Desenredo - Capítulo: 3

 Capítulo: 3

 

Chegando em Pé Direito, já familiarizado com suas ruas e os esquemas que trambiqueiros usavam para tirar dinheiro de inocentes, caminhei direto para a sede local guilda dos aventureiros.

— Bom dia. Eu gostaria de me alistar como aventureiro — me apresentei para o balconista da guilda, que me examinou dos pés à cabeça. Naturalmente, eu vestia todo meu equipamento de guerra, que trouxe comigo de meus tempos no exército.

O homem suspirou.

— Veterano, né? Temos um excesso de vocês no momento, então o pagamento é ruim e a taxa de inscrição é alta.

— Eu tenho o dinheiro — depositei um saco pesado com pequenos círculos de prata sobre o balcão, esculturas do sol cujo número de raios solares representava seu valor. Eu poderia não ter o suficiente para comprar um terreno ou casa, mas era mais do que o suficiente para me submeter a uma guilda.

O balconista contou as moedas rapidamente.

— Nome, Nível e Atributos, por favor. E caso tenha alguma Habilidade ou Feitiço raro, mencionar também.

 Haicard, de Caminho Errado. Nível: 9, Força: 8, Percepção: 8, Ocultismo: 4. Sem nada raro.

Enquanto o balconista anotava minhas informações numa folha, eu olhei ao meu redor e para o grupo de fanfarrões à disposição no hall de entrada do prédio, lendo as tarefas escritas a giz nos quadros pendurados na parede.

Aventureiros: mercenários que especializavam-se no extermínio de monstros e trabalhavam através de uma série de guildas regionais, organizados por hierarquias mais ou menos bem estruturadas. Por vezes, as forças da Liga Sacra juntavam-se com a das diversas guildas de aventureiros, mas eles não eram realmente famosos por seu trabalho em equipe, então limitavam-se a operações isoladas compostas por equipes pequenas ou conjuntos de equipes pequenas, geralmente tais profissionais optando por trabalhos de menor significância e particulares.

— Vai querer incluir um seguro de vida? Deixar um pé de meia para a família caso você morra em trabalho?

— Qual a taxa para isso?

— 10%.

— Essa taxa é descontada dos lucros da guilda?

— Haha! É claro que não!

— Então não vou querer — eles entenderiam.

Uma vez que era custoso manter um exército permanente, e dificilmente os nobres, com exceção daqueles especialmente empobrecidos, “rebaixavam-se” a lidar com tormentos “negligenciáveis” do povo comum, aventureiros ocupavam um nicho necessário na sociedade. Com ou sem Rei das Sombras, afinal, monstros continuavam a ser gerados no mundo todo, sem um fim para seus números.

— Feito. Aqui está sua identificação; não perca ela, pois há uma taxa para refazê-la.

— É claro que há — peguei um frágil pedaço de papel que servia como carta de apresentação e guardei-o dentro de um cilindro de bambu que eu havia preparado previamente, já sabendo bem como aquilo funcionava. — Aventureiro noviço-menor? — eu esperava qualquer classificação que não a mais baixa possível.

— Você precisa ter pelo menos um ano de trabalho como aventureiro para ser promovido. Devido ao seu Nível, você vai poder pular uma classificação e ir direto para a classificação de “aventureiro hábil”, mas é claro, a taxa para isso é maior do que se você seguisse a ordem normal de promoções. Agora, sinta-se livre para pegar qualquer serviço disponível para noviço-menores. A taxa da guilda é de 30%.

Com tudo acertado, segui para os quadros negros que exibiam as missões disponíveis.

Nem um pouco surpreendentemente, a maioria delas não me era disponível devido à minha posição baixa dentro da hierarquia da organização. Apesar das guildas de cada região e país serem independentes umas das outras, graças aos esforços da Sacra Igreja, que precisava saber quais os níveis médios dos aventureiros a fim de encaixá-los nas estratégias contra as forças das sombras, todas seguiam mais ou menos o mesmo padrão de classificação de seus membros, a hierarquia sendo, da menor posição para a maior: noviço-menor, noviço, hábil, perito e especial.

— Proteger um aprendiz de Alquimista na coleta de ingredientes parece bom o suficiente, eu acho — mentalmente anotei o número da missão e me coloquei em fila para assumi-la.

Claro, eu não esperava realmente jamais alcançar a posição de Aventureiro Especial.

Aventureiros que alcançaram a posição de Especial dentro de suas guildas eram incrivelmente famosos e especialmente talentosos. Apenas dois indivíduos ocupavam tais posições, e eles deveriam ser alguns daqueles que mais se aproximavam do Herói e os Heroicos, fora o diretor da Academia de Magia Real do Sagrado Reino de Fanon, que já foi um Heroico ele mesmo, e eles eram: Borges Mão Pesada, um pugilista capaz de esmagar o crânio de uma amphisbaena com um único soco, e Cornélio Turbarão, supostamente um Ladino de elite responsável por desmantelar múltiplas organizações criminosas. Apesar do status praticamente lendário deste duo, em momento algum a Liga Sara foi capaz de convencê-los (muito menos força-los) a se juntarem à guerra sacra, o que me fazia assumir que eles provavelmente haviam usado parte de seu poder a fim de fazer contatos importantes dentre membros do alto escalão das organizações mais influentes de Álfheim.

— Confirmado. Vamos contatar o aprendiz de Alquimista amanhã, então esteja frente ao portão da cidade ao amanhecer — o balconista disse ao mesmo tempo que uma nova janela do sistema me notificava que eu havia aceito uma Missão. — Na saída, apague a atividade que você escolheu do quadro negro, por favor.

҉   

— Rael? — Perguntei ao rapazote carregando uma larga cesta nas costas, que se aproximava baforando as próprias mãos.

— Opa, isso mesmo. Você é o aventureiro que vai me escoltar hoje?

— Isso mesmo. Por favor, aponte o caminho.

— Por aqui — saímos da estrada imediatamente, tomando o caminho mais rápido até a floresta próxima. — Não tá com frio não?

— Ah, bem, está um pouquinho frio sim — há quatro anos atrás eu deveria estar esfregando meus braços, todo encolhido como aquele aprendiz, mas Força aumentava sua resistência geral, incluindo a mudanças de temperaturas. — Eu não sabia que agora mestres contratavam escoltas para seus aprendizes durante a coleta de ingredientes.

— Ah, eles não o fazem. Tive que tirar o dinheiro para te pagar do meu próprio bolso.

— E você ganha bem assim, é?

— Haha! Não mesmo. Tive que usar as reservas que eu vinha montando com tanto esforço para isso.

— Mas, por que?

— Porque os últimos três aprendizes que foram enviados para coletar a porra desses cogumelos para meu mestre foram todos estraçalhados! — Rael estalou a língua. — E o babaca se recusou a me dar ouvidos, não importa o que eu sugeria, não quis comprar os cogumelos em vez de coletá-los, nem me ajudar um pouco com dinheiro para a escolta.

Aquilo não era bom. Nem um pouco. Por um momento, eu pensei que seria uma Missão fácil e nada memorável...

— Ele é pobre, sabe? Um Alquimista que vende para pessoas comuns e lojinhas, não um desses famosões que produzem poções de cura para nobres e tal, então entendo não poder comprar os cogumelos. Mas minha vida tá em risco aqui, caramba! — Rael coçou o cocuruto, frustrado. — Porra, nem dá pra acreditar que ele é meu tio... Se meu pai não tivesse sumido quando tentou apresentar sua descoberta para os Historiadores...

— Você disse que os últimos aprendizes foram “estraçalhados”. Você sabe o que aconteceu com eles?

— Os guardas acham que um monstro foi gerado na floresta. Mas se recusam a montar uma equipe de extermínio porque quase ninguém visita a floresta, já que a caça e a lenha nela pertence aos nobres locais, e estes têm lugares melhores para caçar. Resumindo, ninguém além de nós, pequenos Alquimistas, adentra nela, e isso por causa daquele decreto... Ah é, você não deve conhecer o decreto. Basicamente, nobres são forçados a permitir a coleta de itens medicinais em suas reservas. O Herói Cruz, da última geração, foi um plebeu até sacar a espada sagrada da pedra, então ele conhecia bem as dificuldades do povo. Um homem bom.

— Entendi... E você não saberia que tipo de monstro foi gerado, não é?

— Algo com garras e dentes, a julgar pelo estado em que os corpos foram encontrados — aquilo podia apontar para qualquer monstro, praticamente.

— Olha, fica perto de mim durante esta coleta.

— Haha, não precisa nem dizer, foi por isso mesmo que eu te contratei!

Continuamos seguindo em direção à floresta, mas então eu permaneci em silêncio e prestando atenção aos meus arredores.

҉   

Eu tinha minha espada em mãos, já desembainhada, e completava um giro de 360 graus a cada vez que contava até 100, observando todas as direções ao redor do tronco caído no qual cresciam os cogumelos que Rael coletava.

— ...Então, qual seu Nível mesmo? — Rael perguntou, arrancando um fungo da madeira apodrecida.

— Nove.

— Nove?! Isso não é, tipo, super alto?!

— Meh, está na média para veteranos do exército. Conheci até algumas pessoas que chegaram ao Nível: 12, de certa forma, estou dentre os mais fracos dentre meus colegas.

— Wow. Nem consigo imaginar essa força. Deve ser da hora.

— É, não posso dizer que não é. Faz anos que não sofro uma mordida de mosquito, eles não conseguem mais furar minha pele.

— Que?! Isso é incrível! Deu até vontade de sair por aí, matar uns monstros e subir de Nível só por causa disso — rimos. — Então, qual sua história?

— Não é muito interessante, infelizmente.

— Qual é. Ninguém que fica forte assim tem uma história desinteressante.

— Bem... — parando para pensar, eu não podia realmente contradizer a declaração. — Eu não sou realmente muito forte. Tem uns bons milhares de caras por aí nesse mesmo patamar, que são tão entediantes quanto eu — eu não mentia, mas também não falava a verdade por completo, afinal, para cada um de nós sortudos, havia uns três daquelas pessoas que pareciam predestinadas a algum tipo de grandeza.

Talvez eu pudesse falar sobre como Julia colocou meu corpo quebrado dentro de um elevador de comida e me baixou para longe do perigo de uma explosão causada por goblins quando estes tentaram usar vários tomos de fogo de uma vez mesmo sem ter nenhuma aptidão à magia, minha namorada da época pagando o preço disso com a própria vida quando eu ainda era inexperiente, mas aquilo era a história dela, não a minha.

— Sei. Bem, a minha história é-

— Shh! — pressionei meu dedo indicador contra os lábios, silenciando o aprendiz de Alquimista.

Havia algo na mata.

— Pressione suas costas contra aquela árvore! Rápido! — gritei, apontando.

Rael me obedeceu com pressa e sem reclamar, e eu me coloquei em frente ao coletor de cogumelos.

— O-Onde está a coisa?

— Naquela direção — eu não via nada por trás da mata densa, uma vez que, por mais que minha visão tivesse sido aprimorada, não é como se eu pudesse enxergar através de objetos sólidos. Eu podia, porém, sentir o bafo azedo da criatura.

E esta revelou-se logo em seguida, entendendo que havia perdido a chance de um ataque surpresa: era uma onça-lagarto, monstro quadrúpede que fazia jus ao nome autoexplicativo.

— E-Eu não tinha ouvido nada...! — Rael balbuciou por entre dentes batendo.

Aquilo não era uma surpresa. Mesmo aqueles com Atributos altos teriam dificuldades em detectar os movimentos de uma criatura como aquela em seu habitat natural. Eu mesmo só havia sido capaz de notá-la porque, enquanto aquele monstro tinha uma mordida capaz de perfurar qualquer armadura de couro ou lã, ele tinha dificuldades em abrir sua mandíbula, logo, andava com a bocarra aberta enquanto cercando sua presa, exalando fedor de morte.

— V-Você consegue matar aquilo, né?

— ...

— NÉ?!

— WAARGH! — a onça-lagarto investiu em nossa direção, mas mantive os pés pregados no chão e o monstro logo parou, fora do alcance de minha lâmina. Testava-me.

Não havia dúvidas de que se eu removesse mesmo que apenas uma mão de minha espada a fim de pegar um de meus equipamentos auxiliares, a criatura avançaria e me sobrecarregaria o braço da espada.

— Não vai atacar, é? — o maldito monstro era provido de inteligência o suficiente para nos rodear sem saltar sobre mim despreocupadamente.

— Não podemos ficar aqui o dia todo! V-Vai lá, o monstro está logo alí! Você está no Nível: 9, corte seus membros fora e faça picadinho dessa coisa! Honre sua posição, homem!

Suspirei.

Eu já havia sido ingênuo daquela forma quanto à mera fração de poder que eu havia obtido, mas isso não significava que então era menos incômodo ter de lidar com tais suposições.

Mas em uma coisa o jovem aprendiz de Alquimista tinha razão: não podíamos ficar ali o dia todo, pois uma vez que as sombras da noite caíssem, a onça-lagarto teria vantagem avassaladora sobre nós com sua visão noturna.

Desse modo, saltei à frente, desferindo um golpe diagonal contra meu inimigo.

— Wargh! — a onça-lagarto desviou-se de minha lâmina, ágil.

Mas não da sequência seguinte, pois quando o metal tocou no chão, imediatamente empurrei-o na direção da criatura, atirando terra, pedras e folhagem morta contra sua face e cegando-a.

A onça-lagarto recuou ao mesmo tempo que arranhava o ar à sua frente com suas temíveis garras. Mas, por experiência, eu sabia bem o quanto Percepção era necessária para sobrevivência: com um único movimento, decepei quatro dedos da pata direita do monstro, que encolheu-se, berrando, para longe da fonte de dor, chorando a sujeira para fora de seus olhos.

Mas já era tarde, e eu vinha do lado oposto pelo qual lhe cortei antes.

“Swush!”, minha espada assoviou logo antes de silenciar-se, e consigo o monstro berrante, cortando-lhe a espinha.

— Porra... Você não podia ter acabado com isso mais rápido? Atirado uma magia da sua espada ou algo? Eu não vou te pagar mais só porque essa coisa me deu um susto, hein.

— O cadáver da onça-lagarto pertence à Guilda de Aventureiros —  ignorei o aprendiz desinformado, reivindicando o corpo da criatura. Infelizmente, eu tinha direito a apenas 20% dos lucros sobre a carcaça. — Termine de recolher seus cogumelos e vamos voltar logo. Podem haver mais monstros pelas redondezas.

Enquanto Rael voltava ao trabalho, me coloquei a limpar o corpo do monstro para facilitar o transporte.

E assim terminou-se meu primeiro dia como aventureiro.

Dali em diante, os anos mesclaram-se uns nos outros, com centenas de Missões não tão dissimilares.

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