Desenredo - Capítulo: 8

 Capítulo: 8

 

— Uau, você está no Nível:13?! Isso é impressionante! Só mais dois níveis, e você poderia ter conseguido uma posição de oficial no exército mesmo como plebeu, não é, Saulo?

— De fato, senhor príncipe. Na verdade, a média de Nível do exército atual é sete, então foi verdadeiramente uma pena não podermos ter mantido um guerreiro tão habilidoso dentre nossas forças.

— Ah, por favor, amigo, você não precisa me chamar de “senhor príncipe" o tempo todo, somos companheiros, se lembra?

Saulo sorriu placidamente ao ouvir as palavras do príncipe.

— Mas isso não é um Nível muito baixo? Digo, meu esposo está no Nível-

— Princesa Herdeira, por favor, comparar pessoas comuns com Verônico é um tanto... — Saulo interrompeu, me atirando um olhar empático.

— Hmm... Tens razão, imagino. Afinal, meu esposo é o Herói mais forte do mundo!

Sim, então eu me via numa mesa tomando chá da tarde com ninguém menos que o próprio Herói, Verônico, o Mago que lhe acompanhou em sua campanha, Saulo, e a Princesa Herdeira da coroa do Sagrado Reino de Fanon, filha única da Rainha que governava sozinha, por tradição a esposa de Verônico, Criscina.

Apesar da postura relaxada de meus companheiros de café e do jardim absurdamente lindo no qual nos encontrávamos, que continha exatamente 14 flores de cada espécie do continente, uma para cada Herói que já sentara-se no trono de consorte do Reino, eu me via no mínimo tenso.

Todos eram extremamente lindos, especialmente Verônico, e apesar daqueles dois terem lutado as batalhas mais difíceis da última guerra, não apresentavam uma única cicatriz sequer, e eram pelo menos duas cabeças mais altos do que mesmo os guardas posicionados em pontos estratégicos do jardim: o Herói tinha longos cabelos brancos, um traço único dentre nossa espécie cuja coloração dos pelos variava de um loiro cor de palha, como o de meu, até um loiro quase reluzente, solar, como o de Criscina, sua face tinha feições mais afiadas que qualquer arma que já empunhei, e seu corpo era esculturalmente muscular de forma que mesmo através das muitas camadas de roupas caras que usava, seu contorno sem defeitos se destacava. De fato, ao lado de seu amigo anormalmente belo, Saulo não parecia até ter uma aparência comum, e tive de me lembrar de minha própria imagem desfigurada a fim de relembrar expectativas realistas quanto a aparência de alguém, pois o Mago era também atraente, de penteado rente cor de ouro, e de olhos muito penetrantes, apesar dos óculos de graus (um luxo) que usava.

Naturalmente, a Princesa Herdeira não ficava nem um pouco para trás dos seus acompanhantes, de pelos de um amarelo praticamente cintilante, feições delicadas como vidro, e proporções que faziam poetas rasgarem seus trabalhos, encucados enquanto tentando descrever a lindeza da mulher e falhando miseravelmente.

— Haha... obrigado — tomei longos goles de chá a fim de manter minha boca fechada pelo máximo de tempo possível e evitar falar besteiras.

Besteiras como o fato de que eu havia sido rejeitado dentre as fileiras oficiais do exército mesmo estando três Níveis acima da média porque a maioria dos soldados que permaneceram nas forças armadas oficiais do reino, mesmo aqueles de patentes mais baixas, eram segundos e terceiros filhos de nobres menores, bastardos de casas influentes, e aqueles com fundos o suficiente para comprarem a posição.

— Ainda assim, Criscina, uma pessoa normal tem 3 pontos em cada Atributo — enquanto o Herói explicava os números para sua esposa, olhei para o poderoso Mago do outro lado da mesa, mas ele não reagiu à menção dos Atributos. — E considerando que eles recebem 1 ponto de Atributo para cada novo Nível, Haicard é cerca de quatro vezes mais poderoso que uma pessoa comum!

— Uau! Você é tão inteligente, esposo! — a princesa aplaudiu seu esposo com um sorriso no rosto. — Aposto que seria um excelente navegador. Por que você não me acompanha em meu próximo velejo?

— Ahaha, desculpe, Criscina, mas eu prometi caçar um minotauro para fazer uma armadura de presente para aquele guarda que me ajudou com os pegasus da última vez.

— Oh. É claro.

— Ainda assim, um Barão das Sombras, mesmo o mais fraco dentre todos eles, deveria ser muitas vezes mais poderoso do que mesmo Haicard — Saulo perguntou, baixando sua xícara vazia e me olhando inquisitivamente. — Posso saber exatamente como você derrotou o Barão Zelvon, Haicard?

— Eu usei um elevador de alimentos para transportar uma série de tomos de fogo com seu último feitiço ativado para os aposentos que o inimigo usava — dei de ombros.

— Qu- Pff! Perdão. Muito inteligente, senhor — Saulo sorriu levemente com minha explicação, enquanto o Herói me observou com expressão de genuína surpresa. — Acho que se Landa estivesse aqui, ela iria rir disso muito mais do que eu.

— Ainda bem que aquela ple- uhm... mulher não está aqui — a princesa não aprovou nem um pouco o comentário e menção à outra membro da equipe do Herói.

— Uau, Haicard, então você é do tipo inteligente? Cheio de estratégias, é?

— Senhor príncipe Herói, eu sou uma pessoa comum e trabalho sozinho normalmente. Abordar as situações de frente muitas vezes sequer é uma opção.

— Hahaha! Isso não é verdade, certo? Digo, você é um aventureiro de classificação especial agora, membro de uma seleta elite de caçadores de monstros.

— ...É. Acho que não posso mais me chamar apenas de “uma pessoa normal”, não é?

— Isso me deixa curioso, Haicard — o Herói sorriu, apoiando o cotovelo na mesa e uma bochecha sobre o próprio punho.

— Ai, ai, lá vem ele — a princesa suspirou baixinho num tom cansado.

— Você acha que conseguiria derrotar, digamos... um Visconde das Sombras?

— Depende da situação — dei de ombros. — E de quais são os recursos que me estão disponíveis.

— Só vocês dois num confronto direto! Qualquer equipamento mágico disponível nas lojas desta capital, você escolhe o terreno, data e hora!

— Não.

— Eh? Mas... — Verônico parecia, surpreendentemente, desapontado.

— Não existe equipamento mágico à venda, ou vantagem de terreno que me permitisse ganhar uma lute de alguém com Atributos alcançando os 40 pontos, senhor príncipe Herói.

— Então, em que tipo de situação você venceria?

Pensei seriamente por um momento antes de responder.

— Assumindo como arena um castelo ou palácio ou edifício fechado com uma área subterrânea, e tendo como meu objetivo apenas a eliminação do adversário, e tendo como o objetivo do Visconde minha morte e ao mesmo tempo a preservação da estrutura em si, as condições mínimas de vitória seriam... cinquenta barris de madeira de cem litros cheios de água do mar, sessenta tomos de magia do tipo elétrico, e umas cem flechas de óleo e fogo.

— Considerando o tipo de investida que tínhamos de tomar para abater estes inimigos, o preço que você cobra soa quase bom demais para ser verdade. E enquanto eu admito que eletrocutar o Visconde e depois queimá-lo uma vez de fraco lhe causaria algum dano, acho que você subestima o poder destes inimigos. Bem, não é uma surpresa, uma vez que somente eu e meus companheiros, ao longo de toda a guerra, fomos os únicos a abatermos monstros deste Nível, mas eu já vi um Visconde dizimar completamente sozinho um esquadrão de duzentos soldados de Nível: 6, sabe? — o Herói reclinou-se em sua cadeira, cruzando os braços, tentando esconder seu tédio e falhando.

— Eu sabia! Meu esposo é o mais forte! — a princesa aplaudiu, rindo. — Realmente, preciso de sua proteção enquanto velejando, meu marido.

— Tenho certeza de que isso é verdade, senhor príncipe Herói, mas este não era meu plano — meu comentário pareceu interessar Verônico. — Eu o eletrocutaria sim, mas apenas como uma medida de paralisá-lo. Apesar de não sofrer grandes danos, imagino que seus músculos se contrairiam, o impedindo de se mover enquanto eletrocutado. Eu iria conjurar um Feitiço elétrico a cada dois segundos, assumindo um tempo de paralisia de dois minutos para cada tomo, ou uma hora no total, e ao mesmo tempo atiraria uma flecha de óleo e chamas contra a face do Visconde, na expectativa de que as chamas consumissem todo ar que pudesse lhe alcançar a boca ou nariz.

— V-Você o sufocaria com monóxido de carbono...?!

Eu não tinha ideia do que era aquele tal “monóxido de carbono”, mas concordei:

— Sim, mesmo assumindo que esse inimigo seja, digamos, 15 vezes mais forte que uma pessoa comum, o máximo que uma pessoa média é capaz de segurar a respiração é de dois minutos. Não me surpreenderia se o Visconde pudesse suportar este tratamento por trinta minutos, mas acho que uma hora é um tempo razoável para assumir morte por asfixia.

Estranhamente, a cada nova palavra que saia de minha boca, o sorriso na boca do Herói crescia maior.

— Hahahaha! Genial! Você ouviu isso, Saulo? Deveríamos colocar esse cara numa patente de general!

— Realmente... se ainda estivéssemos em guerra.

— Não, você não pode, esposo! Todas as patentes de general já estão ocupadas por Duques do Reino.

— Hmm... Talvez alguma posição de comandante?

— Elas já estão cheias de filhos de nossos próprios Viscondes, esposo.

— Hmmmmmmmmm! — Verônico parecia pensar profundamente, até que seu amigo descansou uma mão sobre seu ombro.

— Príncipe, lembre-se, já recompensamos a Haicard com o título de aventureiro de classe especial, e até uma recompensa em dinheiro — voltando-se para mim, claramente feliz por meu êxito em entreter seu amigo, Saulo disse: — Sinto muito por isso, as vezes ele pode ser um tanto... focado demais em questões de batalhas.

— Está tudo bem, é uma honra ouvir tudo isso do nosso futuro rei, honestamente.

— Certo, só mais uma pergunta, então! — o Herói colocou ambas as mãos na tampa da mesa, com um largo sorriso no rosto. — Você conseguiria derrotar a mim?

Por um minuto, até as borboletas do jardim pousaram, imóveis, o vento parou de soprar, e uma nuvem encobriu o sol.

— ...Não sem ajuda divina, eu lhe garanto, senhor príncipe Herói — após minha resposta, todos menos Verônico riram, as borboletas voltaram a passear pelo jardim, e o sol tornou a brilhar.

— Entendi — o Herói suspirou, seus ombros caindo.

Uma questão não saía de trás da minha orelha, como uma pulga irritante, porém, e enquanto meu bom senso gritava para que eu não fizesse aquela pergunta, eu já me encontrava numa situação muito além de qualquer bom senso.

— Senhor príncipe Herói, se me permite, eu gostaria de lhe fazer uma pergunta também.

— É claro, Haicard, seria injusto que eu fosse o único aqui a fazer questionamentos.

— ...Posso saber como são seus Atributos?

— Hmpm! Típico de um plebeu, sem quaisquer boas maneiras — a Princesa franziu o cenho, e aquela pergunta de fato poderia me conseguir até umas boas centenas de chibatadas nas costas.

— Tudo bem, sem problemas — felizmente, porém, o Herói era um homem tão piedoso e compreensivo quanto diziam os rumores. Ele moveu os dedos no ar, interagindo com a janela do Sistema visível apenas para si mesmo, e em poucos segundos, seus dados me foram exibidos.

 

Nome: Verônico Leônico Victoriam

Potencial: Único

Nível: 78

Força: 245

Percepção: 173

Ocultismo: 88

 

— Graças ao meu Título de Herói, ganho 5 pontos por Nível, e além disso tenho mais alguns Títulos que influenciam nos meus Atributos, e por isso a matemática pode não parecer bater à primeira vista.

Seu Atributo mais fraco, Ocultismo, lhe colocava acima de qualquer outro Mago em toda Álfheim, mesmo de seu companheiro Saulo; o Herói sozinho deveria ser capaz de conjurar ataques mágicos capazes de destruir pequenas cidades inteiras. E sua Força era tamanha que qualquer desafio que eu pudesse imaginar para ele seria trivialmente superado. A elite das forças das sombras, e mesmo monstros lendários como gigantes, krakens e esfinges, capazes de assolar pequenas nações por completo, tão poderosos que seus restos mortais fabricavam itens mágicos nada menos que lendários, seriam pouco mais que mera distração. Aquele homem sozinho estava muito além das capacidades de qualquer exército, ao ponto de que mil, dez mil, e cem mil oponentes significariam apenas uma diferença de uma vitória avassaladora que lhe custaria cinco, dez, ou trinta minutos. E tudo isso sem contar com a espada sagrada de guarda em forma de pombo à sua cintura, forjada dos restos mortais de Heróis do passado, potencializando seus Feitiços e Habilidades únicas de Herói.

— ...Impressionante — me levantei e me curvei para o futuro rei. — Muito obrigado por ouvir o desejo caprichoso deste mero aventureiro.

— Hohoho! Parece que mais uma alma se abala ao perceber seu verdadeiro poder, senhor príncipe Herói — um velho vestindo um manto encapuzado simples, marrom, cruzou o jardim com um sorriso afável e coçando a própria barba, que chegava até o próprio umbigo.

— Mestre historiador! — Verônico levantou-se e abraçou o elfo idoso.

— Sinto lhes interromper, príncipe, Princesa, lorde Saulo, mas nosso convidado também tem deveres a cumprir para com as guildas, e odiaríamos lhe atrasar.

— Ah, é claro. Aventureiros, sempre precisando ir para todo lado, não é? Haha, sabia? Já fui um aventureiro como você, até que levei uma flechada no joelho! — confuso, olhei para o joelho perfeitamente saudável do Herói e depois para seu rosto que exibia um sorriso resplandecente, mas não encontrei nenhuma resposta nem em Verônico, nem em sua esposa ou amigo. — Bah! Todos ririam disso de onde eu venho. Enfim, tchau-tchau, Haicard! Vamos conversar de novo qualquer hora dessas!

— ...Tenho certeza que sim, senhor príncipe Herói — me curvei uma última vez e segui o velho barbudo para fora do jardim. — Tenho de admitir, não sei o que é mais impressionante, o fato de que acabei de tomar chá com o príncipe Herói, ou o fato de que o próprio mestre historiador está me servindo de guia no castelo real neste exato momento.

— Hohoho, não há nada com o que se impressionar sobre este velho servo da família real cumprindo tarefas humildes como esta. Sou apenas um velho acadêmico que é mantido pela família real mais por memória afetiva do que realmente minha utilidade.

— Mas isso não é verdade. Você é aquele que faz questão de que as ordens reais sejam cumpridas, não? Foi até o porta-voz da Rainha durante a guerra sacra.

— Hoho, como esperado de um ex-soldado de nosso glorioso Reino escolhido por Deus. Talvez já tenhamos cruzado caminho nos acampamentos nesta última campanha?

Então deixávamos o jardim pessoal do príncipe e da Princesa, nos aproximando dos aposentos do casal, passávamos por um corredor onde obras de arte decoravam ambas as paredes, retratando membros da família real. Assim como eu havia reparado quando fui guiado através aquele espaço pela primeira vez, não havia guardas por perto. É claro, o Herói não precisava de guardas, mas ele também era famoso por ser um tanto excêntrico, alheio às tradições do país até, e não era uma surpresa que ele preferisse manter servos longe dos aposentos que ele dividia com sua esposa. Nos aproximávamos dos cantos mais interioranos do castelo.

— Haha, não diretamente, é claro, mas já vi o senhor mestre historiador ao longe. Na verdade, é impressionante como consegues cumprir funções políticas, religiosas, eruditas, e ainda comandar uma ordem inteira. Eu imaginaria, pelo seu título, que a função de estudar aquelas estranhas ruínas ocuparia a maior parte do seu tempo. Aquelas construções sempre me fascinaram, sabe?

— Como a mim. Realmente, aquelas construções são maravilhas deixadas para trás como um testamento do poder de Deus.

— Com certeza. Ah, e este é seu escritório, correto? — parei de seguir o velho barbudo ao longo do corredor, lembrando-me das explicações da estrutura do castelo que havia me dado quando me guiou até o jardim do Herói. Entrei nos aposentos.

— Senhor aventureiro? — o mestre historiador soou confuso, ofendido pela conduta inadequada de um convidado. Logo, me seguiu para o interior do escritório. — Sua curiosidade é admirável, mas, por favor, este lugar contém segredos reais e dados que não podem ser revelados ao público...

O lugar era pequeno, surpreendentemente pequeno para um cômodo no palácio real, para o escritório de um dos homens mais importantes em toda a nação, e incrivelmente austero, contendo apenas meia dúzia de estantes com livros velhos, uma escrivaninha e um monte de palha que servia como cama. Sobre a escrivaninha, porém, descansava um livro que destoava de todos os demais: sua capa era de ouro puro e exibia um olho rubi do qual chorava letras em opala e safira formando a palavra...

— Hu? Eu não consigo ler — sorri, tocando no livro.

— Senhor! — O elfo barbudo rapidamente tomou o livro extremamente pesado de minhas mãos com clara dificuldade. — O senhor precisa sair agora mesmo. Vou chamar um guarda para escoltá-lo até a saída, então espere pacientemente do lado de fora deste aposento!

— Este é o artefato, não é? Aquilo que você usa para saber quando um novo Rei das Sombras surge.

— ...Eh? — o velho expressou-se genuinamente perplexo, levantando suas sobrancelhas tão alto que quase tocaram seus cabelos grisalhos.

— Essa é uma de suas funções, não? Apesar de não ser amplamente divulgada, a fim de evitar tentativas de assassinato. Por isso disfarçam ao público seus deveres reais, por isso ages como mero servo e guia para mim neste castelo. Afinal, seria terrível perder a única pessoa capaz de ler o livro de “Deus” antes que ela pudesse transferir seu conhecimento para um de seus discípulos — enquanto revelando alguns dos segredos a mim em parte compartilhados, em parte entendidos por mim mesmo, não consegui evitar mais sorrir quando mencionando a divindade padroeira da nação.

— Como você-?

— Por que você não tenta lê-lo agora? — sugeri, fazendo o velho recuar um passo. — Ou você prefere exercer aquela sua outra função? De desaparecer com aqueles que descobrem demais? — a face do mestre historiador empalideceu-se ainda mais do que o gris de seus cabelos e barba, sua expressão de horror então mais clara do que as páginas de marfim do livro que erguia com dificuldades, seu queixo caído, seus olhos arregalados.

O velho tentou correr para a porta pela qual entramos, mas o alcancei antes que ele pudesse dar sequer dois passos, e lhe tampei a boca com minha mão.

— Invocar Lâmina — conjurei um feitiço que criou uma faca de ferro com minha própria estamina mágica, e não tardei para fincá-la logo abaixo da última costela do velho pelas costas, lhe perfurando o rim uma, duas, três vezes.

Lentamente, deitei minha vítima sangrando ao chão e vi todas as inúmeras questões refletindo em seus olhos que rapidamente desbotavam-se. Isto é, até que uma incômoda terceira presença apareceu no cômodo.

— Você não vai conseguir meu favor, não importa que tipo de teatrinho você fizer agora. Não tem a mesma graça uma vez que vocês se tornam autoconscientes — a voz suave e imponente, feminina e masculina, élfica e imortal, e tudo ao mesmo tempo, soou entediada atrás de mim. E quando o mestre historiador olhou na direção da entidade às minhas costas, pareceu compreender tudo o que decorria... apenas para afundar-se num terror ainda mais profundo segundos antes de seu último suspiro.

— Tch! — estalei a língua. — Podia ter me falado isso antes, teria economizado uns cinco minutos de vida e matado esse velho muito mais rápido.

Me levantei, tranquei a porta de entrada para o cômodo e comecei a vasculhar o quarto, ignorando completamente a alta e andrógina figura élfica sentada na escrivaninha de pernas cruzadas, um ser ainda mais alto que Verônico, e ainda mais etéreo, suas mechas longas como a luz das estrelas, seus olhos, abismos de escuridão inescrutinável, vestindo o que pareciam trajes de névoa e ouro líquido.

 O que eu procurava deveria estar escondido em algum lugar naquele quarto, algo digno do interesse daquela mesma entidade que me observava entediada.

— E por que eu faria isso? Sua tentativa de aumentar seu Potencial foi deveras interessante, no fim das contas. Numa situação diferente, receberias pelo menos um pouquinho de meu favor.

— Olha, se não vai ajudar, não atrapalha — rapidamente puxei os livros velhos e desinteressantes das estantes; eram registros de impostos, reconhecimentos de posse de terras, e outras coisas que não me eram de interesse.

— Se você está preocupado com nossas vozes sendo escutadas pelos habitantes do castelo, estou tomando medidas apropriadas para que este não seja o caso, é claro. Se eu quisesse que você morresse por minha interferência, afinal, teria lhe preparado um destino muito mais poeticamente gratificante.

— Aha! — ignorando a entidade, quando puxei um dos livros, senti resistência anormal, e sem falta, com um clique, a estante passou a mover-se. Enquanto uma escada escura se revelava atrás da estante, tomei o artefato em forma de livro dourado e guardei-o sob minha capa.

— Curioso. Como você sabia que haveria uma passagem secreta? — a entidade me seguiu vagarosamente escadaria abaixo, o caminho escondido atrás da prateleira.

— Nós temos ficções de nossa própria criação, então apenas notei semelhanças entre os gostos de minha cultura e os seus, e assumi que esta seria a opção mais interessante para você — alcançando o subsolo, me deparei com uma imensidão de breu total além dos contornos da porta à minha frente.

— Hmph. De fato, parece que em sua infância, você presenciou mesmo apresentações de rua que envolviam histórias de passagens secretas em castelos: a biografia semi-fantastica de Uros, meu primeiro campeão, e aquele que criou o discurso que gera a missão que você aceitou ao juntar-se à Liga Sacra. Mesmo que aqueles artistas tivessem errado quase todas as suas falas, pelo menos não se esqueceram deste elemento da história — a entidade comentou com leveza, e mesmo eu já tendo uma noção da extensão de seu poder, instintivamente olhei por sobre meu ombro e para a face dela. Ela havia vasculhado minhas memórias? Mas eu definitivamente não lembrava de cada um dos diálogos da peça, a última parte de seu comentário foi quase como se ele tivesse retornado ao passado apenas para presenciar meu eu mais jovem e a peça de teatro em primeira mão. — O que será que acabei de fazer? — zombou de mim ao mesmo tempo que sua expressão se mostrava tão inalterada quanto sempre, como se esculpida em gelo.

Chacoalhei a cabeça, desistindo de tentar compreender a entidade, e voltei minha atenção à tarefa em mãos, procurando uma tocha, ou vela ou qualquer outra forma de iluminar a sala adiante.

À minha esquerda, notei, havia também uma espécie de pequeníssima alavanca enquadrada na parede, e pude erguê-la com um único dedo: instantaneamente, a sala secreta e o verdadeiro escritório do mestre historiador foram iluminados por cilindros de vidro presos no teto, que pareciam aprisionar raios dentro de si.

— Agora, isso sim é mais a cara do homem que controlava este Reino pelas sombras — adentrei a sala secreta, e me vi cercado por estátuas de mármore de pessoas quase idênticas a nós elfos, mas com orelhas arredondadas, curtas, e com feições mais broncas, suas figuras vestindo roupas de ouro, e seus olhos brilhando com grandes diamantes, vi tapetes de cores brilhantes fabricados da pele de animais bizarros que não existiam em lugar nenhum de Álfheim, vi inúmeras obras de arte, cristaleiras cheias de jarros de vinho mais velhos que o próprio Reino de Fanon, e luxos de todos os tipos. Entrando numa porta à esquerda, encontrei o que procurava: — Aqui estão os livros de verdade — grossos volumes de todos os tipos, com capas simples e complexas, com cores opacas e brilhantes. — Não consigo lê-los. É a língua antiga?

— Hmm, será? — a entidade desinteressadamente folheava os volumes ao meu redor. Era inútil tentar extrair qualquer informação dela, era inflexível em sua imparcialidade.

— Deve ter algo aqui em élfico, material de estudo para jovens iniciados na ordem dos fistoriadores, ou anotações de algum acadêmico — fui até a rica escrivaninha no centro da sala e vasculhando suas gavetas, encontrei algo interessante. — “Guia Compreensivo da História de Álfheim, por Elarico Milemario Saudoso”.

— Conveniente, não? — seria aquilo também parte das tramas da entidade? — Por que você se importa, encontrou o que procurava.

— Eu preferia que você parasse de ler meus pensamentos — franzi o cenho, encarando o livro. Seria uma armadilha? Algo que a entidade plantou ali logo antes de eu abrir a gaveta a fim de me desinformar?

— Pensei que você já havia aceitado minha imparcialidade — o ser suspirou. — Entendo que você teria tomado o livro sem questionamentos se não fosse por mim, então vou lhe fazer esta única exceção e te dizer isso: este livro é parte da tradição da ordem. A fim de tornarem-se mestres, os candidatos a tal posição devem escrever um volume contendo toda sua compreensão sobre a história deste continente, que é avaliado pelo líder atual da ordem. E este livro que tens em mãos agora foi escrito pelo cadáver no andar de cima.

Guardei o livro sob minha capa, junto do volume dourado. Logo, tornei para a espaçosa sala principal do esconderijo subterrâneo e abri todas as outras portas, explorando os demais cômodos por completo. Sem falta, numa sala com uma cama em forma de coração, muito álcool e raízes alucinógenas exibidas em cristaleiras, além de chicotes e algemas penduradas nas paredes, encontrei um outro corredor, que parecia prosseguir por muitos minutos de marcha, até horas talvez.

— Você não deveria estar tentando desesperadamente lutar contra os guardas e o Herói numa fútil tentativa de escapar do castelo ao invés de perder mais tempo explorando os cômodos fetichistas de um velho? O cheiro sangue de sua vítima pode ter sido captado pelo futuro rei neste momento.

— Você não poderia apenas ler meus pensamentos para obter a resposta que você quer?

— Você tem noção o suficiente de meus objetivos para saber que tal método não é de meu agrado.

— Em primeiro lugar, quatorze gerações de Heróis passaram por este castelo, e nenhum destes monarcas jamais soube desta área subterrânea, o que significa que deve haver algum tipo de efeito que camufla os acontecimentos do escritório do Mestre Historiador. E, em segundo lugar, se o velho quer transportar suas estátuas, drogas e mulheres para dentro e fora do castelo, duvido que ele usaria o portão principal. Então, se minha suposição está certa... — chegando no fim do longuíssimo corredor, subi uma escadaria de uns seis metros e alcancei uma porta simples de madeira. Abrindo-a com cuidado, me vi no que parecia o interior fedido de um guarda-roupas, e quando deixei o interior do móvel, me vi num quarto sujo de prostíbulo. — Deve haver uma saída segura e discreta do esconderijo para a cidade exterior — assim, deixei o castelo real sem dificuldades.

҉

— E para onde vais agora? — perguntou a entidade enquanto eu deixava uma loja de penhores, tendo vendido seu artefato dourado por uns seis meses de salário como aventureiro.

— Fazer umas preparações — parando num beco escuro de um bairro suspeito da capital, olhei por sobre meu ombro e para o castelo branco de arquitetura que imitava aquela vista em Paraíso. O lar da atual Rainha, sua filha e o atual Herói. Franzindo o cenho, abri meus atributos.

 

Nome: Haicard de Caminho Errado

Nível: 13

Potencial: Livre

Força: 11

Percepção: 10

Ocultismo: 5

Títulos: Aventureiro Especial Caído,

 Diácono Guerreiro Caído,

Rei das Sombras,

Mestre dos Sussurros.

 

— Querendo ou não, temos um acordo. Eu tenho a Missão de derrotar o Herói atual.

— E ainda assim, há poucas horas, você mesmo disse que tal tarefa seria impossível sem ajuda divina. Pois eu não vou te ajudar, e não há um único lugar neste continente no qual você possa tentar escapar de minha influência e quebrar nosso acordo.

 Só um completo tolo tentaria enganar uma coisa como você. Não, eu sei bem que você não vai aumentar meus Atributos para combater seu campeão, nesse acordo somos inimigos afinal. Sim, MEUS Atributos não serão abençoados por divindade alguma.

O cadáver do mestre historiador só foi encontrado um dia depois de eu já ter deixado a capital, e três dias depois, os guardas acharam o artefato que vendi na loja de penhores. Aquilo, somado ao meu aparente desaparecimento antes de sair do castelo e o testemunho do penhorista de meu rosto parcialmente desfigurado formaram um quadro de peças fáceis de encaixar: em menos de uma semana, eu havia me tornado o criminoso mais procurado do país, pelo crime de alta traição, pelo assassinato de um membro da corte, e por roubo de um artefato de propriedade real.

Um cenário significativamente melhor do que ser procurado por todo o continente como o novo Rei das Sombras, em minha opinião: tive tempo e liberdade o suficiente para fazer uma pequena visita à Calda Lente, e de lá seguir um caminho que envolvia poucas paradas em vilarejos pequenos, e nenhuma outra cidade grande, apesar da grandeza da figura a qual eu planejava encontrar.

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