Desenredo - Capítulo: 17

 Capítulo: 17

 

À minha frente e aos pés do penhasco de rocha cor de jade, magma esmeralda borbulhante chocava-se contra a parede escarpada da formação rochosa como um oceano invertido. Pontilhando a paisagem vulcânica fluorescente, enormes templos tão distorcidos quanto o portal que nos trouxera para aquele lugar, catedrais de arquitetura infernal com torres e edifícios inteiros de estilos completamente diferentes crescendo de forma cancerígena de suas paredes e tetos, quimeras arquitetônicas terrivelmente fundidas. E muito acima de nós, um teto de rochas e escadarias partidas, nos encontrávamos no fundo de um fosso ardente.

— Celestino... Onde estamos? — perguntei. Mesmo com Nível significativamente superior ao de uma pessoa comum, o calor era tão intenso que eu não pensava ser capaz de suportar aquele ambiente por mais do que algumas horas, no máximo.

— ...Sinto muito.

— Por que? — eu já sabia a resposta, mas me segurava à possibilidade de que eu poderia estar errado com todas as minhas forças.

— Esta era nossa única escapatória, Haicard. O portal não levava para nenhum outro lugar... Estamos no Inferno — o Mago finalmente admitiu.

— Estamos numa prisão — Kangar acrescentou.

— Wraaagh! — rugidos ressoaram penhasco abaixo, vindos do único caminho que nos era disponível. E o que quer que provocara aqueles sons, não estava sozinho.

Uma vez que nuvens negras de criaturas aladas emergiram de fossos escondidos no teto cavernoso do subterrâneo, e mais assustadoramente ainda, garras e chifres quebraram a superfície do mar de magma muito abaixo.

— Monstros infernais, diabos. Devem ter sido atraídos pela ativação do portal — o Mago comentou, apertando os dedos ao redor de sua varinha.

— Independentemente de onde estejamos e como chegamos aqui, temos de sair agora mesmo! Somos alvos fáceis aqui! — Vincente tinha razão. Notando que Cruz quase não conseguia parar em pé, porém, assumiu a linha de frente: — Ogro, você carrega os caixões! Celestino, você fica na retaguarda.

— Desculpe — Cruz sussurrou quando lhe emprestei um ombro. Suas roupas já estavam encharcadas de sangue, que pingava das pontas de seus dedos e por sob sua máscara de leão, o homem precisava de tratamento urgentemente.

— Não há por que se desculpar, você fez um ótimo trabalho naquela tumba. Agora confie em mim e deixe o resto comigo. Eu sempre tenho um plano, se lembra? — menti, na verdade não fazendo ideia de como poderíamos escapar do Inferno uma vez que a única conexão presumida entre o reino de Demônia e as terras élficas não funcionaria mais.

Corremos a toda velocidade penhasco abaixo, e não demoramos a encontrar as primeiras criaturas infernais que rugiram mais cedo: eram monstros parecidos com macacos, mas de tamanho superior, sem pelos, de pele vermelha, e com chifres crescendo de suas testas. Havia facilmente dezenas deles subindo o aclive em nossa direção.

— Fora do caminho! — Vincente rapidamente picotou uma série de monstros com suas adagas, separando cabeça, braços, pernas e o rabo de seus troncos.

— Il’mrir, alkef, Fin-deil — Kangar recitou palavras estranhas, posicionando-se como um contorcionista, e no instante seguinte, os corpos dos monstros abatidos reergueram-se, animados por um brilho azul vindo de dentro de seus corpos, e passaram a nos guardar contra a própria espécie.

Nossas defesas conseguiam impedir que a multidão de monstros alcançasse os membros mais vulneráveis-

— Os inúteis. Como você — a entidade atrapalhou minha linha de raciocínio.

Mas havia simplesmente monstros demais, não parecia haver um fim para os macacos infernais; avançávamos muito vagarosamente. E para piorar:

— Acima de nós! — notei que a nuvem de criaturas aladas aproximava-se muito mais rapidamente do que eu esperava, e já se mostravam a poucos minutos de marcha de distância de nós: pouco menores que os macacos, eram monstros parecidos com morcegos, mas com um único chifre curvado e afiado no meio da testa cuja função era óbvia.

— Inverno Absoluto! — Celestino apontou a varinha para os monstros alados e produziu uma nevasca que, de uma vez só, congelou centenas dos morcegos infernais. — Fenômeno Poltergeist — deu sequência ao ataque com um segundo Feitiço, e conteve os corpos congelados dos inimigos no ar, os estilhaçou e reorganizou os fragmentos de gelo e tripas de forma que os chifres afiados dos monstros encimassem uma lança congelada improvisada. — Multiplicar por Três! — por fim, transformou as centenas de lanças de gelo e cadáveres em milhares, e atirou-as sobre os macacos infernais, picotando e dizimando todo um exército de criaturas infernais em três movimentos.

— B-Bom trabalho — mesmo que Celestino então ofegasse e limpasse o suor da testa, visivelmente exausto, eu jamais me acostumaria com os feitos que aqueles favorecidos pela entidade eram capazes.

— Ainda não acabou — Cruz comentou baixinho. — Aqueles são mais fortes que os outros.

Quando chegamos ao pé do aclive, demos de cara com uma praia infernal, uma ilha num oceano de magma verde de onde emergiam mais um número sem fim de monstros, estes que tinham quase duas vezes o tamanho de um orc, de pele rochosa e sólida, que respiravam fogo e empunhavam armas incandescentes.

— Ali! — apontei na direção de um templo meio submerso no mar infernal, e Vincente imediatamente se pôs a abrir caminho através dos monstros infernais superiores.

— Esses malditos-! Kuh! São fortes! — o Ladino reclamou, esquivando de um chicote de chamas, e depois de uma baforada de labaredas. — E resistentes! — adicionou, tendo que desferir tantos ataques em um único monstro para abatê-lo, que suas adagas esquentaram e então escaldavam suas mãos, fumaça saindo da empunhadura, e o homem visivelmente sofrendo de dor.

— Ba-Lança de Corações... — Celestino começou a conjurar entre uma respiração pesada e outra. — ...Terrestre! — ativou o Feitiço, e duas dúzias de monstros foram arremessados de volta ao mar de lava, catapultados para longe por plataformas de terra que ergueram-se rápido demais bem sob seus pés. — Garfh! — o velho mago apertava seu manto sobre o coração com uma mão, seus joelhos tremendo.

— Kangar! — chamei o necromante de volta, que teve de deixar de controlar seu exército de macacos infernais para dar suporte ao mais velho do grupo. — Não se esforce demais, Celestino, precisamos de você consciente para nos tirar daqui — eu ainda tinha esperanças de encontrar uma saída daquele lugar. Não seria interessante ter um portal tão diferente que levasse para a morte certa por motivo algum na Tumba dos Reis das Sombras, afinal, a presença deve ter colocado aquela passagem lá por algum motivo; e o simples fato de não termos sufocado e morrido em instantes pelos gases tóxicos que deveriam encher todo o espaço daquele lugar confirmava isso.

— Ah, lá vem ele, rastejando para mim de novo. Arrependido de se rebelar e me desafiar? Deseja retornar à minha realidade cuidadosamente construída? — um certo ser sem noção deve ter alucinado com palavras que jamais saíram de minha boca.

— Ogro, comigo! — uma vez que entramos na catedral semiafundada, Vincente e o ogro fecharam as maciças portas duplas de madeira e ferro, trancaram-nas com um tronco inteiro de madeira posicionado em suportes parafusados nas estruturas. Poucos segundos depois, as criaturas do lado de fora começaram a bater nas portas. — Não vão resistir por muito tempo... — Tornando-se para seus amigos, preocupado, segurou o frasco que vestia como colar, mas ambos seus companheiros feridos balançaram a cabeça em negativa. Notando minha confusão, explicou: — É um presente de uma velha amiga... Mas eles têm razão, não vai nos tirar daqui, seria um desperdício.

Posicionei Cruz contra um pilar e limpando o suor excessivo que escorria por todo meu rosto, procurei por uma saída, qualquer saída.

Mas não encontrei nenhuma.

A catedral era inclinada para baixo, e após avançar apenas cerca de quarenta passos para dentro dela, sua estrutura mostrava-se cheia de rocha verde escura, com o exterior solidificado, mas ainda líquida logo abaixo de sua superfície. Sequer havia passagens laterais, escadarias para andares superiores, nem nada do tipo.

“CRACK!”, um pesado machado flamejante atravessou a porta da catedral. Nosso abrigo não iria durar por muito tempo.

— T-Tapa Buracos...! — Celestino conjurou por entre tossidas e dentes trincados, segurando o pingente de seu colar, e o chão de pedra da catedral ergue-se para cobrir as portas do edifício.

— Celestino! Eu já disse para você não se esforçar demais, seu velho teimoso! — corri até o Mago, que ofegava, debilitado.

— Não... E-Eu tenho de me esforçar ao máximo. É o que devo fazer — respondeu enquanto Kangar lhe posicionava perto de Cruz. — Eu já fugi por tempo demais... Mesmo agora, continuo a fugir. Isso é o mínimo que devo fazer — justificou-se enquanto o necromante concentrava-se em aplicar um bálsamo nas feridas de Cruz.

— Como assim você continua a fugir? Você tem sido essencial para nosso progresso até agora, Celestino, não se diminua assim.

— Não, você não entende — o velho franziu o queixo e as sobrancelhas numa expressão receosa, mas cheia de culpa. Era evidente que pensava que, o que quer que ele tinha a dizer, poderia lhe custar caro. — Haicard, quando eu era um jovem de apenas sessenta anos e morrendo de fome às bordas de uma certa floresta após um ataque de monstros à minha caravana marcante, fadas da floresta me cederam abrigo, proteção, alimento, e me ensinaram a usar magia. Desde então, jurei retribuir o favor o melhor que podia. Viajei por muitas terras, e por muitas mais décadas, fazendo o possível para usar para o bem esta minha vida, um dia já dominada pela ganância. Conheci mais de apenas um garoto cheio de potencial perdido no caminho da vida — Cruz sorriu. — E um deles foi um aprendiz de Mago feito de escravo por um vil usuário de magia, que acabou por matar o próprio professor abusivo e quase trilhou um caminho sem volta... Saulo, meu aprendiz e um dos companheiros do Herói. O motivo pelo qual ele tem nos achado repetidamente e tão rápido.

— Saulo foi seu aprendiz? — me surpreendi.

— Sim, lhe ensinei muito sobre magia, e depois do fim da última guerra sacra, lhe convidei a pesquisar os portais comigo. Ele deve estar nos rastreando usando destes dispositivos — o que o velho falava fazia sentido.

— E daí? Não tinha como você saber que as coisas se desenvolveriam dessa forma há tantos anos atrás, quando você o ensinou sobre os portais, não é? Além disso, você fez o que era o correto na sua época. Não há nada do que se arrepender, ou dívidas a pagar.

— Haha, você é o pior Rei das Sombras, Haicard — Cruz comentou, se levantando. Ainda estava visivelmente exausto, mas devido aos seus muitos pontos em Resistência e ao tratamento de Kangar, ao menos suas hemorragias haviam cessado.

— Fufu. Realmente, uma vergonha para Demônia. É melhor sairmos de seu reino antes que ela trate de corrigir seu campeão — Celestino concordou.

— Tenho de concordar com eles, você é o pior Rei das Sombras — a entidade não entendeu que Cruz e Celestino, na verdade, me elogiavam, já que a cabecinha dela era pequena demais para entender... bem, qualquer coisa.

— O fazemos agora? — Cruz me perguntou, sério.

Me esforcei em pensar numa solução e responder-lhe, mesmo que a ideia fosse a mais improvável possível. A verdade era que, mesmo que os monstros não me pegassem, aquele calor intenso tomaria minha consciência e, então, minha vida em poucas horas.

— Existem escadas lá no teto, correto? E pelo que vi, fossos também. Se conseguirmos chegar até as paredes laterais deste lugar, ou um pilar, poderemos escalar até o teto e escapar de volta para a superfície.

— Certo! — Cruz socou a própria palma esquerda, determinado. — Então, vamos logo dar o fora daq-

— Silêncio! — Vincente calou seu amigo, e todos o encaramos. — Os monstros. Não sinto mais sua presença.

— Eu também não — Cruz confirmou, cheio de suspeitas. Eu não tinha os Atributos da antiga equipe Heroica, mas era um fato que as criaturas infernais haviam desistido de arrombar as portas e sequer tentavam escalar as paredes da catedral para adentrar pelas janelas.

Eu tinha um mal pressentimento sobre aquilo.

— N-Nianda...! — o necromante resmungou alguma coisa, tremendo apesar de sério. E pouco depois, foi o chão que tremeu, em intervalos regulares, barulhentamente. Algo se aproximava. Algo grande.

— Nianda? O que isso significa? — questionei, empunhando minha espada, me preparando para o combate como todos os meus companheiros.

— U-Uma divindade... Uma divindade patrona da guerra — explicou o necromante, ajoelhando-se e resmungando o que parecia uma reza.

— Isso é quase impressionante... se não pelo fato de que, após três mil anos de conflito, todas as divindades humanas não houvessem se transformado em patronas da guerra de uma forma ou de outra — escarneceu a entidade enquanto o barulho estrondoso de rochas sendo partidas e oceanos sendo movidos aproximava-se, alcançando volumes ensurdecedores. — Agora, se você quer ver algo realmente interessante, olhe para cima.

Movi minha cabeça rapidamente, e no instante seguinte, o teto inteiro da catedral fora destroçado, como se feito de gravetos, espatifado em milhões de pedaços e esparramado por todo o Inferno.

Além do telhado arruinado, atirando sua sombra imponente sobre nós, uma abominação impossível mesmo para a mais torturada mente ensandecida nos encarava de cinquenta passos de altura, e com centenas de pares de olhos.

Não eram precisas janelas do Sistema para saber do poder avassalador que aquela criatura atormentada possuía. E nem era preciso explicações sobre a verdadeira identidade daquele ser; em todo Inferno só deveria haver uma governante suprema, afinal.

— Demonia... — sussurrei, encarando uma das únicas duas outras divindades que ainda existiam em Álfheim- não, no Continente Bélico. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário