Desenredo - Capítulo: 7

 Capítulo: 7

 

Apesar do comandante do exército insistir que eu deveria ser executado ou, no mínimo, preso pela destruição dos tomos mágicos, fui sortudo o suficiente pela oposição dos soldados do ducado que ele menosprezou, que ficaram do meu lado, se não por simpatia, por total desprezo pelo exército de Fanon: fizeram com que as notícias do abate do Barão chegassem a superiores que não necessariamente haviam sido convencidos a me matar a todo custo.

— ...É tão fofa e suave — eu me via vestindo roupas de cetim e deitado numa larga cama de casal acolchoada com penas de ganso. — Não dá nem para chamar as bostas de palha nas quais venho dormindo minha vida toda de “camas” depois disso. Talvez, ao aceitar essa recompensa, eu tenha arruinado a experiência de dormir para mim para o resto da minha vida?

Então, eu me via num quarto de hóspede de algum nobre da capital à espera de meu encontro marcado com alguns membros da elite, onde eu seria reconhecido pelos meus feitos, receberia uma recompensa na forma de dinheiro, e talvez um Título nobiliárquico honorário, intransferível para meus descendentes, tudo um grande espetáculo para comemorar a queda do último dos nobres maiores do exército do Rei das Sombras.

— Exceto que se eu pisar nas regiões controladas por aquele Cavaleiro narigudo ou pelo mestre Rodrigues de novo, eles vão definitivamente fazer de tudo para me matar, e o dinheiro vai ir direto para o bolso deles a fim de compensar pelos caros tomos que explodi. Na verdade, eu estou no negativo agora, porque tive de pagar pela minha promoção à aventureiro de classe especial! Como isso pode ser justo?! Eu venci, salvei o dia, não é?! — me esperneei na cama como uma donzela com ciúmes. — Urgh, preciso me distrair com algo — desci da cama extremamente confortável, coloquei meus chinelinhos delicados de convidado e deixei os aposentos maiores que a casa na qual cresci.

Através dos corredores, os empregados me olhavam mal disfarçando seu desprezo, como se fossem algum tipo de plebeus de elite apenas por trabalharem na casa de um nobre.

— ...Com licença, eu gostaria de visitar a biblioteca — pedi ao mordomo que pretendia limpar a maçaneta da porta para aquele quarto já há uns dez minutos.

O homem respirou profundamente antes de exalar o suspiro mais longo e pesado que já ouvi, mesmo quando comparando com aquele de soldados sendo enviados para lidar com tarefas com chances de morte tão altas que faziam o campo de batalha após a luta parecer-se mais com o Inferno das lendas do que qualquer coisa construída pelos monstros e seu Rei das Sombras.

— Senhor, tenho certeza de que encontrarás maior entretenimento nos estábulos. Temos um par de jegues com os quais podes conversar, e umas pedras bem pesadas no jardim, as quais podes tentar levantar.

Na minha carreira militar, aventureira, e como plebeu em geral, já houve muitas vezes em que eu quis matar uma série de nobres e superiores, mas aquele mordomo certamente estava perto do topo da lista de pessoas matáveis. Ainda mais considerando que ele também era só um plebeu e não possuía as mesmas proteções que um nobre.

— ...Tá bom, né? Boa sorte limpando a mancha de mijo que deixei ali no cantinho, então — apontei numa direção com o polegar, e o empregado seguiu-o como se eu tivesse acabado de relatar-lhe que o próprio Rei das Sombras atacava. Assim que se distraiu, foi fácil usar minha rapidez superior a fim de entrar na biblioteca. Mas, como uma recompensa para mim mesmo por ter agido de forma tão madura ao invés de apenas ter espancado o homem, segurei a porta entreaberta, observando o mordomo dar tudo de si para tentar abri-la e me tirar de lá a pontapés, e falhando devido aos meus 10 pontos em Força. — Perdão, senhor, mas eu vou estar um pouquinho ocupado aqui. Mas tem muita bosta no meu penico, com a qual você pode conversar. Tchau! — finalmente, tranquei a porta, saboreando cada detalhe da face arroxeada de um mordomo arrogante se mordendo de raiva. — Certo! Por onde começamos, então?

A resposta era óbvia: magia!

Da mesma forma como estratégias, e golpes e posições de combate me foram ensinadas no exército, Feitiços não eram coisas que se recebiam do nada apenas depositando pontos em Ocultismo, mas eram aprendidos. Infelizmente, porém, os nobres, comerciantes e eruditos mantinham controle rígido sobre aquele tipo de conhecimento, um monopólio estritamente controlado e regulado. Como um convidado de honra na casa de um desses nobres, porém...

— Por Deus — pela primeira vez em vida eu me deparava com livros didáticos de magia. Na verdade, uma estante inteira com mais de três vezes a minha própria altura, de seis níveis, todos repletos de tomos, pergaminhos, cadernos, e até alguns tabletes de metal divino, estranhamente. — Certo, por onde começar? Aprender qualquer Feitiço já faria uma diferença enorme, mas se possível, eu gostaria de aprender algo com grande potencial ofensivo ou defensivo, ou quem sabe algo que me ajude com meu olho esquerdo.

Selecionei uma, duas dúzias de vários textos diversos sobre o tópico de magia, e o primeiro que abri foi um volume intitulado “Magia: o que é, para que serve, e como usá-la?”

— Se eu me apressar demais, só vou acabar explodindo a mim mesmo por acidente, que nem aqueles goblins dos quais Julia me salvou. Ainda tenho uma ou duas semanas de descanso aqui, vamos começar pelo básico.

҉   

Apesar de básico, aquele volume se mostrou surpreendentemente esclarecedor e interessante.

— Hu. Eu não esperava exatamente por isso — me apoiando em apenas duas pernas da cadeira, eu me empurrava para trás, olhando para o teto alto, e refletindo sobre o que eu havia acabado de ler. — Quando eu via Magos atirando rochas voadoras e bolas de fogo por aí, pensava que magia era algo muito mais... caótico. Mas, segundo esse livro, é quase como matemática: você escreve a ação a ser tomada passo a passo mentalmente, o preço por tal ação é automaticamente calculado, e então se faz o depósito de tal preço, e o Feitiço é realizado também automaticamente. Repita essa ação vezes o suficiente, e você aprende um novo Feitiço. Essa última parte é um problema, porém. Naquele campo de treinamento, vi rapazes treinando duas, três vezes mais que outros antes de desbloquearem as Habilidades. necessárias para juntarem-se às forças armadas apropriadamente, e também o contrário. É o que chamam de talento, ou a falta dele.

Me levantei da cadeira e atravessei as dúzias de estantes contendo pelo menos uns trinta mil livros, e fui até a janela da grande biblioteca, também maior do que minha casa da infância... E talvez eu devesse parar de comprar os cômodos dos ricos com a casa na qual cresci, pois tudo parecia inacreditavelmente maior do que ela. As janelas sozinhas tinham duas vezes a minha altura, e cerca de três passos de largura, dando vista para um pequeno jardim de rosas.

— Não, o que mais me surpreendeu não foram as regras sem fim de descrição da rapidez com que o Feitiço deve ser conjurado, seu tamanho, seu efeito, e todos os infinitos fatores que são calculados em sua criação. Foram as descrições do próprio Sistema. Acho que faz sentido que magos estudem-no, já que é de onde vem seu poder, mas... — suor brotou de minha testa e percorreu minha face até a ponta de meu nariz. — Comando: acessar interface avançada de usuário — repeti as instruções, e os efeitos foram imediatos; minha pouca estamina mágica proveniente de meros 4 pontos em Ocultismo foi drenada por completo, e tive de me apoiar no vidro para não perder o controle completamente.

Frente a meus olhos, a seguinte janela flutuava:

 

Nome: Haicard de Caminho Errado

Potencial: Baixo

 

Força: 10

Percepção: 9

Ocultismo: 4

 

— Potencial. No livro, esse Atributo secreto é descrito como o quanto de favor de Deus possuímos, e ele pode variar a depender das ações que tomamos. Aconselham aspirantes a Magos a fazerem juramentos religiosos, ou encontrarem um propósito em vida da mesma natureza, e enquanto isso faz sentido do ponto de vista teológico na superfície... Me parece um pouco conflitante com o resto, tão regrado, do Sistema, uma regra tão vaga — eu falava comigo mesmo tentando encontrar um sentido no que havia acabado de ler, mas me afundava ainda mais em dúvidas e questionamentos.

— E aparentemente, Potencial interfere com todos os demais Atributos, e até o Sistema como um todo, então uma pessoa com Potencial: Alto sobe de Nível mais rápido — sentando ao chão e apoiando minhas costas na parede, cocei minha cabeça. — Será que... Será que não éramos tão supersticiosos, afinal? Quando meus colegas falavam sobre boa ou má sorte, quando eu comentava sobre efeitos psicológicos. Talvez pudesse ser tudo resultado de um Potencial: Alto ou Potencial: Baixo? Digo, se me lembro bem de meus colegas mais bem-sucedidos, como Coruja, eles tinham sim objetivos e promessas a cumprir, de vingança, por exemplo... E assim que as cumpriam, morriam.

As peças encaixavam-se, apenas para revelar um quebra-cabeças muito maior.

— Mas, espera... Se isso é verdade, por que eu vi monstros se beneficiando de tal Atributo secreto? Só isso explicaria as ações daquele hobgoblin que arrancou meu olho! Talvez Demônia tenha um sistema parecido para os monstros? Mas por quê A cada uma ou duas gerações, Deus e Demônia criam seus campeões para competirem pelo controle deste mundo e lhes abençoam como podem, pois se lutassem diretamente, destruiriam o mundo. Mas eles também estão dispostos a abençoar mais um monte de gente e monstros, se forem fiéis o suficiente? Exceto que isso não faz sentido, vocês querem seguidores ou ganhar a merda dessa guerra? Digo, literalmente 100% dos elfos já adoram Deus, e 100% dos monstros já adoram Demônia, então qual o sentido de testar sua fé assim? Se vocês podem abençoar um monte de gente de uma vez, vão em frente e façam isso de uma vez!

Me levantei, sentindo minha respiração normalizar-se, minha estamina mágica voltando a reservas mais confortáveis. Uma das palavras que saiu da minha boca, porém, me chamou a atenção.

— Guerra? Em falar nisso, o Herói venceu, não é? Na verdade, os campeões de Deus do passado já venceram muitas vezes. Por que nossas divindades, então, não deixam seus reinos para desfrutar de sua vitória? Eles costumavam fazer isso no passado, não é? Digo, essas ruínas de metal-divino são prova disso. Pelo menos é o que dizem os... historiadores...

Inconscientemente e enquanto ainda formava teorias, minhas pernas me levaram para a estante de livros de magia, bem em frente aos itens mais curiosos nesta. Hesitante, peguei um dos tabletes de metal divino.

— Eu... não entendo nada.

Literalmente: as palavras no objeto me eram completamente desconhecidas. Na verdade, nenhum dos símbolos no tablete me era compreensível; linhas curvas e retas misturavam-se num padrão que eu nunca havia visto antes.

— Não faz sentido. É quase como se não tivesse sido escrito em nossa língua — existia apenas uma língua, a do Sistema. Sempre foi assim. — Ou é o que dizem os historiadores. — Arquiteturas, Feitiços e Habilidades, espécies e quatro mil anos de história diferentes, ainda que paralelas, conectadas por uma língua, por um Sistema.

As divindades sequer se importavam com o que ocorria no mundo? Se não, então por que nos abençoavam? Se sim, por que não aproveitavam os frutos pelos quais nos faziam lutar?

Uma vez que eu parava para pensar, mesmo a arquitetura das antigas ruínas divinas não fazia sentido quando comparada com aquela visível no Paraíso, ou na Cidade do Abismo. Uma vez que eu parava para pensar, o Barão das Sombras que eu matei havia sido abençoado com muito mais do que a capacidade de subir de Níveis mais rápido que os demais, ele disse que seus Atributos foram aumentados do nada. Uma vez que eu parava para pensar, os juramentos que aumentavam o potencial, tanto de elfos quanto de monstros, não eram exatamente os mesmos, de vingança, de grandes recompensas em troca de grande sofrimento?

Uma vez que eu parava para pensar, algo não fazia sentido.

— Não com a teologia oficial, não com a história oficial. Potencial baseado em juramentos? Não, vi muitos pés rapados jurarem que um dia lutariam lado a lado do próprio Herói, apenas para morrem na batalha seguinte. Aqueles que sucediam eram os sortudos como eu, ou aqueles que haviam visto o Inferno com os próprios olhos, e aqueles com grandes paixões, aqueles com sangue por lágrimas, e aqueles com sorrisos inabaláveis, verdadeiramente dignos de peças de pantomimeiros, cada um. Arquitetura e vontade divina distinta de nossas divindades... — minhas mãos tremeram e um sorriso aterrorizado veio aos meus lábios. — É quase como se-

A realização desesperadoramente cômica elevou os tremores de minha mão para completa perda de coordenação motora, e deixei o tablete escapar de meu aperto. Porém, o objeto não caiu ao chão, nunca. Observei-o parado no ar, e de repente eu exalava nuvens brancas de condensação, a temperatura no interior da biblioteca tendo caído para graus congelantes.

Lentamente, ergui meus olhos do tablete flutuante e para a enorme e horrífica sombra a minha frente, projetada pela luz da lua vinda da janela às minhas costas e exibindo os contornos irracionais do ser que então encontrava-se atrás de mim.

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