Capítulo: 2
O Rei das Sombras, uma entidade tão poderosa quanto o Herói, escolhida pela própria divindade do Inferno, Demônia, para proclamar seu domínio em terras mortais. O Título não apenas presenteava seu portador com Atributos elevados muito além daquele dos mais experientes combatentes, supostamente na casa dos 70 pontos, e uma série de Habilidades nada menos que dignas de lendas, havia também uma característica única associada ao líder supremo do exército das sombras: a imortalidade. Enquanto o Herói era imune a todos os efeitos que não os de sombra, contra o qual era “fraco”, ninguém além do campeão de Deus era fisicamente capaz de lhe desferir um golpe letal, mesmo que tivessem esse poder de fogo. Por isso mesmo, era uma tradição especial, data comemorativa, e prova de vitória que o Herói desfilasse as ruas da capital do Sacro Reino Fanon, Canon, exibindo o cadáver de seu arqui-inimigo antes deste ser mandado para um túmulo distante. Era um desfile grandioso, onde milhares de pétalas de flores especialmente selecionadas eram jogadas sobre os soldados, e os civis comemoravam e aplaudiam.
Eu não participei de tal desfile, porém.
Enquanto o Herói, seus companheiros mais próximos e os nobres de postos altos dentro do exército eram aplaudidos, eu fiquei a postos na Cidade do Abismo, guardando o transporte do saque da capital inimiga. Nem sequer cheguei perto da capital, na verdade, mesmo após o fim do saque, marchando só até a cidade mais próxima de meu vilarejo natal, Pé Direito, aquela mesma onde me alistei quatro anos atrás, onde recebi meu último salário, um “bom serviço e obrigado, soldado”, e fui dispensado das forças armadas, sem cerimônia, junto de milhares de outros soldados, então não mais necessários uma vez que o representante em terra do inimigo de Deus havia sido derrotado, e a geração de monstros havia caído consideravelmente.
— ...E o pior é que nem me sobrou dinheiro para comprar uma casa — comentei quase desacreditado.
Eu caminhava por uma trilha de terra batida, quase imperceptível se você já não soubesse que ela estava ali.
Alcançando a beira de um vilarejo pequeno e de nome que fazia referência ao fato de que a maioria de seus visitantes eram pessoas que se perdiam no caminho para Pé Direito, me peguei apontando o quão absurda minha situação era:
— Então... De volta para a fazenda de meus pais?
Eu não tinha outra escolha, realmente. Por mais que comida e abrigo me fossem proporcionados pela Liga Sacra durante a campanha que lutei, eu não teria sobrevivido até o fim da guerra se não tivesse investido dinheiro de meu próprio bolso em equipamentos relativamente decentes superfaturados. Então eu tinha só suficiente para me manter vivo e independente por cerca de um ano, mas e depois?
— Alô? Alguém em casa? — bati na porta de casa. Não demorou muito até que alguém me respondesse.
— ...Oi — um elfo de meia-idade, bronzeado e de mãos calosos, já com fiapos de cabelos brancos surgindo em sua juba e barba, me respondeu. — Posso ajudá-lo, soldado?
— Pai, sou eu. Haicard. Eu, uhm... Eu voltei. A guerra acabou.
҉
Eu me reunia com minha carinhosa e amável família para o jantar no fim da tarde.
Meu pai sentava-se numa ponta da mesa, com minha mãe à sua direita, e de meus tantos irmãos, apenas quatro haviam sobrevivido à dura vida de agricultor de subsistência, de aldeão, dos quais o primogênito fez questão de deixar claro que ele era aquele que se sentaria na outra ponta da mesa retangular.
— Sinto muito por não ter preparado nada especial para seu retorno, Haicard, não tinha ideia de que você daria as caras de volta — minha mãe comentou, pondo um prato de sopa à minha frente. — Vi meus filhos indo, partindo um a um... Não posso dizer o quão feliz fico em ver ao menos um deles retornando. Eu senti saudades, Haicard.
— Eu também, mãe — sorri. Mas a felicidade me escapou assim que meus olhos recaíram sobre meus irmãos, especialmente Umberto, o primogênito, que me encarava como se eu tivesse sacrificado seus amigos para diabos num ritual de sangue.
— Eu aposto que essa comida aqui tem gosto de bosta de vaca pra você, né — Umberdo comentou.
— Uh... Não, nossas refeições não eram muito melhores que isso. Na verdade, acho que a comida da mãe é mais gostosa.
— Obrigada, Haicard.
— É só a verdade, mãe.
— Qualé, não precisa ser tão modesto. Aposto que você viu vários lugares mais interessantes que essa vilazinha. Comida melhor. Mulheres mais bonitas — meus outros irmãos pareciam concordar com Umberto, mas não se atreviam a imporem-se como ele. Os tempos em que eles podiam usar de força bruta para me subjugar haviam ficado para trás, afinal.
Bem, na verdade, se os quatro se juntassem contra mim, seria uma luta difícil de vencer, independente de meus Atributos, mas eles não precisavam saber disso. Que se acovardassem com suas próprias suposições.
— Nah, a maior parte do que eu vi foram campos chamuscados por bombardeios mágicos, torres em ruínas e acampamentos fedorentos. Campos de batalha não são lá uma atração turística.
— É claro, é claro — Umberto não manteve o receio longe de sua face quando o relembrei de que eu possuía experiência de combate e não me acovardaria daquela vez. Me surpreendendo, porém, ele sorriu logo em seguida — Ou seja, nessa última metade de uma DÉCADA, você sequer pegou numa enxada, né? E, se me lembro bem, você não costumava ser aquele que passava a maior parte do tempo cultivando nossas plantações também, mesmo antigamente.
Ele não estava errado, mas doeu um pouco que Umberto, de todas as pessoas, me pegou com palavras. Era aquilo que eu ganhava por ter escolhido a abordagem da exaltação de minha força. Eu não era o Herói para vencer todos os meus desafios com poder inigualável.
— Quatro anos não são “metade de uma década”, irmão. Quatro não é metade de dez, sabia?
— ...Foi só um modo de falar — se olhares pudessem matar, Umberto seria culpado de fratricídio.
— Bem, bem, Haicard acabou de voltar de uma guerra, rapazes, aposto que a última coisa que ele quer fazer é falar de trabalho agora. Deixe-o comer e descansar por hoje! — minha mãe interveio.
— Eh? Mas amanhã ele vai trabalhar, né? Se a gente colocar ele para girar a moenda, podemos vender o boi! — meu pai parecia empolgado para me colocar a trabalho no lugar de uma literal besta de carga...
— Pra que vender a porra do boi?! Gastar o dinheiro todo com cachaça, velho?! — o mais velho de meus irmãos reclamou. — E quando você morrer, e quando o Haicard for embora, como que a gente ficaria?! — deu uma olhada de esguelha em minha direção quando comentou que eu inevitavelmente partiria, mas fingi não perceber.
O resto da janta não foi muito diferente, com Umberto tentando me desprover de qualquer capacidade de trabalhar na fazenda, e minha mãe intervindo. Quando o sol se pôs, dormi na sala de jantar, ao lado de meus três outros irmãos, numa esteira de palha.
҉
— Ai ai... — suspirei, sentado numa pedra e observando todo mundo trabalhar no pequeno cultivo de mandioca, amendoins, café, batatas, batatas doces, e outras coisas que devem ter passado a plantar depois que parti.
Eu havia tentado arrumar algo para fazer quando o sol raiou, mas quando quer que eu pegava numa ferramenta, um de meus irmãos logo surgia para tomá-la de minhas mãos com alguma desculpa. Numa hora, diziam que as coisas haviam mudado nesses últimos anos, e a forma que eu conhecia de fazer a tarefa não era mais a mesma, noutra que eu estava executando a tarefa errada e que eu deveria deixá-los fazê-la eles mesmos.
Claro, eu poderia muito bem facilmente derrubar meus irmãos com um mero empurrão, mas eu não sentia prazer em usar força contra aqueles que sabiam que não tinham chances de sobreviver se não competissem agressivamente por aquele pedaço insignificante de terra.
— Oi, hehe — uma garota se aproximou de mim. Cabelos presos em marias-chiquinhas e sardas no rosto todo, usando um vestido todo remendado. Não era feia de maneira alguma, mas nem era diferente de qualquer outra jovem elfa do vilarejo. — Ainda descansando, né? Acabasse de votar da guerra e tudo, né, tem que descansar mesmo!
— É, claro — sorri, tentando ser simpático.
Sentando-se ao meu lado, a garota continuou:
— As gurias todas estão falando de você, sabia? Ai, elas estão tudo doidas pelo guerreiro que voltou ganhador, hehehe.
— Sei. — aquilo não era realmente surpreendente, nobres veteranos de guerra eram muito romantizados por bardos e contadores de história, mas para plebeus um mero Diácono Guerreiro era o melhor que poderiam realisticamente enamorar... se tal veterano não fosse uma pessoa quebrada e traumatizada, é claro.
— Então... Tu deves estar todo bobo escolhendo a menina mais bonita para casar, né? Hehe.
Me casar com uma garota que mal conheço...
— Quero dizer, estás forte, e podes herdar a fazenda do seu pai se quiser, agora. Ou ainda virar um caçador, ou açougueiro, ou sei lá.
Arrumar uma profissão comum...
— Ei, você tá bem? Tá meio pálido...
— Sim, sim, haha.
Viver mais uns cinquenta anos trabalhando duro, ter uns doze filhos e morrer. Claro, tal opção garantia minha sobrevivência. Mas algo nisso não se assentava bem comigo. Colocar mais tantas crianças no mundo para que se digladiassem entre si por fatias de pão bolorento, como animais, destinadas a morrer mortes de animais. Depois de tudo o que passei, não podia considerar “sortuda” a criança que decidisse viver por violência também; a guerra sacra havia acabado, e outra não seria travada em menos de cem anos, mas ainda havia monstros e bandidos, e aventureiros para matá-los. Se eu fizesse isso, não seria tão assassino quanto as feras que vagam mata adentro?
— Aargh!
— Merda!
— Onde ele tá?!
Uma balbúrdia estourou na ruazinha que compunha o centro do vilarejo. Eu duvidava que fosse algo sério devido à falta de sons típicos de um ataque surpresa, mas disparei em direção à confusão com uma mão no cabo de minha espada, que nunca permiti ficar a mais que um braço de distância de mim nem quando soldado, nem como civil.
— O que houve? — perguntei ao aldeão mais próximo.
— Ah, Haicard! É verdade, você pode ajudar. Foi um javali! O bicho quase matou o Pedro, coitado — apontou o aldeão, indicando um ferido que era carregado para longe por outros quatro homens. — O desgramado já invadiu umas quantas plantações e acabou com tudo, mas é um bicho enorme, e não temos lanças para caçar javalis, cães de caça e essas coisas todas. Já estávamos prestes a fazer uma vaquinha para chamar uns caçadores da cidade grande, mas agora que você está aqui, podes resolver isso!
— É mesmo! Haicard tá forte! — demais membros da multidão aclamaram. — Tá na hora mostrar o que tu aprendeu no exército!
— ...Onde está o animal? — me resignei à tarefa, sem realmente nada melhor o que fazer.
҉
Uma vez que o tal do Pedro havia sido atacado há pouco tempo, o javali ainda deveria estar por perto, especialmente porque, pelo que ouvi falar, ele retornava de tempos em tempos para se alimentar das plantações dos aldeões.
— Pois é, o rastro tá bem fresco. O bicho deve tá logo ali já. É só seguir a trilha agora — meu guia, o irmão de Pedro, que havia sido último a se encontrar com o javali, me olhava de esguelha como se pedindo permissão para deixar a caçada.
— Ótimo, vamos lá então, pessoal — respondi, fingindo não perceber a relutância do meu guia e dos outros dois aldeões que nos acompanhavam, que visivelmente queriam apenas deixar aquilo tudo para mim sozinho.
É verdade, eu era cerca de três vezes mais forte que um elfo de Nível: 1, e talvez até mais forte que o animal que caçávamos, mas isso não significava que eu era invencível, ou arrogante o suficiente para rejeitar uma ajudinha.
Claro, eu não esperava que aqueles três rapazes assustados fossem ser de qualquer utilidade em combate, mas poderiam pelo menos me ajudar a cercar o animal e distraí-lo.
— Oighn! Oighn! — o javali chafurdou o chão, comendo umas bagas caídas às folhas. Era um animal bastante grande, do tamanho de uma pessoa de focinho a rabo, e alcançando meu umbigo na altura dos ombros. Não era uma surpresa que aldeões despreparados eram incapazes de abatê-lo.
— Tá aí — sussurrou meu guia, me olhando de esguelha. — É só ir lá e acabar com ele agora, Haicard — indicou com a cabeça.
— Certo, o plano é o seguinte: você vai se aproximar pela esquerda do bicho, você pela direita, você pelas costas, e eu vou encarar o javali pela frente.
Os três homens, empunhando lanças de ponta de madeira endurecida, trocaram olhares nervosos ao ouvirem minhas instruções.
— Haicard... Por que você só não vai lá e mata o bicho de uma vez? — o irmão de Pedro perguntou.
— Ué, você não quer uma chance de ajudar no abate do animal que machucou seu irmão?
— Bem, sim, mas...
— Não se preocupem sua função será apenas de distrair o animal, quem vai atacar sou eu mesmo.
— M-Mas e se o bicho vier contra a gente? Essa joça dessa lança velha vai se partir toda contra o couro do bicho — outro dos rapazes reclamou com um sussurro tão alto que quase não poderia realmente ser mais considerado como tal.
— Eu tenho pontos em Força o suficiente para correr mais rápido que o bicho, então se ele atacar vocês, eu vou chegar a reforços num instante.
Aquilo era uma mentira, mas encarar a besta sozinho de frente com apenas uma espada era perigoso mesmo no meu Nível, e enquanto o veneno de últimamora era eficiente para o abate de inimigos, eu não tinha noção dos cuidados necessários com a carne de caça obtida através de tal método. Os aldeões certamente desejariam comer o javali, e não era como se eu pudesse apenas impedi-los de comer a carne sem ser profundamente ressentido depois, uma vez que praticamente todos ali viviam num constante estado de fome.
— Agora, entrem em posição.
Hesitantes, os aldeões fizeram como pedi.
Em seguida, ao meu sinal, surgiram lentamente de seus esconderijos, suor brotando de suas testas, e segurando suas lanças tão firmemente que os nós de seus dedos tornavam-se brancos.
— Ooink! Ooink! — o javali girou no lugar, encarando cada um dos aldeões um por vez, exibindo suas ferozes e mortais presas.
Assim que a besta me deu as costas, porém, saltei de trás dos arbustos, rapidamente cruzei a distância entre nós e brandi minha espada contra seu pescoço, visando abrir uma artéria e acabar com aquilo o mais rápido possível.
— Waaahn! — o javali, porém, virou-se no último momento, e minha lâmina mordeu-lhe a face ao invés de meu alvo original; perdeu um olho, e quebrei-lhe uma das presas, espirrando seu sangue num semicírculo ao chão.
— Merda — sussurrei, recuando imediatamente.
— Isso aê!
— Acaba com ele!
— Dá-lhe!
Meus companheiros aldeões viram apenas eu desferindo um ataque à besta, alheios à minha falha.
— Roooghn! — o animal, então sentindo-se encurralado, correu contra mim com sede de sangue.
Esquivei-me de sua investida inicial, mas não tive tempo de lhe desferir um contra-ataque, tão selvagem era a arremetida do javali.
Saltei para a esquerda e para direita, com o coração batendo tão alto nas orelhas que me ensurdecia, torcendo para não tropeçar numa raiz ou pedra, cair ao chão, e acabar estripado pelo animal.
Finalmente, porém, consegui me colocar ao lado esquerdo e cego do javali, e lhe retribuí o ataque: minha espada penetrou-lhe a grossa camada de pele, gordura e músculos do pescoço, cortando vasos sanguíneos de alta pressão, que esguicharam o rubro líquido vital bombeado pelo coração quase acima da altura de meus olhos quando removi minha arma do corpo do animal.
O javali esperneou, tentou correr para longe, cuspindo sangue pela boca e nariz, e espirrando o mesmo pelo ferimento aberto, mas suas pernas logo cederam, e em pouco tempo, morreu.
Enquanto meus batimentos cardíacos normalizavam, permiti que os demais aldeões preparassem a carcaça.
҉
Cerveja rala fluía como rios, copos eram brindados, e carne assada de javali era compartilhada entre os aldeões, além de peixes de água doce e vegetais preparados para a ocasião. Tecnicamente, éramos proibidos de caçar e os animais das florestas pertenciam todos aos nobres, mas havia um acordo não explícito de que, se os plebeus conseguissem evitar de incomodar os tão ocupados e importantes Cavaleiros e soldados de lidar com bestas selvagens, poderiam usufruir de tudo que seu cadáver oferecesse.
Naturalmente, eu também aproveitava um espetinho de javali com vegetais, próximo à carcaça do animal sobre o fogo.
— Uau! Tu matou o javali sozinho?!
...E a garota de mais cedo sentava-se ao meu lado, de olhos arregalados.
— Nah, vieram, tipo, uns quatro caras comigo.
— Mas foi você que cortou o olho do bicho, e furou o pescoço dele! Tipo, olha que aqueles caras exageram nas suas histórias, mas mesmo exagerando, eles não puderam dizer que colocaram um único arranhão nesse bicho!
— Bem... eles distraíram ele por tempo o suficiente para que eu o finalizasse.
— Hahaha! Tu é muito humilde! Mas eu sei a verdade, você é forte! Mal chegou e já está protegendo a aldeia, matando bichos... Ai, ai, você é tão legal também.
— Haha... — eu não podia dizer que não gostava da atenção da garota, principalmente sabendo que, diferentemente de minha última namorada (Julia, eu nunca me esqueceria de quando você se sacrificou para me salvar, espero que sejas feliz em Paraíso), ela não morreria na guerra contra o Rei das Sombras. Era tudo o que vinha anexado a ela que me deixava hesitante. No fim das contas, eu nunca me senti feliz naquele vilarejo quando criança, e tinha certeza de que isso não mudaria uma vez adulto. — Eu preciso ir soltar um barro, já volto — Me levantei — aquela clareira com os pés de últimamora ainda existe, né? Acho que cagar lá não vai incomodar ninguém. — Eu ansiava por solitude como não o fazia há anos.
— Ah, não, uns historiadores vieram aí há uns três anos atrás e realizaram uns estudos lá. Agora só existe um buraco cheio d’água da chuva naquela clareira, virou um laguinho. — Respondeu a garota.
— Eh? M-Mas e a pedra que descansava lá?
— Pedra? Olha, a gente passa lá pra molhar os pés de vez em quando, e não tem mais nenhuma pedra lá não. — Ergueu uma sobrancelha, confusa. Por algum motivo, a ausência de meu esconderijo secreto de infância me abalou mais do que qualquer empurrão que meus irmãos pudessem me dar. — Hehe, mal chegou na vila e já está matando bichos, e explorando a mata, pareces até um aventureiro!
— Aventureiro...?
— É... Falei algo estranho? Ai, soldados não devem gostar de ser comparados com aventureiros, né? Desculpa.
— ...Não — sorri. — Eles não te deram carne nenhuma ainda, não é? Não é uma surpresa, querem priorizar aqueles que “ajudaram” na caça, mesmo que tangencialmente. Aqui, quer provar? — entreti a garota. Senti que então devia ao menos aquilo para ela.
҉
No dia seguinte, parti do vilarejo para me tornar um aventureiro.
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