Desenredo - Capítulo: 21

 Capítulo: 21

 

Dois meses depois que deixamos o Inferno, e cerca de um ano depois que eu fui marcado como Rei das Sombras, lendo correspondências vindas de todo o canto, eu me encontrava no interior de uma tenda semelhante àquela usada pelos meus superiores há tantos anos atrás, quando eu ainda fazia parte do exército sacro.

— Hmphm. Pelo jeito, quando você não está metendo o nariz onde não foi chamado, existe um número surpreendentemente grande de elfos dispostos a derrubar os regimes atuais e mudar algumas coisas — assinei uma carta autorizando a distribuição de armas imbuídas de poderes de sombras para o exército rebelde da Princesa Criscina, de todas as pessoas.

A garota mostrou-se mais fácil de influenciar através dos contatos que Rael fez com a ajuda de velhas amizades de Vincente do que eu esperava, e com apenas algumas poucas promessas de favores. Assim que as forças armadas que secretamente me obedeciam alcançassem as redondezas de Canon, ela deveria escapar do castelo real e fugir para a casa de Cruz, onde estaria segura. Ao mesmo tempo, uma outra escolta deveria estar a caminho de meu vilarejo de nascença a fim de recolher minha família para um lugar seguro também.

— Imagino que você nunca tenha percebido isso antes porque você sempre foi pobre demais para ter um espelho em casa, mas esse mundo é cheio de idiotas — a entidade respondeu, cutucando minha bochecha. — Seu tipo já se autodestruiu uma vez antes, e agora vão fazê-lo de novo. Nada surpreendente aqui.

— Você fala como se importasse com nosso bem-estar — estapeei a mão daquela entidade folgada para longe. — Se você está tão convencido de que estou fazendo algo errado assim, por que só não volta no tempo e faz com que eu nunca tenha nascido?

— Ora, você sabe bem o porquê. Eu não poderia me importar menos com o bem-estar de vocês, tolinhos, não sou nenhuma entediante divindade protetora.

— Não. Você é muito pior, és-

— Senhor Rei das Sombras! — um soldado elfo entrou na minha barraca e ajoelhou-se frente à minha escrivaninha. — Relatório urgente das linhas de frente!

҉   

— O que está acontecendo? — Perguntei.

— Não temos certeza. Os historiadores usaram algum tipo de Feitiço explosivo em larga escala, e depois conjuraram saraivadas elétricas que dizimaram os goblins nas linhas de frente em instantes. Quando os ogros começaram a cair também, dei a ordem de recuo, e aqui estamos — Respondeu Cruz, quem observava o campo de batalha do topo de um pilar de terra de origem obviamente mágica.

Subi os degraus até o topo do pilar e tentei fazer sentido da situação.

Então todo o grosso de meu exército reunia-se num vale de cascalho preto, um corredor que se afunilava até culminar numa fortaleza metálica indestrutível que nossos inimigos pareciam ter conseguido reviver parcialmente, uma ruína divina. Estávamos em Prenuncia, local que sediara minha primeira batalha, e que era destinado a sediar minha última.

— Onde está Celestino?

— Ele está adiante, tentando analisar os Feitiços que aqueles velhos podem ter usado para exterminar mil monstros tão rápida e facilmente. Ele quer descobrir o elemento que está sendo usado nos ataques para conjurar uma proteção sobre os soldados.

Eu estava prestes a concordar com aquela aproximação, quando Kangar ascendeu ao topo do pilar:

— Pois eu recomendo que você o chame de volta, neste caso, senhor Rei das Sombras. Nenhuma magia dentro do Sistema vai ser capaz de parar aqueles projéteis.

— Magia humana, não é? — franzi o cenho. — É imperativo que conquistemos aquela torre. Se recuarmos agora, os historiadores podem atacar nossa retaguarda e recuar para dentro de sua fortaleza novamente; e mesmo que não o fizessem, nesse ponto não vamos conseguir realocar todos os nossos números para uma outra base adequada — havia pelo menos mais uma dúzia de outros exércitos menores a caminho de encontro com minhas forças principais, e redirecionar todos eles seria um pesadelo logístico. — Os conflitos internos da Sacra Liga não vão retardar o Herói por muito mais tempo.

— Bem... — Kangar olhou de esguelha para a entidade, que suspirou.

— Se eu quisesse parar vocês a qualquer custo, eu já o teria feito. Diga a verdade, uma mentira, o que você quiser, esse rebeldezinho rejeita minha curadoria, de qualquer forma.

— Eu duvido que estes “historiadores” se encontrem num número superior a mil indivíduos, considerando a atividade nas muralhas, e apesar de suas armas serem muito superiores a qualquer coisa fabricada por elfos, eles ainda devem ter Níveis de velhos estudiosos.

— Hehe, eu já ouvi discursos parecidos antes — Cruz sorriu, socando a palma da mão esquerda. — Deixe-me adivinhar: um pequeno grupo de guerreiros especialmente competentes seria o ideal para lidar com esta ameaça?

— Precisamente.

— Cruz, vá chamar por Vincente. Ele deve estar tomando todo nosso vinho em alguma das carroças de suprimentos no centro do acampamento. Kangar, você vem comigo para me ajudar a vestir minha armadura.

— Sim, senhor.

— Que? Você vai vir conosco? — o Herói Caído surpreendeu-se.

— Cruz, já é vexame o suficiente que nosso exército tenha investido contra o que a maioria das pessoas pensam ser velhos caquéticos, e perdido. Não posso me dar ao luxo de arriscar desapontar nossos mais novos aliados agora, mesmo que eu não faça muito, devo estar na linha de frente — expliquei, dando as costas ao meu amigo e braço direito, e seguindo de volta para a tenda de onde vim. — E não se esqueça de vestir sua máscara o tempo todo agora. Temos alguns convidados que não queremos que te reconheçam.

— Urgh — meu amigo grunhiu. — Esses nobres podiam muito bem tomar no...

҉   

Quarenta minutos depois, eu encarava a fortaleza adiante, de armadura, e acompanhado pelo grupo Heroico caído, e Kangar.

Pouco atrás de nós, não apenas meu exército de monstros, mas também uma série de enviados de aliados nos observavam, curiosos.

Ainda assim, a atenção deles não se comparava com a minha própria enquanto eu observava o campo de batalha adiante: dois mil monstros haviam sido mortos lá, e ainda assim eu não via cadáveres, ou sangue, nem mesmo equipamentos deixados para trás. A explicação de Cruz, de que eles apenas “viraram pó”, não havia sido muito útil naquela situação também; tinham sido carbonizados e reduzidos a cinzas com metal e tudo?

— Velocidade Vezes Três, Resistência a Perfuração Vezes Três, Resistência a Choque Vezes Três, Resistência Elemental Vezes Três, Camuflagem! — Celestino nos fortaleceu e tornou nossa silhueta mais difícil de ser diferenciada do cenário.

— Vamos — ordenei, e disparamos todos na direção da fortaleza adiante; Cruz tomando a dianteira, Kangar e eu seguindo-o do meio da formação, e Celestino vindo na traseira enquanto Vincente tomava o próprio caminho à parte.

Uma vez que chegamos a dez minutos de marcha de distância da muralha da fortaleza, uma luz piscou por trás da proteção da edificação, vapor ergueu-se, e um pilar de fumaça subiu aos céus, como uma fogueira que durou apenas um segundo.

Segundos depois, algo se aproximou rápido demais, cortando os céus num agudo assovio.

— Lá vem! — Celestino apontou a varinha na direção do projétil, mas este caiu mais rápido do que velho Mago pode reagir.

“BUUUM!”, explodiu a uns trinta passos de distância numa esfera de cor roxa que piscou por apenas um segundo, e quando desapareceu, deixou para trás apenas pilhas de pós de diferentes cores.

— Foram reduzidos aos seus principais componentes químicos: cálcio, quartzo, granito... — explicou a entidade. — Conhecimento perdido, que você não entenderia. Não há nenhuma pista aqui, então pare de desperdiçar meu tempo pensando tão a fundo sobre essas coisas.

— Não podemos bloquear esses ataques — eu não havia entendido exatamente o que a entidade explicou, mas aquilo, ao menos, era óbvio. — Temos que continuar em movimento, essa é nossa única opção!

— Então é melhor nos apressarmos, pois esse foi apenas um disparo para calcularem nossa posição — Kangar apontou, e no instante seguinte, vários outros clarões piscaram por trás da muralha adiante.

— Vamos! — repeti, e corremos com ainda maior pressa que antes.

— Brisa de Verão — Conjurou Celestino enquanto corríamos a toda velocidade, desviando a trajetória dos projéteis por vir com correntes de ar.

Explosões púrpura levantavam uma espessa cortina de poeira que ofuscava o próprio sol. Logo, não apenas havíamos perdido a visão dos projéteis em queda, mas também um do outro, eu corria em frente sem sequer saber se estava perto ou longe de meus companheiros, ou indo na direção correta.

“Fiuuuu...!”, escutei um assovio bem acima de minha cabeça, e sem pensar duas vezes, atirei uma faca de arremesso na direção do som: “BUUM!”, a esfera roxa explodiu poucos metros acima de mim, engolindo parte da poeira que me cegava, e reduzindo-a à...

— Átomos — a entidade falou uma palavra qualquer, como se ela fizesse qualquer sentido, mas não prestei atenção a ela e continuei a correr em frente.

— Aqui dentro! — finalmente encontrei Cruz novamente, atravessando o limite da cortina de poeira carregada pelo vento, e me deparei com o homem agachado ao fundo de uma cratera de cascalhos.

Não demorei a entender o porquê de sua urgência: do topo das muralhas, os inimigos me apontavam os braços que abriam-se e mesclavam-se com objetos parecidos com bestas, mas alimentados por tubos e cilindros móveis também embutidos em seus corpos, ao invés de flechas e cordas retesadas. E uma série de estouros depois, versões em miniatura das esferas roxas de antes saíram dos seus canos, e teriam me atingido se eu tivesse hesitado em fazer como o Herói Caído disse.

Uma saraivada de projéteis mágicos caiu ao nosso redor em tamanha quantidade que, se eu não os tivesse visto com meus próprios olhos, teria assumido que o número de inimigos ao topo das muralhas era de múltiplos milhares.

O cascalho que nos abrigava era aos poucos reduzido a areia, e esta, por sua vez, a vento, nosso abrigo dos ataques desaparecendo aos poucos e a cada disparo. Um barulho agudo e muito alto, de ferro arranhando ferro, porém, silenciou os disparos: o portão da fortaleza se abria, e seus defensores desesperavam-se.

— Parece que ele não estava bêbado demais para fazer seu trabalho, afinal — sorri, e no instante seguinte, a direção do vento mudou, e toda aquela poeira levantada pela magia dos historiadores nos escondeu dos defensores.

— Agora é nossa chance — Celestino comentou, confiante, sua varinha ainda brilhando devido à última conjuração.

Lado a lado de meus companheiros e amigos, disse:

— Vocês os viram: não são mais elfos.

— Sim — concordou Cruz, segurando firme o cabo de sua espada embainhada.

Não perdemos um segundo sequer, e todos nos lançamos em direção aos pesados portões abertos de metal divino. Dentro do pátio, porém, a tempestade de areia artificial não era tão efetiva devido à proteção das muralhas, e nos tornamos alvos fáceis para os defensores mais uma vez, as dezenas de velhos nas muralhas todos apontando seus braços-bestas-mágicas em nossa direção.

Contudo, bem como Kangar previu, os defensores não deveriam ter Níveis muito acima da maioria, e antes mesmo que pudessem puxar os gatilhos, suas cabeças já haviam sido desconectadas de seus corpos por um par de adagas púgio, por ventos cortantes, e por uma lâmina de energia negra disparada de uma espada embainhada.

Os cadáveres, ignorantes ao fato de que já estavam mortos, dispararam mesmo assim, mas seus joelhos cediam, seus músculos perdiam as forças e seus corpos colapsavam; enquanto vazando sangue, faíscas e líquidos misteriosos, atiraram para todo lado e para os céus, mas nenhum dos disparos sequer passou perto de nós.

— Celestino, você cuida da ala à esquerda, Vincente, você da direita. Cruz, Kangar, vocês dois vêm comigo — segui para a torre de um metálico fosco bem ao coração da fortaleza ao lado do Herói Caído enquanto o necromante fazia os corpos dos historiadores erguerem-se e nos acompanhar também.

Eu esperava maior resistência no que deveria ser o centro de operações daqueles agentes da Grande Vontade, mas nós três subimos as escadarias sem encontrar resistência alguma. Passando pelos andares iniciais, deixamos para trás as únicas partes que eu cheguei a visitar naquela estrutura enquanto soldado, e a cada novo andar que subíamos, eu via mais tubos, mais canos, mais válvulas, e mais ferramentas antigas de funções misteriosas.

Finalmente, subimos uma última escadaria e pisamos no último andar da torre, onde toda a estrutura interna do edifício parecia culminar: os condutos conectavam-se a uma estrutura na forma de uma coluna vertebral, que se estendia de uma extremidade do chão da sala até a outra, subia pela parede oposta à entrada e alcançava um crânio com uma dúzia de globos oculares vazios embutido no teto.

Bem sob o olhar vazio do crânio metálico, um único velho corcunda, apoiado numa bengala de madeira, esperava com expressão pesarosa. De orelhas arredondadas, notei, era um humano.

— Ele definitivamente tem uma carta na manga: matem-no agora mesmo — ordenei, e Kangar imediatamente fez seu pequeno esquadrão decapitado disparar suas armas estranhas contra o velho.

Inúmeros projéteis roxos chocaram-se contra uma parede que nenhum de nós havia percebido até então, algum tipo de vidro, e foram completamente inefetivos.

A seguir, foi a vez de Cruz, mas sua espada embainhada envolta em sombras fora tão eficiente quanto os disparos anteriores em quebrar aquela barreira.

— Ai, ai, tão impacientes, os jovens de hoje em dia... Tanto que sua impaciência força a nós, mais velhos a nos tornarmos impacientes também, a deixar de lado tradições milenares e importantes — suspirou. — Espero um dia ter tempo para escrever o livro que todos aqueles que chegam à minha posição deveriam escrever. Espero um dia rever a glória de nossa Ordem, da qual agora sou o último sobrevivente.

— Ah, então você é o novo mestre historiador? Deverias ter ficado em Canon, seu fim, e o de todos os seus companheiros, seria adiado até depois da guerra, afinal.

— Devido à sua jovem imprudência, a capital do Reino não mais se mostra... simpatizante com nossos ideais — o velho adiante suspirou, ainda mais cansado, revelando o porquê da presença forte de sua ordem naquele local isolado. — E devido a essa sua mesma imprudência, o fim de todos nós se aproxima perigosamente.

— Eu prefiro arriscar na chance de que você esteja errado — procurando alguma outra entrada para o compartimento onde o velho esperava, cruzei os braços e o respondi.

— Baseado no quê, jovem? Livros proibidos, compostos majoritariamente de ficção, e contrabandeados por figuras sem escrúpulos?

— Não existem muitos mais destes por aí, velho. Vocês fazem questão de que este fosse o caso, afinal.

— O que quer que tenha lhe trazido a este ponto, te direciona a um desastre. Direciona a todos nós.

— Ah, é? E por quê?

O velho franziu o cenho, tentando ler o que era sarcasmo e o que era ignorância. Não conseguiu distinguir:

— Mesmo que você tenha sucesso em sua Missão, o que você acha que vai acontecer depois? Todas as nossas proteções cairiam por terra, estaríamos mais uma vez expostos para o resto da Esfera. Você acha mesmo que aqueles bárbaros apenas nos aceitariam de braços abertos em sua comunidade?

— Você sabe que pessoas podem morrer? Acha que podemos passar por um sufoco? Me permita te devolver uma pergunta, então: por quantos novos ciclos de Heróis e Reis das Sombras você acha que vamos passar? Dez? Vinte? Cem? Mil? Quantas pessoas você acha que vão morrer nestas futuras guerras sacras sem previsão de um fim?

— Não se trata número total de mortes, jovem, mas de um risco real de extinção completa.

— Fácil falar isso para alguém que até ontem nunca teve que pegar numa arma antes — frustrantemente, eu não encontrei passagem nenhuma para o outro lado do vidro. Que seja, se necessário eu posicionaria guardas ali até que o velho morresse de fome. — Se você quer tanto assim passar os próximos séculos e milênios entretendo um idiota cósmico, sinta-se livre para pôr o seu na reta e fazê-lo você mesmo. Mas eu vou ter certeza de que, uma vez que eu tenha terminado este trabalho, nenhum outro garotinho sem onde cair morto vai ver apostar sua vida para o bem de velhos egoístas como uma forma válida de se viver.

— ...Você não se importa com a espécie élfica, não é? — os olhos do velho arregalaram-se lentamente. — Você não está nem aí para a própria espécie — continuou, assumindo o que queria sobre mim e me tornando um monstro na própria mente. — Não me diga que você fez contato direto com a Grande Vontade...?! — recuando, horrorizado, o velho segurou sua bengala próxima ao seu peito. — Foi assim que você aprendeu o que aprendeu, não foi?!

— Olha, uma vez que você nota alguns padrões, contanto que você tenha recursos o suficiente, não é tão difícil perceber que há algo errado.

— Seu tolo... Você não faz ideia do erro que cometeu! A entidade para a qual você está trabalhando não é uma benfeitora! Aquela coisa é pouco mais do que uma criança superpoderosa, uma idiota cósmica que vê a tudo e todos como meros brinquedos!

— Concordo — eu e Kangar respondemos em uníssono.

— Rude — a entidade bufou pelo nariz.

— O que quer que ela tenha lhe mostrado, não passa de informação fragmentada a fim de te manipular para seu bel-prazer! — sua expressão de horror sendo substituída por resignação pesarosa, o velho concluiu: — Pensas que és um salvador, mas não passas de um tolo que vai condenar a todos nós. E é meu dever pará-lo antes que cometas um erro irreversível — finalmente, abriu o topo de sua bengala com o polegar, revelando o que Dau me explicou ser um botão enquanto escapávamos do Inferno.

O velho apertou tal botão, e os múltiplos olhos do crânio acima de si passaram a brilhar com a mesma luz roxa das armas que seus subordinados usaram contra nós, mas produziram cintilância muito maior do que as explosões momentâneas de antes, perduraram por instantes muito maiores antes de finalmente suavizarem e desaparecerem.

— Você pode estar sendo apoiado por aquela estúpida monstruosidade onipotente — o velho presumiu, despindo-se de seu manto e exibindo-se completamente nu, de pele flácida e pálida, com gordura abdominal evidente e implantes metálicos de todos os tipos no tórax, abdômen e costas. — Mas existem outras formas de se obter poder, jovem! — assim que concluiu, dos olhos que há pouco brilharam roxos, choveu um líquido de um azul tão escuro que parecia quase negro, apenas algumas poucas gotas. No mesmo instante que tal líquido viscoso tocou a pele do velho, porém: — GYAAAARGHHHH!! — urrou de dor, cambaleando para longe do chuveiro.

O mestre historiador, berrando, apoiou-se na parede mais próxima e, aparentemente arrependendo-se de qualquer que tenha sido a decisão que tomara, tentou limpar-se do líquido azul escuro, mas quando passou a mão por sobre a área afetada, a pele de sua palma derreteu-se e se fundiu com suas costas. Logo, porém, o que quer que havia chovido sobre si pareceu infiltrar-se em seu corpo, e suas veias e olhos escureceram no mesmo tanto.

Sua voz rouca e débil engrossara, seus urros mais e mais animalescos, e seu corpo mutara-se da mesma forma, sua carne pulsando dos pés à cabeça, inchando-se, sua pele rompendo, incapaz de suportar sua massa corporal crescente. Ossos deformaram-se, músculos multiplicaram de tamanho várias vezes, e lenta e dolorosamente o contorno do novo mestre historiador transformou-se completamente.

Ao fim da mutação, pisando sobre os restos do que havia um dia sido sua própria pele, uma criatura impossível de reconhecer como uma vez élfica: seu corpo era de um brutamontes, uma montanha de músculos, apoiado sobre longos braços grossos e pernas curtas, mas sua cabeça e pescoço haviam se partido grotescamente para revelar um esqueleto da parte superior de um elfo comum, porém enegrecido e ardendo em centelhas. Uma série de braços finos e de muitas juntas também saia do que antes havia sido o pescoço do mestre historiador, e segurava o esqueleto negro, movendo-o como um marionetista controla um boneco e lhe dá vida.

— Hphm, faz tempo que esta Esfera não vê um desses — a entidade soou quase nostálgica. — A propósito, esta coisa está muito além das restrições de morte que coloquei em você, mas sempre foi assim, e prometi não interferir, então, boa sorte — a desgraçada casualmente me explicou no último momento possível que aquele inimigo poderia me matar.

Os braços finos vindos do pescoço que ainda sangrava devido à transformação brutal apontaram o crânio-tornado-carvão em nossa direção, e os globos oculares deste foram rapidamente preenchidos por um fulgor reluzente.

— Cuidado — gritei, saltando para longe.

No instante seguinte, um par de raios alaranjados perfurou o vidro que nos separava da criatura mutante, partindo-o com calor como se não passasse de uma folha seca de outono. Mais surpreendente ainda, quando o par de feixes de luz tocou a parede metálica da torre, composta de um material que a ordem dos historiadores passou os últimos quatro mil anos tentando destruir de todas as formas imagináveis, sem sucesso, a estrutura divina esquentou o suficiente para suar um par de gotas de sua liga derretida.

Se aquele calor nos pegasse mesmo que de raspão, mesmo a defesa do Herói Caído não salvaria sua vida.

No instante seguinte, a criatura correu na direção de Cruz, batendo os nós de seus dedos no chão a toda velocidade.

— Acabem com ele — Kangar apontou para o mutante, e sua tropa de decapitados atirou uma centena de vezes contra o corpo inchado do inimigo, então duas vezes maior que o mais alto de nós.

Enquanto os projéteis mágicos destruíam a carne do monstro, porém, esta rapidamente se regenerava já no instante seguinte.

— Assimetria Bissectal — Cruz arriscou um ataque também, e enquanto sua espada embainhada envolta por energia sombria cortou a carne do mutante tão bem quanto a de qualquer outro inimigo que havia enfrentado até então, separando a metade superior da inferior de seu oponente, este último parecia possuir uma resposta mesmo para aquele tipo de dano, geralmente fatal:

O esqueleto emergido dos restos de pescoço da criatura foi manipulado pelos braços finos que o cercavam de todos os lados, e com um único gesto de mãos, o dano causado ao seu corpo fora revertido; as metades do corpo do mutante juntaram-se num instante, como se nunca tivessem sido separadas para começo de conversa, enquanto Cruz viu-se arremessado para longe, a onda de energia com a qual cortara seu inimigo retornando para a espada da qual saiu.

— O esqueleto! Foquem no esqueleto! — instruí, e os cadáveres animados do necromante dispararam contra o esqueleto, mas a magia de cor roxa não pareceu surtir nenhum efeito contra os ossos carbonizados e ainda cintilantes, além de captarem sua atenção.

Em poucos segundos e com um único ataque, disparando mais um par de raios de calor intenso de seus globos oculares vazios, o mutante reduziu os corpos sem cabeça às cinzas.

— Kangar, dê o fora daqui — o homem era praticamente impotente sem corpos para manipular, e ele ainda tinha um papel muito importante a cumprir para arriscar perdê-lo. — Cruz, chame a atenção dessa coisa — enquanto o Herói Caído trincava os dentes e disparava socos contra o mutante, evitando ter grandes danos repelidos contra si mais uma vez, corri até a bengala derrubada do Mestre historiador. — Aah, que ótimo! — percebi que não havia apenas um único botão coroando o instrumento, mas três deles, uma pequena alavanca vermelha, e uma série de outras coisinhas interativas, nada que eu soubesse usar.

— Haicard! — Cruz apressou, alarmado.

Entendendo que, independente do quanto eu observasse os botões, eu não seria capaz de saber o que cada um fazia, apertei qualquer um deles aleatoriamente, e como resultado, uma das paredes moveu-se produzindo o mesmo barulho arrepiante de metal arranhando contra metal de quando Vincente abriu os portões da fortaleza, e uma seção em forma de discorectângulo retraiu-se para dentro do chão, e o piso daquele último andar estendeu-se como uma ponte para fora da torre.

— Muito bonito, muito elaborado, mas inútil — continuei a apertar os botões da bengala.

— Garh! — Cruz escorregou pelo chão, coberto de hematomas produzidos pelos próprios golpes refletidos, e parou bem ao meu lado. — Você precisa- urgh! De mais tempo, não é? — meu amigo tentou levantar-se ainda que sofrendo de ferimentos mortais para qualquer outra pessoa. Finalmente, porém, um dos botões que eu apertei produziu o resultado desejado.

— Não, você fez um bom trabalho — respondi, vendo o mutante aproximar-se de nós enquanto o crânio acima emitia a tenebrosa luz roxa de antes. — Nós vencemos — bem quando o mutante estendeu as mãos do esqueleto carbonizado em nossa direção, sem dúvidas prestes a conjurar algum tipo de Feitiço bizarro e altamente destrutivo, se fez chover sobre nosso oponente o mesmo líquido negro de antes, ainda que em quantidade menor que da última vez.

O mutante imediatamente cambaleou abraçando e arranhando a si mesmo com seus muitos braços enquanto sua pele absorvia o que quer que havia sido produzido por aquela torre, e tinha suas veias enegrecidas.

— V-Você tem certeza quanto a isso?

— Se uma quantidade maior desta coisa significasse maiores chances de nos derrotar, ele teria usado o máximo possível de uma vez; ele já sacrificou tudo para me ver morto, afinal.

Aquilo que um dia já foi o Mestre Historiador tropicou na direção da sacada recém-revelada, exibindo sinais ainda mais avançados de mutação: sua coluna vertebral e costelas se estendiam rapidamente, e da cavidade abdominal engrandecida brotavam vários mais braços, levando-o rapidamente de uma aparência de um gorila esfolado para a de uma centopeia saída direto de meus pesadelos. Diferentemente de antes, porém, o mutante não parecia ter forças o suficiente para suportar o próprio corpo que exibia, sangrava mais do que conseguia se regenerar e a cada novo membro que produzia, os resultados eram mais e mais deformados, o que me levava a presumir que os órgãos internos de geração mais recente não deveriam ser de qualidade muito melhor. Ainda assim...

— Ei, essa coisa não está levando tempo demais para morrer?

— Então lhe aplique um golpe de misericórdia de uma vez.

— E arriscar ter meu coração perfurado quando essa coisa refletir meu ataque de novo? Não, obrigado.

O mutante se inchava, retorcia e deformava mais e mais, uma massa pulsante de carne ferida pelo próprio crescimento. Pouco a pouco, porém, os machucados contra os quais resistia desesperadamente pararam de sangrar, os órgãos que se espalhavam pelo chão retraíram-se para o interior do corpo, e as dezenas de braços que brotavam de suas laterais espasmaram com força renovada.

— Humph. Parabéns, rebeldezinho, você acabou de obter o resultado que os humanos buscaram em milhares de experimentos, em sua primeira tentativa. A sorte é mesmo uma senhora cruel — a entidade encarava a figura do mutante com interesse, e aquilo era o pior mau agouro que se podia ter.

Apertei o botão da bengala várias vezes, mas a única coisa expelida pelo maquinário foi vapor, exalado pela cavidade nasal da caveira ao teto: o que quer que abastecia aquela estrutura havia se esgotado no pior momento possível.

— Cruz! Empurre isso para fora da sacada! — a ideia infantil foi a melhor coisa em que consegui pensar.

— Enche-Velas — meu amigo conjurou, e uma névoa negra atingiu em cheio o corpo do mutante, que ainda não exibia sinais de parar de crescer e já passava dos quinze passos de comprimento, e empurrou-o, fazendo-o deslizar sobre o próprio sangue sacada abaixo.

Corri na direção da pequena passarela que estendia-se para fora da torre a fim de ver o fim do mutante, mas assim que espiei para além da borda:

— Drog- — um braço crescido absurdamente longo, passando dos trinta passos de comprimento, agarrou minha cabeça, e me vi puxado também torre abaixo.

Consegui chutar a mão deformada e ainda muito magra que me agarrava para longe, mas ainda me via em queda livre do topo da torre de quase meia hora de marcha de altura. Abaixo, e também em queda livre, o mutante assumia formas progressivamente mais grotescas, sua carne tão instável quandt uma fina camada de nata sobre leite quente e em constante borbulho, sempre mutável.

— Haicard! — escutei Cruz saltando da sacada atrás de mim, envolvido em energia negra que acelerava sua velocidade de queda.

No pior momento possível, porém, o mutante manipulou as mãos do esqueleto negro que saía de seu pescoço e devolveu o vento que o Herói Caído havia conjurado para empurrar-lhe torre abaixo, afastando Cruz para bem longe de uma vez só.

Vendo o chão aproximando-se perigosamente rápido, percebi também uma chance de me salvar, uma chance que vestia um manto e chapéu pontudo azul escuro coberto por estrelas: apontei minha palma na direção de Celestino e disparei uma bola de fogo.

O Feitiço caiu logo ao lado do mago, e ao olhar para cima, este logo compreendeu a situação:

— Como Pena! — me fez envolto numa aura esverdeada, e senti minha queda desacelerando rapidamente. O Mago não se importou, porém, em conjurar o mesmo feitiço no mutante:

“SPLAAASH!”, a centopeia inchada que o mestre historiador havia se tornado se transmutara mais uma vez, então numa fonte de sangue e tripas assim que tocou o chão de repente.

— Mas o que...? — Celestino encarou a cena terrífica, confuso.

— Não acabou ainda — notei que pelo menos um braço do mutante estava inteiro o suficiente para manipular o esqueleto negro.

Apontei minha palma na direção do braço e disparei uma lâmina metálica, meu Feitiço mais poderoso, que praticamente esvaiu minhas reservas de estamina mágica, mas era tarde demais: antes que meu ataque encontrasse seu alvo, o esqueleto já havia usado de seus poderes incompreensíveis para reverter o dano que sofrera, e como se o tempo corresse ao contrário para sua entidade física, devolveu o “ataque” de volta para o chão, partindo os cascalhos sob si, cavando uma cratera no chão, e reparando o próprio corpo.

— Merda, não acabou ainda.

Assim que reestruturado, o mutante apoiou-se na parede externa da torre metálica, erguendo seu corpo ainda maior que antes, passando dos trinta passos de comprimento, e contra-atacou, se é que ainda era consciente de suas ações: braços pálidos e musculosos estenderam-se de seu abdômen em nossa direção.

— Não ataque! — impedi que Celestino conjurasse um Feitiço contra o mutante, puxando o velho Mago pela mão e correndo para longe do inimigo. Os membros do mutante, porém, nos perseguiam mais rápido que nossas pernas podiam correr.

— Rei das Sombras — Kangar reapareceu, acompanhado por ainda mais cadáveres armados, e seus servos mortos-vivos dispararam contra as mãos que tentavam nos agarrar, reduzindo-as a pó. Quando o esqueleto negro encimando o pescoço estourado do mutante refletiu o dano causado a si, desintegrou os braços de seus atacantes, o necromante simplesmente erguia outros cadáveres.

Aproveitamos para colocar distância entre nós e o mutante.

— O que é aquela coisa?! — Vincente deu as caras, equilibrado no telhado de um edifício menor no pátio.

— Mais importante, como podemos derrotá-la? — Kangar retrucou, sombrio.

— Onde estão as armas que provocaram aquelas grandes explosões mágicas? — busquei tão desesperadamente por uma solução, que senti uma enxaqueca crescente. — Se os historiadores tinham bestas pequenas que disparavam aqueles feitiços em miniatura, eles devem ter usado versões maiores para disparar aqueles ataques contra nós no campo até aqui, correto?

— Ah, agora que você diz isso, acho que vi umas estruturas que podem ter exatamente esta função no pátio atrás de mim — Vincente apontou com o polegar.

Corri na direção apontada sem pensar duas vezes, e lá me deparei com um mecanismo enorme de metal divino, que parecia ter emergido do chão em um elevador: consistia-se de uma pequena cadeira por trás de um telescópio adjunta a um grosso tubo de metal de pelo menos onze passos de comprimento e conectado a algo no subsolo por inúmeros canos e fios, a ponta oposta à cadeira terminando em seis aberturas distintas. Bastante intuitivo para um soldado que já viu um escorpião sendo operado, apesar da suposta avançadíssima magi-tecnologia dos humanos.

Montei na cadeira, segurei as alavancas ao meu lado e facilmente consegui reposicionar a arma antiga na direção do mutante; sequer precisei olhar pelo telescópio para encontrar meu alvo, que então já passava dos vinte minutos de marcha de altura, suas “pernas” inchadas espalhando-se como raízes por todo o pátio da fortaleza, e várias vezes mais grossas que seu torso de centopeia. E o mais perturbador de tudo, o rosto do mestre historiador lentamente se formava às costas do mutante, ainda que numa versão quase irreconhecível, cheia de protuberâncias cancerosas, e de tamanho ampliado. De dentro da boca e das narinas de tal face, nuvens negras de fumaça emergiam, emitindo um leve cintilar alaranjado semelhante àquele dos raios de energia atirados pelas cavidades oculares da caveira de centelhas.

— Tem certeza que vai puxar o gatilho? — A entidade questionou, enquanto eu posicionava a mira sobre o esqueleto negro de brasas quentes, que àquela distância era apenas um ponto escuro e alaranjado minúsculo. — Se você errar e aquela coisa refletir seu ataque, você não vai se regenerar nem em mil ou dez mil anos, mas vai morrer, e tudo pelo que você vem dedicando sua vida neste último ano terá sido em vão.

— Se eu não disparar, essa coisa vai alcançar sua forma final e disparar um ataque contra nós que ninguém poderá evitar, e tudo será em vão do mesmo jeito — trincando os dentes, puxei os seis gatilhos de uma vez só, e todos nós observamos a meia dúzia de riscos roxos cortando os céus na direção do mutante.

Atingiram o torso do mutante, a torre, seus braços, e até as montanhas ao longe, mas se eu falhasse em imobilizar aquele maldito esqueleto carbonizado...

— Como se recarrega isso?! — procurei desesperadamente por algo que fosse executar aquela função. — Agora que o pescoço do mutante foi destruído, ele é mortal de novo! Não podemos deixar que aquela parte de seu corpo se regenere! — expliquei o sucesso dos disparos aos meus amigos, puxando, e apertando e girando tudo o que estivesse conectado à arma que eu operava.

— Mesmo que você nos peça isso... — Vincente coçou a parte de trás da cabeça. — Só até eu chegar lá, aquela coisa já teria se regenerado.

— Isso! Eu acho? — quando puxei um pino para trás e girei uma manivela, os tubos conectados ao escorpião-mágico foram preenchidos por algum tipo de líquido verde brilhante, e a parte traseira da arma passou a expelir grandes nuvens de vapor. — Merda, não vai atirar não importa quantas vezes eu puxe o gatilho, deve estar em processo de recarregar ainda...

— Pois eu sei um par de Feitiços que podem nos ajudar nesta situação! — Celestino apontou as mãos na direção do mutante, encheu os pulmões de ar e:  — Wagh! — o velho viu-se de ponta cabeça quando um par de braços pálidos e distorcidos agarraram-lhe os tornozelos e o ergueram ao ar. — Flecha Mágica! — atirou um projétil simples contra os membros e se livrou do agarrão, mas a situação em sua totalidade não havia mudado muito: as pernas do mutante já haviam criado raízes quase por toda a fortaleza, e então nos alcançavam com péssimas intenções.

— Essa arma é nossa única chance de vitória! Não importa o que, não deixem que essas coisas alcancem esta posição! — instruí, apertando os gatilhos repetidamente.

— Ah, NISSO eu posso ajudar! — Vincente sorriu, correndo na direção da massa de carne que invadia aquele pátio.

O Ladino moveu-se tão rápido e mortal como uma flecha, picotando dezenas de braços que tentavam persegui-lo, e forçando a massa de carne a focar-se em se regenerar ao invés de expandir ainda mais seu tamanho. Mesmo assim, Vincente era apenas um único homem, e capaz de cobrir uma quantidade limitada de área.

— Punição Elemental! — Celestino juntou-se à contenda, fazendo aparecer uma enorme onda de água de um círculo mágico muitas vezes maior que o próprio corpo, que pouco após chocar-se contra o crescimento descontrolado, solidificou-se, congelando uma porção de braços e raízes de carne.

— In’mir, Na’Amar — Kangar recitou algo enquanto posicionava uma série de ossos ao meu redor.

Explicações quanto às funções dos ossos foram desnecessárias, quando estes dispararam sozinhos contra mãos que tentaram me alcançar pelos pontos cegos de Celestino e Vincente, aparentemente infectando a estrutura óssea dos membros mutantes, e fazendo seu esqueleto inchar-se, e destruírem a si mesmos de dentro para fora.

— Está pronta — finalmente, a arma que eu controlava parou de emitir vapor, e a incandescência dos tubos que a alimentavam cessou-se.

“BUUM!”, disparei mais seis projéteis mágicos contra o tronco do mutante, então de forma muito mais apurada que antes, não apenas destruindo a carne que tentava alcançar o esqueleto negro e a fonte de seus poderes absurdos, mas também salpicando de roxo todo o dorso daquela aberração de esferas roxas, que transformou sua carne em pó.

— Só mais um disparo — iniciei o processo de recarregamento da arma. — Só mais um disparo — repeti, prometendo a mim mesmo enquanto encarava o mutante que abraçava a torre de metal divino se esforçando para regenerar-se o suficiente para reencontrar seu poder total; buracos do tamanho de casas trespassavam seu corpo, e deles pingava tanto sangue e partes de sua anatomia, que lagos e cachoeiras de carnificina se formavam em diferentes partes de seu corpo disforme.

Não fui o único a notar nossa proximidade à vitória, porém, uma vez que a face do mestre historiador finalmente abrira os olhos e se mostrava assustadoramente consciente, me encarando cheio de ódio.

— Vai dar tempo, vai dar tempo — torci, apertando repetidamente o gatilho da arma antiga.

A face enorme nas costas do mutante abriu sua bocarra chamuscada, e não deu tempo, afinal: consciente ou não, o mestre historiador fez algo que eu não havia considerado como uma possibilidade, e disparou o raio alaranjado de calor em nossa direção antes que este estivesse completamente energizado.

Incompleto ou não, só a luminescência do ataque era o suficiente para cegar e fazer minha pele arder mesmo por debaixo de minhas roupas e armaduras. Todo o sangue derramado ao chão e gotas de suor expostas ao ar evaporaram instantaneamente. Foi como se o próprio sol tivesse nos feito uma visita.

Fende Forte — ouvi Cruz, de alguma forma ainda mais estrondeante que o ataque por vir, e no instante seguinte, a luz intensa dilui-se numa onda de sombras: o Herói Caído finalmente desembainhara a espada que usara para matar um Rei das Sombras, e a enorme quantidade de poder que exalou a arma foi nada menos que explosiva.

Fende Forte, uma vez uma espada sagrada, então profana, emitiu uma tempestade de sombras e raios, um breu tão intenso e vasto que mesmo aquilo distante demais para ser consumido por sua escuridão, perdeu as cores; vi o mundo à minha volta tornar-se monocromático.

— Raaagh! — Cruz concentrou todo aquele poder num único ataque e assim respondeu ao raio do mutante, com uma descarga própria, esta de sombras.

Não foi o suficiente.

Assim que tocou o calor intenso do vômito do inimigo, toda aquela escuridão concentrada fez pouco mais que atrasar o progresso do ataque inimigo em meio piscar de olhos, sendo consumida pelo alaranjado quase que imediatamente, como todo o resto.

— Doze Vontades Heróicas! — Celestino conjurou uma armadura completa diretamente no corpo de Cruz, que pareceu fortalecê-lo, mas em troca de grandes custos para o Mago; Celestino expeliu sangue por todos os orifícios e caiu ao chão, agarrando o pingente de raiz seca, que esfarelou-se, decomposta num instante.

E ainda assim, Cruz não parecia mais perto de conter o ataque inimigo, que nesses breves segundos então já havia empurrado o Herói Caído muitos para trás, e quase alcançava o pátio onde nos encontrávamos.

— Mas que droga, Cruz! — Vincente puxou o frasco que vestia de pingente e o atirou contra o amigo. — Não me faça eu me arrepender disso! — o objeto chocou-se contra as costas de seu alvo.

Cruz imediatamente queimou em contato com o líquido do frasco, seu corpo sendo envolvido por chamas brancas, por um segundo, mas que rapidamente mudaram de cor, escureceram, e tomaram a forma de um par de asas negras de pássaro; o ataque extremamente poderoso da espada profana então via-se pelo menos duas vezes mais forte que antes.

Via-se insuficiente da mesma forma, porém.

Cruz disparava uma torrente de escuridão contra o raio alaranjado de calor continuamente, mas então se encontrava a apenas alguns passos de distância de nós ao pátio, o disparo do mutante mestre historiador tão perto que nossas roupas e cabelos já entravam em combustão espontânea.

Estávamos condenados. Se eu não fizesse nada, seria o fim.

Naquela situação, então, tomar uma decisão foi fácil:

“Eu sacrifico-lhe”, eu disse, ou pelo menos, pensei em dizer. E aquilo foi suficiente.

Meus olhos não mais enxergavam o pátio de Prenuncia, nem o ataque próximo de extinguir a mim e a meus amigos, mas uma pequena, tremeluzente fogueira, e aos meus lados, havia apenas rocha pintada com figuras rústicas de animais e pessoas. Eu havia sido teleportado para o interior de uma caverna.

— ...O que... você... oferece? — às minhas costas, perguntou uma voz feminina rouca, irregular, como se o mero ato de respirar lhe causasse dor. Instintivamente, tentei me virar para trás e encarar a questionadora, mas sua voz me fez parar, me dando calafrios: — Não olhe!

— ...Um ano. Ofereço um ano da minha vida — respondi, encarando a fogueira à minha frente.

— Por que eu... desejaria um ano... de alguém que vai morrer... em um segundo? — questionou a voz rouca entre muitas tossidas catarrentas.

— Cinco, então — multipliquei o valor inicial, percebendo que a fogueira rapidamente morria, e a caverna escurecia.

— Toda... sua vida. Um único dia... para vingar-se... como seus pergaminhos sugerem! — a voz da coisa atrás de mim crescia eufórica ao mesmo tempo que eu escutava arranhões nas paredes, teto e chão distantes da luz da fogueira, que encolhia preocupantemente rápido, consumindo o combustível que só então percebi ser a pele e ossos de uma pessoa. — Dê-me a cabeça de um rei, e antes da meia-noite erga treze templos em minha homenagem, ou teu próprio reino sucumbirá! Gwargh! Treze litros de sangue para cada vasilha! Qual teu número, Alto-Sacerdote? — matraqueou rapidamente, confusa.

Por um momento, eu não soube o que dizer, ou sequer se eu deveria dizer qualquer coisa, mas a fogueira já reduzida a apenas um terço de sua brilhância original não me deixava escolhas fáceis, morte certa de um lado, o desconhecido de outro.

— Não existem mais pergaminhos, templos ou Alto-Sacerdotes — cochichei, e todos os barulhos de arranhões, gargarejos, tosse e grunhidos ao meu redor cessaram-se. Mas, ainda assim, eu não tive minha mente atirada numa realidade paralela de tormento infinito, então continuei: — Aquela coisa lhe roubou de tudo isso, se lembra? Não posso te vingar em um único dia. Me dê poder para sobreviver ao hoje, e o amanhã será seu mais uma vez — expliquei, e a fogueira apagou-se completamente, tendo consumido toda a gordura dos pedaços de gente do qual se alimentava.

Na escuridão total, o frio era de bater o queixo, mas não me atrevi a me mover um centímetro sequer.

Logo, mãos tocaram-me pelo corpo todo.

— ...Um dia — falou uma voz masculina à minha esquerda.

— O preço de hoje... — adicionou uma voz feminina à minha direita.

— Não conte com nosso siso uma terceira vez — concluiu uma voz animalesca à minha frente.

— SEM EXCEÇÕES! — reclamou uma coisa rouca às minhas costas. — OS RITUAIS- O INCENSO- GUERRA! — tentou pronunciar tudo ao mesmo tempo, e no instante seguinte, estourou-se um embate a todo meu redor, me levando a fechar os olhos apertados.

Quando os abri novamente, me vi apontando minha mão na direção de Cruz, e o Herói Caído rugindo, bestial, enquanto emitia uma torrente ainda mais intensa de sombras contra o raio de calor do mutante. O mundo queimava ao nosso redor, mas sobrevivíamos.

O disparo alaranjado durou pelo que pareceu uma eternidade, mas uma vez que finalmente dissipou-se, Cruz pareceu completamente esvaído de energia também, caindo nos braços de Vincente.

— Acabou — eu disse, puxando os gatilhos da arma antiga uma última vez, e disparando meia dúzia de Feitiços de média escala contra o corpo ainda em regeneração do mutante.

A face do mestre historiador urrou, mas por pouco tempo, quando ela e todo o resto de seu torso deformado foram reduzidas a pó. A metade inferior do mutante, seus pés largos que se ramificavam em raízes de carne, sustentando mais dano do que podia suportar, esguichou um oceano de sangue, e por mais que tentasse reparar seu torso, finalmente viu-se encarando uma montanha que não pôde escalar. Logo pulsou por uma última vez e aquietou-se, morta.

Graças ao ritual que me havia sido ensinado pela própria Demônia, havíamos assegurado a fortaleza na qual a batalha final seria lutada.

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