Desenredo - Capítulo: 26

 Capítulo: 26

 

Meu campeão carregou sua lâmina com cintilância pálida e mirou seu corte no pescoço de seu inimigo, mas sua espada sagrada cruzou a arma profana do Herói Caído, que retribuiu com equivalência, luz e sombra chocaram-se, nenhuma delas cedendo tão fácil.

Verônico brandiu sua espada num semicírculo horizontal, e quando Cruz recuou, o rastro de energia deixado para trás pela lâmina de Alvorada tomou a forma de uma dezena de espadas de luz, e atiraram-se contra o Herói Caído.

Por sua vez, a sombra de Cruz deixou o chão da torre e destruiu os projéteis enquanto a verdadeira mão direita do rebeldezinho contra-atacava com uma estocada, estendendo a silhueta negra de Fende Forte com magia, por sua vez forçando Verônico a recuar.

— Magna Gilhotina — Celestino conjurou, apontado para o Herói, e fazendo aparecer um instrumento de execução bem sobre este.

— Bherǵsōr Racha — respondeu Saulo, fazendo o constructo mágico em estilhaços. — Bherǵsōr Saraivada — atirou-os em alta velocidade contra Cruz.

— Rebater! — Vincente surgiu frente ao amigo numa explosão de sombras e com o plano de suas adagas, reorientou cada uma das milhares de farpas na direção do líder da equipe Heroica.

— Ajoelhem-se! — Verônico usou uma Habilidade imperial sem tirar os olhos de seu oponente, e as farpas todas caíram ao chão e lá ficaram. — Coração de Ouro Branco — usou outra, e fez o coração bater num ritmo hipnótico e desorientador para todos os inimigos que o ouvissem.

— Peso do Mundo — respondeu Cruz, anulando os efeitos hipnóticos com poder equivalente.

— Roubar! — Landa apontou uma mão na direção de Cruz, e enquanto falhou em tirar-lhe a espada da mão com a Habilidade, roubou-lhe uma bota, o desbalanceando apenas um pouco, mas o suficiente para colocar seu companheiro em vantagem.

— ALVORA-

— Silêncio! — Celestino impediu o Herói.

— Bherǵsōr Quebra de Silêncio.

Numa estrutura inteiramente de metal divino, os ataques de Verônico e Cruz, e muito menos dos demais, não alteravam o ambiente significativamente, e cercados por um mar de lava no exterior, os dois grupos trocavam Feitiços e Habilidades de alto grau num espaço que era pouco mais que um patamar de escadaria, interferindo uns com os outros, sem passar um único segundo sem que todos se vissem presos num labirinto de morte de sua própria criação.

Landa saltou por entre os milhares de raios cortantes de uma estrela azul conjurada por Celestino, Vincente deslizou por sob uma hidra de chamas conjurada por Saulo, e ambos os Magos protegiam-se com pura força bruta, seus escudos parte absorvendo, parte refletindo tudo o que contra eles era disparado, e no meio disso tudo, sem nunca tirar os olhos um do outro, sem sequer piscarem, evitando os ataques direcionados contra eles com tamanha graça que pareciam estar bailando em par ao longo do campo de batalha, Cruz e Verônico trocavam estocadas, cortes, fintas e empurrões. Cada vez que as energias opostas de luz e sombras se encontravam, repeliam-se e perigosamente chispavam em direções aleatórias, pintando mesmo o metal divino de um tom alaranjado escuro, elevando sua temperatura acima mesmo daquela do mar de lava abaixo.

— Por quê?! — questionou Verônico. — Deixar sua família, trair a própria espécie, se juntar às sombras... Por quê?! — insistiu, mas Cruz pôde apenas franzir o cenho mais profundamente.

A verdade era que o Herói Caído não sabia como explicar-se, os discursos que eu fazia virem tão naturalmente à sua boca não mais lhe supriam-no. E o que ele poderia dizer, em verdade? Que lutava contra uma divindade que o Herói desconhecia, que tudo o que Verônico viveu não passou de um roteiro genérico para me entreter minimamente?

— Por que foi a minha decisão — respondeu Cruz, enfim.

— Por um motivo besta desses você abandonou Criscina?

— Você não está falando sobre si mesmo, garoto? — sorriu, tentando não transparecer o desprezo por si mesmo.

— Seu...!

Meu campeão atual e seu predecessor cessaram a conversa e deixaram suas armas falarem por si, mas uma outra dupla ali não havia terminado de pôr o papo em dia:

— ...Essa expressão zangada não combina com você, jovem. — Celestino, sem mais motivos para vesti-la, tirou a máscara de bode.

— Cale-se. Nunca mais se atreva a sequer pretender que sabe qualquer coisa sobre mim.

Ambos os magos atiravam projéteis, conjuravam monstros e animais elementais, e produziam todo tipo de criativas formas fantásticas de assassinato, recebendo tudo em cheio em seus escudos, desviando apenas dos clarões de energia produzidos pelos espadachins.

— Saulo- — Celestino abriu a boca, mas fechou-a logo em seguida. Odiava lutar contra seu pupilo, mas não podia pedir desculpas, não tinha esse direito, não quando, mesmo se Saulo parasse seus ataques e implorasse para que Celestino fizesse o mesmo e reconsiderasse suas ações, o Heroico Caído não mudaria sua resposta. — Me mostre como você cresceu. Eu, certamente, não vou me conter. O Herói morrerá hoje. Desastre de Morte.

— Seu velho traidor! Bherǵsōr Aniquilação Total!

Tempestades de todos os elementos colidiram-se, e bem entre todos os raios, entre cada gota de lava, surfando as estalagmites de gelo, e saltando piruetas por sobre os projéteis perdidos de Cruz e Verônico, um par de Ladinos encarava-se enquanto guiando suas adagas aos órgãos vitais um do outro, uma séria, o outro com um sorriso sem jeito no rosto.

— Parece que somos os únicos aqui que não têm um passado juntos. Isso é um pouco embaraçoso — Vincente comentou atirando uma centena de cortes contra o pescoço de Landa.

— Verdade. Por que você não me coloca no seu testamento? Assim, quando você morrer, eu prometo fingir que tínhamos algo em especial também — respondeu a Ladina Heroica com um meio sorriso.

— Interesseira.

— Interesseira? Você fala como se tivesse algo pelo qual me interessar em você. Nem sei por que o diretor da mais famosa academia de magia e o antigo rei andam com você, seu pé-rapado zé-ninguém.

— Que!? Eu sou rico e famoso também, tá bom?!

O combate perdurava, mas não progredia, nenhum dos lados fazendo qualquer avanço significativo em direção à vitória. Quando alguém sofria um pequeno arranhão ou lesão, seus oponentes logo também viam-se no mesmo estado. Quando um atacante cometia um deslize, seus aliados logo cobriam as brechas em sua defesa. Empoderados pelo sacrifício de centenas de milhares de pessoas, os velhos conseguiam mostrar-se uma força equiparável à dos demais.

Sim, era uma batalha de iguais, e qualquer distúrbio poderia drasticamente mudar a balança do destino. Distúrbio como uma aura dourada que envolveu todos os Heroicos, curou os pequenos ferimentos que lhes assolavam, restaurou seu fôlego perdido, e até reparou seus equipamentos danificados:

— Glória Celestial — Mariah conjurou da retaguarda.

Distúrbio como a presença de um quarto membro.

— Matem-na — Cruz instruiu.

— Protejam-na — Verônico respondeu, e os velhos Caídos falharam em obedecer a seu líder e amigo.

Pouco a pouco, arranhão após arranhão, picadura após picadura, segundo após segundo, os aliados do rebeldezinho perdiam o ímpeto, cansavam-se, acumulavam mais ferimentos, seus movimentos atrasavam-se em microssegundos para cada instante que a batalha prosseguia, e os ataques de raspão passaram a golpes em cheio, pele partida evoluiu para lacerações severas, unhas quebradas para ossos fragmentados, e logo os Heroicos Caídos viram-se numa situação não muito diferente daquela antes do sacrifício.

— Isso é o suficiente, Mariah. Economize sua energia por agora; Haicard não deu as caras ainda e o maldito pode ter ainda mais uma carta na manga, afinal — Verônico pisou à frente, encarando os oponentes ao pé da escadaria para o ápice do último andar da torre. Torceu o nariz, cheio de desprezo. — Você se engana se pensa que vou permitir que vocês continuem a ser lembrados como salvadores no futuro — apontou a espada para os três velhos que mal conseguiam continuar de pé, e sua lâmina passou a emitir um brilho cada vez mais intenso.

Barulhos pesados de passos metálicos vindos do topo da escadaria, porém, o fizeram conter-se por um segundo; não quis arriscar gastar muita energia em alvos que já estavam praticamente derrotados quando uma nova ameaça surgia.

— Hehe... Você está atrasado — Cruz sorriu sem olhar para trás, para a figura negra muito acima de si.

Com dois metros de altura, uma armadura sinistra de metal, couro e ossos, exalava vapor por ventoinhas nos cotovelos e boca, e empunhava uma espada ainda mais macabra, apoiada no ombro enquanto encarando a cena abaixo.

— Haicard... — Verônico soube instintivamente.

— Desculpe — o rebeldezinho respondeu ao seu amigo, protetor e mão direita.

Quando ergueu a espada, Verônico recuou, incerto do que todos aqueles equipamentos estranhos significavam, a tecnologia exibida evidentemente semelhante ao que o Herói conhecia de sua última vida, bem como as defesas que havia encarado naquela fortaleza, e estas já haviam se provado superiores a qualquer item mágico padrão. Temeu que o Rei das Sombras fosse também um reencarnado, e possessor de poder semelhante ao seu, perguntou-se se não havia se enganado quanto à avaliação de poder de Haicard.

— Me desculpe — repetiu o Rei das Sombras, baixando sua espada no chão, contra a própria sombra, e fazendo esta multiplicar-se, sair da sombra de todos os seus alvos, e perfurar o peito dos três Heroicos Caídos ao mesmo tempo.

— Gah...?! — Cruz arregalou os olhos, gorgolejando sangue, sem entender por que a espada de ossos e metal perfurava-lhe o peito.

— Não...! — Vincente segurou a ponta da espada que perfurava-lhe o tórax, tremendo e empalidecendo.

— Mestre! — Saulo berrou, estendendo a mão na direção do Mago cujos robes manchavam-se de rubro rapidamente, seu coração perfurado e a vida rapidamente esvaindo-se de seus olhos.

— Eu sacrifico.

O velho Mago tentou alcançar seu aprendiz, mas quando Haicard puxou sua espada de volta, trouxe com esta o resto de vida dos Heroicos Caídos; seus cadáveres cederam moles ao chão, e de seu sangue, mãos e cabeças de diabos emergiram para puxarem os corpos para as caldeiras do Inferno.

— MALDITO! — o Potencial de Saulo repentinamente disparou, crescendo exponencialmente conforme a sede de vingança crescia dentro de si. Conjurando uma dezena de Feitiços sem anunciar seus nomes, lançou-se escada acima e sobre Haicard com um ataque pronto.

— Saulo, não! — Verônico tentou impedir o amigo, correndo atrás deste, mas seu tempo de reação havia sido atrasado devido ao choque da cena.

Mas o Mago não era o único ali que fortalecera-se.

“BUM!”, um disparo da espingarda acoplada em Epílogo desfez o crânio e pescoço do Heroico atacante e ainda perfurou a parede de metal divino atrás deste, o corpo de Saulo caindo sem vida nos degraus frente à Haicard.

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