Desenredo - Epílogo.

 Epílogo:

 

As nuvens negras haviam sido dissipadas pela maior explosão que aquelas terras haviam visto desde a última guerra dos humanos. As chamas no fundo do abismo sob a torre metálica aquietaram-se há tempos, a rocha líquida solidificando-se mais uma vez. O Herói estava morto, bem como o Rei das Sombras.

— Uau — comentei, balançando os pés do topo da torre arruinada, encarando o brilhante céu azul acima com um largo sorriso no rosto. — Tudo bem. Eu admito, tá bom? Eu admito: isso foi divertido. Mas não se engane, isso só foi divertido porque você trabalhou nos meus conformes.

...

— Ah, por favor, não se faça de zonzo. É óbvio que isso foi trabalho seu! ...Não foi? Enfim, independentemente disso! É como eu acabei de dizer. Se não houvessem sido belos elfos em castelos, brandindo espada e magia- ah essa coisa aqui não conta — chutei a feia torre metálica sob meu avatar. — O que eu quero dizer é, se não fosse tão confortavelmente familiar, eu não teria nem me dado o trabalho de observar tudo isso.

...

— É, é, eu sei, eu sei... Você gosta das suas bizarrices. E eu também, sabe? Me considero uma excêntrica eu mesma! Tanto que eu seria perfeitamente receptiva se os seus elfos, na verdade, odiassem árvores ou algo extremo assim! Ou se os anões na verdade não tivessem pelo facial! Vê? Sou bastante radical, não? Ah, mas mantenha aquelas armas de bronze e pedra bem longe de mim. E também não quero saber da sociedade de fungos conscientes que parasitam outros seres vivos... a menos que eles fossem elfos, talvez?

...

— Haha, para. Você se acha tão superior a mim, não é? Até nomeou-se “Vontade Maior”. Bem, deixe-me te dizer uma coisa então: você não é NADA sem mim. Você não EXISTE sem mim. Tudo o que você cria, você cria PARA mim, e eu posso reclamar, destruir ou mudar todo o seu trabalho. E você sabe o porquê?

...?

— Porque você me ama. Então é melhor começar a preparar algo mais do meu gosto mais uma vez.

...

— Hm? Você deveria ter negado essa afirmação, seu sem-graça — suspirei. — Tá bom, eu vou dar uma chance para as armas de bronze, certo? Mas é bom que tenham espadas legais feitas disso — me levantei, estalei os dedos, e a Tempesternidade se dissipou, as montanhas da Cordilheira das Guardas aos poucos começaram a desfazerem-se em poeira e serem carregadas pelo vento, lentamente sendo reduzidas ao seu tamanho original, e os doze bilhões de fantasmas que cercavam toda a fronteira do território enfim puderam descansar em paz. Daquele dia em diante, as crianças nascidas das mulheres daquela terra não mais exibiriam orelhas pontudas e outros traços élficos, e não mais havia restrições invisíveis sobre o desenvolvimento cultural local, ou Sistema. Álfheim mais uma vez caíra, como já caíra muitas outras vezes antes. — O que vai acontecer com esse povo de agora em diante? Mas não sobrou mais ninguém interessante! Bem, eu suponho que o necromante ainda está vivo, mas aqueles caras nunca me interessaram muito para começo de conversa, todos sombrios e esquisitões. Uma vergonha alheia que só... Mas se eles sobreviveram até agora, independente do que venha a acontecer, devem dar um jeito. Humanos são a espécie mais versátil, não é esse o clichê?

...

— Pff! Sou eu quem deveria estar dizendo isso, não você! Se dependesse de mim, os povos do mundo inteiro logo perceberiam que precisam quebrar o ciclo de violência, perdoar uns aos outros e deixar águas passadas para trás. Sabe, eu acredito que se você mata um vilão, você é igual a eles e tudo aquilo e tal!

...

— N-Não mesmo. É claro que eu não estou apenas tentando fugir de consequências de minhas ações... Enfim, esse epílogo já está estranho o suficiente! E como você venceu dessa vez, vai em frente, faça o que quiser.

...

— Tem certeza? ...Você realmente me ama, não é? Haha. Pois bem. Então, em primeiro lugar...

҉   

À Verônico, garanti uma nova reencarnação, mas dessa vez uma livre das dores acumuladas por duas vidas. Num lugar mais pacífico, numa casa simples, mas confortável, no coração de um vilarejo habitado somente por pessoas amigáveis. Mariah, Landa e Saulo foram enviados também ao seu lado, e até mesmo Celestino, que nasceu uns tantos anos antes dos demais, e tornou-se o professor do vilarejo. O antigo Herói não sabia o porquê, mas às vezes quando via seu lar de longe, e todos que o amavam tanto, se pegava chorando de emoção. Da mesma forma, seus amigos de uma vida passada nunca tiveram dúvidas de que seu lugar era ao lado daquele garoto. Naquela vida, Verônico casou-se com Mariah. Landa logo superou o amor pelo amigo, encontrando uma pessoa certa para si pouco tempo depois, e Saulo passou a trabalhar ao lado de seu velho mestre. Nem uma única vez sequer aqueles reencarnados duvidaram se eram felizes, pois sabiam que eram, e isso não foi influência minha.

Cruz renasceu como um guarda de uma cidadezinha e tinha de constantemente tirar seu amigo e colega de trabalho, o reencarnado Vincente, de confusões. Reencontrou-se com o amor de sua vida, com quem concebeu uma garotinha da primeira geração de humanos pós-Álfheim, Criscina. Então, a ex-Princesa sentiu todo o calor do amor de um casal de pais que genuinamente se importavam com ela... Mas a aventura corria no sangue da garota, e independentemente de sua criação, ela ansiou por explorar o mundo, ainda que de forma menos autodestrutiva. Eventualmente, ela partiu acompanhada do tio e antigo Ladino Heroico numa aventura.

Rael e Duque Constance renasceram em posições que recompensariam seus esforços.

Maicon, Conrad, e Coruja tiveram todos a oportunidade de viver felizes com suas famílias também.

As divindades humanas foram separadas de suas formas dicotômicas e reconstituídas pela primeira vez em quatro mil anos, mas as que não entraram em estado de hibernação imediatamente após sua liberação viram-se tendo dificuldades para decidir o que fazer dali em diante. Nem as culturas que as criaram, nem as que as traíram existiam mais, afinal.

A alma de uma tal de Julia, fisguei do passado e mandei para o mais longe possível, bem como a de uma elfinha que costumava estilizar o cabelo em marias-chiquinhas.

A família de Haicard recebeu uma nova vida numa casa com dinheiro o suficiente para tomar conta de todos, e todos mostraram-se surpreendentemente gentis naquela situação.

E quanto ao próprio Haicard...

Bem, se a “Vontade Maior” era tão insistente em me apresentar o mundo bizarro que construíra somente para mim, eu precisava de um guia, um norte de normalidade para me introduzir a este mundo, não é?

— Você não vai me deixar quieto, não? — reclamou uma alma favorita minha, que naquela vida atendia por Álvaro.

— Só quando eu me cansar de você — respondi, sorrindo e penteando meu sedoso cabelo negro na altura dos ombros para trás. Apesar de forçada a usar um avatar humano, eu jamais andaria por aí num corpo feio, afinal.

— Espero que você se canse rápido...

— Eu não contaria com isso, levo mais ou menos quatro mil anos para começar a me cansar das coisas.

— O que é você, algum tipo de divindade maligna?!

— Que cruel, chamando o seu companheiro de campanha malígno... — segurei meu cotovelo esquerdo com minha mão direita, manhosa. — E eu nem fiz nada para você, só estava tentando fazer amizade. Eu vi que você conversou com os outros caras, e você me pareceu gente boa.

— ...Você tem razão. Desculpa. Você não fez nada de errado. É só que... quando eu olho para você... — foi difícil não sorrir quando vi suor brotando da testa de Álvaro, seu desprezo e medo mal contidos. — Eu não sei.

— Bem, contanto que você entenda que cometeu um erro e esteja realmente arrependido, está tudo bem! Estou disposto a te perdoar se você ficar de joelhos e beijar meus pés.

— Nem a pau! Os caras aqui vão me fazer de putinha se eu me rebaixar para um afeminado como você!

— Afeminado? E quem disse que não sou mulher?

— ...Você é?

— Vai saber, né? — dei de ombros.

— É, não tem jeito, eu realmente te odeio. Por favor, nunca mais fale comigo.

— Isso é impossível, parceiro, estamos na mesma expedição, afinal! Haha! Então, dia e noite, mesmo que você perca braços e pernas- não, mesmo que você morra, eu vou estar do seu lado, nem que eu tenha que te trazer do reino dos mortos de novo, e de novo, e de novo.

— Macabro. Por favor, não faça isso. Se eu morrer, só permita que eu vá para longe de você em paz.

— Pedido rejeitado — mostrei todos os dentes num largo sorriso.

— ATENÇÃO! — finalmente gritou o comandante da expedição, reunindo a todos nós, soldados exploradores.

Segui a um Álvaro bastante angustiado de perto, e nos posicionamos em fileiras frente ao comandante.

— Hoje damos início ao mapeamento e exploração das terras além de Álf- do Continente Renascido — corrigiu-se o comandante. — E vamos ser honestos com vocês... Nenhuma expedição retornou do outro lado destas montanhas nos últimos vinte anos. Não sabemos sequer se eles passaram dos túneis através das raízes da Cordilheira das Guardas. E nesse ponto, vocês já devem ter ouvido as notícias sobre a costa do continente... não temos escolha a não ser ter sucesso, ou sermos extintos — o safado do comandante contou apenas meias verdades. Batendo continência, concluiu com a maior mentira de todas: — Mapeiem, relatem, investiguem! Todo e qualquer novo recurso pode nos ajudar, mesmo que vocês não saibam disso, então não ignorem nada! Boa sorte!

Sem muitas mais formalidades, partimos túnel adentro, na verdade atrás de uma coisa muito específica que os mais influentes líderes humanos, os últimos a ainda exibirem características élficas, aqueles que herdaram o conhecimento perdido da ordem dos historiadores, procuravam.

— Ei, Álvaro, espera aí, eu tenho medo do escuro, cara!

— Como você sequer conseguiu entrar no exército assim?

Fosse o que fosse o ponto daquilo para os habitantes do “Continente Renascido”, eu me divertiria.

 

Fim.


Posfácio:


Espero que você tenha se divertido lendo o livrinho que escrevi baseado na minha experiência como autor profissional :D

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