mesmo? Diferentemente de seus arque-inimigos, eu não ficaria plantado no mesmo lugar, sabe?

— Você fala como se rochas saíssem correndo por aí! Se estamos falando do alvo de nossas lâminas antes do exército, você não é diferente de mim!

— Exceto que o trabalho de um minerador de rochas contribui com uma indústria digna.

É verdade, Conrad, como um minerador de rochas para construção civil, tinha Proficiência em Picaretas, Nv. 1, então tecnicamente poderia manter sua arma de preferência no exército também. Exceto que ele não possuía uma picareta de guerra quando se alistou, e o exército também não possuía nenhuma para lhe oferecer, então ele acabou sendo designado como Espadachim e Lanceiro, como a maioria esmagadora dos demais.

— O que você está insinuando, hãn?!

— Quero dizer que os materiais que eu recolhia eram usados em catedrais, e castelos, e belos palácios, pura arte! E você recolhia gravetos para cabanas. Podemos ambos ter uma Habilidade, mas, honestamente, somos incomparáveis.

— Você realmente se acha tão melhor só porque trabalhava com rochas e não com madeira?!

— Sim, eu me acho tão melhor exatamente por esta razão.

— Grr! Haicard! Me segura, ou eu já vou acabar em corte marcial antes mesmo de terminar meu treinamento!

— Eu realmente não entendo a rivalidade entre vocês. É como ver um fazendeiro que cultiva beterrabas competindo com outro que planta cenouras. Honestamente, dá no mesmo.

Ambos os meus companheiros suspiraram ao mesmo tempo, desapontados.

— Falou o cara que passou dez minutos explicando qual a melhor posição na fila de marcha para caminhar devagar o suficiente para não se cansar demais sem ser notado por oficiais. — Apontou Maicon. — Você teria de marchar por horas do mesmo jeito, não?

— Isso é completamente diferente — me defendi.

— Falou o cara que passou os últimos dias recolhendo e em segredo frutas venenosas “para emergências”. Estamos a dezenas de dias de marcha do território das sombras, e somos só recrutas. Honestamente, se houvesse uma emergência, estaríamos ferrados com ou sem essas frutinhas, não?

— São situações completamente diferentes — cruzei meus braços, certo.

Felizmente, antes que aqueles dois continuassem a tentar encontrar falhas em minha lógica (não haviam falhas), um oficial parou perto de nós enquanto montado em seu cavalo e questionou:

— Vocês aí, o que estão fazendo?

— Estamos descansando após o fim de nosso treino, senhor! — saltei de pé, em posição de sentido, e respondi imediatamente.

— Parecem bem descansados para mim. Vocês estão no turno da guarda noturna de hoje, dirijam-se para a torre leste.

— Sim, senhor! — respondemos em uníssono.

҉   

Chegando no topo da torre de madeira, nós três nos deparamos com um rapaz encapuzado segurando um arco e flecha.

— Ei, Haicard, olha só, um arqueiro. Pergunta para ele se ele não quer trocar de função — Maicon me cutucou com o cotovelo.

— Cala a boca, mano — resmunguei, não querendo ofender nosso parceiro para aquela noite.

— O que? Não se importa mais com as maiores chances de sobrevivência de um Arqueiro e aquilo tudo? — Conrad foi em frente e ofendeu o Arqueiro...

— Maiores chances de sobrevivência só porque sou um arqueiro? — o rapaz encapuzado cerrou os olhos. — Hmphm! Que bobagem. Só para vocês saberem, as atividades de reconhecimento e sabotagem são aquelas com maior número de casualidades, e quase sempre são soldados como eu quem são enviados nelas: Arqueiros.

— Isso é só uma piada interna, por favor, não preste atenção no que esses dois estão dizendo — levantei as mãos, tentando desescalar a situação. — De qualquer forma, eu sou Haicard, este é Maicon...

— Opa.

—E este aqui é Conrad...

— E aí!

— ...Vamos estar te fazendo companhia essa noite. Bem, pelo menos até a meia-noite ou por aí.

— ...Vão me acompanhar por metade do meu turno, então. Hmph. Façam como queiram, só não fiquem no meu caminho.

— Metade do seu turno? — questionei. — O que foi, você está sendo punido por essa atitude sua com um turno noturno completo?

— Que? Em primeiro lugar, eu não tenho uma “atitude”, e em segundo lugar, não estou sendo punido coisa nenhuma, mas privilegiado!

— Ih, olha o cara — Maicon franziu o cenho levemente.

— Tá se fazendo de besta? — Conrad, cruzou os braços.

— Em primeiro lugar, você não se apresentou quando dissemos nossos nomes, e em segundo, você já está desprezando nossa ajuda. Para mim parece uma atitude repudiável — dei de ombros.

O rapaz encapuzado suspirou, puxando o capuz para trás e revelando um rosto de olhos afiados, e pele anormalmente clara.

— ...Meu nome é Coruja.

— Haha! Nem a pau! — Conrad riu.

— Esse é meu nome mesmo!

— Certo... Coruja, e por que você está com o turno noturno completo se não é uma punição?

— É porque eu tenho a Habilidade: Insônia. Ela me permite ficar 48 horas sem dormir sem sofrer qualquer penalidade. Deixei a Liga Sacra ficar sabendo disso desde o começo, então eles resolveram colocar essa habilidade para o bom uso, e estão me treinando para atividades noturnas e essas coisas.

— Uaaau! — nós três admiramos em uníssono.

— Uma Habilidade rara? Isso é... bem, raro — adicionei absolutamente nada à conversa, mas senti que precisava falar aquilo de qualquer jeito.

— É, e agora vocês sabem o porquê sua ajuda não significa muito para mim. Eu tenho muito mais experiência com esse tipo de coisa, ou não teria obtido essa Habilidade. Então, apenas tentem não me incomodar durante esta noite.

Coruja puxou seu capuz sobre o rosto novamente, e voltou-se para o horizonte, pondo-se a procurar por qualquer movimento ou atividade suspeita como um bom vigia.

Ainda tínhamos seis horas de turno pela frente, e aparentemente não muito trabalho a fazer. Seria uma longa noite, pelo jeito.

҉   

— ...E foi por isso que me alistei — conclui minha história de vida enquanto nós três nos apoiávamos sobre o parapeito da torre de vigia.

Conrad e Maicon ambos bateram palmas ao fim do meu monólogo.

Eu não poderia dizer o que me levou a contar minha história para os três presentes, já que havíamos falado sobre tudo um pouco nas últimas quatro horas, mas aparentemente eu acabei inspirando os demais, pois assim que os dois terminaram de aplaudir, Maicon tossiu, limpando a garganta.

— Muito bem, agora é minha vez.

— Por favor, não me digam que vocês três vão recontar toda a sua história de vida... — Coruja suspirou, massageando a glabela. Ele se encontrava no lado oposto da torre, mas não é como se fosse distância suficiente para que não pudesse nos ouvir, afinal.

— Meu pai é um lenhador. Não dono de madeireira nem nada, apenas um lenhador. E eu tenho um machado em mãos desde que me lembro por gente! — Maicon ignorou o rapaz encapuzado e iniciou sua história.

— E desde quando você é considerado “gente”? Sempre te vi como um verme — Conrad apontou.

— Grr, talvez não “gente”, mas definitivamente um assassino se você não calar essa boca...! — Maicon olhou com genuína sede de sangue para Conrad, que sorriu e cobriu a boca com ambas as mãos, sinalizando que não iria mais se intrometer. — Como eu ia dizendo, eu comecei a trabalhar desde muito pequeno, sempre cortando árvores. Porém, sempre foi meu pai quem cuidou da venda dos troncos e todos esses detalhes. Mas, é claro, as coisas não poderiam continuar assim para sempre. Se ele queria que eu assumisse a profissão em seu lugar um dia, eu deveria aprender tudo sobre ela. Então, alguns anos atrás, ele começou a me ensinar essa parte mais mercantilista e tudo. Logo, fui enviado para cuidar desse assunto sozinho pela primeira vez! Ai, quando cheguei na cidade, ouvi o discurso do recrutador, fiquei impressionado e me alistei!

— Wow... — Conrad sequer zombou do ex-lenhador, que foi influenciado pela propaganda militar na primeira vez que a ouviu sozinho.

— Que força de vontade... impressionante — até Coruja se sentiu desapontado, e ele sequer conhecia Maicon.

De minha parte, fiquei em silêncio. Claro, eu também havia sido influenciado por toda a propaganda da Igreja Jornadista e de artistas sobre a guerra sacra, mas em meu caso eu gostava de fingir que minha decisão havia sido uma tomada principalmente sobre uma base lógica.

Bem, com ou sem um bom motivo, Maicon estava no mesmo lugar que eu, então eu não poderia dizer que ele havia tomado uma má decisão sem ser um hipócrita. Nossas chances de sobrevivência e sucesso eram as mesmas, afinal, e não eram tão ruins assim.

— E quanto a você, Conrad? — perguntei, de repente ainda mais curioso sobre o motivo dos demais.

— Diferentemente do idiota aqui, eu tenho uma boa razão, tá bom?

— Ah, é? Então, por favor, nos deixe ouvir tal excelente, exuberante, magnificente motivo, oh, vossa excelência dos motivos bons!

— Claro — Conrad, deu de ombros, mas diferentemente de quando zombava de Maicon na maioria das vezes, não tinha um meio sorriso na cara, parecia estranhamente sério.  — Como você, venho de uma família de trabalhadores, mas em meu caso, éramos mineradores de pedra para construção civil. E digo “éramos” porque não há mais nenhum membro de minha família no ramo. Meu pai faleceu num acidente de trabalho e, bem, vocês não me veem minerando agora, não é? Enfim, essa não foi a única tragédia que nos atingiu. Uma enchente destruiu nossa casa logo após o falecimento de meu pai, e o dinheiro que recebemos pelo seu falecimento foi usado para reparar a casa, sem ao menos sermos capazes de pagar por um túmulo apropriado. Mas ele foi um bom homem. Ele não merece ser enterrado num campo qualquer sem sequer uma boa lápide de pedra. Então, me alistei, e de quebra minha mãe é poupada de muitos impostos que tornariam impossível que ela vivesse por si mesma em nossa nova casa, tanto que ela consegue comer todos os dias agora.

— ...É, esse é um bom motivo — Maicon desviou seu olhar e retraiu sua postura agressiva.

— ...Meus pêsames — Coruja também comentou, para minha surpresa. — Eu... sei como é difícil perder alguém importante para você — explicou. E quando nós nos calamos e prestamos atenção nele, continuou: — Eu também já sofri com perdas. Mais do que qualquer um deveria sofrer. Minha... Minha vila inteira foi massacrada. Foi o exército das sombras em algum tipo de missão secreta em pleno coração do território da Liga. Eu ainda me lembro da voz do monstro que matou minha mãe. Não pude ver seu rosto porque minha mãe me escondeu na fossa da latrina para que eu escapasse do massacre, mas sua voz eu me lembro bem. Eu não poderia esquecer. Não quando eu a escuto todas as noites, tão claramente que mal consigo dormir... Foi devido a essa paranoia que obtive Insônia. Não consigo descansar. Não posso... não até obter minha vingança.

— ...Parece que somos só eu e você nesse barco de histórias bestas, Haicard — Maicon pôs uma mão em meu ombro.

— Não, espera aí, a minha história pelo menos tem algum drama, tipo, com todos os meus irmãos e tudo! — tentei me defender.

— Conrad, quantos irmãos você tem? — Maincon perguntou, despreocupado.

— Oito.

— Coruja, quantos você tinha?

— Onze.

— E eu mesmo tenho cinco, e passava tanta fome quanto qualquer outra pessoa. Isso sem falar dos ataques de monstros periodicamente. Eu sei que pode ser difícil aceitar a própria mediocridade às vezes, Haicard, mas não se preocupe! Seu amigo Maicon está aqui por você!

— Urgh... — eu bem sabia que meu caso estava longe de ser único, mas mesmo assim era um pouco duro ser confrontado com aquela realidade tão bruscamente.

Mas havia, pelo menos, outra coisa na qual eu podia me focar sobre o que Maicon disse.

A palavra amigo. Era a primeira vez que eu me via ao lado de alguém não apenas por obrigação, mas porque me felicitava estar naquele lugar. Maicon, Conrad, e até Coruja, quem eu acreditava que acabaria inevitavelmente se aproximando de nós, meus amigos. Eu poderia ser apenas um jovem ordinário e ambicioso, mas enfim eu podia ver um futuro além da sarjeta.

— Hu. É, eu conto com vocês.

҉   

À minha frente se estendia um vale cercado por ambos os lados de montanhas de rocha escarpada, desprovida de qualquer vida vegetal, guiando-nos diretamente até uma alta parede de metal fosco. Lá, aninhava-se uma enorme torre negra avermelhada do mesmo material, um pilar pelo menos quinze vezes mais alto do que as torres defensivas de Pé Direito, no qual conectavam-se grossos tubos vindos do chão, embutiam-se hélices semelhantes àquelas de moinhos de vento, e dela pendiam espinhos e caixas de função misteriosa. Chamava-se Prenuncia, sendo supostamente uma das últimas edificações erguidas na Era dos Divinos, antes do ciclo de campeões ser estabelecido, e era uma ruína divina daquelas que atraíam centenas de Historiadores, que eram genuinamente relevantes para os estudiosos, diferentemente da pedra que eu encarava em minha vila.

Lá seria travada minha primeira batalha.

A fortaleza então era habitada pelo exército do atual Rei das Sombras, ou ao menos uma minúscula porção dele, parte das tropas de seu Barão das Sombras mais fraco, “Zelvon”, ou algo assim, e pelas fofocas que corriam dentre os soldados, aquele nem sequer era um ponto de extrema importância no cômputo geral, apenas mais um posto avançado dos inimigos que seria melhor se não existisse. E quando eu observava o líder de nossas forças andando lado a lado dos Historiadores...

— Sim, de fato esta batalha vai filtrar o trigo do joio, Duque Constance — prometia um encapuzado mascarado de olhos vermelhos brilhantes, e com voz extremamente rouca, de postura corcunda. Aquela figura estranha sozinha era o suficiente para tirar de minha mente qualquer consideração que eu já tive por me tornar um Historiador. — E também será de grande satisfação para nosso Mestre, a notícia da retomada de seu principal alvo de estudos — eu não duvidava que aquilo tudo fosse pouco mais que algum tipo de troca de favores entre membros da alta sociedade.

Ainda assim, nada daquilo deveria ser um problema... Se o Herói viesse a participar daquele campo de batalha.

Não, ele era importante demais, poderoso demais para ter seus talentos desperdiçados num combate num território praticamente esquecido nas bordas do território da Élfico, com pouquíssima relevância estratégica. Não, ele estava a dezenas de dias de marcha, invadindo algum castelo de um poderoso monstro ou algo assim.

Muito era conhecimento comum sobre o Herói, mas fui burro demais para imaginar aquele tipo de conhecimento era mantido em segredo a fim de recrutar soldados com maior facilidade.

— ...Merda — praguejei baixinho.

Eu havia sido um tolo em pensar que sequer teria alguma chance de dividir o campo de batalha com o Herói. Eu não estava mais seguro ali do que em meu vilarejo. Não, estava ainda mais vulnerável.

— AVANÇAAAAAR! — nosso comandante, o Duque de dentes de ametista ordenou do lombo de seu cavalo, e nós, infantaria, começamos a marchar adiante, nos aproximando assustadoramente das imensas muralhas da fortaleza metálica.

— Ei, relaxa. Eu cubro vocês, e vocês me cobrem, certo? — Maicon, à minha esquerda, trocou um olhar comigo, seus olhos tão arregalados quanto os meus deveriam estar.

Logo em seguida, olhei para a direita, e percebi que Conrad suava, mesmo que tivéssemos passado o dia descansando até aquele momento, e a marcha tivesse apenas começado. Notando meu olhar, Conrad assentiu com a cabeça.

— Certo.

Eu avançava com um escudo redondo de madeira na mão esquerda, uma espada bastarda na mão direita, e um gibão simples de algodão, equipamento produzido em larga escala para o exército sacro, quase todos os outros usando os mesmos itens.

Havia algumas exceções, como Maicon, que carregavam machados, maças, e afins, mas em geral era uma linha de frente bastante uniforme, com armas de curto alcance numa mão, escudo noutra, e uma armadura de algodão de qualidade duvidosa.

É claro, isso se aplicava apenas às linhas de frente.

Seguindo logo atrás de nós, uma segunda tropa com cerca de quatro mil soldados, metade dos nossos números totais, mostrava-se significativamente melhor equipada, com cota de malha, peças de couro, e até alguns raros pedaços de armaduras de placa, além de armas claramente individuais e de qualidade evidentemente superior às nossas. Mas isso não era a única, ou mais importante diferença. Não, o que me fazia franzir o cenho e quase cuspir de frustração era a quase imperceptível aura ao redor daqueles soldados: Fortalecimentos.

Aquela luz fraca que emanava do corpo dos soldados na traseira do exército era resultante dos poderes concedidos a eles pela tropa de Magos Fortalecedores, soldados especializados em magia que aumentava os Atributos de seus alvos, ou concediam ainda mais impressionantes resultados.

Claro, havia ainda nossos superiores, membros da nobreza, que cavalgavam frente a seus subordinados, completamente cobertos da cabeça aos pés em armadura de placa praticamente invulnerável, equipados de muitos itens nomeados, equipamentos imbuídos de poder mágico, e cintilavam tanto quanto estrelas cadentes de tantos Fortalecimentos que os afetavam. Os malditos não apenas eram agraciados com vidas de centenas de anos, sendo elfos de sangue puro, mas também tinham toda vantagem que podiam comprar, ou melhor, herdar.

— PROJÉTEIS! — berrou um dos Cavaleiros sob o comando de Duque Constance, anunciando o disparo de magias de longa distância contra nossas forças, e todos nós levantamos os escudos, abaixamos nossas posturas e continuamos a marchar, acocarados, sem parar.

Por trás de meu escudo de madeira, eu não podia ver os projéteis mágicos, que podiam ser frutos de uma miríade de diferentes Feitiços se aproximando, e para minha surpresa, eu sequer podia ouvi-los.

Se devia aquilo realmente a um total silêncio por parte dos ataques inimigos, ou porque meu coração estava batendo tão alto em meus ouvidos, que eu me encontrava praticamente ensurdecido?

“BUM!”

Qualquer que fosse o caso, eu definitivamente pude escutar as explosões resultantes do impacto das magias inimigas.

“BUM! BUM! BUM! BUM!”

A minha esquerda e à minha direita, à minha frente e atrás de mim, o cascalho negro do vale estourava sob o impacto dos ataques mágicos.

— Gahr!

— Wargh!

— Uurgh!

E no mesmo instante, grunhidos de soldados feridos e baques estranhos se faziam ouvir e misturavam-se numa cacofonia verdadeiramente infernal.

— Eh? — algo molhado esguichou em minha nuca. — Qu-Que...?

Não resisti à curiosidade mórbida e olhei para trás por sobre meu ombro.

E a visão que me saudou foi a de um rapaz, que deveria ser ainda mais novo que eu, caindo de joelhos, com um buraco circular do tamanho de um punho em seu escudo... e lhe faltando um terço de sua cabeça, um vácuo assombroso onde antes se encontrava seu olho direito.

— EM FRENTE! — um Cavaleiro com um mago ao seu lado conjurando uma barreira transparente contra a qual os projéteis mágicos se espatifavam, inúteis, me notou paralisado e apontou sua espada para mim.

— H-H-Haicard! Se mexe, cara! — Maicon, pálido feito neve, segurou meu ombro e forçou-me a continuar a marchar em frente.

Eu prossegui, bem sabendo que parado eu acabaria apenas abatido por uma magia, ou pela lâmina de um superior, mas nem por isso parei de olhar ao meu redor.

— Garh!

— Waaahr!

— SOCORRO! SOCORRO!

Homens e mulheres de quatorze, quinze, vinte e tantos anos no máximo sendo perfurados, abatidos, perdendo seus membros, e sangrando, caindo de joelhos, de lado, de frente, e de costas apenas para serem recebidos por milhares de botas de seus companheiros recrutas, forçados a continuar em frente.

— Puta merda... puta merda...! — minha boca estava tão seca quanto o Deserto Sangria, e minha mão tremia tanto que eu duvidava se sequer conseguiria desferir um golpe contra um inimigo mesmo se chegasse vivo à maldita fortaleza.

— FLECHAS! — o Cavaleiro berrou, e logo depois as setas nos alcançaram com baques secos, abalando nossos escudos, que se mostraram ainda piores do que imaginei.

— Argh! — gritei quando uma flecha perfurou um bom tanto através de meu escudo, entrou num lado de meu antebraço, e teve sua ponta saindo no outro. — Aargh! Aargh!

— Porra, porra, porra...! — Maicon encarava meu ferimento com olhos arregalados.

— Aguenta firme! — Conrad tentou me encorajar, mas ele mesmo não parecia tão certo assim.

Mesmo sob dor extrema, continuei a marchar, sem escolha.

Depois do que pareceu uma eternidade sob uma chuva de feitiços e flechas, finalmente alcançamos os portões da fortaleza: enquanto a muralha era inteiramente de indestrutível metal divino, a entrada da ruína histórica era pouco mais que uma barricada de entulho empilhado pelos seus ocupantes.

— ARÍETE! — ordenou o Cavaleiro nobre, e um grupo de Magos surgiu do coração do exército, protegido por veteranos e outros magos capazes de conjurar barreiras.

Os protegidos formaram duas fileiras paralelas, encarando uns aos outros, ergueram suas mãos ao centro das fileiras, e uma vez que círculos azuis com inscrições complexas e incompreensíveis surgiram frente a suas mãos, uma pedrinha surgiu no meio das duas fileiras de Magos, e logo passou a ganhar mais e mais massa, conforme os agoniantes segundos sob fogo intenso prolongavam-se.

— DISPARAR!

A rocha foi magicamente arremessada contra a pilha de entulhos que bloqueava a entrada da fortaleza com velocidade impressionante, chocando-se contra a medida defensiva dos inimigos e espatifando tanto a si mesma quanto uma porção da barricada, os fragmentos de rocha conjurada logo desaparecendo em partículas azuis.

— Fala sério... — eu não sabia se ria ou chorava quando espiei pela lateral de meu escudo, e percebi que a barricada precisaria de pelo menos mais algumas pancadas para se romper.

Os Magos responsáveis pelo aríete mágico imediatamente começaram a conjurar uma segunda pedra, mas enquanto isso, nós, recrutas, éramos abatidos aos montes pelos Feitiços e flechas disparados das muralhas.

— Não vai dar... a gente vai morrer se continuar assim...! — eu me via em completo desespero antes mesmo de poder ver um único monstro sequer, e daquela vez Conrad não conseguiu novamente encontrar forças para sequer tentar me manter esperançoso. — Não... sem chance! Sem chance! Eu não vim até aqui para morrer que nem um vira-lata! — olhei ao meu redor à procura de qualquer coisa que pudesse usar como proteção, uma pedra, uma depressão, qualquer coisa!

Infelizmente, os inimigos provavelmente limparam aquele terreno de qualquer coisa que pudesse servir de obstrução contra a resistência a eles... exceto que eles não podiam remover algo que não estava lá antes de nosso ataque.

— Me desculpa...! — me aproximei do cadáver mais próximo, embainhei minha espada, e levantei o corpo, colocando-o à minha frente.

Olhando ao redor, percebi que eu não era o primeiro a ter tido aquela ideia, e havia bastante recrutas que faziam exatamente aquilo, e a camada de proteção extra parecia realmente funcionar até contra os poderosos Feitiços, mas foi em mim que Maicon e Conrad se inspiraram, colocando-se a fazer o mesmo ato sacrilégio.

— Kuh...! — um Feitiço atingiu em cheio o corpo que eu segurava, perfurando sua armadura, carne e ossos, mas perdendo força o suficiente para se dissipar contra meu escudo. O mesmo escudo do braço perfurado pela flecha. — Dói... tanto...! — lágrimas vinham inadvertidamente aos meus olhos, mas eu as secava imediatamente, não me permitindo perder a visão durante um momento tão crucial.

Especialmente porque, momentos depois, os Cavaleiros anunciaram:

— A BARRICADA FOI ROMPIDA! AVANÇAR! AVANÇAR! EXTERMINEM ESTES MONSTROS!

Empurrado por meus colegas recrutas por trás e ameaçado pelos meus superiores próximos, não tive escolha além de deixar meu escudo de carne para trás e seguir em frente, me movendo na direção do portão arrombado.

— Isso não é bom...! — me aproximando da entrada criada, percebi que nossos inimigos, não sendo completos idiotas, haviam preparado uma segunda linha defensiva na forma de um muro simples de madeira com espinhos. Uma linha defensiva de goblins, criaturas que fediam a urina, de pele verde, narizes e orelhas enormes, e olhos pequenos e amarelados, o topo de suas cabeças carecas não passando do meu umbigo. Empunhavam lanças por trás do obstáculo, e já estocavam mortalmente contra os recrutas que eram empurrados fortaleza adentro, empilhando corpos rapidamente. — Se eu entrar aí, eu vou morrer!

Tentei recuar, mas os recrutas atrás de mim, ignorantes dos perigos adiante e aterrorizados pelos disparos das muralhas e pelas ameaças de nossos próprios comandantes, não me permitiram dar um passo para trás sequer.

Olhei ao meu redor desesperadamente, procurando qualquer forma que pudesse me servir de rota de fuga, mas aonde quer que eu olhasse havia apenas soldados, cadáveres e muralhas.

— Muralhas...!

Alcancei o muro de metal mais próximo, já no lado de dentro da fortaleza, e coloquei-me a escalar o que parecia ser uma polia embutida na velha estrutura.

— Aargh!

Meu braço perfurado pela flecha provoca dor num patamar em que eu nunca havia antes experenciado em toda minha vida, mas ou eu aguentava aquela dor, ou eu me atirava no mar de lanças inimigas adiante. Então, escalei acima do mar de cabeças élficas, e consegui escapar das ondas de soldados sacros que quebravam-se, literalmente, contra a segunda linha ofensiva dos inimigos.

Muitos morreram pelos projéteis disparados das muralhas, e muitos mais caíram perante as lanças das criaturinhas dentro da fortaleza, perfurados, cortados e pisoteados, sangrando lentamente até seu fim ou sufocando sob o peso de dezenas de seus próprios companheiros.

Por um momento, de minha posição elevada, aquela invasão parecia condenada ao fracasso. Mas, por mais que os mortos se empilhassem, mais soldados continuavam a jorrar fortaleza adentro, e em questão de minutos, a tosca barreira de madeira que os goblins haviam montado havia sido reduzida a migalhas graças às vidas de dezenas e dezenas de recrutas.

Uma vez que a segunda linha defensiva do exército das sombras caiu, a batalha rapidamente espalhou-se por todo o pátio da fortaleza e pelo interior de suas muralhas metálicas ocas. Pouco tempo depois, os primeiros veteranos deram as caras, e alguns até apontaram para mim e gargalharam, mas pelo menos um deles mandou que eu descesse de meu ninho e me atirasse na peleja sob muitas ameaças.

Deixei-me cair do muro e olhei ao redor, procurando pela batalha que seria a de mais fácil vitória. Não que eu tivesse tempo o suficiente para realmente encontrar os oponentes ideais, já que se eu me demorasse muito mais, meus superiores me cortariam bem ali e naquele mesmo instante.

Corri para o meio de um grupo de recrutas que cercava cerca de uma dúzia das criaturinhas esverdeadas contra um muro.

— Haicard! — coincidentemente, Conrad e Maicon faziam parte daquele mesmo grupo, e de alguma forma haviam sobrevivido à quebra da segunda linha defensiva.

— Você tá vivo?! — Maicon surpreendeu-se.

— Não fica surpreso, porra! Assim parece até que vou morrer a qualquer momento agora! — enquanto eu gostava de me imaginar um homem tranquilo, não consegui evitar, mas gritar com meu companheiro, meus nervos à flor da pele.

— Parem de namorar e partam já para cima desses goblins! — um recruta perto de nós apontou com a espada para os monstros.

— Eles têm lanças, têm um alcance maior, o que sequer podemos fazer?! — respondi.

Enquanto nós, recrutas inexperientes, discutíamos entre nós, as criaturas verdes devem ter decidido que nossa indecisão era uma brecha, e avançaram todos de uma vez com suas lanças.

— Droga! — Recuei o mais rápido que podia, evitando a estocada repentina, mas o recruta que nos disse para avançar não foi tão rápido, e a lança de um dos goblins atravessou sua garganta de ponta a ponta, e sua boca tornou-se um chafariz rubro.

Não havia tempo para me preocupar com outros, porém, uma vez que o goblin diante de mim não parava de avançar em minha direção com estocada seguida de estocada.

Por mais que eu quisesse apenas dar minhas costas à criatura e fugir dali, eu sabia muito bem que aquilo não era uma opção. Então bati na ponta da lança com minha espada, a empurrando para o lado, e saltei em direção ao meu oponente.

Minha espada percorreu toda a extensão do cabo de madeira da lança, e com um berro, brandi minha lâmina contra o pescoço do goblin. Meu intuito era desferir um ataque fatal e matá-lo num único golpe, mas minha mira não foi tão precisa quanto eu desejava, e atingi foi o ombro do inimigo.

— BUAARGH! — o goblin urrou quando seu braço direito pendeu, mole, ao seu lado, seu ombro quebrado.

A criaturinha também usava, afinal, uma armadura de pano similar à minha própria, e minha lâmina, surpreendendo ainda minhas baixas expectativas, provou-se ainda mais barata e cega do que o esperado e sequer foi capaz de cortar através do algodão.

Ainda assim, um inimigo com um braço quebrado era melhor que um inimigo ileso. Infelizmente, aquele não era o único goblin que nos atacava.

— Aaai! — senti uma estocada em minha coxa esquerda e recuei, forçando minha perna a me impulsionar para trás mesmo sem saber que tipo de ferimento eu havia sofrido, superando não apenas a dor em meu braço pregado no escudo, como também o de minha perna misteriosamente alvejada.

Tendo colocado uma distância entre meu atacante e eu, percebi que era o goblin que havia matado o recruta que gritou comigo antes, que tendo lidado com seu alvo, tornou para ajudar seus companheiros. A criatura empunhava uma adaga que servia como uma espada curta em suas mãos, arma com a qual deve ter me atacado, já que sua lança ainda estava presa na garganta de um cadáver. Felizmente, porém, eu não via sangue na ponta da adaga, então ele deve ter falhado em perfurar minha armadura. O que deve ter acontecido, foi o goblin ter tentado alcançar minha virilha relativamente desprotegida, mas deve ter errado o alvo, e deslizado sua lâmina ao longo da extensão de meu longo gibão sobre minhas coxas.

Eu não queria pensar no que poderia ter acontecido se aquela adaga tivesse atingido seu alvo intencionado.

Nem havia tempo para pensar: os goblins sabiam bem que seriam exterminados se não atravessassem nossa linha de frente desleixada, então continuavam a ferozmente investir contra nós, recrutas, feridos ou não, mesmo aquele cujo ombro eu quebrei, também empunhava uma adaga e brutalizava a virilha de um recruta que caiu praticamente instantaneamente.

Eu não queria pensar sobre aquilo, mas no fim fui forçado a confrontar exatamente meus medos...

— Kaah! — bloqueei um ataque com meu escudo, o impacto na madeira ressoando através da madeira da seta perfurando meu braço, e fazendo meu esqueleto tremer por inteiro.

Revidei o ataque com uma estocada, mas o goblin recuou com um pulo. Garantindo que eu não seria cercado pelos monstrinhos, que então viam-se presos em combates acontecendo a todo meu redor, avancei com a espada erguida na altura de minha cabeça, pronto para efetuar um corte.

O goblin não se permitiria recuar mais, uma vez que encurralar-se contra a parede seria seu fim, então plantou firme os pés no chão e segurou sua adaga com ambas as mãos, sua determinação brilhando como o sol em seus pequenos olhos amarelos.

— Wargh?! — o monstrinho urrou quando chutei um monte de areia contra seu rosto, cegando-o temporariamente. — Guh-! — grunhiu quando minha lâmina atingiu-o em cheio na cabeça.

A porcaria da espada de baixa qualidade, porém, falhou em cortar através do capuz de algodão que o inimigo usava e matá-lo. Ainda assim, o ataque foi o suficiente para fazer o monstrinho cambalear, atordoado por um segundo, e me dar abertura para mais uma sequência de golpes.

E eu não deixei essa abertura passar: bati com minha espada contra a cabeça encapuzada do goblin de novo, e de novo, e de novo, e de novo, e de novo, e continuei batendo, até que sangue escorresse por toda sua cara, e continuei batendo, até que a criaturinha se encolhesse em posição fetal no chão, cobrindo a cabeça. Parei de usar minha espada como porrete apenas quando me lembrei de que a maldita arma possuía ao menos uma ponta, quando chutei os braços do goblin enfraquecido para longe, e enterrei a espada no rosto inchado e molhado de suor, lágrimas e sangue de meu inimigo.

Meu coração batia tão rápido que eu havia me ensurdecido do resto da batalha, capaz de apenas ouvir meus próprios batimentos cardíacos em minhas orelhas, e o suor pingava de meu queixo como chuva e encharcava minhas vestes e as tornava escuras.

 A-Ainda não acabou — olhei ao redor e averiguei a situação do confronto.

O que observei foi que este estava, infelizmente, equilibrado: metade dos goblins havia morrido, e metade de nós, recrutas, também, e todos os envolvidos restantes viam-se em preocupante perrengue.

E dentre tais recrutas em perrengues, notei Maicon e Conrad lutando lado a lado contra três inimigos ao mesmo tempo, uma vez que os confrontos haviam se dispersado pelo campo de batalha. Corri para ajudá-los. Mas não fui rápido o suficiente.

— MAICON! — Berrei, vendo uma lança entrar por debaixo do queixo de meu amigo e sair por sua órbita ocular esquerda, a ponta metálica coroada pelo olho do rapaz.

Maicon imediatamente deixou seu machado e escudo caírem e levou as mãos à face, tremendo, de boca aberta. Os goblins que o cercavam, porém, não ofereceram descanso, e dilaceraram as artérias na parte interna de suas coxas com suas adagas, trazendo-o ao chão.

— WAARGH! — Conrad, sua face tingida vermelha de ira e do sangue de seu amigo, desferiu um golpe poderoso o suficiente com a espada que, de alguma forma, conseguiu utilizá-la para seu propósito pretendido, e cortou o pescoço de um dos goblins. — RAAGH! — partiu imediatamente para o próximo oponente.

De repente, não eram dois contra um, pois quando finalmente o alcancei, chutei a parte de trás do joelho de um dos golins, derrubando-o sobre suas próprias costas, quando finquei a ponta de minha espada em seu rosto.

Olhando para cima de novo, vi Conrad com um corte na coxa, mas perfurando o pescoço do último dos três inimigos que o cercavam originalmente.

— Conrad, você está bem?! — perguntei, segurando o ombro de meu amigo.

— Tanto quanto você...

Olhando ao redor, garantimos que estávamos longe de perigo imediato e nos aproximamos do cadáver de Maicon.

Não pronunciamos uma única palavra e, talvez para a desgraça do falecido, sequer fomos capazes de olhar em seu rosto enrubescido. Mas derramamos lágrimas, e estas carregavam nossos mais legítimos sentimentos.

A seguir, os veteranos adentraram todos os prédios principais da fortaleza, onde não fomos permitidos, e em questão de minutos, todos os oponentes haviam sido abatidos.

E assim terminou-se minha primeira batalha. Com um amigo a menos, mas um Nível a mais.

Uma vez que os cadáveres dos goblins alimentavam fogueiras do lado de fora, os recrutas sobreviventes, finalmente permitidos algum descanso, foram servidos algum pão e mingau, e fomos relembrados precisamente em como distribuir nossos pontos de Atributos que recebemos.

Duas semanas depois, nos encontramos em outro campo de batalha igualmente insignificante e sangrento.

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