Capítulo: 29
Doía tanto, que eu parei de experienciar a dor em primeira mão, e foi como se eu fosse um mero expectador de minha própria brutal execução.
— Por que você não calou a porra da boca e ficou satisfeito?!
Aquilo já estava ridículo de apelativo, qual era a graça de acompanhar a vida daquele cara? O coitado do Rei das Sombras que ele enfrentou na última guerra sacra jamais teve chance alguma.
— Eu tinha tudo aqui! Tudo! Tudo!
Depois que eu descartei minha imagem, depois que eu vesti uma armadura que jamais me permitiria tirá-la, depois que eu traí meus amigos, depois que eu sujei minhas mãos com tanto sangue que nem mesmo eu seria capaz de me perdoar, depois de tudo isso, eu ainda não tinha poder o suficiente para derrotar o protagonista daquela brincadeira sem graça? Depois de todo o sofrimento alheio que causei, eu falharia em mudar qualquer coisa? Tudo voltaria a ser como antes? Haveriam tantos mais garotos idiotas se alistando no exército para deixar para trás sua vida horrível numa fazenda miserável? Haveriam tantos mais Maicons, tantos mais Conrads, e Corujas?
— Você acabou com tudo.
Não, eu não tinha o direito de me fazer de vítima. Não depois de tudo o que fiz. Se eu não havia alcançado meus objetivos, realizado as conquistas que prometi à Cruz, Celestino e Vincente, era porque eu não havia sacrificado o suficiente.
— E agora eu vou acabar com você — Verônico baixou sua lâmina alva em meu peito, perfurando minha armadura com facilidade e perfurando meu coração.
Foi difícil me lembrar das palavras enquanto meu cérebro rapidamente deteriorava-se, mas devido às injeções automáticas projetadas pelos necromantes fazendo sei lá o que comigo no interior de meu elmo, e devido aos meus Atributos fortalecidos por todas as minhas preparações para aquela batalha, me vi consciente o suficiente para pensar numa última frase:
— Eu sacrifico. Toda a minha vida, menos dez- não, um minuto.
E o mar de lava que Verônico havia secado com seus punhos nos lavou mais uma vez.
Emergimos dele comigo puxando o braço do Herói terminado em lâmina para fora de meu peito, enquanto minha pele rapidamente era consumida por chamas que queimavam de dentro para fora e ainda mais quente que o mar de lava ao nosso redor: meu corpo desnudo havia passado por transformação semelhante à de Verônico, porém eu mais parecia um cadáver carbonizado, com rachaduras incandescentes por sobre toda minha superfície, com chifres brotando de minha cabeça, espinhos de minha coluna, e partes metálicas de tecnologia antiga substituindo meus olhos e antebraços, meus equipamentos e corpo não apenas tendo se fundido, mas sido modificados pelas esquecidas divindades humanas da guerra.
— Maldito, quantas vezes vou ter que estragar seus planos?! — Verônico me socou no rosto, me atirando com força de volta ao mar de lava.
Mas daquela vez, não fiquei caído: apontei um punho ao Herói, e o instrumento metálico fixado no meu antebraço esquerdo disparou dez mil vezes contra meu alvo no ar, as balas produzidas de pequenas frações de meu próprio esqueleto.
Os projéteis arrancaram placas ósseas do peito e membros de meu inimigo, rapidamente desprovendo-o de sua proteção recém-adquirida e tirando-lhe sangue.
— Morra de uma vez! — apontou a espada óssea em minha direção e emanou uma Habilidade de corte, mas respondi a esta com uma emissão tão poderosa quanto, vinda das próteses que haviam substituído meus olhos, anulando o ataque.
Logo que meu alvo percebeu que não tinha vantagens no combate à distância, desceu sobre mim mais uma vez com sua arma fundida ao corpo, brandindo-a contra mim.
E por vez, respondi com Epílogo, então também uma com meu braço; raios saltaram de uma lâmina para outra e ao chão, e o impacto das duas armas espalhou a rocha derretida ao nosso redor para longe e cavou uma cratera sob nossos pés.
Numa fração de segundo, trocamos milhares de golpes, perfurando, talhando e triturando o corpo um do outro; perdi parte da mandíbula e minhas entranhas caíram para fora de meu abdômen retalhado, ao mesmo tempo que meu inimigo teve dois terços das placas ósseas que lhe protegiam arrancadas, ficando com seus músculos completamente expostos, e seu braço esquerdo foi removido, fatiado em dezenove partes.
— Raargh! — Verônico cravou sua espada no meu abdômen esvaziado e me ergueu às alturas, nos tirando das profundezas do abismo flamejante resultante da ativação de minha armadilha e nos erguendo até o topo da torre metálica de onde saímos, onde ele me pregou.
Disparos do instrumento no meu antebraço esquerdo carcomeram a parte frontal de seu crânio, expondo a massa cinzenta sob este, o forçaram a recuar, e no instante seguinte, nos atracamos com golpes de espada mais uma vez enquanto raios choviam sobre nós dois, evaporando o sangue de Verônico e fazendo seu cérebro exalar nuvens de vapor.
Mais energia corria por minhas veias inflamadas do que eu jamais poderia imaginar sequer existir naquele mundo, as gotas de chuva ao nosso redor pareciam literalmente paradas no tempo de tão rápido que meu inimigo e eu nos movíamos, meus implantes oculares podiam enxergar através de todos os sólidos, e contar cada grão de areia em uma praia a semanas de marcha de distância dali, e eu sabia que cada balançar de minha lâmina podia fender montanhas. O Sistema falhava em calcular o resultado de magia antiga, mas eu não tinha dúvida de que se fosse capaz de quantificar aquele poder, meus Atributos se encontrariam próximos do número mil.
— Por que?!
— ...Porque eu não estava achando graça nenhuma em sua brincadeira, Verônico — respondi com o que restava de minha mandíbula.
Mas aquilo tinha um preço, e mesmo que apenas pouco mais que vinte segundos houvessem se passado desde meu sacrifício, meu corpo deteriorou-se mais rapidamente que o previsto, minha casca mortal não suportando a enchente de poder divino, e repentinamente minha perna direita partiu-se e separou-se de meu corpo, espatifando-se como um pedaço de carvão no teto da torre.
E o titubear que o desmembramento me provocou foi o suficiente para ter meu peito trespassado uma segunda vez, com Verônico me carregando ainda mais alto, ao próprio coração da tempestade alquímica, onde o próprio ar era hostil e corria nossa pele.
— Não existe mundo mais justo que esse, isso eu te prometo.
— Para você é fácil falar isso... — minha perna esquerda desprendeu-se de minha cintura e caiu escuridão abaixo, desfeita em pó por um raio.
— Você só precisava ter seguido o enredo, Haicard — Verônico cochichou em meu ouvido.
— Nhom! — lhe mordi entre o pescoço e o ombro.
E ao invés de lascar meu esqueleto microscopicamente para produzir milhares de balas para minha arma de longo alcance, o fragmentei por inteiro e todo de uma vez.
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