Desenredo - Capítulo: 23

 Capítulo: 23

 

Finalmente, os vários exércitos de monstros e elfos reuniram-se sob a sombra da torre negra, mais de setenta mil soldados ao todo, entre goblins, orcs, lebralos, ogros, e as forças de países aliados por uma miríade de motivos, além de mercenários e aventureiros. Um acampamento de horas de marcha de comprimento, mesclando barracas multicoloridas de diferentes nações e abrigos rústicos de pele e ossos de animais e pessoas. Nunca pensei que veria aquele número de brasões sob meu comando.

— Não deixe isso subir à sua cabeça, o Rei das Sombras anterior governou um exército três vezes maior — a entidade, infelizmente, se fez presente.

— É, e eles estão todos mortos agora. Esse é o maior número de soldados que eu poderia ter reunido tão cedo após a última guerra sacra.

De uma caixa cheia de furos num canto da parede, a voz de Kangar ecoou, surpreendentemente empolgada:

— Senhor Rei das Sombras, está pronto!

— Oras, parece que aqueles reclusos finalmente terminaram de preparar seu trunfo — a entidade bisbilhotou uma conversa particular, como sempre.

— ...Estou indo aí.

Dei as costas à sacada no topo da torre e me coloquei a caminho da área de trabalho de Kangar e seus colegas necromantes.

Antes de chegar ao primeiro degrau da escadaria, um guerreiro de armadura completa e vestindo uma máscara de leão de aço se pôs a me acompanhar apenas alguns passos atrás de mim.

— Se sentindo melhor?

— Sim, Celestino conseguiu que alguns Curandeiros dessem um jeito em mim — respondeu Cruz. — Ele estava com medo de que magia de cura normal não fosse ser efetiva, mas aparentemente todo mundo que se juntou à causa ganhou o Título: Caído, e agora os poderes de cura deles só funcionam em outros seres das sombras.

— Que bom, mas não foi por isso que perguntei.

— ...Não é hora de ficar estirado aos cantos, de luto. Você também perdeu pessoas e continua a lutar. Quando isso acabar... Quando isso acabar, vou ter bastante tempo para me arrepender de tudo.

Fingi acreditar que ele ficaria bem pelo menos até cumprir nosso objetivo. Fingi acreditar que, apesar de esquecer-se de vestir sua máscara em meio ao exército, desde a notícia sobre sua filha, nunca mais o vi sem o disfarce porque acostumou-se a usá-la.

Fingi que Cruz era o único que precisava de tempo para apropriadamente ficar de luto.

— Sei.

Descemos as escadas, passamos por velhas salas de máquinas, então cheias de figuras encapuzadas decifrando textos humanos e operando as engenhocas enferrujadas.

Nos andares intermediários, haviam sido improvisados aposentos para os líderes e figuras mais importantes do exército, e quando me viram com Cruz, curvaram-se e puseram-se de joelhos, proclamando-me lorde, mestre, majestade e outras tantas outras coisas que, por natureza das Missões que me limitavam, eu jamais me tornaria.

— Minha outra parte — vestindo uma máscara de gato, Vincente curvou-se a mim ironicamente, à frente de todos os nobres com os quais agia como meu intermediário.

Um gesto de mão foi o suficiente para dispensá-los e abrir caminho; mesmo aqueles que nutriam desprezo ou traição em seus corações não se atreveriam a me provocar depois da exibição pública de poder quando derrotamos o mestre historiador.

No térreo, além da guarda constituída por Orcs Cavaleiros, centenas de Magos de corte, e também, muito para o desgosto de Celestino, um grande número de aprendizes vindos direto de sua academia de magia, se mostraram-se entusiasmados em juntar-se às forças das sombras e aprender sobre as magias consideradas por tanto tempo proibidas pelas camadas dominantes da sociedade; diferentemente dos velhos nos andares superiores, porém, aqueles jovens fervorosamente me cercavam com uma questão para cada elogio que pronunciavam. O único motivo pelo qual eu não era atirado para lá e para cá pela multidão sendo o alto Herói Caído os mantendo a distância de um braço. Mesmo assim, quando levantei uma mão, a balbúrdia morreu, e o largo salão de entradas aquietou-se.

— Onde está o bode? — perguntei sobre a identidade mascarada de Celestino.

— Supervisionando o teletransporte de suprimentos, vossa majestade — respondeu um dos Magos mais velhos presentes.

Aquilo era, de fato, uma pena, uma vez que eu queria confirmar o poder resultante do trabalho de Kangar. Mas, no fim das contas, aquilo seria pouco mais que uma formalidade, era uma certeza que os necromantes teriam dado seu melhor em sua produção.

Com Cruz abrindo caminho, finalmente alcançamos o subsolo, e lá o silêncio era absoluto. Imediatamente sob a torre, os tubos que alimentavam a máquina em forma de esqueleto espalhavam-se sob o chão do vale e através das raízes das montanhas por muitas horas, talvez dias de marcha, e os botões e controles deslizantes delicados que eu já havia me acostumado a ver eram substituídos por massivas válvulas e alavancas que exigiam múltiplos necromantes para serem manipuladas.

Cruz e eu pegamos um elevador precário para o último dos andares daquele profundo e escuro fosso, onde centenas de necromantes trabalhavam, o lugar separado em tantos andares quanto havia acima do chão.

Quando as portas em grades se abriram, nos vimos numa sala relativamente pequena quando comparada com todo o resto daquela instalação: uma única lâmpada, semelhante àquelas que pontilhavam o teto da sala secreta do primeiro mestre historiador que matei, iluminava o que parecia uma sala de operações alquímicas, marcada por prateleiras carregadas de utensílios usados para abrir carne, esmagar ossos e diluir componentes. Ao invés de um paciente, porém, deitava-se na maca uma massa negra opaca.

— Ah, senhor Rei das Sombras! — Kangar, limpando as mãos com uma toalha, curvou-se, exibindo um largo sorriso. — Bem-vindo. Por favor, deixe-me apresentar-lhe o fruto de nossos esforços — empolgado e falando muito rápido, apontou para a coisa sobre a mesa de operações. Tentei ignorar o quão destoante ele mostrava-se naquele momento da imagem mental que eu tinha dele, pelo menos até que eu conseguisse o que queria. — Seu novo conjunto de equipamentos!

— Macabro — comentou Cruz.

— Bem, considerando que a matéria-prima destes objetos fora o cadáver ressecado de uma série de outros Reis das Sombras, seria um tanto difícil dar-lhes uma aparência convencional para a cultura élfica. Mas, pessoalmente, eu acho esta uma peça linda!

— Não importa, temos tempo ou recursos para dedicar às aparências, de qualquer forma. Não nesse ponto — me aproximei mais da massa negra e a observei atentamente.

Composta da pele e ossos de dois de meus antecessores, era uma armadura de aspecto esquelético, de ossos, garras e dentes evidentes, poucos sendo os lugares de onde não sobressaíam-se espinhos. Além do material orgânico, porém, notei a presença de ventoinhas, canalizações e cilindros e outras partes metálicas móveis.

— O que são essas coisas?

— Melhorias feitas com tecnologia antiga. Muitas vezes, magia humana interage de forma imprevisível com magia sistemática, mas pura força mecânica não deve interferir de forma prejudicial. Basicamente, vestindo isso, mesmo sem usar magia, você vai dispor da força de cinquenta homens. Pense como um feitiço de fortalecimento proveniente do mundo natural, como um moinho de vento que converte o poder das brisas em atrito — explicou, cheio de orgulho.

— E quanto à parte mágica? Não me diga que paramos no Inferno por nada.

— É claro que não! De fato, os corpos de seus antecessores ofereceram matéria-prima de excelente qualidade. Sua força e ocultismo devem ser multiplicados várias vezes uma vez que você adornar esta armadura. Porém...

— Diga, quais são os pontos negativos? Sempre tem pontos negativos.

— Sim, de fato. Uma vez que o senhor Rei das Sombras me pediu para oferecer os equipamentos mais poderosos possíveis, desconsiderando qualquer risco superficial... Não existe forma simples de colocar isso, então serei direto: não apenas o uso deste equipamento requer muitas horas de preparo, uma vez que você vestir esta armadura, jamais será capaz de tirá-la.

— Ei! — Cruz pisou à frente.

— Está tudo bem. Eu estive pronto para isso desde o começo.

— Haicard...

— Minha vida acabou no momento em que atraí a atenção de um certo alguém, Cruz. Se eu tivesse expectativas de viver uma vida normal pelas próximas décadas, eu não teria te oferecido aquela Missão para começo de conversa — tirei o capuz mágico, sorrindo para meu amigo. — Mas, não se preocupe. Não sou um suicida — vestindo o disfarce de sombras novamente, ordenei: — Leve a armadura para o topo da torre. E quanto às armas, Kangar?

— Aqui está! — o necromante me guiou até uma caixa do outro lado da sala, praticamente saltitando de emoção, e a abriu. — Lhe apresento, Epílogo. A última e melhor espada que você vai usar.

Dentro da caixa e descansando sobre veludo vermelho, uma longa espada, maior mesmo do que meu próprio corpo. A ferramenta tinha um corpo composto por duas colunas vertebrais formando uma sutil silhueta em “S”, com os processos espinhosos suportando um par de longos tubos metálicos com muitos parafusos, e as vértebras exibindo uma lâmina do mesmo material frio e opaco. A guarda era composta por quatro mãos esqueléticas e suportes de metal divino, protegendo a mão do espadachim por completo.

— Uma espada nomeada... — apesar do tamanho todo, a arma parecia tão confortável em minhas mãos. A ergui e senti como se os ossos dos antigos Reis das Sombras fossem plantas secas, implorando pela minha estamina mágica. Quando fazendo como os cadáveres queriam, e alimentando-os com magia, uma névoa vermelho-sangue emanou da arma, semelhante àquela que Fende Forte exalava em outra cor.

— A matéria-prima da arma já é de qualidade alta o suficiente para cortar qualquer metal élfico como manteiga, mas quando você a abastece com sua energia, seu potencial ofensivo ultrapassa o de Fende Forte.

— E para que servem estes dois? — notei um par de gatilhos próximo ao limite do cabo.

— Estes são os gatilhos da espingarda, uhm... os tubos metálicos na parte cega da espada, ele dispara projéteis feitos a partir dos dentes dos Reis das Sombras. Como aquelas armas que os historiadores usaram como nós, sabe?

— Epílogo — repeti o nome da espada.

— Emocionado? — a entidade estragou o momento.

— Ela é perfeita. Leve-a para o topo da torre também.

— É claro.

— E quanto ao maquinário desta torre? Podemos produzir mais daquele líquido azul escuro? — quis saber se eu poderia contar com um Plano E.

— Infelizmente, a magi-tecnologia utilizada para a produção do que os antigos chamavam de “Tinta” é muito superior a qualquer conhecimento passado de geração em geração entre meu povo. Sabemos que é o mesmo fluido que fica para além do Domo sobre nossas cabeças, mas não temos ideia de como produzi-lo, e até onde sabemos, o Domo é impenetrável... — Dau explicou-se, alisando o queixo, frustrado. — Ah, mas temos boas notícias também: seguimos os dutos que alimentam o canhão (a arma que você usou para matar o mutante) e descobrimos largos depósitos de conteúdo extremamente volátil sob todo o vale. Poderíamos reaproveitá-los, talvez?

— Hm, boas notícias de fato. Eu planejava usar de Cruz e dos outros para este propósito, mas... faça com que eu possa detonar todo este depósito de uma vez só — instruí, e sem muito mais o que fazer ali, me dirigi para o elevador.

— Senhor Rei das Sombras, só mais uma coisa — chamou, sem exibir mais quaisquer sinais de empolgação ou leveza no rosto, mais uma vez o frio necromante que eu conhecia. — ...Isso teria a ver com aquele Feitiço que você usou quando nos salvou do mutante? Que empoderou Cruz repentinamente? — congelei, agradecido por estar usando o capuz mágico e escondendo minha expressão de culpa e terror. Por acaso, Kangar teria alguma ideia de quais eram as medidas mais desesperadas que eu estava disposto a tomar? O que ele planejava fazer se esse fosse realmente o caso? — Entendo. É esse o caso, não? — continuou sem transparecer nada, ilegível. — Eu e meus companheiros vamos preparar a armadilha, e vamos nos retirar logo depois de te deixar as instruções de como ativá-la.

— Kangar, como pode?! — Cruz encarou o necromante, sua ira clara apesar da máscara.

— Está tudo bem, Cruz — acalmei meu amigo com uma mão no ombro. Pelo jeito, o necromante sabia exatamente o que eu planejava fazer caso tudo desse errado, e não estava disposto a ir tão longe, mas também não iria interferir. — Está tudo bem — entrei no elevador com meu braço direito.

— Haicard — o necromante chamou enquanto as grades do elevador fechavam-se. — Boa sorte — desejou, puxando o próprio capuz para trás, e revelando cabelos negros e orelhas arredondadas, mostrando-se humano.

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