Capítulo: 16
“Com o mundo em mãos, os humanos passaram a espalhar sua gloriosa civilidade aos povos bárbaros em troca de recursos naturais e mão de obra: reestruturaram as sociedades inferiores de forma militarista, assassinaram seus deuses e transformaram seus cadáveres em baterias para as grandes metrópoles, uniformizaram língua, arte, arquitetura, magia e ciências.
Apesar de sua compaixão infinita, porém, muitos bárbaros estrangeiros mostraram-se resistentes em aceitar civilidade e genialidade dos humanos e rebelaram-se.
Uma espécie de seres unicelulares que formavam colônias amorfas sapientes resistiu à implementação de leis de reeducação para as novas gerações, usando a desculpa de que todos compartilhavam a mesma consciência devido à sua reprodução via mitose. Foram, apropriadamente, evaporados, e tiveram seus restos mortais transformados em graxa para a lubrificação das máquinas que então funcionavam no interior de seus templos mais sagrados, extintos.
Outra espécie tentou negociar, ultrajantemente, sua ‘liberdade’ em troca de conhecimentos sobre o Domo sobre nossas cabeças e a Tinta além deste, como se a civilização fosse uma prisão. Como punição, os humanos forçaram-lhe num plano eugênico, uma vez que seus corpos eram compostos de belos cristais, a fim de cultivar apenas as joias mais bonitas, e colheram as pedras preciosas de seus órgãos e ossos.
Ainda outra espécie possuía o segredo da imortalidade, mas egoisticamente recusara-se a compartilhá-lo com seus mestres. Centenas de bilhões foram investidos na pesquisa da vida eterna que tal espécie possuía, incluindo até o poder de ressurreição, mas nenhum resultado satisfatório foi obtido. Mesmo os ‘santos’ que ressuscitavam seus compatriotas mantinham-se em silêncio independentemente de que tipo de tortura lhe fosse aplicada. Fora, então, determinado que era impossível utilizar qualquer forma de conhecimento primitivo daqueles seres para se alcançar o objetivo de vida eterna, e os tribunais os responsabilizaram pelos gastos públicos com justiça, sua sentença sendo que o último membro dos ‘santos’ capazes de trazer as pessoas de volta à vida executasse todos os oitenta milhões de membros de sua espécie com as próprias mãos. Antes do ‘santo’ ser executado e sua espécie oficialmente declarada extinta, teve ainda a audácia de dizer que o tempo todo era bem capaz de tornar os humanos imortais como seus compatriotas, mas sua espécie inteira se recusou a fazê-lo a fim de livrar a Esfera do ‘mal humano’, ridiculamente.
É verdade, os impérios humanos viram-se numa Era de Ouro, suas metrópoles estendendo-se verticalmente em torres tão altas que o trajeto do sol tinha de ser alterado todos os dias com uso de poderosos feitiços a fim de evitar que este derretesse as estruturas, e os antigos fortes de guerra viram-se transformados em palácios tão majestosos, que quando os ventos carregavam meras descrições de tais edifícios para terras longínquas, montanhas e vales criavam pernas e exilavam-se, a natureza envergonhada por então ver-se ofuscada pela arquitetura humana.
Porém, as nações conquistadas também viram-se beneficiadas: países antes de pouca importância e população viam seus territórios inteiros tornados em monoculturas de chá preto, ou noz-moscada, ou gengibre; terras de bárbaros que dedicavam-se a buscar respostas para perguntas que os humanos já haviam há muito respondido, então trabalhavam em mais de quinhentas mil fábricas de acessórios de moda. E com o dinheiro que faziam nos trabalhos oferecidos pelos humanos, jamais passavam fome (com algumas desprezíveis exceções), pois poderiam comprar comidas cultivadas em ainda outras colônias do império que lhes supervisionava.
De fato, uma Era de Ouro, próspera e pacífica para toda a esfera.
Mas paz e prosperidade não eram o suficiente para alguns. E falhando em perceber isso, os humanos cometeram seu único verdadeiro erro...
Voltaram-se uns contra os outros.”
- Trecho extraído do livro Guia Compreensivo da História de Álfheim, por Elarico Milemario Saudoso.
҉
— Mas-! — Vincente mostrou-se receoso, atirando olhares entre seu amigo e o grupo do Herói.
— Confie em mim — Cruz, então vestindo uma máscara de leão zangado, acalmou-o. — Apenas carregue os caixões até Haicard, ele deve ter um plano para essa situação também.
— Herói...! — Mariah franzia o cenho, observando o Ladino mascarado e um ogro descer as escadas no fim da câmara da tumba, ambos com um caixão de ferro em cada ombro.
— Eu sei — Verônico descobriu a localização do rebeldezinho ao retornar à Cidado Lago e questionar os marujos que levaram seu inimigo para um lugar perto de outro portal, e durante a viagem, questionando-se do porquê os maiores inimigos de todos os elfos se dirigiam para o coração do Deserto Sangria, com seus amigos chegou à conclusão de que planejavam ressuscitar os Reis das Sombras das outrora.
A situação era tão séria quanto poderia ficar aos olhos de meu campeão. Mas ainda assim hesitava em avançar descuidadamente, afinal, seus Atributos haviam sido reduzidos em quase 80%, uma queda tão drástica que Verônico teve de ceder parte de seu poder para seus amigos para que estes pudessem acompanhá-lo.
Os fantasmas, a tempestade e as montanhas absurdamente grandes eram eficazes em manter os invasores do lado de fora, mas quando criei aquela caixa de brinquedos também precisei de um método para desestimular aqueles do lado de dentro de escaparem, afinal. E aquele que se mostrou mais efetivo foi tomar de volta o poder que eu lhes emprestava conforme se aproximavam das fronteiras de seu pequenino continente.
— Vamos primeiro lidar com esta face, e então ir atrás das outras o mais rápido possível! — Verônico decidiu por precaução.
— Oh? E será que você sequer é capaz disso? — Cruz questionou, suando frio por trás de sua máscara.
— Não se deixem abalar! Eles só estão tentando ganhar tempo! — Verônico finalmente acertou em uma de suas suposições. — Todos juntos, vamos! — saltou na direção do oponente, liderando o assalto.
“Vush!”, o Herói desviou de um punho que errou seu rosto por um fio de cabelo, mas que sem dúvidas teria causado algum dano se tivesse lhe alcançado.
Sua resposta foi rápida e direta: brandiu sua espada sagrada contra Cruz, mas o Herói Caído evitou o contra-ataque com igual suavidade.
Não conseguiu responder de forma tão suave, porém, a subsequente cintilante energia nívea que emanou da lâmina.
— Tch — Cruz estalou a língua, quase não conseguindo escapar do ataque, sua camiseta simples de linho cortada na altura do peito.
— Aqui em cima, bobão! — Landa despencou do teto sobre o qual correra de cabeça para baixo, suas adagas stiletto prestes a perfurar os olhos do inimigo.
— Aura Gêiser! — Cruz usou uma proteção mágica em si mesmo, emanando uma poderosa onda de energia a partir do seu corpo que, como o nome do feitiço sugeria, afastou a ladina violentamente.
— Serpenteluzente! — Saulo produziu uma serpente de chamas cujo fogo não era afetado pelo efeito da Habilidade de seu oponente.
Mas um soco direto do mascarado fora o suficiente para desfazer a criatura por completo, sua pele sequer tocando as chamas mágicas, apenas o vento movido pelo ataque sendo o suficiente para extinguir o Feitiço.
Honestamente, eu não deveria ter acostumado aquelas pessoas a gritarem tanto, anunciando seus ataques o tempo todo.
O confronto estava longe de se um no qual Cruz pudesse relaxar, porém.
— Kugh! — quase tendo perdido o braço que desferira o soco para a espada sagrada de Verônico, o Herói Caído foi forçado a recuar rapidamente, aproximando-se perigosamente da escadaria espiralada que Vincente ainda não havia terminado de descer.
E para o infortúnio de Cruz, o rebeldezinho já havia frustrado o Herói o suficiente para que ele não hesitasse em tomar vantagem de qualquer abertura que lhe fosse exposta; devido à sua natureza alienígena, percebia que havia algo de errado com sua nova Missão, e sofria de um mal pressentimento do qual não conseguia livrar-se. Ignorante ao fato de que seu-mal estar se devia a ter sua história descarrilhada, esmoeu o ar à sua frente com sua arma de puro branco, forçando Cruz até quase o primeiro degrau da escada.
— Para trás de mim!
Uma onda de energia negra, sombra tornada física, quebrou-se contra uma barreira de luz solar morna. Cruz havia empunhado sua espada ainda embainhada, e a brandido (ainda que junto de sua proteção de couro) pela primeira vez em décadas contra o desastre natural que Verônico fazia recair sobre ele.
— E-Ele é forte. Se essa energia sombria nos atingir, não sei se vou conseguir curar nossos ferimentos — Mariah manteve a barreira de pé.
Mas a verdade era que Cruz já estava bastante perto de seu limite, o velho não tinha mais tanta estamina mágica como antigamente, e aquelas exibições eram pouco mais que blefes que podia sustentar por poucos minutos: logo, as sombras pareceram evaporar, e tudo o que elas tocaram mostrou-se significativamente deteriorado; os esqueletos élficos tornaram-se pó, os caixões metálicos enferrujaram em pilhas esfareladas de laranja, e até as estátuas e degraus da tumba racharam, fragmentaram-se, e perderam seus detalhes.
— ...Não vai desembainhar essa espada? — Verônico questionou, cheio de suspeitas.
— Isso é o suficiente para lidar com pirralhos como vocês — mentiu.
Verônico hesitou, fazendo-se um milhão de perguntas relevantes, mas quando sentiu algo batendo a seus pés...
— O-O que está acontecendo?! — acompanhando com os olhos o líquido que manchara sua bota, notou que os caixões que continham múltiplas gerações de Reis das Sombras vazavam sangue de furos secretos nas bocas e olhos das criaturas que decoravam os leitos dos mortos.
— Eu não sei, mas não pode ser algo bom — Saulo tinha razão, Verônico soube.
O sangue escorria na direção da grade aos pés das estátuas que ladeavam a escadaria para o andar inferior.
— Vamos acabar com essa Face de uma vez! Não se importem comigo! — ordenou Verônico. — Favorecer! — conjurou a mesma luz sagrada de sua arma sobre seu corpo inteiro e disparou na direção do inimigo que impedia seu progresso.
— Favorecer Desafiar — Cruz tentou conjurar o mesmo efeito, mas fiz uma leve modificação no lnome apenas, e o corpo do velho viu-se coberto em sombras.
Quando o Herói e o Herói Caído viram-se a uma braçada de distância um do outro, suas armas moveram-se como borrões aos olhos dos presentes, estocando, cortando e dilacerando tudo entre e ao redor dos atacantes: o piso de mármore pesado sofrera tantos cortes que não apenas fora reduzido a pó, mas a fricção intensa num espaço de tempo tão curto derreteu a rocha e incendiou o ar.
— Temível Tormenta Terrífica! — Saulo produziu uma nuvem tempestuosa exatamente sobre os duelistas e, sem hesitar, permitiu que seu ataque mais forte recaísse sobre ambos os espadachins: fez chover arcos elétricos, cada um poderoso o suficiente para transmutar o chumbo das estátuas guardiãs da escadaria em ouro, e fez milhares deles em meros segundos.
Tanto Verônico quanto Cruz, porém, apenas dançaram entre um raio e outro, evitando cada um dos inúmeros ataques mágicos sem parar de brandir suas armas por um segundo sequer.
Mas havia ainda mais membros ao grupo Heroico:
— Morra! — Landa apareceu atrás de Cruz numa nuvem de fumaça num espaço entre um raio e outro, e prosseguiu a estocar contra suas costas centenas de vezes com adagas banhadas em luz solar. E havia ainda mais uma dúzia de cópias da Ladina ao redor do mascarado inimigo fazendo exatamente o mesmo.
As adagas stiletto podiam muito bem estar atingindo blocos de concreto, porém, já que a camada de sombras sobre o corpo de Cruz absorvia a maior parte dos ataques.
— Leão! — uma voz ecoou escadaria abaixo e através das grades aos pés das estátuas, e Cruz não hesitou em carregar sua energia quase que completamente ao redor de sua espada embainhada, e atirá-la contra o chão.
A explosão resultante não apenas perfurou o chão até o andar inferior, mas desequilibrou o grupo Heroico o suficiente para que Cruz conseguisse saltar de escombro em escombro enquanto ainda em queda livre, e furar a linha ofensiva de seus agressores.
Verônico podia perseguir o mascarado à frente de seus companheiros, mas era claro que o que quer que o Rei das Sombras queria alcançar, já havia sido alcançado, e relutou em fazê-lo.
— Vocês estão bem? — meu campeão perguntou, aterrissando. Confirmando que sim, se apressou: — Vamos atrás dele, então!
Não precisaram correr por muito tempo: após uma série de estátuas representando as antigas divindades daquele continente, alcançaram a sala do portal projetado por mim, e depararam-se com um anel de metal derretido movendo-se rapidamente em círculos, e enquadrando uma paisagem esverdeada, tóxica, em algum lugar distante.
— HAICARD! — Verônico gritou para o rebeldezinho que o encarava do outro lado do portal, na ponta de um desfiladeiro de rocha cor de jade frente a um mar de magma igualmente esverdeado. — Raagh! — Atirou um projétil contra seu rival, mas já era tarde demais.
O anel avermelhado perdera o brilho e velocidade, e no momento em que o projétil de luz o atingiu, era mais uma vez apenas um monte de metal derretido que levava a lugar algum.
— Maldição! — Verônico cravou a espada no chão, trincando os dentes. Falhou mais uma vez. Faziam tantos anos que não sentia-se daquela forma, que imagens desagradáveis de uma vida passada cruzaram-lhe a mente. Ecos das últimas coisas que viu, sentiu, pensou. Sem um oponente à sua frente, lutou consigo mesmo a fim de não perder a compostura. — ...Para onde eles foram, Saulo? Podes reativar o portal?
— N-Não este. Ele usava o sangue dos Reis das Sombras como combustível, não vai funcionar sem mais disto — o mago falou a verdade, mas omitiu uma informação importantíssima. O fato de que as suspeitas que cresciam em seu coração haviam criado raízes, e estas possuíam espinhos.
Naquele ponto, já se especulava a morte de Celestino, seu mestre, por todo o continente, mas a verdade era que o velho havia simplesmente desaparecido, e então Saulo via-se enfrentando um oponente que sabia operar portais divinos, algo que somente ele mesmo e seu mestre deveriam saber fazer. Rejeitava a conclusão mais lógica.
— Pode pelo menos rastreá-los? — o Herói quis saber.
— A-Ah, sim, só um instante — Saulo apontou as mãos para o metal ainda quente. — Eles foram... Para baixo? Uh? U-Uma semana de marcha direto para debaixo da terra?! A única coisa que posso imaginar existir tão fundo seria o próprio Inferno! — Saulo comentou com o intuito de fazer uma comparação exagerada.
Mas logo todos perceberam que aquilo não era exagero algum.
҉
“Verônico. O nome do novo Rei das Sombras, bem como sua identidade élfica vazou. Justiceiros assolaram sua vila. Não há sobreviventes.
- Princesa Criscina.”
“...
- Herói Verônico.”
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