Capítulo: 19
Por trás dos dentes da divindade torturada, enquanto eu me segurava no cabo de minha espada fincada na carne daquele ser a fim de não escorregar goela abaixo, me deparei com dezenas de outras bocas pontilhando sua garganta; mandíbulas e maxilas de animais e pessoas encrustadas na traqueia do que um dia já havia sido sagrado. E elas falaram comigo.
— Desgarrado! — urrou uma boca óssea de cervo.
— Desconectado... — ossos envoltos numa fina camada de carne sussurraram.
— Humano? —a mandíbula de um urso bateu contra seu maxilar, questionante.
As dezenas de bocas independentes continuaram a papear assustadoramente enquanto a lâmina de minha espada era lentamente empurrada para fora devido à alta regeneração da divindade mutilada:
— ...Não. Elfo.
— Ragh! ELFO! RAAGH! — as bocas todas urraram e morderam e amaldiçoaram, quase como se tentando sair da parede de carne na qual estavam presas e me dilacerar o quanto antes.
— Mas separado... diferente...
— Resistindo?
— Lutando?
— GUERREANDO! — as bocas rugiram mais uma vez, mas então num tipo diferente de euforia. Comemoravam.
Com meu coração batendo como um tambor em meu peito, então suando mais por nervosismo do que calor, eu não tinha ideia do que poderia fazer, se é que me restavam opções contra literalmente uma divindade.
Um acordo, como aquele que fiz com a Grande Vontade?
— P-Por favor! E-Eu vou guerrear, eu vou guerrear contra seu inimigo! E-Então, me poupem! — implorei.
— Guerra!
— Inimigo!
— SEM PIEDADE!
As bocas espalhadas pela garganta da abominação divina pareciam divididas, latindo e tentando morder umas às outras.
— Ooh, Deus...! — Minha espada já estava quase completamente fora da carne da bochecha, eu perdia meu único ponto de apoio e logo escorregaria direto na direção daquele triturador falante que era a garganta de Demônia. — S-Sem piedade! Eu vou destruir a Grande Vontade, eu vou vingar vocês! Eu vou reconquistar tudo o que era humano! — tentei prometer qualquer coisa que, em minha cabeça, faria sentido para as divindades humanas traídas.
E as bocas silenciaram-se.
— ...Grande Vontade... — sussurraram múltiplas das bocas. — SEM PIEDADE — concordaram todas em uníssono, rosnando e trincando os dentes audivelmente, silenciadas apenas por um borbulhar vindo de mais fundo de seu corpo compartilhado.
— Merda! — minha espada fora completamente expelida da carne da bochecha de Demônia, e deslizei língua abaixo.
Logo antes de eu cair em escuridão total, porém, me vi suspenso no ar por dezenas de membros ásperos e retorcidos: um apêndice que parecia um braço abarrotado por centenas de dedos havia emergido de onde quer que a goela de Demônia levava, e me segurado com um de seus muitos dígitos.
Sem palavras, consegui apenas observar a coisa diante de mim, cuja palma partiu-se ao meio grotescamente, fazendo emergir uma figura magra, pálida, enfraquecida e trêmula, uma mulher humana de olhos leitosos, ensandecidos.
A figura segurou meu rosto delicadamente e puxo-me para perto de si até que seus lábios estivessem quase tocando meu ouvido.
Sussurrou-me algo.
҉
Quando Demônia me cuspiu de sua boca sem lábios, não me vi nem um pouco aliviado, e não apenas pelo que a divindade torturada havia me revelado, mas pela trágica cena à minha frente: corpos dilacerados, tão brutalizados que sequer era possível contar quantos estavam presentes dentre as tripas ao chão. Meus companheiros.
Antes que o choque tivesse dado espaço para o luto e eu pudesse chorar sua morte, porém, o único braço livre da divindade suprema do Inferno caiu sobre seus restos mortais, esmagando-os ainda mais entre seus dedos junto do chão da catedral.
— Waaagh! — Cruz respirou fundo, de olhos arregalados e encharcado de suor, uma vez que a mão de Demônia relaxou, revelando que meus companheiros todos tiveram seus corpos reforjados e suas almas devolvidas de alguma forma.
— D-Deus... — Vincente cobriu o rosto com as mãos ainda tremendo. Não haviam retornado sem sequelas, pelo jeito, porém.
— Ooh... obrigado, Nianda — Kangar curvou-se perante o ser ascendido, tremendo da cabeça aos pés, apesar da expressão neutra.
Eu deveria ter esperado por aquilo, considerando que não haveria sentido que as antigas divindades humanas tivessem me revelado aquela informação apenas para executarem meus amigos logo a seguir, mas ainda assim, a mente racional conseguia processar apenas certas informações por vez, e ainda me sentia prestes a ter um ataque cardíaco.
— T-Temos que sair daqui. Agora mesmo — disse mais para mim do que para qualquer outra pessoa.
— Sim. Imediatamente — Celestino concordou, de olhos arregalados e queixo caído, encarando o nada.
E uma vez que Demônia não havia produzido nenhum portal conveniente para nós, a única rota de fuga que ela nos oferecia era a palma que tinha aberta e com a costa de sua mão encostada no chão da catedral, esperando pacientemente.
Lutando contra meus nervos, que diziam para não me aproximar daquela criatura de novo, subi em sua palma. Hesitantemente, meus companheiros me seguiram.
Então, a divindade torturada nos elevou, erguendo o braço para cima e para cima, e uma vez que havia chegado ao seu limite, ultrapassou-o, simplesmente criando novos cotovelos e estendendo o tamanho de seu membro até que alcançamos os primeiros degraus de uma escadaria quebrada ao teto.
Cruz e os demais todos apressaram-se andar acima, mas antes de segui-los, arrisquei um último olhar àquela entidade marcada como a inimiga suprema da ignorante civilização élfica: em carne viva e coberta por todo tipo de armas fincadas por todo o corpo, seus olhos permanentemente choravam sangue, perfurados por chifres que cresciam de seu osso esfenoide, ela tinha as costelas quebradas e o coração exposto, o qual tinha de bombear manualmente com uma mão. Uma vez dezenas de orgulhosas divindades da guerra, então uma criatura lamentável, ensandecida por eterno sofrimento.
Dei-lhe as costas, ascendendo a escadaria escuridão acima.
҉
Levamos cerca de três meses para emergir de volta à superfície através de uma série de túneis, fossos, rampas e elevadores repletos de estruturas metálicas estranhas; tubos, alavancas, válvulas e uma série de outras coisas incompreensíveis acumulando múltiplas camadas de poeira e teias de aranha.
Fomos forçados a comer a carne de monstros canibais cegos e esquisitos, a navegar mapas desbotados, e ativar magi-tecnologias há muito dormentes a fim de abrir portas e ascender até andares superiores por escadas ou elevadores, o que se provou especialmente difícil enquanto carregando três enormes caixões metálicos.
Por fim, e após acumular uma série de novos traumas...
“Plim!”, as portas metálicas do elevador abriram-se próximo ao topo de uma montanha, e luz solar atingiu nossos olhos tão intensa e claramente que cegou-nos a todos momentaneamente.
— Haha... — naquele momento, porém, mesmo aquela dor de olhos repentinamente expostos à luz solar depois de muito tempo no escuro me parecia tão gostosa.
— Por Deus, finalmente — Vincente fora o primeiro a cambalear para fora do elevador, e deixou-se cair sobre o cascalho ao chão. Todos o copiamos sem pudor.
— Haicard, não sei qual a próxima etapa do seu plano, mas por favor, não nos leve literalmente para o Inferno de novo — Cruz pediu.
— Ah, não precisa se preocupar, a próxima etapa vai ser muito mais fácil do que enfrentar Demônia, só precisamos derrotar o Herói — respondi.
— O fato de que, nesse ponto, esse objetivo me parece realista deveria ser engraçado? — Celestino questionou-se.
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