Capítulo: 27
Potencializado pelos itens que eu usava, pelas almas sacrificadas de seiscentas mil pessoas, e pelo sacrifício de meus amigos, os Heroicos Caídos, eu era finalmente capaz de utilizar dos poderes de um verdadeiro Rei das Sombras em sua totalidade: submergi em minha própria sombra, e emergi de novo às costas de Verônico, pronto para cortar-lhe ao meio, sem dar tempo para aquele absurdo de indivíduo processar a morte de seu mais próximo camarada.
— S-Sopro da Vida! — o Herói usou de uma Habilidade bem a tempo de empurrar a Ladina de seu grupo para longe, quando minha espada surgiu de sua sombra. — Mariah, ajude Saulo agora mesmo! Landa, proteja Mariah! — Verônico ordenou os sobreviventes enquanto direcionando a ponta de sua espada para mim.
Até onde eu sabia, não havia Feitiços de ressurreição, mas eu não podia arriscar, especialmente quando havia a possibilidade dos companheiros de Verônico se sacrificarem na espada dele a fim de fortalece-lo. Quando considerando que aquela fração isolada do mundo girava ao redor daqueles com o maior Potencial, e que o Herói era literalmente Único neste aspecto, era claro o que eu deveria fazer: lidar com os peixes pequenos, garantindo que este não ganharia mais nenhum novo Nível.
— Estouro Fotônico! — Verônico atirou um projétil de energia branca contra mim a partir da ponta de sua espada.
Em resposta, as ventoinhas em minha armadura exalaram vapor, as partes mecânicas de minha proteção retesaram-se, e eu esquivei do ataque, meu poder muitas vezes multiplicado pelos equipamentos que eu vestia e os rituais que eu executara, ainda que essa capacidade não fosse contabilizada pelo Sistema.
— Buargh! — Verônico golfou quando minha manopla amassou sua proteção abdominal como uma folha seca de outono, e o atirei contra os degraus da escada.
Com um único passo, alcancei a Ladina e a Curandeira, e dando continuidade a este movimento, brandi minha espada contra elas.
— Amanhecer! — Mariah produziu um clarão de luz solar tão forte que rompeu a escuridão dentro do elmo que eu vestia e me cegou por um instante.
Quando abri os olhos de novo, Landa já havia carregado Mariah para longe, e apesar da Curandeira ofegar e segurar a própria barriga, nenhuma das mulheres se mostrava ferida.
Aquilo era estranho, Mariah não deveria ser capaz de produzir magia forte o suficiente para ter qualquer efeito em mim enquanto eu vestisse aquela armadura profana.
— Hargh! — Verônico atacou com um corte horizontal, mas o bloqueei com minha própria espada.
— Terceiro Olho Maligno — encarando o Herói, conjurei um feitiço imbuído em meu elmo, não tão diferente do mutante que derrotei meses antes, emiti um par de raios de energia concentrada, estes, porém, de cor vermelha.
Meu oponente reagiu rápido e saltou para trás, não apenas evitando o ataque, mas protegendo sua equipe deste também; Verônico resistia contra os raios vermelhos que eu olhava com o lado plano de sua espada.
— M-Mariah!
Havia algo de errado. Eu não sabia exatamente o que era, mas havia algo de errado.
— Eu estou bem, Verônico. Concentre-se em derrotá-lo!
Sim, havia algo de errado com a Curandeira. Seu Feitiço especialmente poderoso de antes, e os olhares que aqueles dois trocavam...
— E quanto a Saulo? — Verônico perguntou uma vez que os raios vermelhos desvaneceram, todo o dano que havia causado consistindo-se de um par de mãos queimadas, as manoplas de Verônico tendo derretido ao redor de sua pele.
— Verônico... Ele está morto. Eu não posso trazê-lo de volta à vida.
— Kurgh. — meu alvo trincou os dentes, veias pulsando visíveis em sua testa e têmporas por sob o elmo intrincado. — Haicard...! — disparou em minha direção, urrando e carregando sua lâmina de magia.
— Ah, eu entendo agora — comentei quando Verônico já estava a apenas um passo de distância.
Antes que Alvorada me tocasse, porém, Epílogo mordeu o ombro do Herói, arrancando-lhe o braço direito inteiro de uma vez só, atirando-o para longe, até a parede oposta, jorrando sangue por sobre todo o piso do patamar.
— Aaaaargh! — Verônico berrou, segurando o próprio cotoco de braço.
Porém, silenciou-se rapidamente quando continuei:
— Ela está grávida, não é? — meu inimigo empalideceu-se, e não por falta de sangue.
O significativo aumento de poder, a maior intimidade. Sinais de aumento de Potencial, mais especificamente de forma romântica, um clássico.
De repente, senti como se minhas chances de vitória tivessem caído pela metade. Não era difícil de se imaginar que a mulher favorecida desenvolveria um Feitiço de ressurreição ou alguma besteira assim.
— N-Não se atreva, seu desgraçado — Verônico mais implorou do que ameaçou, cauterizando o próprio ferimento com sua magia.
E por um momento, senti pena. Empatia. O homem perante mim não era mais a entidade alienígena e incompreensível e inalcançável que eu sempre observei de tão longe. Não, Verônico quebrou o próprio molde há muito tempo. Mas eu também.
— ...O que é apenas mais um pecado para alguém cuja alma já está prometida ao Inferno?
Apontei minha espada-espingarda na direção da Curandeira, e puxei o gatilho.
— NÃO! — Verônico cobriu-se por inteiro num excesso de aura áurea e moveu-se mais rápido que o vento, cada um de seus passos deixando uma pegada de chamas no chão.
E ainda assim falhou em alcançar a própria amante.
Quem o fez primeiro foi sua companheira, Landa, que empurrou Mariah para o lado e tomou o lugar desta sob a mira de minha arma.
O disparo partiu o corpo da magra Ladina em dois, seu torso rolando escadaria abaixo enquanto esparramando suas entranhas e sangue por sobre todo o chão.
— LANDA! — Verônico parou ao lado de sua companheira, segurando sua metade superior delicadamente com um único braço. — Não, não, não...!
— Eu... Guh! T-Te... a... — a Ladina tentou resmungar uma última mensagem, mas a luz de seus olhos esvaiu-se antes que conseguisse pronunciar qualquer coisa.
— HAICA- — Verônico tornou-se para mim mais uma vez, ainda mais cheio de ira que antes.
Mas eu já tinha sua amante trespassada por minha lâmina, a desproporcionalmente grande espada atravessando o peito e abdômen da mulher e a erguendo no ar.
Eu não estava sendo manipulado a fim de dar espaço para Verônico ter comoventes adeuses, e não perdi tempo em perseguir Mariah enquanto este se distraiu com o cadáver de Landa.
E eu não esperaria pelo Herói para fazer impactantes promessas de vingança: atirei o corpo da Curandeira para longe e saltei na direção de meu inimigo e meu objetivo principal, brandindo Epílogo certeira contra o pescoço de Verônico.
— Ah, isso é tão melhor do que eu esperava — comentou a última voz que eu queria ouvir naquele momento, me provocando calafrios na espinha.
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