Desenredo - Capítulo: 18

 Capítulo: 18

 

“Eles tinham o mundo inteiro em mãos, segundo alguns pesquisadores até múltiplos mundos, mas não a terra que queriam, não o que eles realmente desejavam, e perceberam que sua conquista desenfreada de países distantes até o fim de nossa esfera não passava de uma distração passageira. O verdadeiro objetivo dos quarenta e quatro países herdeiros sempre foi o de reunificar o Império Forte que já se estendeu por todo o Continente Bélico.

Travaram uma segunda guerra.

Mas daquela vez, não houve impasse de milênios; possuindo recursos quase infinitos obtidos de todas as suas colônias, os impérios humanos construíram armas ainda mais poderosas que os Príncipes Conquistadores, e as usaram uma única vez uns contra os outros numa guerra que durou apenas quatro horas.

Como as armas funcionavam, ou o que faziam, perdeu-se nos anais da história, tais constructos de guerra tendo provavelmente aniquilado uns aos outros junto do glorioso berço da humanidade.

A espécie não havia sido extinta ainda, porém: governantes, líderes e figuras influentes, brilhantes como eram, sequer sentiram o cheiro da fumaça da guerra que desintegrou tudo o que haviam construído ao longo dos mil anos como impérios globais; alguns desceram de além da Domo, outros ascenderam de subterrâneos tão profundos que quase tocavam o outro lado da Esfera, e usando magi-tecnologias de clonagem, criação de homúnculos, golemancia, e necromancia, rapidamente assumiram controle de seus territórios vitrificados, sem ter ganhado um único fio de cabelo das fronteiras de seus maiores inimigos, seus vizinhos, pois a espécie humana era simplesmente tão fantástica assim.

Apesar da engenhosidade da espécie, era um fato que em poucas horas recursos obtidos ao longo de dez séculos haviam desaparecido. E pior ainda, os ingratos que haviam apenas se beneficiado do domínio humano, percebendo o enfraquecimento das capitais que os controlavam, rebelaram-se todos ao mesmo tempo, uma turba de bárbaros selvagens sedentos de sangue dirigiu-se contra a terra mais sagrada desta Esfera.”

- Trecho extraído do livro Guia Compreensivo da História de Álfheim, por Elarico Milemario Saudoso.

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Verônico apoiava-se num merlão da muralha do castelo de sua esposa, observando a cidade adiante com um olhar pesaroso.

— Herói? — Mariah surpreendeu-se ao tombar com o rapaz ali. — Você não deveria estar na sala do trono agora? Ao lado de sua esposa, discursando para os nobres do reino e emissários de nações vizinhas?

— Haha, a Rainha e a Princesa são muito bem capazes de fazer isso por si mesmas — sua risada forçada não enganaria ninguém.

A Curandeira aproximou-se de meu campeão, olhando para a paisagem de milhares de tetos alaranjados da cidade abaixo, e tantas quantas casinhas de paredes brancas voltadas para o castelo e para o mar.

— Não é sua culpa, sabe? — ela comentou, enfim.

— Que?

— Haicard. O que ele fez é inteiramente responsabilidade dele. Você não fez nada errado.

— Mas eu o deixei escapar. Eu o deixei escapar várias vezes, e agora vamos ter outra guerra sacra — Verônico apertou os punhos e franziu o cenho. Se soubesse que lutaria outra guerra apenas alguns meses atrás, provavelmente ficaria feliz, mas então se achava um tolo por jamais ter pensado daquela forma. — Muitas pessoas vão morrer por conta de minha incompetência.

— Não. Muitas pessoas vão morrer porque Haicard é um monstro em pele de elfo fazendo maldades — a Curandeira afirmou de forma nada apropriada para o tropo de personagem fofa, mas sofrida que eu havia imaginado para ela inicialmente.

O rebeldezinho havia agitado memórias que eu cuidadosamente suprimi em sua personalidade, aquele ingrato mais uma vez se mostrando um incômodo efeito dominó em pessoa.

— Então você não vai dizer que ninguém vai morrer, é? Haha...

— É claro que pessoas vão morrer, Verônico, essa é a natureza de uma guerra. Mas você não é responsável por isso, Haicard é. E tenho certeza de que todos os soldados, vivos ou mortos, concordariam comigo.

— Eu não teria tanta certeza disso. Digo, Haicard também foi um soldado, não é?

— Verônico — Mariah encarou o Herói, séria. — Você acha que eu te odeio?

— ...Eh?

— Você não pensa realmente coisas como “se eu apenas tivesse chegado mais cedo”, ou “se eu tivesse começado a investigar aquele culto antes”, não é? — insistiu, olhando para as próprias mãos, ambas cobertas inteiramente por tecido cicatricial, sem unhas.

— Eu... — Verônico, pela primeira vez desde sua reencarnação, sentiu-se fraco. Flashbacks de sua vida passada mesclaram-se com os do Herói, derrotas e mais derrotas, e o homem passou a se perguntar se sequer havia realmente mudado. Se perguntou se sequer era digno da segunda chance que lhe foi dada. Um nó apertou-se em sua garganta. — D-Descu-

— Você está errado! — Mariah afirmou, certa, quase imperiosa. Tomando as mãos de meu campeão e encarando-o carinhosamente, corrigiu-o: — nunca, nem por um segundo, eu senti algo que não admiração e gratidão por você, Verônico. Minha vida começou apenas uma vez que você me tirou daquela caixa. Quando você me libertou do Gerador de Cura, foi como se eu tivesse acordado de um pesadelo para um sonho — seus olhos encheram-se d’água, e com um sorriso tremeluzente, tentou concluir: — Eu...

O príncipe cônjuge e sua companheira encararam-se em silêncio. E como se fosse um sinal de partida, quando a ponte levadiça do castelo se baixou e escoltas militares partiram em direção a todos os reinos, principados, ducados e territórios a fim de reunir um novo exército cruzado, beijaram-se as sombras da torre de guarda.

Torre esta sobre a qual uma Ladina deitava-se, estirada em seu telhado, com um sorriso amargo no rosto, remoendo a conclusão de que devido à sua natureza vulgar de moleca que rua, sequer já teve uma chance com o homem que amava, ignorante ao fato de que fui eu quem manteve tanto ela quanto Mariah longe de sucessos românticos para com Verônico até então.

E não muito longe dali, na mesma mansão em que o rebeldezinho notou minha existência pela primeira vez, Saulo encarava, descabelado, os estudos deixados para trás por seu mestre, não apenas dissipando qualquer sombra de dúvida de que era o homem que lhe mostrara o caminho correto, o mesmo que apoiava o novo Rei das Sombras, mas também juntando as peças do porquê o velho elfo o fizera.

No salão de festas do castelo, uma desamparada Princesa Herdeira, de ombros caídos e olheiras cheias, era abordada por um Duque de dentes de ametista e um Alquimista visivelmente de baixo nascimento pela falta de modos, ambos cheios de propostas, presentes e ideias nunca antes proferidas em Fanon.

E eu...

— Não me decepcione, rebeldezinho.

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