Desenredo - Capítulo: 20

 Capítulo: 20

 

“As maiores forças armadas que nossa Esfera já vira, constituída de mais de três bilhões de bárbaros e inúmeros veículos e armas de origem humana, saqueadas dos lordes benevolentes contra os quais se rebelavam, dirigia-se contra o Continente Bélico em seu momento mais fraco, e com o intuito cruel de aniquilação total.

Os humanos viram-se desesperados, mais desesperados do que jamais estiveram; lhes faltava o poder, os recursos para produzir qualquer forma de resistência digna contra seus invasores. Por mais que possuíssem mentes e dados brilhantes capazes de fabricar milagres, lhes faltavam os recursos, a mão de obra e, principalmente, o tempo. Suas criações de humanos artificiais expeliam corpos prontos para o trabalho mais eficientemente do que nunca, montavam golens armados numa velocidade superior mesmo àquela quando armavam-se secretamente para lutarem uns contra os outros, e tomos mágicos eram empilhados como munição, enchendo galpões do tamanho de blocos de cidades inteiras.

E nada daquilo seria o suficiente, sabiam os membros do mais alto escalão da humanidade. Todos os seus videntes, cartomantes, e inteligências de origem magi-tecnológica apontavam para o mesmo resultado: extinção.

Foi quando quarenta e quatro chaves, extraídas dos corações dos cônjuges dos líderes supremos de cada nação, foram inseridas num certo cofre.

Foi quando historiadores, linguistas e feiticeiros foram permitidos a estudar uma série de objetos pela primeira vez desde seus descobridores originais, que foram todos executados; eram murais, tomos, pergaminhos e cabeças encolhidas que contavam histórias, curiosidades recolhidas de todos os cantos da Esfera, vindos de sociedades há muito perdidas e esquecidas, sem nenhuma exceção.

Foi quando deu-se início ao Projeto Enredo.”

- Trecho extraído do livro Guia Compreensivo da História de Álfheim, por Elarico Milemario Saudoso.

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— Kuh! — Verônico trincou os dentes, recolhendo sua espada, que perfurava a barriga de um inimigo. De um elfo.

Uma tempestade lavava a capital do Sagrado Reino de Fanon, mas por mais que milhares de litros de água escorressem rua abaixo, não parecia o suficiente para limpar as lajotas de todo aquele sangue.

— ...Senhor Príncipe Herói — Saulo chamou a atenção de seu amigo; então o mago exibia uma barba mal feita e olheiras inchadas por trás de seus os óculos.

— Eu sei. Prosseguimos — Apertado o punho ao redor do cabo de sua arma, Verônico tirou os olhos do elfo morto ao chão. Tentava desesperadamente blindar seu coração, como o amigo já havia feito, mas o próximo esquadrão de soldados assustados viu-se forçado a bloquear seu caminho, indistinguíveis dos homens que liderava na invasão à cidade que já fora seu lar, com exceção das cores que exibiam nos brasões de seus escudos e bandeiras. Franziu o cenho ainda mais. Exibia desprezo, nojo, sentimentos que não o criei para experienciar, e todas elas dirigidas a si mesmo.

— Rendam-se agora, traidores! — gritou uma Cavaleira com uma única mecha branca de cabelo, que liderava as forças adiante.

— Os únicos traidores aqui... — respondeu uma voz feminina vinda dos telhados sobre as cabeças dos soldados, surpreendendo-os. — São vocês! — Landa despencou do beiral do prédio, brandindo suas adagas stiletto com a precisão e agilidade de um felino, e igual mortalidade.

Em segundos, uma dúzia de soldados teve suas artérias cortadas, seus órgãos vitais perfurados e suas vidas roubadas. Mais sangue a diluir-se nas ruas alagadas.

— Não os temam! O Rei das Sombras está do nosso lado! — respondeu a comandante dos soldados, recuando. — Magia de sombras é a fraqueza deles! Disparem agora! — ordenou, e seus subordinados chutaram as venezianas das janelas dos prédios que ladeavam a rua, arrombando-as todas de uma vez só, e apontando dezenas de bestas engatilhadas na direção dos Heroicos presentes.

— Perolados portões — Mariah começou a conjurar um grande círculo de luz amarelada sobre todo o bairro.

Mas antes que o feitiço estivesse pronto, Verônico precipitou-se:

— Raaagh! — brandiu sua espada sagrada num amplo semicírculo, sem sequer conjurar uma de suas inúmeras Habilidades, apenas injetando sua arma com uma explosiva onda de energia, e reduziu a metade superior de todos os prédios, que os cercavam e abrigavam os armadilheiros a escombros; atingiu as estruturas com energia o suficiente para petrificar os corpos de seus atacantes e reduzi-los a pó instantaneamente.

— ...Você deveria economizar sua energia, Verônico — Mariah comentou, apenas um passo atrás de seu amante. Em realidade, engolia uma outra frase, uma em que implorava para meu campeão para que não assumisse culpa daquilo, uma em que pedia para que ele não tentasse protegê-la mais do que a si mesmo. — É possível que um ressuscitado Rei das Sombras esteja no castelo.

Verônico não queria saber sobre o que ele deveria ou não fazer, não queria pensar sobre deveres, responsabilidades, ideias, ou nada do tipo.

Os últimos três meses, período em que deveria estar reunindo um exército para pôr um fim de uma vez por todas contra as crescentes forças dos das sombras, foram marcados, invés disso, por intrigas, agitações, fome e tragédias de todos os tipos: comandantes de exércitos passaram a ver as guildas de aventureiros como ameaças, e por sua vez estas passaram a imporem sua vontade em territórios menores e mais vulneráveis, e a diretamente competir por poder com forças armadas oficiais em conflitos violentos; recrutamento forçado de uma população plebeia retirou mãos necessárias dos campos já empobrecidos, gerando fome e por sua vez, também, derramamento de sangue; a igreja dividia-se sobre interpretações da fé que afirmavam ou rejeitavam uma possível divindade do Herói ou do Sistema, e pelo menos três Sacro Sacerdotes já haviam excomungado o Sacro Altíssimo, se declarado os verdadeiros porta vozes do Jornadismo, e reunido exércitos para atacarem uns aos outros.

E o pior de tudo, do ponto de vista de Verônico, diferentemente das décadas passadas, seus grandes e inspiracionais discursos não pareciam resolver nada. Não importava quantas vezes negociava acordos de paz entre as partes envolvidas, ou prometia recompensas para aqueles que hesitavam em adotar a Liga Sacra, via-se repetidamente apunhalado pelas costas; cidades aliadas foram saqueadas por forças que prometeram cessar fogo, plebeus lhe apedrejaram quando lhes ofereceu comida caso se juntassem ao exército, e então seus próprios comandantes pareciam hesitar em continuar a segui-lo uma vez que sua própria capital via-se tomada por forças rebeldes, e o destino da Rainha e do Sacro Altíssimo via-se envolto em sombras ao mesmo tempo que rumores pouco agradáveis sobre sua esposa circulavam por aí.

— Ela tem razão. Deixe os peixes pequenos conosco — Saulo concordou, assumindo a liderança e encarando o fosso e as paredes do castelo branco e lar da família real. Quando dois grupos de Magos, um na torre à esquerda e outro na torre à direita, conjuraram em conjunto um Feitiço de ataque de sombras sobre o grupo Heroico, resmungou: — Inútil — Saulo apontou uma mão para cada torre, enquanto a outra, secretamente e por sob seus mantos, segurou o coração de um mordomo que já havia sido cruel para com um certo convidado, e contra-atacou ainda antes que seus oponentes sequer tivessem terminado de ativar o Feitiço: — Ir’hm, Nar-ln, Montanha Farol!

No instante seguinte, pilares de fogo anormalmente vermelhos envolveram as torres e seus defensores, queimando tão alto e com tamanha intensidade, que a chuva num raio de cinquenta metros das labaredas evaporou instantaneamente, e a água no fosso ao redor do castelo borbulhou e escapou como nuvens de vapor, deixando para trás terra seca e rachada, e crocodilos cozidos vivos. Quando as rubras línguas flamejantes perderam intensidade e então desapareceram, as torres que haviam sido seus alvos então pareciam mais como velas gastas, a rocha tendo sido liquefeita e escorrido paredes abaixo.

Com outro simples gesto, o Mago arrombou os portões do castelo e permitiu que Landa invadisse o perímetro primeiro, encarando a destruição pela qual era responsável e ressentindo seu mestre, que pensava haver renegado o caminho da luz por aquele tipo de poder, conhecimento mágico da antiga espécie humana.

Bem, o Feitiço fora pelo menos parcialmente resultante de magia humana, mas não passava de um conjunto de retalhos e remendos que ainda precisavam do poder do Sistema para funcionar, mas Saulo mostrava-se promissor em sua pesquisa.

— R-Recuar! — gritou a cavaleira de cabelo branco, que vinha fugindo de seus oponentes desde as ruas da capital, mas quando tentou abrir as portas sólidas da estrutura branca, as viu trancadas. — Abram! Abram as portas imedia- — tendo seu pescoço, mandíbula, maxila e cabeça separadas em múltiplas partes por um par de adagas, não pode terminar de dar suas ordens, que não seriam ouvidas de qualquer forma.

— Eu sinto uma grande quantidade de aura sombria vindo da sala do trono — Verônico posicionou-se frente as pesadas portas duplas do castelo, seus amigos reunindo-se logo às suas costas. Com desprezo, adicionou: — Mas também há um pequeno grupo de elite no salão de entrada.

— Estamos prontos, Verônico — Mariah prometeu.

Confiando em seus companheiros, meu campeão arrancou as portas de suas dobradiças com um único chute e revelou logo adiante, num salão que normalmente continha filas de comerciantes e funcionários públicos à espera de audiências com a Rainha a fim de resolver disputas e questões legais, uma pequena tropa de duzentos Cavaleiros montados vestindo armaduras completas de aço, armas mágicas de sombras, e fortalecidos por um esquadrão de Magos, todos rodeando um elfo evidentemente experiente e de Nível acima da média, cuja característica mais marcante, além mesmo da armadura ricamente decorada, eram os implantes dentários de ametista.

— Duque Constance...! — Verônico reconheceu o líder das forças rebeldes. — Por que?!

— ...Dezessete gerações. Quatro mil anos. Por todo este tempo, minha família serviu à coroa, e o que tenho a exibir para meus ancestrais que eles já não tinham? Nada. Não fomos recompensados com um único minuto de marcha de terra a mais, nem fomos concedidos uma gota de sangue de Herói. Sequer temos a ascensão de novo sangue para refortalecer nossa classe nobre, já tão consanguínea que novas gerações estão nascendo com problemas de saúde terríveis — os Cavaleiros agitaram-se, relembrados dos motivos pelos quais rebelavam-se. — Estamos presos num Inferno repetitivo de acumulação de recursos apenas para perdê-los a todos cem anos depois, e agora você nos diz que fez um trabalho tão porco que, antes mesmo de termos o mínimo para nutrir uma próxima geração de deficientes, já temos de nos atirar em outra guerra sacra? E contra não apenas um, mas quatro Reis das Sombras? E que mais podem ter sido ressuscitados? Já basta, eu digo... Já basta — não havia raiva ou ressentimento na voz do Duque, apenas profundo, intenso cansaço. E aquilo atingiu Verônico mais em cheio do que qualquer ataque dirigido contra ele até aquele momento. — Atacar! — ordenou enfim, cavalgando adiante e liderando suas tropas.

Em silêncio e mordendo o lábio inferior, Verônico disparou contra seus oponentes muitas vezes mais rápido do que eles poderiam sequer perceber, e partiu Constance e seu cavalo em nove partes antes mesmo que seus inimigos tivessem avançado mais que três metros, cortando através de aço, carne e osso que ofereciam a mesma resistência perante sua arma sagrada: nenhuma. Não parou aí, fazendo como seus amigos lhe sugeriram e economizando energia, preferiu optar por força bruta, sem uso de magia, e triturou a última linha defensiva dos rebeldes como um moedor de carne, seus golpes tão poderosos que seus alvos não eram apenas cortados, mas explodiam como balões cheios de sangue.

O campo de batalha silenciou-se em segundos, corpos dilacerados e armaduras amassadas estiradas por todos os lados.

— ...Vamos acabar logo com isso — Verônico arrastou os pés, de ombros caídos, na direção da sala do trono.

A principal câmara do castelo era projetada como um brilhante e espaçoso corredor ladeado por pilares de mármore em forma de árvores cujas folhas eram pedras preciosas imbuídas de magia de luz e apoiavam arquibancadas moldadas como imponentes navios, sobre os quais ficava a corte durante a maior parte do dia. Contrário à porta de entrada, e sob um grande domo de vidro, descansava um par de tronos, um encimado por um massivo sol feito de ouro, e outro por uma pomba branca de marfim, eram elevados por uma escadaria quinze metros acima do chão, superiores até do que a corte na arquibancada.

Porém, naquela noite, a sala do trono via-se sombria, as esmeraldas removidas de seus espaços na parede e revendidas a fim de financiar um exército rebelde. Os navios-arquibancadas, vazios. O domo de vidro sobre os tronos, quebrado e permitindo o aguaceiro entrar naquela sala. E o próprio símbolo real, os assentos dos governantes do Sagrado Reino de Fanon, haviam sido monstruosamente fundidos num único e deformado móvel que tentava juntar as distintas decorações e ornamentos, e falhava miseravelmente, como os velhos feios e vaidosos que eu gostava tanto de fazer de vilões, e exibiam luxos exagerados a fim de compensar pela nojeira que era sua aparência e personalidade.

Verônico, porém, não poderia se importar menos com a perversão dos ideais do Reino materializados em arte, tinha os olhos fixados num único ponto apenas. Aquela sentada sobre o trono de mal gosto: uma única figura, uma cabeça inteira menor que Verônico, despreocupadamente banhada pela chuva que fazia seus cabelos loiros como o sol, quase cintilantes a depender do ambiente, grudarem à sua face.

— ...Criscina — o Herói encarava sua esposa com o cenho franzido e os dentes trincados.

Aquela que um dia havia sido a Princesa Herdeira então dispensava vestidos e espartilhos, preferindo pelo conforto de aço frio, protegendo-se com um conjunto sinistro de placas negras decoradas com imagens da lua e de tempestades; era um conjunto de partes aleatórias dos tesouros reais, equipamentos usados pelos antigos Heróis, mas profanados, bem como o trono no qual sentava-se. A cabeça encimada pela coroa de sua mãe, moldada como o sol, porém, ainda fazia questão de exibir.

— Meu marido, Verônico — aquela recém-autopromovida à Rainha, sorriu, encarando meu campeão por sobre o próprio nariz. Para o homem que não ouvia a mulher há três meses, sua voz soava terrivelmente mais fria do que ele lembrava. Não que aquela fosse a maior mudança em relação à Criscina. — A que lhe devo esta visita inesperada?

— Onde está a Rainha, sua mãe?

— Ora, você veio até aqui apenas para ver aquela velha? Que chato — Criscina bateu com o dedo indicador no descanso de seu trono, e logo em seguida uma corrente caiu do teto, atirada através do domo de vidro quebrado. E presa a estas correntes pelos pulsos, o corpo de uma elfa de meia idade, seu coração removido do peito. A Rainha.

— Criscina! — Verônico finalmente viu-se incapaz de suportar o peso das ações que fora forçado a tomar e dirigiu toda sua frustração contra sua esposa, avançando contra ela.

Infelizmente, porém, a mulher recém-corrompida por sombras era resultado de quatro mil anos de casamentos arranjados entre descendentes de Heróis com Heróis, e finalmente via-se capaz de agradar a pelo menos uma pessoa, ainda que esta fosse o maior inimigo de seu marido:

 

Nome: Criscina Romântica Fanon IV

Potencial: Muito Altíssimo

Nível: 44

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