Desenredo - Capítulo: 9

 Capítulo: 9

 

Chovia muito naquela noite, meu manto pesava sobre meus ombros, encharcado, e minhas botas carregavam duas vezes o próprio peso em lama. Uma luz morna, amarelada, cortava o breu total da floresta tempestuosa, porém.

“Toc, toc!”, bati na porta da casa rústica de troncos de árvores. O morador daquela casa não tardou para responder. Na verdade, abriu a porta tão rápido que foi quase como se estivesse me esperando do outro lado da entrada da sua casa muito antes de eu me aproximar desta.

O morador da casa rústica e isolada no meio da floresta, o assentamento elfo mais próximo ficando a um dia de marcha de distância dali, combinava com sua moradia: barba rente decorava sua mandíbula quadrada, pelos grisalhos e de olhos severos, mas apesar da idade avançada, seu corpo torneado era mal escondido pelas roupas simples que usava, seu único adorno sendo um medalhão de prata pendurado de seu pescoço.

— Boa noite, amigo — puxei meu capuz para trás, sorrindo para o homem. — Eu acredito que a comunidade Nascente Esmeralda deveria estar em algum lugar por aqui...?

— Você mente tão naturalmente. Se eu fosse fazer você o protagonista de qualquer coisa... talvez um comerciante ganancioso que trairia o Herói numa viagem de navio e seria prontamente derrotado? — a entidade comentou, aparentemente desfrutando da chuva gélida e da lama, invisível para todos que não eu. Ignorei-a. Na verdade, eu quis que ela calasse a boca de uma vez. Na verdade, na verdade, eu queria que ela mordesse a própria língua fora, se engasgasse com o pedaço de carne e morresse. — Cruel. Esquece o que eu disse sobre apenas ser derrotado por meu campeão, eu teria certeza de fazê-lo ser comido por tubarões.

— A vila? Amigo, você está um dia inteiro de viagem fora da rota — o eremita respondeu, coçando a barba. — Diga, por que não passa a noite aqui? Pelo menos é seco e mais quente do que aí fora.

— Oh! Eu seria eternamente grato, senhor!

— Bah, não precisa me chamar de senhor, muito menos ser eternamente grato. Qualquer elfo minimamente decente faria o mesmo — o eremita permitiu minha entrada, e deixei minhas botas perto da porta, e minha capa num cabide por ali. — Aceita um chá?

— Por favor. Estou congelando aqui.

— Mas isso não é verdade, é? Você não está tremendo, seus lábios estão bem vermelhos, e na verdade, você sequer parece muito cansado.

— Ah, ele te descobriu. Você vai morrer, Haicard. Afinal, não perdi nada nunca prestando atenção a você, pelo que vejo.

Fazendo mais esforço para não gritar com a entidade que se agachava frente à lareira que queimava, convidativa, do que para dar ao velho uma resposta satisfatória, confessei:

— Haha, bem, sim. Sou um veterano da guerra sacra, sabe? — puxando uma mecha de cabelo molhado para o lado, mostrei meu novo tapa-olho de couro preto. — Tenho uns pontinhos a mais em Força do que a maioria, então posso não estar literalmente congelando, mas a sensação de frio extremo ainda é desconfortável. Você entenderia, não é? — indiquei o objeto que descansava próximo da lareira e de um baú, uma espada envolvida em trapos, apenas com o cabo e guarda em forma de sol exposto. — A julgar pelo equipamento exibido, e a localização remota de seu lar, imagino que tenhas tido um ou outro encontro com monstros.

— Hmpm! É, acho que pode-se dizer isso.

— Ah, ele acreditou. Eu esperava mais deste homem... — a entidade encarou o velho com o mesmo desinteresse que demonstrava a todo o resto.

Sentamos (infelizmente) nós três à mesa no centro da casa simples de dois cômodos, na qual as únicas decorações eram um quadro muito bem pintado de uma linda mulher sorrindo, e um bando de bugigangas artesanais, quando o velho eremita me ofereceu chá. A entidade criou uma xícara para si do nada e tomou a liberdade de servir a si mesma da chaleira a mim oferecida.

— Então, quais seus negócios na Vila Nascente Esmeralda? É um lugar bastante isolado, mesmo quando comparado com outros assentamentos de mesmo porte.

— Na verdade, penso em fazer uma vida nova lá. Depois de minha aposentadoria forçada, consegui dinheiro o suficiente para comprar um terreno e pensei em me mudar para um cantinho mais quieto.

— Isso não combina nem um pouco com você — a entidade se intrometeu. — Na verdade, não consigo pensar em lugar algum que combine com você. Homens do seu tipo tendem a ser infelizes onde quer que eles vão. Uma vila pequena seria entediante e sufocante, uma cidade grande seria enlouquecedora e enfurecedora. Ah, por que você não se mata? Se você fizesse isso de forma dramática o suficiente, talvez eu me sentisse inclinado a lhe conceder um pós-vida ideal? — irritantemente sugeriu, quando eu queria apenas que ela parasse de parar o tempo o tempo todo só para falar bobagens.

— Aah! Me parece uma boa ideia. Eu, pelo menos, não me arrependo de ter feito o mesmo há muitos anos atrás — o velho elfo respondeu com um sorriso genuíno. — E deixe-me te contar uma coisa, esses pontos em Força que você investiu vão lhe servir para mais do que apenas derrotar monstros. Por exemplo, essa casa foi construída por mim mesmo e em apenas um- digo, uhm... três dias!

— Uau, impressionante. Nunca pensei em usar o Sistema para algo construtivo assim. Digo, a única forma de ganhar experiência é matando inimigos, então é algo bastante inútil para 99% das pessoas em 99% do tempo. Agora que penso nisso, acho que até uma criança deficiente e em coma seria capaz de projetar algo melhor, não? Hahaha!

— Talvez eu devesse adicionar uma regra no Sistema onde todos aqueles que falam ultrajes deste tipo tenham seus testículos automaticamente esmagados? — apesar de não demonstrar mais emoção do que a bunda de um jegue em sua face, tirei satisfação das palavras ressentidas da entidade. — Ressentidas? Não sei do que você está falando.

— Uuh... Não sei, rapaz, na verdade nunca pensei muito a fundo sobre o Sistema? — o velho pareceu um tanto confuso.

— De qualquer forma, parece que você vem estando bastante ocupado desde que deixou de ser um soldado, hu? São tantas canecas, e potes e utensílios... e tudo em pares, ainda — indiquei, e a expressão do eremita azedou apenas um pouco.

— Ah, é — ele não parecia ter intenção de elaborar na pergunta implícita.

— Ela era mesmo linda. Meus pêsames — arrisquei, bebericando do chá de baixa qualidade, típico de plebeus. E o velho elfo me encarou por sobre sua própria xícara numa mistura de surpresa e irritação. — A mulher na pintura era sua esposa, não? Perdão pela intromissão, mas não sinto a presença de nenhuma outra pessoa nessa casa, e é um pouco tarde e chuvoso demais para ela estar fora. Assumi errado?

— Errado não, mas definitivamente um tanto enxerido demais —baixou sua xícara com desgosto evidente em sua face.

— Enxerido, hu? É verdade. Na biblioteca de um amigo, li um pouco demais sobre você, aventureiro de categoria especial, Borges Mão Pesada... Ou devo dizer, Rei Herói desaparecido, Cruz?

— Amigo? Você estripou Rodrigues para ter acesso aos seus registros. — A entidade cruzou os braços.

O Herói aposentado da última geração levantou-se estardalhosamente, sua cadeira caindo ao chão, e suas sobrancelhas quase tocando uma na outra.

— Se é sobre algum problema de sucessão ou monstro à solta, eu já disse que não vou mais me envolver nessas coisas! Agora, deixe minha casa, antes que eu te jogue para fora daqui eu mesmo!

— É claro — terminei de tomar meu chá, capaz de manter uma expressão neutra à primeira vista apenas devido ao fato de que, por eu já estar completamente encharcado, o suor frio que escorria por minha pele era camuflado. — Você já não se envolveu na última guerra devido a uma falta de interesse. Assuntos relativos ao Rei das Sombras não lhe preocupam, imagino.

— Vocês já têm o novo Herói para lidar com isso. Agora, vá.

— Entendo — me levantei lentamente. Simplesmente não havia forma fácil de tocar naquele assunto, e era bem possível que eu fosse morto antes mesmo de me dar conta do que aconteceu, mas a inação era igualmente mortal na situação em que eu me encontrava. Apostei tudo no meu conhecimento sobre os Heróis e comentei: — Tristemente, é hora de partir então, por mais que vá ser difícil matar o Herói atual sem sua aju-

Não houve som ou movimento perceptível para meus olhos, num momento eu me virava para a porta, desimpedido, no outro, Cruz tinha um dedo retesado apontado para minha testa, parado à minha frente.

— Um peteleco. Um peteleco é tudo que eu preciso para estourar seu crânio como uma bola de neve contra uma parede de pedras — eu sabia que aquilo não era um blefe. — O que é você? Um emissário da Rainha? Tentando infernizar a minha filha de novo?

Sorri.

— Por que você não me permite te mostrar meus Atributos? — lentamente, configurei a janela contendo minhas informações. E quando Cruz leu meus dados, seus olhos arregalaram-se, e ele pareceu ler e reler o texto na janela uma dúzia de vezes antes de comentar qualquer coisa.

— Você... é o novo Rei das Sombras? Mas... és tão... FRACO?! Não, espera, você também é um elfo! Não um diabo? Não um elemental?! Não um monstro?!

— Haha, bem, pode-se dizer que fui amaldiçoado com esse Título, mas é um fato que eu sou o atual Rei das Sombras. E eu adoraria ter você como minha mão direita, já que, como podes ver, meus Atributos deixam um pouco a desejar.

— O que?! Mas que ultraje! Eu posso estar aposentado, mas já fui um Herói! Você acha mesmo que eu mancharia as memórias de minha esposa e de meus companheiros me juntando com o lado das sombras?! Fraco ou não, você é o inimigo de toda a espécie élfica, me dê um único motivo para não te desmiolar agora mesmo!

— Tudo bem. Seu motivo está em minha bolsa. O livro intitulado de “Guia Compreensivo da História de Álfheim, por Elarico Milemario Saudoso”. Descobrir a verdade escrita neste tomo foi o que me amaldiçoou com o Título que agora sou forçado a carregar.

— Elarico Milemario? Este é o velho mestre historiador que descobriu que eu era o Herói... — Cruz tomou o volume de dentro de minha bolsa.

— Vá em frente. Leia o livro.

— Correntes Divinas — Cruz conjurou um feitiço, e no instante seguinte, correntes feitas de pura luz saltaram da parede atrás de mim, enrolaram-se ao redor de meus pulsos, pernas, boca e tronco, e me imobilizaram por completo. — Muito bem. Vou lê-lo. Mas se eu julgar que isso não é motivo o suficiente para te deixar viver, vou te decapitar e carregar sua cabeça para a capital eu mesmo.

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