Desenredo - Capítulo: 6

 Capítulo: 6

 

Setecentos soldados e aventureiros se organizavam em dois acampamentos segregados, o grupo de aventureiros do qual eu fazia parte sendo uma minoria alocada entre os soldados e a fortificação inimiga, como se pudéssemos fugir a qualquer momento.

Até então eu havia estado apenas do lado dos soldados, e sabia bem que as chances de deserção eram significativamente maiores para aventureiros (para começo de conversa, muitos juntavam-se às guildas de aventureiros para evitar recrutamento forçado em regiões onde tais práticas existiam) e aquela posição fazia sentido, mas naquele instante eu tinha de admitir, aquele arranjo era de dar nos nervos.

— Pft! Soldadinhos de bosta! — o aventureiro ao meu lado comentou, cuspindo o fumo que mascava ao chão. — Tão fazendo a gente de besta, achando que somos covardes. Bah! Quando essa luta começar, vamos mostrar para eles que aqueles que realmente mantêm Álfheim seguro somos nós!

— Hmm... Melhor eles fazendo nós de besta do que de isca — dei de ombros. — Se eles acham que somos tão pouco confiáveis, espero que decidam que não devem contar com nossa ajuda, e nos coloquem na retaguarda ou reserva — tornei para encarar meu novo colega com um sorriso no rosto. — Haha, mas quem estamos tentando enganar, não é? Aposto que vão nos colocar nas linhas de frente e esperar que abramos uma brecha em suas defesas, ou pelo menos façamos os inimigos gastarem boa parte de sua estamina mágica e projéteis.

O aventureiro olhou fundo em meu olho bom por um longo instante. Depois, para meu globo ocular vazio e escarnado, aconchegado logo acima de meus dentes expostos pela falta de bochecha, o ferimento ainda mal cicatrizado. Então, de volta para meu olho bom.

— Pft! Vai se foder, mal agouro do caralho! — xingando e atirando as mãos para o alto, o aventureiro deixou a colina da qual nós observávamos os acampamentos e a fortaleza adiante.

— Hm? Déjà-vu — infelizmente sozinho, voltei a analisar o objetivo daquela operação toda: — Tch, seria melhor se a guarnição tivesse ascendido toda a tralha mágica que possuial e trazido essa coisa toda abaixo. Mas não, agora vamos ter que invadir essa coisa...

Fazíamos cerco à Fortaleza Margem, o último bastião de civilização élfica antes do Deserto Sangria. Ou pelo menos este era o caso até monstros sobreviventes do exército do último Rei das Sombras invadirem o lugar, liderados por um Barão das Sombras que escapou ao massacre da Cidade do Abismo com sua tropa, com a qual passou todo esse tempo secretamente coletando recursos a fim de organizar uma escapada das terras élficas.

A fortaleza via-se aninhada na única passagem através da Cordilheira dos Rostos em muitas semanas de marcha de distância, tal cordilheira sendo uma pequena cadeia de montanhas que separava o lado civilizado do continente de Álfheim de seu antônimo, cada uma das poucas passagens para os ermos de além sendo vigiada por uma fortaleza esculpida na forma de um rosto de um antigo Herói. Bem, “pequena” sendo relativa neste sentido, já que a cordilheira cruzava o continente inteiro e seus picos chegavam até a uma semana de marcha de altura; eram pequenas somente em comparação à Cordilheira das Guardas, no extremo oeste do continente, cujos picos eram tão impressionantemente altos que eram medidos em anos de marcha, e passavam da altura das nuvens mais altas.

— Já vai ser praticamente impossível sobreviver a este cerco sem um olho, se eu tombar com esse Barão das Sombras, posso muito bem desistir na hora — naturalmente, eu já havia tentado convencer meus superiores a me deixarem numa posição apropriada para um desabilitado, mas o mestre da guilda que me enviou para aquela missão deve ter mexido uns pauzinhos, pois não me foi permitido nenhum lugar no exército de aventureiros, que não na linha de frente. — Eu deveria ter gastado minhas últimas reservas num testamento? ...Nah, prefiro arriscar tudo na menor chance de sobreviver.

E com aquele objetivo único em mente, não de abater o monstro que era tão imensuravelmente mais forte que eu (mesmo que fosse considerado o Barão mais fraco do já derrotado exército sombrio) nem sequer de ter sucesso na investida, mas apenas de sobreviver, fiz questão de decorar cada fração visível da fortaleza. Infelizmente, peões como nós não tínhamos acesso aos mapas do interior como nossos comandantes, mas eu ainda podia, ao menos, formar uma sólida imagem mental das muralhas e pátio interior.

Do lado que atacaríamos, a muralha de rocha sólida e lisa tinha três vezes meu tamanho, moldada como a espada sagrada de um Herói do passado, seu portão localizado na guarda em forma do sol. Uma vez que a fortaleza fora erguida a fim de proteger aquele lado da continente dos perigos necromânticos ao oeste, e não daqueles vindos do leste, era menos protegida do lado pelo qual atacaríamos, mas ainda não oferecia pontos cegos ou de fácil escalada devido a inteligente forma que as torres foram projetadas, esculpidas direto nas montanhas ladeando a estrutura. O pátio também era bastante aberto, sem coberturas visíveis, e de frente para um enorme rosto élfico de rocha pontilhado por inúmeras seteiras das quais os monstros inimigos poderiam facilmente nos alvejar.

— E falando em monstros... quantos deles estão se retirando lá dentro? Trezentos? Quatrocentos? Vejo apenas alguns golbins arqueiros e ainda menos orcs Magos na muralha. Acho difícil que mais do que quinhentos monstros tenham conseguido se esgueirar através de nosso cerco à Cidade do Abismo. Mas sequer posso confirmar uma vantagem numérica, uma vez que, a julgar pelo poder daquele hobgoblin, eles podem muito bem ser em grande parte de elite — cocei minha cabeça. — Melhor retornar ao acampamento agora, antes que pensem que desertei — eu havia recebido um pouco de folga devido à minha alta posição na guilda, mas eu ainda era um mero plebeu que sequer conseguiu ficar forte o suficiente para permanecer no exército depois do fim da guerra, afinal, e o tratamento especial que recebia não ia além de ser permitido uma meia hora a mais para cagar no mato.

҉   

— Escutem-me todos, aventureiros! — um soldado de armadura brilhante, polida, e sem nenhum arranhão, um nobre narigudo acompanhado de meia dúzia de Magos que nunca deve ter tido de bloquear uma espada antes, gritava ordens para nós, que havíamos sido deixados de fora até a última hora. — Atacaremos o forte em uma hora, e vocês formarão a linha de frente! Tenham certeza de abrir os portões!

Engraçado que uma porção de meus companheiros aventureiros dirigiu seus olhares irados contra mim, ao invés do verdadeiro responsável pelas ordens, resmungando sobre mau-agouros e superstições.

— Só espero não levar uma facada nas costas antes mesmo de chegar até aquela muralha... — reclamei, me controlando para não coçar a ferida no lado esquerdo de minha face, que ainda cicatrizava. Busquei ajuda dentre Alquimistas e Curandeiros, mas ninguém além dos mais poderosos e caros profissionais seria capaz de reconstituir minha visão, e se as medidas preventivas que eu tomei para ter alguma chance de sobreviver àquela batalha já haviam me custado caro, um serviço de reparo de órgão perdido seria muitas vezes mais caro. — Espero que meu novo elmo seja ainda melhor que o último.

Logo após eu ter me vestido para o combate, exibindo um novo capacete do tipo sallet, já era hora da invasão.

Aparentemente, a pedido especial do próprio comandante narigudo, fui colocado bem na primeira fileira dentre os aventureiros, que seriam por sua vez a primeira força a tentar invadir a fortaleza, e não me deram chance de discutir aquela posição.

Então, os aventureiros se posicionavam caoticamente numa posição quase circular voltada para nosso objetivo adiante, e cercada pelo exército à esquerda, à direita e atrás. Não era um bando familiar com operações daquela escala, ou intrincadas ordens de comando, aventureiros de maior classificação não realmente tendo autoridade sobre seus júniores, então sequer havia um grande plano que todos seguiríamos.

— AVANÇAR! — quando o comandante militar ordenou, todos disparamos a toda velocidade contra a fortaleza, e por mais que eu não quisesse fazê-lo, tive de correr com todos os demais, a menos que quisesse ser pisoteado até a morte.

— Flechas — usando de estratégia já a mim familiar, e que indicava preferência por economizar seu poderio mágico, os monstros primeiro fizeram chover uma chuva de flechas disparadas dentre os merlões contra a massa de aventureiros que avançava desvairadamente, mas estas espatifaram-se contra o círculo de metal sólido que eu erguia sobre minha cabeça. — Feitiços — eu não podia depender de equipamentos meramente decentes para me defender daquilo, porém, e me mantive atento aos Magos nas muralhas, utilizando de minha Percepção levemente superior ao máximo. Corri em zigue-zague, evitando labaredas e lanças de gelo. — Agora, as escadas — finalmente, quando já estávamos muito próximos da muralha, e meus companheiros aventureiros puxavam ganchos e escadas e preparavam-se para a sangrenta invasão da fortaleza, eu segurei firme o maior investimento que havia feito para aquela missão, um grosso livro encadernado de couro, e sem parar de correr, gritei: — Tomo da Terra, página 3, ativar — e com aquilo, ao mesmo tempo que o livro abriu-se sozinho e uma única página sua se desfez em labaredas azuis, um pequeno degrau de terra brotou do chão bem à minha frente, literalmente num passe de mágica. — Página 4, ativar. Página 5, ativar. Página 6, ativar — repeti em rápida sucessão, perdendo muito pouca velocidade, e criando uma escadaria que, em troca de treze páginas, me deixara bem ao topo da principal medida defensiva dos inimigos.

— Um tomo também?! — um goblin deixou seu arco e flecha cair ao chão para sacar um facão enferrujado.

— Página 28, ativar — a ativação do feitiço era um pouco lenta devido à minha baixíssima quantidade de pontos em Ocultismo, comigo precisando falar aquela frase inteira, mas ainda assim mais rápida do que o ataque do monstro: um pedregulho do tamanho de uma cabeça apareceu bem à minha frente, e arremessou-se sozinho contra o inimigo, amassando sua face e derrubando-o da muralha.

Urrando em celebração, um bando de aventureiros não hesitou em escalar a escadaria que eu havia criado, e rapidamente tomamos território sobre a passarela da estrutura. Quando finalmente a última página de feitiços ofensivos havia desaparecido, consumida em chamas azuis, eu já havia tomado a vida ou assistido na morte de pelo menos meia dúzia de goblins; guardei o tomo e empunhei minha nova arma principal, uma espada estoque, instrumento cumprido que me dava o melhor alcance sem ser por demais afetado por minha vista deteriorada, como armas ainda maiores seriam, e que eu podia manter sempre no meu campo de visão devido à sua natureza de punção. Minha Força também me permitia empunhá-la com uma única mão, e assim ainda carregar um escudo ou outro equipamento.

— Magia é mesmo uma apelação — comentei comigo mesmo.

Dali em diante, não me voluntariei a avançar à frente da “formação” de aventureiros, recuando para sua retaguarda. Felizmente, ninguém pareceu perceber minha desaceleração, e alguns mesmo ficaram felizes com aquilo, com certeza sedentos pela glória que, para eles, eu havia monopolizado até aquele ponto: ansiosos por promoções, recompensas especiais pelas cabeças dos comandantes, pelo respeito de seus camaradas e pela satisfação de humilhar os soldados do exército, os aventureiros abriram os portões e rapidamente prosseguiram através do pátio para a fortaleza em forma de rosto.

— Eles não parecem exatamente veteranos — pensei comigo mesmo, agachado ao lado de um dos cadáveres dos inimigos, examinando-o enquanto esperava meus companheiros aventureiros arrombarem as portas dos prédios, ou pelo menos fazerem os inimigos gastarem o resto da energia mágica que lhes restava. — Mesmo para goblins, estão muito mal equipados, desnutridos, e é bem possível que seus Níveis estejam até abaixo da média para sua espécie.

— Aventureiro perito, Haicard de Caminho Errado — ouvi uma voz curiosa e julgadora em medidas iguais atrás de mim.

— Comandante, curvei-me levemente para o Cavaleiro que se dirigia a mim, o mesmo que havia nos ordenado a avançar na frente do exército.

— Ainda é cedo para saquear os corpos, o forte ainda não é nosso. Além disso, todos os objetos dentro desta muralha pertencem ao Sagrado Reino de Fanon... e também ao Ducado Marca-Vista, é claro — diminuiu a importância de metade dos soldados que liderava naquela operação conjunta com naturalidade, mas por mais frustrados que as forças armadas do Ducado pudessem estar, era um fato que Fanon tinha poder incontestável, não apenas sediando o mais alto clero do Jornadismo, como também monopolizando todos os Heróis que já existiram. — De qualquer forma, tomá-los seria roubo. Você não quer perder sua mão, quer?

— Não, senhor comandante. Se me permite, então, senhor comandante, devo retornar ao combate — me curvando uma segunda vez, logo disparei em direção ao alto prédio adiante.

Era uma estrutura curiosa, de paredes lisas de pedras brancas moldadas em homenagem um antigo campeão de Deus desaparecido, cujo cabelo curto servia como telhado, os olhos severos de janelas, e a boca frente à mandíbula quadrada, como entrada.

Felizmente, meus companheiros aventureiros já haviam arrombado as portas da fortaleza, e então os inimigos haviam recuado para algum canto mais ao interior do edifício, uma posição mais fortificável, e não precisei me proteger de uma chuva de projéteis no meu caminho através do pátio.

— Certo, se eu fosse um Barão das Sombras, onde eu ficaria? Óbvio, no ponto mais alto do edifício — fuil na direção oposta, para uma das extremidades da estrutura. Sem tombar com um único inimigo naquele canto isolado, apesar de ouvir confrontos vindo de outras alas, alcancei uma das quatro torres da extremidade da fortaleza e me deparei com uma cena... incômoda. — Eles estão fugindo? Esses são os sobreviventes da Cidade do Abismo? — adiante e avançando com pressa na direção do Deserto Sangria, uma longa linha de goblins, orcs e outros monstros visivelmente exaustos, desnutridos e maltratados, a maioria ainda menor do que a média de sua espécie. — Então, as forças que permaneceram aqui só estão ganhando tempo para seus compatriotas mais fracos fugirem?

Imediatamente, múltiplas batalhas retornaram à minha mente: quando o hobgobling arrancou as próprias tripas para pôr um fim em mim em nome de seu mestre, ou quando aquele goblin que me viu matar todos os seus amigos e de repente partiu para cima de mim com poder além do que deveria lhe ser capaz, ou quando meu falecido amigo Conrad encarou um número superior de inimigos todos de uma vez a fim de vingar nosso amigo em comum.

— Não é superstição, mas esse tipo de incentivo realmente torna as pessoas mais fortes... e considerando que estamos falando de um Barão aqui-

“BOOM!”, de repente, uma explosão abalou toda a estrutura da fortaleza, interrompendo meu monólogo.

— Mas o que foi isso? Eles não estariam tentando derrubar o prédio inteiro para matar o Barão, não é?!

Sequer tive tempo para me preocupar com aquela hipótese, uma vez que dois pares de pés pisotearam de além da curva ao fim do corredor, alcançando bem a minha posição.

— Não deveríamos deixar o Barão sozinho! — comentou um orc alto e vestindo uma armadura de aço já muito desgastada, e empunhando um machado de lâmina cega e dentada, todas as imperfeições de um equipamento que já havia sido de qualidade reluzindo sob a luz de um candelabro chique, ironicamente.

— O Barão pode se defender sozinho! Precisamos cumprir nossa missão e pegar- — um segundo orc de estatura e equipamento parecido, porém carregando uma maça enferrujada em mãos, respondeu, até perceber minha presença. — A caixa do porão. Mas não antes de lidar com este rato!

— Q-Que tal negociarmos? — eu disse algo que me soou pateticamente familiar, mas em resposta, os orcs avançaram sobre mim a toda velocidade e erguendo suas armas sobre suas cabeças.

O machado veio da esquerda, e o porrete da direita: recuei um passo para trás, ficando contra a parede, bem como os orcs devem ter desejado. Aquele que brandia o machado preparou-se para um segundo golpe, enquanto o da maça esperou, oferecendo proteção ao seu companheiro. Não esperei sentado pela minha morte, porém, e antes que a lâmina caísse sobre mim, saltei contra a parede à minha direita, e dela saltei novamente adiante e para cima, alcançando o candelabro ao teto.

— Seu macaqui-! — antes que o orc pudesse terminar sua ofensa, cortei sua face através da abertura do elmo de chifres, deslizando minha lâmina por sobre seu olho direito e bochecha do mesmo lado enquanto me balançando ao teto, e caindo bem as costas de meus inimigos. — Aargh!

Devido aos meus ferimentos ainda em processo de cicatrização, eu havia optado por não trabalhar com venenos antes daquela missão, mas saber que, caso o contrário, o orc já estaria grandemente debilitado, era um tanto frustrante. De qualquer forma, aquele não era o caso, e enquanto eu preferia acabar com pelo menos um deles o mais rápido possível, eu sabia que o outro não permitiria isso: fingi estocar contra o orc cegado de um olho, e quando seu companheiro de machado se colocou entre nós dois, rapidamente e com um truque de pulso, mudei a trajetória de minha lâmina para furar seus tendões da mão direita através da cota de malha estourada que falhava em lhe proteger.

— Kuargh! — o machado escapou do segurar do orc, seus dedos e mão tornando-se inúteis e amolecidos, e a lâmina da arma fincou-se em seu próprio pé ao cair, seu pisante protegido por apenas uma bota de couro tão desgastado que via-se fina como seda. — Elfozinho desgraçado! Vou arrancar sua pele e te mergulhar em carvão em brasas!

Novamente, porém, não havia aberturas para avançar contra o oponente ferido, uma vez que seu companheiro já havia se recuperado do choque e posicionava-se para defendê-lo.

Mesmo tendo significativamente debilitado meus inimigos e estes vendo-se muito mal equipados, eu não conseguiria realmente lutar contra dois orcs ao mesmo tempo. Então, não direcionei minha lâmina a eles: com todos os meus nove pontos em Força, atirei uma faca de arremesso contra o lustre candelabro acima dos inimigos, partindo a corrente que suspendia o suporte de velas e derrubando-o sobre os orcs. Uma vez que os monstros foram forçados a se ajoelharem pela repentina queda do pesado aparato de ferro, rapidamente avancei sobre eles e os finalizei cada um com uma rápida estocada entre os vãos de seus elmos chifrudos.

— Eles falaram algo sobre uma caixa no porão. Não tenho ideia do que seja, mas se meus inimigos a querem, talvez seja uma boa ideia tomá-la antes deles.

Recuperando minha faca de arremesso, segui o caminho que os orcs tomavam antes de sua derrota e desci escadas abaixo, alcançando um porão vazio.

— Este deveria ser o arsenal da fortaleza. Já saquearam quase tudo daqui — avancei com cuidado entre os barris e suportes de armas e armaduras vazios, quando cheguei ao único lugar praticamente intocado pelos monstros. — É claro, os equipamentos mágicos — goblins não nasciam com um ponto inato em Ocultismo, e os orcs eram uma pequena minoria neste grupo de esfarrapados. — Os poucos que seriam capazes de usar estes itens sem dúvida os tomaram, mas ainda sobrou uma grande maioria... Mas dificilmente dois orcs sozinhos poderiam fazer muita diferença nesse cerco, então por que enviá-los até aqui?

Quando meus olhos pararam num certo caixote, todas as minhas perguntas foram respondidas. Pois este continha duas pilhas de livros de couro vermelho intitulados apenas de “Tomo de Fogo”.

Tomei o caixote embaixo do braço e disparei escadas acima.

— Ele percebeu que não vai conseguir conter nossa invasão por muito mais tempo e planeja explodir parte do forte para pelo menos conseguir mais tempo para ele mesmo e seus subordinados fugirem — sorri. — Aah, não comigo aqui. Você já tem, tipo, uns trinta pontos de Atributo, usar esse tipo de estratégia é algo reservado para aqueles como eu, amigo! De qualquer outra forma, seria injusto!

Conforme me aproximava da torre central, me deparava com mais e mais cadáveres, tanto de aventureiros quanto de monstros, seu sangue saturando os tapetes dos corredores e produzindo um som molhado desagradável quando eu corria por sobre este.

Não subi diretamente para o último andar, porém, como eu sabia que era lá onde o Barão encontrava-se. Ao invés disso, parei minha ascensão bem no antepenúltimo andar, dois andares abaixo da localização do principal alvo daquele trabalho. Uma larga janela adiante me permitia observar o exército pacientemente fazendo uma varredura de todo o pátio e começando a vasculhar a fortaleza andar por andar, sala por sala, a partir de seus andares mais baixos.

— Tomando seu tempo a fim de garantir que todos os aventureiros se sacrificaram para enfraquecer e cansar o Barão, com certeza. Safado — franzindo o cenho, me afastei da janela e fui até a parede, onde uma pequena portinhola revelou exatamente o que eu esperava encontrar: — um elevador de comida. Eu sabia que os aposentos do antigo senhor do forte teriam uma besteira dessas — sorrindo e com metade do meu corpo dentro do poço do elevador, puxei a corda que era responsável pela ascensão do pequeno elevador.

Inesperadamente, porém, me peguei escutando o monólogo do Barão das Sombras dois andares acima, que ecoava poço abaixo:

— Oh, Numiden, Rei das Sombras, meu amigo... Você me tirou da sarjeta quando eu era nada mais que um mero cinocéfalo magrelo, o menor da ninhada, incapaz de sequer competir com meus irmãos por restos de comida, com Atributos muito baixos mesmo para um monstrinho de Nível: 1. Você depositou sua fé em mim, me alimentou, me treinou, me equipou. Tudo o que tenho hoje me foi dado por você. E ainda assim eu falhei para com você. Falhei em salvá-lo. Falhei em salvar a legião da qual você me incumbiu. Não restaram muito mais que uma centena de maltrapilhos desnutridos.

Relatos de um pobre coitado cujo mentor fora morto, de um monstro nascido fora da nobreza que ascendeu por mérito próprio, e representava as camadas mais baixas da Cidade do Abismo... eu não gostava da direção que aquele solilóquio se dirigia. Felizmente, o elevador já havia chegado até a portinhola à minha frente, então eu depositava todos os tomos dentro da máquina.

— Página 30, ativar — colocando minha mão sobre a pilha de livros mágicos, ativei a última página de cada tomo todas de uma vez. Logo a seguir, me coloquei a erguer o elevador a toda velocidade.

— Mas eu juro... Juro, por tudo que já foi profanado! Eu lhe vingarei! Praticarei cada golpe que você me ensinou mil, dez mil, cem mil vezes mais no Deserto Sangria! Unirei as tribos estranhadas daquela terra morta! Farei o que nenhum monstro antes conseguiu, e convencerei os necromantes a juntarem-se à nossa causa! O Herói lhe fez sangrar, meu mestre, meu amigo... Então eu vou fazer todo este continente sangrar em retorno!

Ah, e lá estava. A promessa de vingança coroando o passado trágico do indivíduo, um objetivo forjado em sangue e temperado a ódio. Aquele tipo de coisa era definitivamente problemático, era só olhar as pilhas de cadáveres ao meu redor:l goblins e orcs desnutridos e mal equipados que ainda assim conseguiram eliminar uma força de aventureiros muito maior e mais forte, mesmo que ao custo de suas vidas. Era melhor pôr um ponto final naquela história antes que ela alcançasse seu epílogo.

— Finalmente — comentei, sentindo o elevador alcançar seu destino e o último andar da torre.

— Hm? Espera, o que é isso? Meus pontos de Atributos... estão aumentando?

— Eh? — olhei para cima, confuso pelo críptico comentário do Barão vingativo com grande potencial de tornar-se o futuro Rei das Sombras.

Antes que qualquer um de nós pudesse alcançar uma explicação para o que quer que ele houvesse presenciado, porém, minha armadilha cumpriu seu papel: uma explosão muito maior do que eu esperava abalou a fortaleza inteira, estilhaçando todas as janelas do edifício e colapsando todo o andar superior do prédio sobre o penúltimo andar, fazendo chover rochas partidas e flamejantes, e um cadáver carbonizado de uma espécie de homem-cão.

Você subiu de Nível!

Você subiu de Nível!

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