Capítulo: 24
“Os detalhes dos rituais para a conjuração foram perdidos proposital ou acidentalmente, mas de qualquer forma, para o bem, considerando os resultados visíveis hoje em dia.
Uma tempestade eterna e poderosa o suficiente para naufragar qualquer navio ou submarino, para derrubar qualquer avião, helicóptero ou monstro alado, separou as águas do Continente Bélico do resto da Esfera, e o que era apenas uma cordilheira ordinária ampliou-se em escala desproporcional, quase tocando os astros de tão alta. Nos encontramos não apenas isolados e ilhados, mas também zombados e forçados a relembrar do que nos esperava do lado de fora da prisão d’A Grande Vontade, quando esta povoou toda a área ao redor do último bastião de nossa gloriosa espécie com nada menos que os espíritos vingativos de todos os bárbaros já abatidos por nossas armas.
Tais desafios não apenas mantêm invasores longe, mas também a nós dentro do que é, essencialmente, uma caixa de brinquedos à Grande Vontade, ela tendo até implementado um veneno no Sistema que nos enfraquece conforme nos aproximamos das bordas de nosso próprio continente, de tal forma que mesmo muitos Heróis falharam em deixar tais limites.
Sim, o Sistema, Heróis, Reis das Sombras, Missões, aventureiros, e até mesmo nossas divindades foram torturadas, dezenas delas fundidas em apenas duas de conceitos opostos, e tudo isso é fruto das modificações feitas à nossa realidade pela Grande Vontade, e sua influência tem raízes ainda muito mais fundas. Nossos gloriosos ancestrais humanos foram forçadamente modificados no que chamamos de ‘elfos’ hoje em dia — os clones constituindo a classe plebeia, e os humanos originais a nobreza — nossa magitecnologia retrocedeu pelo menos oito mil anos, nossa arquitetura, arte, cultura e até mesmo nossas memórias foram transformadas a fim de agradar apenas à Grande Vontade.
Poucos foram aqueles poupados de tal destino, apenas os fundadores da Ordem dos Historiadores, os membros do Comitê Bélico, forçados a observar tudo o que tentaram tão desesperadamente proteger ser transformado muito além de qualquer semelhança com a cultura humana, e forçados a usar disfarces a fim de se mesclar com a nova sociedade nascente, bem como implantes de extensão de vida mil vezes reutilizados, pois a tecnologia de sua fabricação foi para sempre perdida. Também existem os humanos que encontravam-se fora das fronteiras do continente durante tal transformação, mas conseguiram adentrar nosso território logo antes que este se tornasse intransponível, e hoje são conhecidos como “necromantes”, forçados a aperfeiçoar a magia antiga da manipulação de tudo o que um dia já foi vivo a fim de sobreviverem numa fronteira repleta de fantasmas.
Ainda que o que temos hoje seja completamente diferente do que um dia já tivemos, é um fato que nos encontramos numa bifurcação cujos dois caminhos levam à perdição, ou na mão da Grande Vontade, ou na mão de bárbaros. A continuação do legado humano, ainda que este exista apenas em espírito, é prioridade máxima, por isso mantemos tal história em segredo, por isso silenciamos os enxeridos, por isso exilamos os necromantes.
Por isso, rezamos para que nossas ações não sejam, também, exatamente aquelas que a Grande Vontade quisesse desde o começo que fizéssemos.”
- Trecho extraído do livro Guia Compreensivo da História de Álfheim, por Elarico Milemario Saudoso.
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— Seu olho! — Maria apressou-se para meu lado.
Quando ela levou a mão para o lado avermelhado da face de Verônico, este a parou:
— Não.
— ...Ao menos me deixe tratar das suas outras feridas, então.
O Herói se sentou, olhando para o mar com meu único olho bom, e permitiu que a Curandeira iluminasse seu corpo magoado.
— Verônico — Saulo chamou. — A cidade é nossa, mas o ânimo das tropas não poderia estar pior. O castelo da terra sagrada está arruinado, a Rainha e a Princesa estão mortas, e depois do que eles viram quando Criscina quebrou os portões, eles estão se perguntando se ela não havia se transformado numa quinta Rainha das Sombras. Cinco de uma vez é demais. Boatos sobre o fim do mundo estão se espalhando entre as fileiras, e agora os soldados se perguntam até quem é o líder supremo da Sacra Liga. O monarca do Sagrado Reino de Fanon.
— Saulo! Tenha alguma empatia, por favor. Ele precisa de tempo.
— Eu estou bem. Saulo, reúna o exército frente ao castelo.
O Mago deixou o jardim, e quando ficou sozinha com o Herói, Mariah o abraçou por trás, lágrimas escorrendo sem parar bochechas abaixo, e lavando toda a lama e sangue que a manchavam.
— Não se esforce demais... por favor.
— Não. Eu tenho que me esforçar mais. Muito mais. É porque eu tentei tão pouco que as coisas acabaram assim — meu campeão fechou os punhos com força o suficiente para que o metal que constituía suas manoplas brilhasse incandescente devido ao atrito. — Eu não sei o que eu estava pensando até agora, é como se eu estivesse embriagado por esse poder, por este mundo, tão fora de mim, que eu realmente pensei que estivesse em algum tipo de light novel clichê — levantou-se e encarou a Curandeira, sério. Ergueu o queixo dela com uma mão. — Mas isso não vai acontecer de novo. Eu não vou relaxar. Eu não vou descansar. Eu não vou deixar que tudo isso seja carregado pelas marés das sombras como um castelo de areia. Eu te amo, Mariah, e eu vou morrer antes de permitir que este mundo acabe — concluiu, empurrando a mulher sobre as flores e plantando uma nova semente naquele jardim.
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— Atenção! O Príncipe do Sagrado Reino de Fanon, o Herói Verônico vai agora fazer um anúncio! — Saulo usou de magia de vento para carregar sua voz para mais longe do que qualquer pulmão élfico seria capaz de fazer.
A equipe Heroica encontrava-se toda sobre uma das torres derretidas do castelo e encarava um exército de trinta e cinco mil soldados sujos, cansados, magros, e muitos ainda feridos. Homens que passaram os últimos meses sendo emboscados à esquerda e à direita por aqueles que consideravam compatriotas, aliados, e até família e amigos. Em momento algum de sua campanha anterior, Verônico ou seus amigos viram-se frente àquele tipo de cena antes. E então, o Herói prometia a si mesmo que não veriam aquilo uma segunda vez também.
— A Princesa herdeira do Sagrado Reino de Fanon, Criscina Romântica Fanon IV, traiu a própria pátria, a própria mãe e a própria espécie, aliou-se aos Reis das Sombras e destruiu a capital da nação e cede administrativa do Jornadismo e da Liga Sacra — notícias mais sombrias jamais haviam sido anunciadas desde que eu havia isolado aquele pedaço de terra do resto da Esfera. — A espécie élfica se encontra mais próxima do que nunca de sua extinção. Estamos à beira de um destino tão sombrio que escravidão perpétua será um destino invejado. E tudo o que impede que as sombras afundem este continente numa noite perpétua é a Liga Sacra — suas palavras teriam soado grandiosas, se quando os soldados não olhassem ao redor, não vissem tantos outros coitados. — O destino de suas famílias, de seus amigos, de todos que vocês já conheceram, e de tudo o que já viram, das aldeias idílicas do interior às grandes cidades abastadas, dos casebres de teto de palha aos castelos de rocha sólida... O mundo inteiro descansa em seus ombros — esses mesmos ombros caíram, olhos perderam seu brilho, e de repente as esparsas partes de armadura que o exército capenga vestia pareciam tão pesadas. Muitos sentaram-se ao chão, de cabeça baixa, sem se importar com a presença de meu campeão. — Um peso esmagador. Sufocante. Que vocês simplesmente não podem rejeitar — Verônico desembainhou a espada com uma mão, e estendeu a palma para os soldados com a outra. — Um peso que estou disposto a carregar por vocês — o comentário ímpar fez algumas cabeças levantarem-se, alguns olhos o encararem de volta, curiosos. — Um peso que apenas eu posso carregar sozinho — soldados trocavam olhares confusos, — A Liga Sacra, o Jornadismo, o Reino Sagrado de Fanon, este continente inteiro, a própria espécie élfica — continuou, fechando a palma num punho, e concentrando em sua espada sagrada a magia que vinha regenerando desde o fim de sua batalha. — Cedam-me tudo, sua vida, seu destino, o futuro de Álfheim, e eu tomarei as decisões difíceis sozinho, eu liderarei as tropas das linhas de frente, e eu vou nos obter a vitória a qualquer custo! — continuou erguendo sua espada ao alto bem quando o sol erguia-se às suas costas, e emitindo um brilho branco que apenas aumentava em intensidade com cada palavra que saia de sua boca: — sem mais leniência às traições! Sem mais tolerância a baixos números de recrutas ou poucos suprimentos enviados pelos nobres! Um basta para esta patética guerra defensiva! — de uma vez só, Verônico liberou toda a energia que conteve em sua lâmina, e uma explosão refrescante de pura energia lavou tanto o espírito dos soldados presentes quanto seus corpos físicos, limpando cada fibra de suas roupas, evaporando a ferrugem de seus equipamentos e higienizando suas peles. Aqueles que sentavam-se, levantaram-se, aqueles que choravam, aprumaram-se, e aqueles que suspiravam, bateram nos próprios peitos. — Deem-me tudo! E eu lhes darei tudo de volta!
— WOOOOOHH! — trinta e cinco mil soldados urraram com o espírito inflamado, apesar dos ossos fraturados, apesar dos estômagos vazios.
Saulo aproximou-se de seu amigo com a coroa ainda ensanguentada de Criscina. Descansando o símbolo de realeza sobre a cabeça do Herói, anunciou:
— Todos saúdem Verônico Victoriam, primeiro imperador de Álfheim!
— Verônico! Imperador! Longa vida a Verônico, longa vida a Álheim! — comemoraram os soldados.
— Saulo, parta imediatamente para a cidade vizinha e mande o máximo de comida, soldados e equipamentos possível, e eu não me importo se o resto da cidade passar fome. Se a cabeça da cidade se recusar, arranque-lhe uma perna, e prometa fazer o mesmo com todos os habitantes se eles continuarem a negar o serviço — instruiu Verônico, de expressão gélida. — Nós vamos pôr um fim a esta guerra.
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A unificação do continente de Álfheim, com a utilização dos portais por Saulo e o poder incontestável de Verônico, levou apenas dois meses e duzentos e trinta e oito mil mortos; nenhuma cidade, castelo ou fortaleza tinha a menor possibilidade de proteger-se dos ataques de larga escala do Herói ou seus companheiros, e o único motivo pelo qual tantos assentamentos tiveram de ser completamente destruídos foi porque os Heroicos moveram-se tão freneticamente de nação para nação, de território para território, que foram quase sempre mais rápidos do que as notícias da aniquilação de forças que rivalizaram à Liga Sacra e ao imperador.
— ...Haicard — resmungou meu campeão, com uma delgada cicatriz sobre o olho direito e adornado por uma armadura e capa branca, ambas muitas vezes mais exuberantes do que qualquer coisa que costumava vestir antes, sendo tão obra de arte quanto proteção, as peças exibindo imagens do Paraíso e outros ícones sagrados por sobre toda sua superfície.
O Herói encarava uma fortaleza de metal divino ao fim de um vale, cercada de íngremes montanhas de todos os lados menos um, com o único caminho até a estrutura sendo um corredor natural de cascalhos negros. Prenuncia.
Todas as forças inimigas estavam reunidas lá, e aquele foi o único motivo pelo qual Verônico não fez nenhum desvio durante sua campanha de unificação para assolar as forças das sombras; não podia arriscar se expor desleixadamente à única entidade em Álfheim que tinha chances de derrotá-lo
Se bem que, considerando o exército de seiscentos mil soldados que o Imperador liderava, e os Atributos de Verônico desde que derrotara sua ex-esposa, o rebeldezinho não ofereceria lá muita resistência ao meu campeão, se é que já ofereceu qualquer desafio para começo de conversa:
Nome: Verônico Leônico Victoriam
Potencial: Único
Nível: 99
Força: 401
Percepção: 222
Ocultismo: 189
Títulos: Herói, Imperador, Mais Alto Pontífice, General de Campanha, Pináculo, Grão-Mestre da Espada, Grão-Mestre da Armadura, Grão-Mestre da Magia, Reencarnação, Absoluto, Punição Divina, Exército de um Homem, Calamitoso, Vulcânico, Fortaleza Viva, Dominante, Prestigioso, Fatal, Temido.
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