Capítulo: 5
O mestre da guilda, quase engasgando na própria raiva, me colocou como o único responsável para lidar com a ameaça goblin sob um pretexto de estar grandemente impressionado por minhas capacidades, então eu me encontrava rastreando a base dos monstros que provavelmente numeravam-se nas dezenas completamente sozinho.
Quem diria que meu chefe odiaria ser provado errado bem em frente ao seu próprio superior?
Suspirei.
— Que bosta. Talvez eu devesse ter procurado uns bandidos por aí, arrancado suas orelhas e fingido que realmente eram só uns foras da lei atacando as caravanas.
Eu resmungava baixinho, mais sutilmente que o cantar dos pássaros ao meu redor, quando alcancei uma pequena clareira, e dela vi uma fina linha escura de fumaça deixando-se carregar pelo vento adiante.
— Parece que, infelizmente, os encontrei, afinal.
Prossegui com ainda mais cautela pelo resto do caminho. Como eu não realmente esperava ser capaz de derrotar todo o assentamento goblin naquele dia, mas apenas fazer seu reconhecimento, eu havia deixado a maior parte de meus equipamentos no quarto que eu alugava. Logo, produzia muito menos sons do que o normal, e aquilo somado aos pobres sentidos dos monstros em questão, me permitiu chegar impressionantemente próximo da base das criaturas.
Dois goblins guardavam a entrada de uma torre de metal divino, semelhante àquela onde lutei minha primeira batalha, Prenuncia: sólida, opaca, com dúzias de anexos de funções desconhecidas. Porém, aquela torre em particular era significativamente menor, não passando das copas das árvores, e via-se também parcialmente absorvida pela floresta, com musgo, grama, e até árvores crescendo por quase toda sua superfície.
Guiando meus olhos para a parte superior da estrutura, vi também uma das criaturinhas verdes carregando uma besta e preguiçosamente vasculhando a mata com seus olhos. Estranhamente, porém, o monstro não se via no extremo topo da estrutura, mas numa seteira do antepenúltimo andar.
Continuei perfeitamente parado no arbusto que me escondia e observando os monstros por mais duas horas, até que, faltando apenas uma hora para o pôr do sol, me peguei observando algo mais interessante do que goblins excretando ou discutindo sobre seus vermes favoritos.
— Grwah! — um dos guardas apontou a lança numa direção.
— São nóis! Boca-aberta — outro grupo de criaturinhas esverdeadas, cinco delas, surgiu carregando uma série de objetos saqueados; nada mais que anzóis e flechas e outros objetos de pesca.
— Truxeram comida? — um dos guardas da porta perguntou.
— Hehe, sim! PEXE! — respondeu um dos goblins saqueadores, entrando na torre, tomando uma passagem à esquerda, e aparentemente descendo para um possível porão.
Eles provavelmente haviam mudado suas zonas de saque depois da última derrota a fim de chamar menos atenção.
E com aquilo, eu havia visto o suficiente. Eu estava prestes a fazer meu caminho de volta para a cidade e montar um plano de invasão do covil dos goblins quando uma silhueta especialmente grande surgiu no topo da corre, pelo menos duas vezes do tamanho de um goblin, vestindo uma curta cota de malha por sobre um gibão de algodão ainda mais curto, e também um elmo de aço.
— Hobgoblin...
Tão lenta e silenciosamente quanto eu havia me aproximado, recuei e retornei à cidade.
҉
Tendo aprendido o que aprendi, fui direto registrar uma reclamação contra o mestre de guilda local, uma vez que minha missão era basicamente suicida. Infelizmente, por mais que o secretário compreendesse minha situação, me foi explicado que minhas chances de recusar o trabalho por justa causa eram mínimas, considerando que o Rodrigues era um nobre menor local cuja família cuidava de assuntos de aventureiros há gerações, como apenas nobres empobrecidos faziam, e a última vez que qualquer pessoa sucedeu em causa como aquela, o aventureiro em questão já era um guerreiro famoso pela beleza e controle das palavras, e já tinha apoio de outras famílias nobres devido a muitas damas e madames estarem perdidamente apaixonadas por ele.
Tanto se eu desertasse para outra cidade, quanto se eu tentasse tomar qualquer resposta oficial, perderia minha reputação e emprego, e poderia até ser preso. Conhecendo aquele seboso do mestre da guilda local, ele poderia até estar contando com isso.
Logo, não me restavam escolhas além de lutar.
— Isso, essas são as dimensões do bote que eu vou querer, e não, não precisa ser algo de alta qualidade contanto que suporte o peso especificado. Não insista, pois não vou pagar extra se você adicionar qualquer outra coisa pela qual não pedi — com aquilo, deixei o estabelecimento do carpinteiro e segui para o ferreiro mais próximo, carregando uma larga caixa de madeira.
Em minha investigação, eu havia confirmado duas coisas: a primeira era que aquele, infelizmente, não era só um bando de goblins desertores ou recém-gerados e sem objetivos, não quando eles saqueavam objetos que seriam relutantes de usar a menos que ordenados, como anzóis de pesca, e coisas aparentemente desnecessárias, como panelas e âncoras.
— Boa tarde, ferreiro. Eu quero comprar sua sucata.
E a segunda coisa era exatamente o que eu temia, a presença de um monstro que frequentemente chegava até o Nível: 10. Exatamente o mesmo que meu, exceto que, como um monstro, seus atributos base já começavam mais altos do que aqueles de elfos, então mesmo meu bônus do título Diácono Guerreiro não fazia diferença. Na verdade, não seria surpreendente se a criatura tivesse investido mais em Força do que eu, e pudesse ter até 12 pontos no Atributo.
Tendo gasto os últimos minutos ponderando sobre a matemática da situação, uma questão sobre a qual eu não podia realmente fazer qualquer coisa sobre, suspirei. Eu deveria apenas me focar em tentar fazer a balança pesar para meu lado e aumentar minhas chances de sobrevivência o máximo possível.
— Isso é sucata o suficiente, ferreiro, não quero encher a caixa inteira.
҉
Vinte e quatro horas de preparação depois, eu me via balançando terrificamente de um lado para o outro, desconfortável e no escuro.
— Isso balança demais.
Minha experiência na guerra não havia sido naval (até porque a Tempesternidade não permitia lá muita liberdade em águas salgadas) e a oscilação da pobre embarcação onde então eu me encontrava me afetava muito mais do que eu esperava originalmente. Se minha resistência não fosse superior devido à minha Força, com certeza eu já estaria vomitando naquele momento.
— Urgh, quase me faz desejar pelos malditos goblins.
— Alá! Óia! — uma voz aguda e rouca soou do lado de fora. Haviam mordido a isca.
— Falando no diabo... — depois do comentário involuntário, tornei a cobrir minha boca com as mãos.
Lá fora, ouvi respingos seguidos por baques, então senti a embarcação deixar de ser carregada pela correnteza.
Os goblins haviam puxado a jangada para a margem, e a julgar pelos passos ao meu redor, investigavam a embarcação misteriosamente vazia.
— Tem ninguém?
— Parece que não.
— Olha a caixa então, burro!
— Grr... Burro é você...
Escutei a tampa da caixa onde eu me escondia sendo erguida, e em seguida a sucata acima do fundo falso acima de mim sendo revirado. Olhando para cima e segurando firme o cabo de minha adaga, rezei para Deus que as criaturas fossem tão inadimplentes quanto pareciam. O que acabou por revelar-se exatamente o caso: ouvi a tampa da caixa sendo fechada novamente.
— Tem só ferro aqui! — o goblin que investigou porcamente meu esconderijo confirmou.
— Merda, uma caixa desse tamanho deve tá mó pesada... Vocês cinco, vão carregar isso aí, eu vou fazê guarda!
— Injusto!
Pelos próximos dez minutos, os golbins discutiram sobre quem deveria carregar a maldita caixa, tanto que quase perdi a paciência e me voluntariei para carregá-la eu mesmo, mas por fim, finalmente chegaram a um acordo.
Em pouco tempo de caminhada, chegamos à velha torre divina, esquecida e tornada base de operações de monstros sapientes.
— Truxero cumida? — perguntou um dos goblins de guarda.
— Nah... só ferro — o goblin saqueador soou quase deprimido.
Logo em seguida, senti a caixa sendo inclinada enquanto descíamos uma escada para o porão da estrutura, e momentos depois os goblins deixaram a caixa cair ao chão, sem cuidado algum.
— Gur, minhas costas.
— Porcaria pesada.
Reclamando, as criaturas subiram escadas acima, mas mesmo quando tive certeza de que eu estava sozinho lá embaixo, não deixei meu esconderijo. Ao invés disso, pacientemente contei até dezesseis mil, um truque a mim ensinado por um velho amigo chamado Coruja, que me permitia ter noção de quanto tempo se passava, e esperei pelo menos cerca de três horas depois do pôr do sol. Se aquele grupo estava sendo organizado de forma minimamente competente por quem quer que estivesse em comando, a maior parte dos goblins já deveria ter ido dormir naquele horário, enquanto uma minoria fazia rondas e mantinha a guarda da torre.
Dado o tempo, destranquei um par de travas no interior da caixa modificada e lentamente deixei uma das paredes laterais desta baixar-se ao chão, deixando meu esconderijo sem mover a pilha barulhenta de metais acima de mim.
O porão da torre, há muito tempo atrás sendo, aparentemente, uma espécie de prisão ou algo assim, possuía vários casulos de metal com janelas e imagens de elfos deformados, com orelhas muito pequenas, mas no presente continha apenas sucata, e ferramentas, e armas e armaduras saqueadas.
— Essa não parece ser uma pequena tribo de goblins independente, para buscarem por tantos itens assim — franzi o cenho, mas logo me foquei de novo.
O lugar estava quase completamente escuro, a única luz presente vindo das escadas adiante, e uma vez tendo confirmado a ausência de inimigos naquela sala, silenciosamente segui adiante.
Alcançando o pé da escada, usei um espelho de cobre à procura de inimigos, e encontrei um deles imediatamente: um goblin com uma espada curta encostava-se na parede da torre, ao lado da entrada então selada por uma porta rústica de madeira, e ele praticamente dormia em pé, com o queixo batendo no peito, e de braços cruzados.
Não hesitei em soprar um dardo venenoso nele.
— Uhm? — o goblin levou uma mão ao pescoço, como se tentando matar um mosquito, e quando percebeu que o que fincava-se em sua pele não era um inseto, já era tarde demais.
Corri na direção da criaturinha bem a tempo de segurar seu corpo e baixá-lo ao chão com delicadeza, assim eliminando o primeiro inimigo praticamente sem ruídos.
Seguindo adiante, o segundo andar via-se desprovido de vida, contendo apenas lenha e ossos de animais em o que deveria ser uma despensa, mas então continha apenas restos indesejáveis.
No caminho para o terceiro andar da torre, me deparei com o próximo inimigo: um segundo goblin observava a floresta abaixo a partir de uma janela, com uma besta em mãos.
Daquela vez, porém, a criatura vestia uma armadura pelo menos dois tamanhos grandes demais para seu próprio corpo, e me deixava um espaço muito pequeno para atingi-la com um dardo, seria arriscado demais.
Segurei firme o cabo de minha adaga, e tomando vantagem do fato de que o monstro não prestava atenção ao interior da torre, nem esperava um ataque daquela direção, me aproximei vagarosa e furtivamente, na ponta dos pés-
— Ta merda, oreia-seca, já disse pra tu que não é hora da troca de turno ainda, volta pra merda da... porta? — o goblin cansadamente esfregou o próprio rosto e voltou-se para me encarar.
Apesar dos meus esforços, eu não era muito superior a uma pessoa comum quando se tratando de esgueirar-se por aí, sem ter realmente uma Habilidade do gênero, afinal.
Felizmente, eu estava já a apenas um passo de distância de colocar o inimigo dentro do meu alcance, e antes mesmo que ele pudesse apontar a besta para mim, eu penetrei minha lâmina fria em seu pescoço.
Emprestando um ombro ao goblin que perdia força tão rápido quanto perdia sangue, quando puxei minha adaga de volta, e a língua do monstro caiu pelo mesmo buraco que coloquei entre seu queixo e garganta. Atirei o cadáver janela abaixo, preferindo não arriscar acordar as criaturas esfomeadas com cheiro de sangue... por mais que minhas roupas já estivessem encharcadas do líquido verde tão escuro que parecia negro.
Com o coração batendo apenas um pouco mais rápido, segui adiante, e no terceiro andar alcancei uma porta à esquerda, a sala localizada logo acima da despensa dos monstros. A estrutura era tão precária, porém, que nem tranca possuía, devia estar lá apenas para impedir a entrada da luz das tochas da escada em espiral. Empurrei a porta levemente para dentro, e quando meus olhos adaptaram-se ao escuro, vi uma dúzia de goblins dormindo em esteiras de folhas, grama e peles ao chão.
Controlando meus próprios tremores, pisei dentro do dormitório e comecei o trabalho sinistro pelos inimigos mais próximos, um à esquerda e outro à direita, perfurando o pescoço dos inimigos numa única punhalada e não tomando mais que cinco segundos para fazê-lo, partindo para o próximo antes mesmo de minha última vítima parar de debater-se, acabando com eles um a um.
Eu estava na metade da matança quando um dos goblins sentou-se, limpando os olhos de remelas com uma mão e massageando seu estômago, que roncava, com a outra.
— I-INVASOR!
Não hesitei em soprar um dado envenenado no inimigo desperto antes que ele colocasse qualquer armadura, e depois disparar numa corrida para fora do dormitório.
— Merda, merda, merda...! — minha mão tremia demais para desabotoar meu bolso e alcançar as ferramentas que precisava. Eu queria poder ter acabado com todos os goblins sem me envolver em combate direto, mas havia acabado de perder esta oportunidade.
— Pega ele! Tamo em vantagi! — infelizmente, apesar de possuidores de pouco intelecto, os goblins não eram exatamente burros, e sabiam bem que eu tinha poucas chances de vencer um combate contra seus números superiores enquanto lutando nos degraus inferiores de uma escada, e usando apenas uma adaga, que anulava minha única vantagem, meu alcance superior.
— Abre logo, porra! — perdendo a paciência, deslizei minha adaga ao longo do comprimento do bolso, cortando seu couro e deixando dezenas de estrepes caírem escada abaixo.
Logo em seguida, me atirei da janela da qual havia despejado o guarda há poucos instantes. Ou quase isso: segurando nas raízes e vegetação que cresciam sobre a superfície metálica da torre, me pendurei na parte de fora da estrutura, escondido da horda inimiga.
Não demorou para ouvir os frutos de meu esforço:
— AI, AI, AI, AI!
Monstros pisaram em minhas armadilhas com tudo, o metal perfurando as solas de seus pés e os fazendo cair escada abaixo e sobre ainda mais estrepes, muitos ainda levando seus colegas consigo numa tentativa de equilibrarem-se desesperadamente.
— Mas que Ladino filho duma-! — uma estocada direto na jugular do goblin parado bem em frente à janela e encarando a confusão que desenrolava-se logo à sua frente me permitiu reentrada na torre.
— Ah, sim. Agora sou eu quem tenho a vantagem estratégica — respondi aos três goblins que levantavam-se, sangrando de inúmeros buracos e cortes causados pelas estrepes. Pelo menos um deles tinha o pescoço numa posição pouco natural e não exibia quaisquer sinais de que estava prestes a levantar-se.
— Gurr... GRAAH! — uma das criaturas arrancou uma das estrelas de metal de sua bochecha e avançou em minha direção, acompanhada de um colega, ambas empunhando machadinhas numa mão e uma adaga noutra.
Por outro lado, eu saquei uma segunda adaga e me posicionei à sua espera. Apesar da evidente raiva nos olhos dos monstros, sabiam bem que atirarem-se contra mim sem pensar resultaria apenas numa queda rápida.
— Grr... Ao mesmo tempo.
— Certo! — combinaram-se de me atacar simultaneamente.
Cobriram os últimos degraus entre nós rapidamente, ergueram suas machadinhas e baixaram-no sobre mim. Apesar de eu empunhar duas adagas, não era ambidestro e não conseguiria bloqueá-los em sincronia. Assim, almejei a machadinha do goblin da esquerda com um golpe horizontal logo antes de seu próprio ataque, mudando o trajeto do arco do braço do monstro apenas um pouco, mas o suficiente.
Com um barulho molhado de vasos sanguíneos sendo rompidos e um ruído seco de metal contra osso, o goblin da direita atingiu o antebraço de seu parceiro por acidente, quase cortando-o fora completamente, deixando-o pendurado por apenas uma fina linha de pele.
— GAAAARHHH!
— Ai! D-Desculpa!
Não esperei que se recompusessem, pisei em frente e perfurei o inimigo ileso através do olho, ao mesmo tempo que chutei o ferido no peito, arremessando-o escada abaixo de novo.
O goblin sem braço rolou degraus abaixo para além de minha vista, além mesmo do terceiro e último inimigo, que então via-se sozinho e segurando apenas um porrete coberto de pregos.
— Q-Que tal negociarmos? — Tentou me enganar, ardilosamente fechando um olho, acostumando-o com a escuridão, e aproximando-se da tocha que iluminava aquele trecho da escada.
— Não — Arremessei uma de minhas adagas contra o inimigo. Errei, mas enquanto ele saltava para o lado, cobri terreno o suficiente para alcançar seu peito com minha lâmina restante e lhe perfurar o coração.
Deixando o cadáver do portador do porrete cair ao chão, morto, desci os degraus lentamente, encontrando um quarto goblin sem antebraço muito pálido encostado na parede. Aquele já havia sangrado quase até a morte, mas eu não tinha motivos para não finalizá-lo: lhe cortei a garganta sem resistência.
— Falta só o último andar — recomecei minha ascensão, mas logo ouvi uma série de altos estrondos aproximando-se rapidamente. — Droga! — o dormitório e a saída estavam todos muito longe para me servirem de abrigo, e algo rolava escadaria abaixo com alta velocidade. Me empertiguei na janela uma segunda vez, e vi um grande barril em chamas passar por onde eu estava apenas um segundo antes, bem em frente a meus olhos. — Ai, ai, eu não quero subir... — apesar daquilo ser verdade, eu não tinha realmente outra escolha, então prossegui.
Mas à minha própria maneira, com minha adaga presa entre meus dentes e escalando a torre com minhas próprias mãos e pés a partir do lado de fora.
Cheguei ao topo da torre, aparentemente indetectado, e o lugar mais parecia um jardim em miniatura, com até uma árvore crescendo do teto. Logo achei o caminho para baixo, um buraco no chão com uma escada tosca de madeira e ossos, e usando meu espelho de cobre, vi no andar abaixo de mim uma criatura elfanoide do meu tamanho, mas significativamente mais parruda, empunhando um grande machado e uma armadura de cota de malha um pouco pequena demais para si, deixando uns quatro dedos de pança expostos, e mais uma série de peças aleatórias de aço visivelmente saqueadas de uma miríade de pessoas protegendo suas extremidades. Um hobgoblin, uma versão mais rara e poderosa de goblin, que naturalmente assumia posições de comando dentre sua espécie.
Por um longo minuto, não fiz nada além de observar o monstro através do espelho, incerto do que fazer, já que seria impossível descer ao seu andar sem ser detectado para pegá-lo de costas, quando o hobgoblin tomou uma decisão por mim: lentamente abriu a porta à sua frente e começou a descer a escadaria sorrateiramente.
— Ele vai checar se me matou com o barril. Essa é minha chance — desci a escada de madeira e ossos, e me escondi atrás da porta que o inimigo manteve entreaberta.
Fiquei ali, estático, por uns bons cinco minutos enquanto o hobgoglin checava cada canto da torre antes de retornar para seu aposento.
— Todo mundo morto, menos o invasor? Como vou explicar isso pro Barão? — o monstro, significativamente mais relaxado, entrou em seu quarto e levou uma mão vazia para a borda da porta atrás da qual eu me escondia.
E nesse momento empurrei a peça tosca de madeira com meu ombro, atingindo o hobgoblin em cheio, e rapidamente guiei minha adaga contra os três dedos de pança exposta do monstro: meu aço mordeu sua pele verde, e quando abri meu braço para a direita, rompeu a prisão de carne que mantinha todas as entranhas do monstro dentro de sua barriga, suas tripas caindo aos seus pés no memso instante.
— Waaarghh! — o monstro rapidamente recuou, levando uma mão ao ferimento e tentando futilmente puxar os tubos de carne de volta para dentro de si. — Não! Não! Eu não posso morrer, não antes de pagar minha dívida com o Barão! — Eu esperei a inevitável queda de meu oponente do outro lado do quarto, mas para minha surpresa, quando o monstro percebeu que já não podia mais manter suas tripas para dentro, sua expressão foi de dor e desespero para a mais profunda, rubra e fervente ira. — Se eu vou morrer de qualquer jeito, então vou te levar comigo! — me surpreendendo tanto que quase fiquei sem saber o que fazer, o hobgoblin usou seu machado para cortar fora as tripas que lhe pendiam, e com a cavidade estomacal quase completamente vazia, avançou contra mim. — GUAAAARGHH!
— Mas o que?! — mal consegui recuar a tempo de evitar um arco descendente do machado do inimigo.
A lâmina pesada do machado de ferro atingiu a escrivaninha atrás de mim e partiu-a de uma vez só.
— Kurgh! — perdendo muito sangue rapidamente, o hobgoblin removeu sua lâmina dos destroços de madeira e, ignorando todo o dano sofrido, tornou a me atacar.
“Vush! Vush!”, o inimigo quase morto-vivo movia sua arma com tamanho poder, que não apenas parecia inafetado pelo golpe mortal, como até mais forte do que um membro mediano de sua raça.
— Barão Zelvron! Hoje... mesmo que custe minha vida... lavarei um de seus inimigos comigo! — o hobgoblin brandia seu machado quase como se este fosse feito de vento, pesando tanto como uma pena, e a cada novo golpe ele errava meu corpo por uma fração menor de espaço.
— Merda...! — originalmente eu planejava deixar o monstro gastar suas últimas reservas de energia por si mesmo e logo morrer, mas naquele ritmo eu cairia perante seu machado antes que o hobgoblin sucumbisse naturalmente. — Morra de uma vez! — com as costas quase contra a parede, estoquei com minha adaga contra a cabeça do inimigo, mas com um leve movimento do cabo de madeira de seu machado, minha arma teve sua trajetória desviada.
Enquanto viu meu braço sendo empurrado para cima pela força do aparo de seu golpe, os olhos do hobgolin se dilataram, seus dedos apertando o cabo de sua arma com mais força, seus lábios se contraindo e exibindo dentes amarelados. Minha postura havia sido quebrada, e ele sabia bem disso.
Impotente, não pude fazer nada além de observar a lâmina do machado vindo em minha direção. Recuei o máximo que pude, mas eu já estava perto demais da parede, e havia pouco mais que eu podia fazer para evitar um golpe fatal, do que confiar na solidez de meu elmo metálico.
O ferro pesado, dentado e cego, mais dilacerou do que cortou através de meu visor, porém, e mordeu meu olho esquerdo, explodindo o globo como uma bexiga d’água, e arrancando boa parte da minha face do mesmo lado, minha pele ficando presa entre as rachaduras da lâmina e sendo esticada até o limite antes de romper-se, desfiando-se como peito de frango ensopado. Ainda que o capacete serviu ao seu propósito e eu não havia perdido minha vida imediatamente, o choque e a dor foram tamanhas que não consegui comemorar.
— AAAAARGH!!! — urrei como um condenado. E naquela situação, eu poderia muito bem ser considerado um.
— Você vem para o Inferno comigo...! — o hobgoblin ergueu seu machado sobre sua cabeça mais uma vez, prestes a pôr um ponto final em minha história. E parte de mim queria apenas que ele fosse mais rápido com aquilo; meu corpo inteiro tremia e meu rosto dilacerado tornava-se uma nascente de sangue que escorria abaixo pelo meu pescoço e pingava da ponta de meus dedos, meu olho destruído ardendo como brasas, a agonia era tamanha que eu ansiava alívio em qualquer forma que fosse, mesmo que o fim de minha consciência. E ainda assim, minha parte mais animalesca e primitiva foi aquela que assumiu controle de meu corpo quando a razão me falhou. — Filho de uma-! — o hobgoblin reclamou, raspando faíscas na parede atrás de mim, cegado pelo meu próprio sangue, que atirei em seus olhos.
As pessoas não apenas aceitavam sua morte tão fácil, afinal.
Gritando e urrando e sem realmente conseguir formar um plano de verdade, corri em direção à porta da sala, fechando-a atrás de mim bem a tempo de ouvir o machado cravando-se na madeira da peça plana.
Praticamente espumando pela boca, desci as escadas como um lunático, pulando três, quatro, cinco degraus por vez, segurando meu visor amassado e fendido, que ainda via-se preso no buraco vazio que tornara-se meu globo ocular esquerdo, e em minha bochecha esfolada, tentando estabilizar o elmo a fim de fazê-lo parar de mover-se para cima e para baixo conforme eu fugia com pressa, piorando ainda mais meu machucado. E ainda assim, não fui rápido o suficiente: ouvi o hobgoblin logo atrás de mim na escadaria.
— NÃO! — literalmente com lágrimas de sangue lavando meu rosto, olhei por cima do ombro e me apoiei na parede mais próxima, minha estamina tendo acabado muito mais rápido do que eu preferia devido à perda de sangue.
O que vi, porém, não foi um hobgoblin imortal me perseguindo incansavelmente, mas um cadáver de abdômen vazio rolando escada abaixo. Meu último inimigo via-se finalmente morto.
Ainda apoiado à parede, deslizei até o chão, e o alívio foi tanto que, por uma breve fração de segundo, quase esqueci da dor imensurável do lado esquerdo de minha face.
Uma vez a adrenalina da perseguição e extermínio tendo deixado meu sistema, encontrei razão o suficiente em mim para suportar a dor de remover o elmo destruído, higienizar o ferimento sob este, e estancar meu sangramento apropriadamente, realizando primeiros socorros.
No dia seguinte, retornei à guilda com uma dúzia de cabeças de goblins, e uma cabeça de hobgoblin... para a insatisfação de Rodrigues, para quem, aparentemente, perder um olho e metade de meu rosto não era punição o suficiente por ter o envergonhado.
Imediatamente fui promovido à posição de aventureiro perito, e enviado a uma missão ainda mais perigosa, onde, desta vez, tanto meu mestre de guilda quanto eu tínhamos ambos certeza de que eu definitivamente morreria.
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