Capítulo: 4
— Senhor, eu lutei contra essas criaturas muitas vezes durante meu tempo no exército sacro, tenho certeza de que os responsáveis pelos desaparecimentos são, definitivamente, gobl-
— Já chega! — Rodrigues, o mestre da guilda de aventureiros da cidade de Calda Lenta, bateu com o punho em sua escrivaninha, encarando-me gelidamente. — Esse é o problema com vocês “veteranos”, pensam que sabem de tudo só porque passaram seis meses limpando latrinas e cozinhando para os nobres. Eu já lhe disse uma vez, e não vou me repetir de novo: os Feitiços de minha família mantiveram essas estreadas completamente limpas de monstros desde que assumimos a liderança desta guilda, tem sido assim durante gerações, mesmo durante as guerras com os Reis das Sombras, e não é diferente agora! Então, volte JÁ para aquela maldita encruzilhada, e não retorne enquanto você não tiver as cabeças dos salteadores que estão roubando nossos comerciantes!
— ...Sim, senhor — o homem estava certamente errado, mas eu sabia melhor do que discordar daqueles que me pagavam, como todo bom plebeu.
Dois anos haviam se passado desde que eu me tornara um aventureiro, e eu havia sido promovido (não sem antes pagar taxas pesadas) para “aventureiro hábil”, e finalmente havia sido capaz de deixar de depender de minhas reservas de dinheiro e passado a tirar algum lucro daquele investimento todo, ainda que pequeno, podendo selecionar tarefas mais perigosas e de melhor recompensa.
Infelizmente, uma daquelas missões acabou me levando a sinais quase irrefutáveis da presença de goblins no território “perfeitamente ausente de monstros” do mestre da guilda local, um Mago nobre fracassado, cujos Feitiços de proteção claramente não eram tão eficientes quanto o de seus ancestrais.
Suspirei, já fora do escritório de Rodrigues, e me coloquei a caminho do mercado antes de deixar as muralhas da cidade. Eu havia deixado Pé Direito há um ano, logo após minha primeira promoção, para Calda Lenta, uma cidade com taxas um pouco mais amigáveis para aventureiros... alheio ao fato de que o mestre daquela organização era significativamente mais irracional do que meu último superior.
O motivo pelo qual eu então caminhava por entre as barracas e bancadas de exibições de produtos diversos era o mesmo pelo qual eu havia retornado à guilda antes de concluir minha missão apropriadamente: goblins não eram monstros selvagens, mas sapientes e organizados. Quando questionei os historiadores da Guerra Sacra sobre o porquê dos monstros serem capazes de falar conosco, se éramos tão incompatíveis, me revelaram que Demônia os abençoava com a língua do Sistema, bem como Deus fazia conosco, as criaturinhas eram capazes de dialogar entre si, organizarem-se em hierarquias rígidas, forjar, e outras tarefas complexas, como estrategiar. E tal provavelmente era a razão pela qual as autoridades locais pensavam que os desaparecimentos e ataques dos últimos tempos haviam sido executados por meros bandidos.
— Um tomo, hu? — encarei um livro grosso, com intrincado título e símbolos complexos na capa, além de protetores metálicos de cantos, e é claro, uma etiqueta exibindo um preço exorbitante. Era um livro que continha um feitiço em cada página, para aqueles que não sabiam ou podiam usar magia por si mesmos. — Quebraria um baita galho... se eu tivesse condições de comprá-lo — naquele aspecto, não eram diferentes de itens nomeados, com os quais eu somente poderia sonhar.
Passei por uma rua onde eram vendidos caixotes e ferramentas, e prossegui para a parte de venda de armas físicas, de aço. Eu precisava de algo para lidar com um grupo de pelo menos cerca de seis goblins nessa excursão.
— O arco, a lança, vinte flechas, o escudo e a maça... Ah, e inclui os cintos para carregar tudo isso — lá se ia o pouco do lucro que eu vinha fazendo recentemente com meus trabalhos...
Sim, o maior problema que apontava a presença de goblins formulando ataques organizados era que as criaturinhas, como todos os outros monstros sapientes, eram incapazes de serem controladas através de pura razão. Não, seu estado natural era o de ladrões e assassinos solitários e cheios de conflitos internos, eles seguiam apenas os fortes. Como o Rei das Sombras.
Claro, o representante de Demônia daquela geração já havia sido morto e tido seu cadáver desfilado pelas ruas da capital antes de ser levado para o Deserto Sangria, e enquanto eu não sabia exatamente como, o Sagrado Reino de Fanon tinha suas formas de detectar o surgimento de tais entidades, eu não temia a possibilidade inexistente de, basicamente, uma semidivindade imortal. Mas não era impossível que um hobgoglin, ou orc, ou talvez, na pior das hipóteses, até um goblin Cavaleiro estivesse por trás daquelas atividades recentes.
Suspirei, trespassando os portões da cidade e caminhando em direção à encruzilhada onde os ataques vinham sendo realizados.
— E lá vamos nós de novo...
҉
— Esse pão... — encontrei sinal irrefutável da presença de salteadores na beirada da estrada, um fedor característico de urina emanava do fragmento de massa. A menos que alguém tivesse mijado no pão, aquilo se devia à saliva de um goblin faminto.
Olhei ao meu redor, mas não percebi movimento algum. Embrenhei-me no mato, deixando o caminho de terra batida para trás, e prossegui o mais esgueiro possível para um homem de armadura carregando o peso equivalente de uma mulher adulta em equipamentos.
Se goblins não fossem ainda menos sorrateiros que eu, eu teria me aproximado daquela situação com estratégia diferente, mas felizmente eram: fui eu aquele quem primeiro os notou.
Depois de investigar o terreno e minha posição e fazer algumas preparações simples, lentamente depositei no chão a lança de comprimento médio recém-comprada e, respirando fundo, parcialmente escondido atrás de uma árvore a cerca de meio minuto de marcha de distância do círculo de criaturinhas verdes, tensionei a corda de meu arco e flecha, mirando. Eu ainda não possuía Proficiência em Arco e Flecha, Nv. 1, mas havia disparado algumas setas nos últimos anos em festivais.
— Não, idiota! Churrasco de elfo é o melhor! — cinco goblins, completamente nus (se é que monstros, assexuados como eram, podiam sequer ficar “nus”, possuindo apenas uma cloaca), conversavam sentados num círculo, protegendo uma série de sacos de linho saqueado em seu meio, e aproveitando a comida e bebida obtida de seu último assalto. Comida esta composta pelos restos mortais de um elfo barbado que me era levemente familiar. Era o mijão que lutou comigo na Cidade do Abismo. Aparentemente, havia aceitado um trabalho de segurança de caravana, e dado azar.
— Sem chance! O melhor é carne elfica fritinha em bastante banha, até ficar crocante!
— Pois eu prefiro assada ao forno, coberta com bastante molho marrom, com batatas de aperitivo, e uma taça de vinho para complementar.
— Molho marrom? Que é isso? Diarreia?
— Bwahaha-!
“Swush!”, minha flecha voou e interrompeu as risadas abruptamente, quando ela cravou-se bem no chão em frente aos goblins.
— Merda — eu realmente deveria ter adquirido a Habilidade do arco e flecha quando tive tempo.
— Elfo!
— Peguem ele!
Pegando em armas, correram em minha direção. Eu deveria ser tão perigoso para aqueles monstros quanto um orc seria para mim, mas se eu tivesse quatro companheiros comigo, também estaria confiante em minhas chances de vitória.
— Bwah! — minha segunda flecha, porém, foi um acerto crítico e perfurou um dos pequeninos esverdeados no estômago, o alvejado imediatamente caindo de joelho com lágrimas aos olhos e urrando de dor.
Logo em seguida, descartando o arco, peguei a lança aos meus pés e me coloquei em posição.
— Cerquem-no, cerquem-no! — gritou um goblin.
— Tome cuidado, Lodo!
— Você também, Lama!
Uma vez que fui eu aquele quem os achou primeiro, e quem escolheu o campo de batalha, jamais teria escolhido uma posição que me permitiria ser cercado, porém.
— Aaaai! — um goblin berrou, erguendo um pé que sangrava, perfurado por um estrepe de ferro, uma vez que eu havia espalhado as discretas armadilhas à minha esquerda.
Em poucos instantes, devido ao seu pouco peso, ambos os inimigos já feridos caíram em silêncio, perecendo para o efeito paralisante das últimamoras.
Enquanto isso, os três goblins restantes me encaravam, hesitantes, exatamente na minha frente; já que eles haviam parado perto de um barranco que levava a um riacho para terem fácil acesso à água, eu tinha tal obstáculo para minha direita.
Ainda assim, eram três contra um, e minha única vantagem era meu maior alcance devido ao meu tamanho superior e minha lança...
Os monstros trocavam olhares um com os outros, e mostravam suas presas afiadas para mim, enraivecidos, mas igualmente nervosos. Nos encontrávamos num impasse.
Desperdiçavam sua única oportunidade.
Uma vez que minha Força era grande o suficiente, segurei minha lança com uma única mão e levei minha outra palma até a zarabatana presa ao meu peito.
— Uma arma de longo alcance! Não deixem ele carregá-la, para cima! — levados ao limite por minha ameaça, os goblins finalmente puseram-se em ação de novo, e correram todos contra mim ao mesmo tempo, separando-se o máximo que o espaço apertado que lhes proporcionei permitia.
Imediatamente deixei a zarabatana cair ao chão, e respondi ao ataque com uma investida própria, tomando proveito total de meu alcance superior para perfurar um de meus oponentes com a lança, passando uns bons dois palmos inteiros de aço e haste através do peito do monstro.
Imediatamente abandonei também aquela arma e desembainhei minha espada bastarda enquanto bloqueando a estocada da espada curta do segundo goblin com meu escudo. Minha Força deveria ser pelo menos três vezes superior à de meu oponente, e por isso consegui não apenas parar seu ataque, mas respondê-lo com um baque de meu escudo, empurrando com poder o suficiente para arremessá-lo ao chão.
— DEIXA ELE! — o terceiro goblin alcançou-me, num piscar de olhos, também com uma estocada, e bem quando meu braço esquerdo encontrava-se bem para o lado, me deixando exposto depois do empurrão que desferi. — Bwargh... — mais uma vez, porém, aproveitei-me de meu alcance superior, e respondi ao ataque com uma estocada própria, enterrando a ponta de minha arma entre os olhos do monstro, que morreu na hora.
O inimigo que fora desequilibrado já se encontrava de pé novamente e saltava sobre mim enquanto desferindo um corte vertical.
— Kuh! — o bloqueei novamente com meu escudo. — Que? — fui surpreendido com a força com a qual o pequeno monstro atacou-me, capaz até de me fazer recuar um passo.
Endireitei-me, pegando a maça que havia comprado naquele dia, minha espada fincada no cadáver de minha última vítima, quando foquei-me em me defender, mas nem por isso consegui responder à subsequente enxurrada de cortes, estocadas e pontapés desferidos pelo pequeno goblin.
— Maldito! Elfo sujo! Desgraçado! — lágrimas escorriam sobre as bochechas do goblin, que me encarava com olhos vidrados e cujas veias viam-se proeminentes em sua testa, dando-lhe um aspecto exageradamente avermelhado ao rosto. — Eu vou vingar o Lama!
Ele deveria ser o tal do Lodo, os dois que trocaram preocupação e cuidado um pelo outro.
— Mas e daí? — de alguma forma, após ver sua família morta, era como se o monstro com metade de meu tamanho, de repente, tivesse sua Força, ou pelo menos sorte, dobrada.
— Raaargh! — o goblin riscava o aço de meu escudo com poder superior àquele de praxe para sua espécie.
Mas enquanto o luto e o desejo de vingança podem ter tido algum efeito psicológico que lhe desbloqueou poder extra, sua visão já limitada de goblin deve ter se afunilado ainda mais: recuando, retesei um galho baixo de árvore com minhas costas, e quando o inimigo colocou-se onde eu queria, saltei para o lado, permitindo o braço da árvore atingir em cheio o monstro na cara.
Não lhe dei um segundo para recuperar-se: me aproximei num único passo e o atingi com todo meu peso com a maça de aço em minha mão direita.
— Wargah! — o monstro urrou, incapaz de pronunciar mais qualquer palavra uma vez que minha arma havia lhe estraçalhado a mandíbula, que então pendia aberta, deslocada e deformada.
Meu segundo ataque o silenciou permanentemente, quando a maça caiu-lhe sobre o cocuruto com força suficiente para afundar-lhe o crânio e forçar seus olhos para fora de suas órbitas com um jato de sangue verde e miolos.
Ofegante, olhei bem ao meu redor, garantindo que não havia mais inimigos próximos.
— Acabou... por agora — suspirando e permitindo que meus batimentos cardíacos retornassem ao normal, me coloquei a recolher minhas armas e equipamentos do chão. E depois, as cabeças dos monstros.
҉
— As más bocas sussurram sobre monstros nas estradas, mestre de guilda Rodrigues, e remanescentes do exército das sombras... — alguém comentou do outro lado da porta, dentro do escritório.
— Já enviei um exército inteiro de aventureiros dos mais experientes para a região, e eu lhe prometo, Barão, as ruas estarão limpas dos bandidos em um piscar de olhos! — Abrindo a porta de seu escritório a fim de escoltar seu visitante até a saída, de costas para mim, continuou: — E quanto a tais rumores sem base e ridículos sobre monstros nas estradas que EU enfeiticei, as mesmas que minha família manteve límpidas por gerações, digo-lhe o que são: rumores sem base e ridículos! — o mestre tomava pose muito confiante e orgulhosa, com peito estufado e mão direita sobre o peito. Seu convidado, porém, prestava pouca atenção ao homem... pois olhava diretamente para mim.
Lentamente, Rodrigues tornou-se para trás e para mim, que carregava cinco cabeças verdes pelos cabelos.
— Uh... Aqui estão as cabeças dos responsáveis pelos ataques na encruzilhada, mestre de guilda.
Minha recompensa foi, praticamente, uma sentença de morte.
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