Desenredo - Capítulo: 25

Capítulo: 25

 

— É impressão minha, ou o Herói parece um pouco diferente desde a última vez que o vimos? — Vincente perguntou, preocupado, enquanto observava a figura caolha pela tela que os necromantes haviam ativado antes de partirem.

— Considerando o que ele vem fazendo ultimamente, não é uma surpresa que ele tenha mudado, não é? — respondi, dando de ombros.

— Todos nós mudamos — Celestino complementou.

— ...É. Todos nós — concordei, apertando o cabo de minha espada sagra- digo, profana. — Todos nós — repeti, pensando na macabra armadura negra vazia que esperava no andar superior.

Haicard havia se retirado para seus aposentos quando o imenso exército do Imperador bateu às nossas portas, sem dúvidas com muito sobre o que pensar. Mas eu não duvidava por um segundo sequer que o verdadeiro Rei das Sombras estaria lá, presente e disposto a fazer o que quer que fosse necessário quando a batalha de fato começasse.

E falando em coisas começarem:

— Conjuração confirmada, um Feitiço de larga escala- não, proporções nunca antes vistas está por vir! — anunciou Celestino, como se não acreditasse na própria voz.

Mil círculos mágicos surgiram ao redor de nosso alvo, e de cada um destes, um projétil mágico mais rápido que vento, um batalhão inteiro de espadas de luz branca cortaram o vale de cascalho negro em segundos, e chocaram-se contra a estrutura metálica da fortaleza em enormes explosões alvas, perfeitas esferas do mais puro branco, cegantes até, e sem dúvidas cada uma delas individualmente forte o suficiente para extinguir qualquer um de nossos aliados... incluindo até mesmo a nós.

Felizmente, o metal divino produzido na era de ouro da humanidade não mostrou-se mais estressado pelos ataques do que uma árvore por um chuvisco.

— Estão vindo — confirmando que nem mesmo seus ataques absurdos danificariam aquela estrutura, o Herói gesticulou, e suas linhas de frente puseram-se em movimento. Era só uma questão de tempo até que Verônico alcançasse nossa posição, uma vez que ninguém naquela torre, com exceção de nós, ou Haicard numa situação extremamente específica, tinha quaisquer chances de sequer oferecer qualquer resistência ao homem.

Se apenas tivéssemos tido mais tempo naquela tumba, todos teríamos a chance de vestir equipamentos da mesma qualidade que o conjunto fabricado para Haicard, mas então era tarde; quando deixamos o Inferno, Saulo já havia instalado algum tipo de armadilha mágica no local que exterminaria qualquer indivíduo inferior ao seu próprio Nível, ou alertaria Verônico da presença de indivíduos mais fortes, logo, era inútil enviar subordinados, e se fôssemos nós mesmos, seríamos exterminados pelo Herói. E quando pedimos para Celestino desfazer o Feitiço, este se viu incapaz, falando algo sobre mistura de magias. Não nos restava escolha além de deixar que Haicard vestisse nossa carta na manga, uma vez que se ele morresse, tudo estaria acabado, mas se nós morrêssemos... ele com certeza teria um plano reserva.

— Ele precisava mesmo de um exército desse tamanho? Tipo, o cara sozinho já é problema o suficiente... — Vincente coçou a rala barba grisalha mal feita.

— Apesar de tudo, Verônico é um bom homem e quer evitar o maior número de casualidades possível. Não apenas hoje, mas para sempre. E para isso ele precisa solidificar seu poder em todo o império, mostrar-se imbatível, tornar seu continente-nação sólido e unido como rocha — explicou Celestino, alisando a grande e exuberante barba branca.

— Então ele só quer se exibir?

— Bem, de certa forma, o lado de Verônico é o lugar mais seguro em que alguém poderia estar — adicionei, dando de ombros. — E levando tudo em consideração, disseminando as populações dos grandes centros urbanos pelo interior, forçando-as a cultivarem a terra e extraírem recursos para suportar sua campanha de unificação e a Liga Sacra, ao mesmo tempo que deixando seus soldados longe de Haicard, foi a melhor escolha que ele poderia ter tomado... consciente do que ele fez, ou não — era difícil acreditar que eu era capaz de aceitar as implicações do que eu havia acabado de dizer com tamanha naturalidade. Era o luto falando? Ou determinação?

Percebendo aquele absurdo, mas sem encontrar raiva genuína dentro de mim quanto às decisões que eu havia tomado, apertei o cabo de Fende Forte ainda mais.

— Disparar canhão — ordenei, apertando um botão no painel e enviando minha voz para os operadores da arma lá abaixo.

E no instante seguinte, seis esferas mágicas de cor roxa cruzaram os ares. Verônico e sua equipe Heroica, que encontravam-se muito à frente de seu próprio exército, contra-atacaram os disparos, e os brilhos arroxeados engoliram tudo o que foi disparado contra eles sem dificuldades, em explosões de púrpura intenso.

— Ei, talvez nós daremos sorte, e um desses vai pegar eles? — sugeriu Vincente, cruzando os braços.

Tendo evitado os primeiros disparos e avaliado seu poder destrutivo, porém, Verônico adiantou-se ainda mais rapidamente na direção dos portões da fortaleza, e os próximos ataques falharam em atingi-lo uma vez sequer, nem mesmo os quase novecentos portadores das armas que havíamos saqueado dos corpos dos historiadores, a elite dentre nossos subordinados com a melhor pontaria, mesmo que cada um deles disparasse uma centena de vezes num piscar de olhos.

Em instantes, vimos um vulto branco descendo sobre nossa primeira linha defensora, invadindo a fortaleza pelas mesma falha que Vincente uma vez usara, e reduzindo todos os portadores das armas antigas à mera névoa vermelha, tudo o que era orgânico no interior da muralha sendo tão completamente destruído, que pelo caminho que o Herói fazia não restava nenhum sólido para trás.

— Esquece — Vincente suspirou.

Em segundos, e numa explosão que ouvimos mesmo tão alto na torre, as partes não feitas de metal divino do canhão foram sucateadas por um fluxo de energia branca, e logo o portão principal da fortaleza viu-se aberto.

Por um instante, Verônico observou seu exército aproximando-se, seus homens eufóricos e evidentemente já sentindo o cheiro da vitória, de nossas linhas defensivas violadas. Quando seus companheiros Heroicos finalmente o alcançaram, porém, o Imperador não fez questão de esperar pela infantaria e pelos guerreiros de baixo Nível, tornou-se para a entrada da torre e continuou a avançar, determinado, e com um único objetivo tão fixo em sua mente, que eu podia ver em seu bom olho mesmo através da projeção de baixa qualidade.

— O alvo adentrou a torre. Iniciar Operação Eclipse — instrui, apertando o botão de comunicação no painel, e também ativando outro comando, que fechou as portas da torre atrás de Verônico, bem como o portão principal da muralha.

A batalha prosseguindo exatamente como o Rei das Sombras esperava, o exército sacro aos poucos perdeu o vigor da investida, observando seu convite à vitória desaparecer no interior de uma fortaleza impenetrável em frente aos próprios olhos. Então, elevadores trouxeram uma nova leva de Magos e Arqueiros que guarneceram mais uma vez a fortaleza e assumiram a posição de seus antecessores liquefeitos, ao mesmo tempo que ainda outras passagens secretas espalhadas por todas as montanhas ao redor do vale regurgitaram dezenas de milhares de forças montadas e infantaria às laterais e às costas das forças sacras.

Apesar de seus números muitas vezes superiores, a confusão, o desaparecimento de seu líder e o repentino encurralamento transformaram o massivo exército da Liga Sacra numa turba confusa, assustada e pronta para o massacre.

Na dianteira, Feitiços de todo o tipo congelavam, arrebatavam, partiam, queimavam e empalavam aqueles mais próximos às paredes da fortaleza, e na traseira e laterais das forças invasoras, elfos estocaram lanças e alabardas contra as costas de outros elfos, lebralos chutavam e mordiam soldados sacros, orcs partiam crânios e abriam abdomens, e ogros atiravam seus oponentes para longe com cada sacudir de seus porretes, da mesma forma como um camponês joga feno para lá e para cá com um forcado.

— Daqui em diante, Haicard vai assumir o controle. Vamos — dei as costas aos painéis que transmitiam o derramamento de sangue de pessoas que eu sabia que eram inocentes e tão vítimas de forças superiores como todos os outros, e acompanhado de meus companheiros, subi os últimos degraus da escada até o último patamar, logo antes da sala onde o Rei das Sombras esperava.

Suspirei, mais uma vez sentindo couro da bainha de minha arma.

Me sentei num degrau. Fechei os olhos. Segurei o pingente de meu colar, que continha uma mecha de seu cabelo.

E lá estava ela: Jasmin. Cabelo curtíssimo e dourado como a flor que lhe nomeava, ela tentava tanto parecer durona, apesar de sua aparência de fada. Bela como no primeiro dia em que a vi.

Eu sabia muito bem que seria entregue à família real e me casaria com a Princesa Herdeira, e por isso tentei ao máximo não me aproximar demais daquela Curandeira, mas se minha noiva dizia sim, Jasmin dizia não, se a Princesa requisitava, Jasmin fazia, e muitas vezes me peguei comparando as mulheres e dando créditos à minha companheira de campanha.

Percebi que estava apaixonado quando ela nos presenteou a todos com os colares que usamos por tantas décadas: quando a questionei por que o meu era o único que não tinha um poder especial, ela disse que era para eu ser mais cauteloso, e não sair do lado dela.

Quando finalmente nos recolhemos para aquela casinha no interior, fui mais feliz do que em qualquer outro momento de minha vida, mais feliz do que quando atendi os grandes banquetes organizados em minha homenagem, mais feliz do que quando tive canções e estátuas criadas às minhas glorias. Eu trocaria todas as minhas condecorações por apenas mais um dia recolhendo argila e esculpindo vasos, canecas e tantas outras quinquilharias com ela.

Se bem que eu dificilmente teria outra chance como aquela, mesmo se eu voltasse no tempo.

Sabendo o que eu então sabia, eu me lembrava de inúmeras vezes em que o “destino” me colocou ao lado da Princesa Herdeira, e até quando pensamentos que não me pareciam nem um pouco naturais perduraram em minha mente por semanas, hora repetindo para mim mesmo que eu amava minha noiva, hora que eu tinha um dever como Herói para com o Reino e à realeza. O que quer que tivesse sido responsável pela minha história, por mais desagradável que fosse admitir que eu havia vivido um roteiro em parcial, havia desconsiderado que me garantir as características de “plebeu fazendeiro de gostos simples que odeia política” e “força de vontade inabalável” me tornou não apenas capaz, mas muito propenso a abandonar minha vida no castelo... ainda que somente depois de me casar com uma mulher que não amava devido a pensamentos e sentimentos que nunca foram meus.

Eu deveria ter sido mais presente na vida de Criscina. Se eu estivesse lá, se qualquer um estivesse lá... Eu realmente deveria ter sido um pai melhor, e não havia um único dia em que eu não pensasse isso. Eu deveria, mas ao mesmo tempo, eu temia arruinar a paz que eu havia encontrado para Jasmin e para mim mesmo; a Rainha nutria rancor compreensível por nós dois, afinal. Eu não poderia dizer o quanto daquilo tudo era uma reação natural, e o quanto a punição de uma entidade cruel.

Conceber uma criança com uma mulher que eu era incapaz de amar havia sido meu maior erro e arrependimento.

— Hmph, meu maior arrependimento até agora — resmunguei, abrindo os olhos. Tínhamos visitantes. — Eu sinto muito, Jasmin. Mas eu vou matar com essa espada de novo.

— Rei das Sombras — Verônico disse, me encarando com tamanha frieza que daria inveja a um iceberg. — Onde está o último de vocês? Onde está Haicard?

— Passe por nós, e quem sabe você possa vê-lo — respondi, me levantando e desembainhando Fende Forte.

— ...Pois bem. Eu vou recolher a cabeça de cada um de vocês e adornar meu trono com seus crânios, seus vilões de baixo Nível — Verônico apontou sua espada sagrada em minha direção.

E no instante seguinte:

“Clinck!”, nossas lâminas chocaram-se, faíscas voando em todas as direções, e se eu tivesse respondido apenas um segundo mais tarde, seria o meu sangue que chisparia, ao invés de brasas.

— Mil Farpas! — Celestino conjurou contra a equipe Heroica.

— Bherǵsōr Berço Protetor — respondeu Saulo, conjurando um par de braços azuis semitransparentes que abraçaram a ele e a suas companheiras, e surpreendentemente facilmente bloqueou os espinhos mágicos de meu companheiro, que já vi até tirando a vida de inúmeros monstros de alto Nível. Ele hesitava em enfrentar seu pupilo?

Eu não tinha o privilégio de supervisionar a batalha dos outros, porém: no tempo que leva para um raio tocar o chão, Verônico já havia puxado sua espada para longe e empurrado sua lâmina de volta contra a minha uma dúzia de vezes, muito mais rápido do que a última vez que trocamos golpes.

A cada fração de segundo que se passava, um novo talho surgia em minha pele, a armadura que eu vestia sendo tão dura quanto papel perante à espada sagrada do Herói, imbuída de quantidades colossais de energia que ignoravam mesmo meus Fortalecimentos.

— Tch! — Vincente estalou a língua, rebatendo os golpes de uma centena de tantos quantos clones da Ladina que apoiava Verônico. — Gah! — grunhiu quando um halo de luz, produzido pela Curandeira cegou-o, e permitiu que tantas adagas lhe perfurassem as costelas, costas, pernas e braços, antes que conseguisse recuar com uma explosão de sombras, para próximo ao topo da escadaria que protegíamos.

— Bherǵsōr Força Cadente — conjurou Saulo, e um ataque na forma de uma estrela perseguiu Celestino, perfurou uma dúzia de Feitiços protetores, barreiras conjuradas e Fortalecimentos corporais, e queimou através da barba, pele e gordura de meu velho amigo, atirando-o contra uma parede, gravemente ferido.

— Cele- — quase chamei seu nome, mas um soco envelopado em metal da manopla de meu oponente não apenas me calou, como literalmente me tirou a capacidade de falar permanentemente, destruindo minha máscara, e os dentes e mandíbula e maxila sob esta.

— Eu esperava mais de vocês — o Herói pôs sua lâmina em meu pescoço. — Alvo-

“Plin!”, antes que o golpe final fosse conjurado, porém, a proteção de minha identidade, minha máscara, caiu ao chão, revelando meu rosto ao meu genro.

— Você...?! — Me reconheceu, provavelmente de algum dos muitos retratos do castelo.

— Verônico, acabe logo com ele! — Saulo apressou o amigo, quando as janelas da torre começaram a se abrir, revelando o campo de batalha sangrento lá abaixo, as dezenas de milhares de vítimas que já haviam se empilhado umas sobre as outras.

Mas já era tarde demais:

“BUUUMMMMMM!!!!”, o chão partiu-se, e cascalho, elfos e monstros caíram como um só numa simulação do Inferno; o vale inteiro entrou em erupção uma vez que o combustível usado pelas defesas da fortaleza entrou em combustão, uma explosão tamanha que as labaredas roxas subiram até quase a metade da altura da torre, terremotos abalaram as montanhas, e as paredes íngremes destas desabaram como castelos de areia.

A fumaça resultante da queima dos produtos mágicos misteriosos escureceu o dia e provocou uma tempestade de raios, e quando o chão desapareceu sob a fortaleza, a única coisa que a manteve de pé e acima da lava arroxeada que consumira seiscentos e setenta mil almas foram suas raízes metálicas, os muitos tubos e fios que estendiam-se muito além do vale.

Enquanto a explosão havia tirado o equilíbrio de todo mundo, o estrondo havia completamente destruído meus tímpanos, mas mesmo assim fui capaz de ler os lábios do Herói: “Não... Por que? Por que os outros? Por que não eu?”

— Por que não você? — respondi, enquanto minha mandíbula rapidamente reconstruía-se, fibra muscular e crescimento ósseo refazendo meus órgãos de fala. — Se você sabe quem eu sou, você deveria saber que nós temos boa noção de suas capacidades, do fato de que isso não seria capaz de acabar com você, muito menos agora, em seu auge absoluto — me levantei, o Imperador tendo cambaleado para longe de mim quando a armadilha foi ativada. — Não, essa explosão poderia ser muito melhor aproveitada como um sacrifício.

Eu e meus velhos amigos nos posicionamos lado a lado mais uma vez, fortalecidos pela morte de dois exércitos por completo. Nosso poder recém-adquirido não era contabilizado pelo Sistema, mas mesmo sem quantificação precisa, eu poderia dizer com toda confiança:

— Então, Verônico, você no seu auge, ou eu acima de meu auge? Quem será o Herói mais forte?

— ...Você não é Herói nenhum! — trincando os dentes, Verônico atirou-se contra mim a toda velocidade, mas então eu pude responder à altura.

“Clinck!”, nossas espadas chocaram-se mais uma vez, e o verdadeiro confronto entre duas gerações se deu início.

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