Capítulo: 15
Não havia sido difícil convencer o Duque de Degelago a nos apoiar. Acabou que, como eu esperava, uma vez que a presença parou de influenciar o homem, ele mal podia conter seu ressentimento contra o Sacro Reino de Fanon, que tinha monopólio dos Heróis, cujo sangue fortalecia grandemente não apenas a legitimidade do governo, mas também oferecia praticamente poder militar incomparável, e tornava suas exigências (como acordos que só permitiam a compra de rochas ou madeira de comerciantes de sua nação) impossíveis de se rejeitar.
— Bem-vindo de volta, querido — estendi uma mão para o Ladino que remara um botinho desde a costa da cidade até nossa posição sozinho.
— Retornei, minha vida — respondeu Vincente.
— Então é assim que é, hum? — Cruz olhou para mim e para Vincente, sério. — Depois de tudo que eu fiz por nossa família?! — estapeou o vento, zangado.
— E o que você fez por nossa família?! Tudo o que você sempre fez foi por você mesmo! Nunca tínhamos precisado de todas aquelas horas extras em seu trabalho, nunca precisamos daquelas promoções que você vivia a perseguir! — Vincente limpou lágrimas invisíveis.
— Você não tem jeito, não é, Cruz? — abracei o Mago muito mais alto e velho que eu, e dei tapinhas acolhedores em suas costas. — Não vamos ter essa conversa na frente das crianças.
— Mas que diacho?! — Celestino afastou-se, perplexo.
— Celestino tirou as palavras de minha boca. Não construí essas personalidades tão cuidadosamente para ficarem tão próximas assim de um rebeldezinho como você — a presença reclamou, apoiada no parapeito que contornava o convés.
Rimos todos, mas quando Vincente tomou emprestado uma poção de cura e recuperação de estamina de Celestino, logo nos endireitamos.
— Então? Como eles foram? — perguntei.
— Bem. Muito bem. Honestamente, só estou vivo porque eles foram cautelosos. Controlaram seu poder para não destruírem a cidade inteira, e para não matar o refém que eu carregava, e preferiram não fazer movimentos arriscados que os deixaria abertos para contra-ataques. Basicamente, só consegui atrasá-los porque não tinham certeza do que eu podia fazer e preferiram me testar aos poucos, mas se tivessem avançado contra mim com tudo desde o começo...
— Bem, eles SÃO o novo grupo Heroico — Cruz deu de ombros.
— Comparado a vocês, quem é mais forte? — fui direto ao ponto.
— ...Nós estamos velhos, Haicard.
— Merda.
Com aquilo, meu plano A foi confirmadamente por água abaixo. Minha equipe Heroica Caída não seria o suficiente para derrotar meus oponentes, não sem empoderamento significativo.
— Então? Qual seu plano agora? Uma vez que atracarmos, vamos conseguir aumentar as forças de seu exército exponencialmente, usando os chefes orcs para recrutarem monstros mais fracos, mas e depois? Nunca nenhum Rei das Sombras venceu um Herói por conta de seu número de subordinados — Cruz perguntou.
— Realmente, você se provou capaz de grandes conquistas com seus planos, mas se me permite dizer, tudo o que tens agora são uns velhos que já passaram de seu auge, e um exército muito pequeno — Celestino também mostrou-se curioso. — Não me importei de questioná-lo até então, pois o tempo era precioso demais para desperdiçar com tais discussões enquanto éramos perseguidos pelo Herói, mas é claro que, apesar dos esforços, nossas chances de vitória são parcas.
— Eles têm razão, Haicard, sequer parece haver um ponto em recrutar um exército se nossa intenção não é conquistar o mundo élfico — Vincente concordou.
— Vocês têm razão, nenhum número de monstros que possamos realisticamente recrutar vai derrotar Verônico, mas ainda há bons motivos para se ter um exército, como espalhar uma rede de informantes pelo continente, e nos mantermos cientes da posição de nosso inimigo, e até fazer contatos com possíveis novos aliados-chave. Sem falar que, enquanto não temos intenções de tomar coroa alguma, o Herói não sabe disso, e vai agir sob esse pretexto, procurando um quartel-general e forças concentradas que não vão existir. Além disso tudo, cedo ou tarde também seremos confrontados pelas forças sacras, e uma fronte de monstros pode distrair estes elfos enquanto realizamos o trabalho verdadeiro: enfrentar Verônico nós mesmos — por um momento esperei que meus companheiros gargalhassem, mas pelo contrário, todos me encararam muito seriamente. Pelo jeito, seu respeito por mim realmente aumentara nos últimos dias. — Nosso inimigo é forte, mas ainda há muito o que podemos fazer para nos equipararmos a ele.
— E quais são essas coisas que podemos fazer? — Cruz quis saber, entendendo mais do poder de seu antigo Título do que qualquer um. — Mesmo que conseguíssemos cercar o Herói de todos os lados, e nos juntássemos todos contra ele de uma vez só, ainda que utilizando do elemento das sombras, não acho que nossas chances de vitória seriam boas. Já estamos todos com mais de cento e vinte anos, Celestino mais de duzentos, nossos Atributos estão reduzidos a menos de metade do que eram em nossos dias de glória, nosso poder atual deve ser igual a... um Duque das Sombras e meio, talvez?
— Uma arma “divina” pode ajudar. Se aqueles portais funcionam, talvez encontremos algum instrumento de guerra antigo que possamos usar. Além disso, algo como a espada de Cruz pode ajudar.
— Desculpa, Haicard, mas essa espada... — O Herói Caído apertou a arma embainhada. Suspirou. — Eu só não quero transformar ainda mais elfos em nossos alvos. Se possível, eu prefiro até que façamos Verônico admitir derrota ao invés de matá-lo. Eu prometi jamais tirar a vida de um elfo, afinal — concluiu, tocando o pingente do colar que sempre usava.
Suspirei.
— Mesmo assim, alguns equipamentos da mesma qualidade que sua espada seriam de grande ajuda. Eu me tornei um aventureiro de classe especial ao derrotar um inimigo muitas vezes mais forte usando apenas de itens mágicos e estratégia, afinal, talvez possamos repetir o feito. Atracando, vou mandar um grupo atrás de um certo Alquimista que conheci, e este pode nos fornecer o suporte necessário, um informante em terras élficas.
— Uma arma mágica antiga para o plano B, itens mágicos da mais alta qualidade para o plano C... E ainda assim não me sinto tão confiante em nossas chances de derrotar o jovem Verônico. Por acaso teríamos um plano D também? — Celestino coçou a barba.
— Bem, alternativamente, eu pensava em convencer os necromantes da Cordilheira das Guardas a fundirem nossos corpos em um só, na expectativa de que o poder da abominação resultante fosse igual ao do Herói — Dei de ombros.
— Urgh?! — os três antigos Heroicos mostraram-se enojados.
— M-Melhor eu começar a estudar estas estruturas divinas mais a fundo imediatamente! — suando frio, Celestino apressou-se navio adentro, puxando livros de uma janela do Sistema, um famoso Feitiço que poucos tinham capacidade de usar, chamado Inventário.
— Eu vou treinar esses velhos ossos um pouco, deve ajudar mesmo que só um pouco — roendo as unhas, Vincente saiu à procura de orcs contra os quais treinar.
E quando Cruz e eu estávamos sozinhos, o espadachim que recusava-se a desembainhar sua espada apoiou-se na mureta do convés do navio, alheio que estava bem ao lado da presença que vinha me assombrando como um encosto há tempos.
— Que ingrato. Ao menos me compare com um ideal inalcançável ou utopia a ser perseguida — Uma vez que ninguém em sã consciência a elogiaria, a entidade elogiou a si mesma, tristemente. — Você também não é flor que se cheire, sabe?
Descansei ao lado do Herói Caído.
— Aquela promessa que você fez. Foi para sua esposa? — Perguntei.
— É tão óbvio assim?
— Clichês desse tipo não são tão raros, e você sabe disso.
— Haha, pois é. E é por isso que lutamos, não é? — Coçou a cabeça. — Foi por causa da minha filha. Quando abandonei o castelo, minha ex-exposa, a Rainha perdeu a cabeça e culpou nossa criança por meu desaparecimento. Disse que ela havia sido tão incrivelmente repudiada por mim, que parti, e... tentou executá-la.
Escutei tudo em silêncio, a história entrecortada apenas pela água partida pela proa de nossa embarcação, e das demais que nos acompanhavam.
— E então foi minha vez de perder a cabeça. Retornei à Canon e tornei minha lâmina contra o povo que deveria proteger. Prometi à Rainha que, se ela atentasse contra nossa filha de novo, nivelaria aquela cidade inteira ao chão, e em resposta, ela disse para eu nunca mais voltar. E assim o fiz. Retornei para os braços da mulher a quem eu verdadeiramente amava... e ela parecia tão extremamente decepcionada — Cruz coçou o cocuruto, baixando a cabeça. — Me fez prometer nunca tirar a vida de outro elfo. Mas uma espada é um instrumento de morte. Não é como um machado ou faca, com outros propósitos, então ao empunhá-la sinto que estou sempre por um triz de quebrar minha promessa. — Riu, me encarando sem jeito: — Haha, parece que quando as coisas saem do planejado, elas realmente espiralam fora de controle, não é?
— Era só você ter aceitado sua vidinha de marido troféu e rei que lhe preparei — a entidade comentou, insensível. — Isso não é verdade, uma vez que ele aquietou-se, eu lhe preparei toda a historinha de aventureiro de classificação especial, a casinha isolada na floresta e tudo, não é? Quando me desafiou, foi infeliz, quando se sujeitou a mim, viveu os anos mais felizes de sua vida — Estupidamente se contradisse, uma vez que Cruz teve de quebrar a primeira rota que lhe foi preparada para ser feliz, porque aquele ser estúpido parecia incapaz de formar casais decentes. — Hmph, se você acha que eu sou ruim nisso, é porque não conhece um certo alguém.
— Eu vou fazer algo quanto a isso. — Respondi à Cruz.
— Sobre o que?
— Sua filha. Vou dar meu melhor para que ela não se envolva nisso. Não deve difícil sequestrar ou convencer uma Princesa infeliz a se esconder em algum lugar longínquo.
— Haha, obrigado. E quanto a você? Alguém a quem queira proteger?
— Minha mãe. Talvez meu pai e irmãos, mas principalmente minha mãe gosta deles.
— Que bom que você se importa com a família, senhor sombrio e maligno Rei das Sombras, haha! Mas enquanto alguém especial? Você sabe o que eu quero dizer.
— Não. Não mais. — Cruz ouviu em silêncio, apenas as pequenas ondas do lago interrompendo a quietude. — Ela morreu por alguma besteira poética, me salvando.
— ...Eu... Eu vou pensar sobre minha espada.
҉
Três meses depois, uma vez que nosso navio atracou a semanas de marcha de distância de Cidado Lago, e após espalhar meu exército por aqui e ali a fim de recrutar mais monstros e elfos para minha causa, viajamos até o portal mais próximo, quando Celestino nos teleportou para próximo a uma cidade portuária além das fronteiras de qualquer civilização élfica.
Por mais que uma densa névoa vermelha com gosto metálico permeava toda a região, dificultando a visão, daquela distância podíamos ver um assentamento minúsculo, cercado por uma muralha cinzenta, como se feita de ossos, que por mais que fosse alta, parecia estar lentamente se desfazendo em poeira, decrépita.
“Crack!”, me aproximando dos muros da cidade, pisei numa das milhares de ossadas que cercavam as proteções do assentamento; esqueletos de orcs, goblins, kobolds, e todo tipo de criatura das sombras ou não.
— Mas, porra, se é assim que você anda quando eu digo para você fazer silêncio, imagina se estivesse tentando ser barulhento de propósito — Vincente revirou os olhos.
— Vai se foder, seu geriátrico, nem todo mundo foi abençoado por uma divindade maligna com dezenas de pontos de Atributo — respondi.
Apesar do comentário do Ladino, nós quatro conseguimos escalar a muralha decrépita da cidade sem muitas dificuldades, e nos deixamos cair do outro lado... que não se mostrou tão diferente assim do terreno desolado do lado de fora: terra seca, estranha névoa desagradável, e uma sensação de que não éramos bem-vindos.
Então nos encontrávamos em Escomungado, o único e minúsculo porto élfico entre a Cordilheira dos Rostos e a Cordilheira das Guardas, onde a neblina de sangue era tão perpétua quanto a tempestade além do horizonte, no oceano, e o chão era seco e ressecado. O que não era vermelho-sangue era cinza-osso, e os únicos pontos de referência disponíveis eram ossadas e ruínas divinas de magnitude assombrosa, congeladas no processo de devorar a própria terra.
Eu não deveria ter me surpreendido pela aparência depressiva do assentamento, quando este fora construído usando os materiais disponíveis na região; arbustos secos e mortos, e argila cinza.
— No primeiro temporal que essa cidade ver, essas casas vão virar só escombros — Cruz comentou enquanto passávamos uma série de construções abandonadas à primeira vista, exibindo rachaduras e portas e janelas quebradas.
— ...E pelo jeito as pessoas também — sussurrou Vincente quando alcançamos uma rua central, e começamos a ver os primeiros transeuntes; pessoas de pele acinzentada, bochechas côncavas, e cabelos loiros tão estranhamente escuros, que mais pareciam ter um tom de marrom claro.
— Mas não chove por aqui, as cordilheiras de montanhas impedem a entrada de nuvens carregadas, e a saída desta maldita névoa... que também é o único motivo pelo qual esse lugar não é um deserto escaldante — expliquei.
— ...Um dos poucos resquícios ainda visíveis da Era Vermelha — Celestino franziu o cenho, ainda espantado com as revelações que lera no livro que lhe emprestei.
— Acho que esse lugar é longe o suficiente da caixa de brinquedos da Grande Vontade para que alguém se importe em limpar os céus... se é que a Ordem dos Historiadores ainda tem este tipo de tecnologia — parei, notando uma placa tão desbotada que só consegui lê-la devido à minha Percepção acima da média. — Uma taverna. Vamos parar aqui, duvido que vamos encontrar algum outro lugar que vá permitir nossa entrada nesta cidade, de qualquer forma.
Entrando no estabelecimento, os poucos gatos pingados de clientes nos encararam como se estivéssemos pelados.
— Já vi prisões com rostos mais acolhedores... — Vincente resmungou.
Felizmente, não éramos os únicos clientes suspeitos daquela taverna, uma vez que praticamente todos os presentes vestiam capuzes, elmos, ou outras vestimentas que lhes ocultavam a forma... o que não era de se surpreender, já que era evidente que pelo menos três dos clientes não eram elfos, mas algum tipo de monstro elfanoide de corpo muito largo, e de cabeças pequeninas.
Uma combinação do pouco interesse da presença naquela região e a miséria coletiva de todos os moradores, elfos e monstros, deve ter corroborado para uma trégua temporária entre os povos, ainda que contra sua própria natureza, contanto que possuíssem dinheiro em mãos.
Atirei um olhar de esguelha à presença que caminhava, silenciosa, ao meu lado.
— O que? Não é como se eu estivesse forçando os elfos a matarem pobres e inocentes monstrinhos que são apenas incompreendidos, certo? Eles são supostos a serem realmente inerentemente cruéis contra sua espécie. As criaturas daqui apenas sofreram certo tipo de interferência — explicou-se, como se aquilo a livrasse de qualquer pecado. — Não é como se eu estivesse buscando seu perdão, sabe? — ignorei a presença que claramente me implorava por perdão. — ...
— Certo, e como vamos descobrir para onde vamos daqui? — Cruz perguntou.
— Na verdade, estava contando que você e seus amigos tivessem alguma Habilidade que pudesse ajudar com isso... — respondi, caminhando até uma das mesas no canto da sala.
— Até vi alguns rastros saindo deste bastião, mas nenhum que se destacava especialmente — Cruz comentou, inseguro.
— Nem eu. Podemos muito bem perder meses procurando o rastro certo neste lugar. Não, considerando que este vale tem um terço do tamanho do Continente, talvez até anos.
— Não temos anos para desperdiçar... — sentei-me às sombras, cansado.
— Realmente, vocês não têm — intrometeu-se uma figura, levantando-se da mesa onde sentava-se um dos monstros mal disfarçados, e aproximando-se de nós; aquele indivíduo, porém, não exibia nenhuma deformidade aparente, de silhueta idêntica à de qualquer elfo, se um pouco mais baixo, e muito mais magro que o normal, além de uma pele um tanto quanto acinzentada.
Ao meu redor, meus companheiros todos prepararam-se para o combate discretamente, empunhando adagas sob a mesa, conjurando pequenas esferas de energia dentro das longas mangas de seu manto.
— Quem é você, estranho? — perguntei, indo direto ao ponto.
— Kangar-Dahn, à sua disposição — curvou-se levemente. — Você pode me chamar só de Kangar, por conveniência, Rei das Sombras — sussurrou meu Título apenas alto o suficiente para que eu e meus companheiros ouvissem.
— ...E o que quer conosco, Kangar? — aquele homem sabia de algo que me era um mistério, me parecia inútil negar aquela afirmação.
— Horas, levá-los até seu objetivo. Só há uma razão pela qual Sua Realeza vem a essas terras esquecidas, afinal.
— Você realmente fez a lição de casa, hu? — Vincente franziu o cenho.
— Como você descobriu tudo isso, jovem? — Celestino coçou a barba, curioso.
— Meu povo possui... métodos para identificar usuários de diferentes tipos de magia, com isso nos fizemos conscientes da presença de alguém que havia perdido a conexão com a entidade que faz deste continente seu refém. E considerando a situação, não foi difícil assumir quem era essa pessoa — homem comentou, atirando um olhar curioso para a presença que se sentava ao meu lado. Ele podia enxergá-la?
— Seu povo? — Celestino insistiu.
— Sim, somos os Vestígios. Mas acredito que vocês nos chamam de “necromantes”.
҉
Não havia ponto em rejeitar a ajuda do necromante, não apenas porque não tínhamos outra pista sobre a localização que buscávamos, mas também porque tínhamos o objetivo em comum de destronar uma certa divindade.
Então, seguimos o homem magro e de aspecto acinzentado para fora da cidade por uma passagem secreta, e descobrimos ainda que os monstros que tomavam da bebida aguada da taverna eram seus subordinados:
— Você ouviu nosso aliado: contatem as tribos locais de monstros e os recrutem. Tenho certeza de que os monstros que aqui habitam ficariam extasiados em juntar-se à causa deles — o necromante ordenou a um dos dois ogros que o seguiam, seu sotaque carregado mas irreconhecível.
— Tar bom — a criatura resmungou, e se pôs a caminhar numa direção qualquer.
— Agora, não precisam se preocupar com nossos suprimentos, já que meu servo carrega comida e água o suficiente para todos nós durante esta viagem — o necromante indicou o ogro restante, que mostrou carregar uma série de mochilas e sacos amarrados em seu corpo largo e mais gordo que musculoso; era um monstro desconfortavelmente élfico em aparência, de pele bronzeada como uma pessoa que trabalha no campo, mas com mãos e pés desproporcionalmente grandes, e cabeça pequena demais, de estatura exagerada.
— Então não há tempo a desperdiçar. Vamos logo — apressei.
҉
Três dias de viagem depois, sequer parecia que havíamos saído do lugar; não enxergávamos mais do que poucas dezenas de metros à frente devido à névoa vermelha, o chão rachado e cinzento não apresentava nenhuma característica única, e depois de um ponto, as mandíbulas de metal divino paradas no processo de morder a terra não mais pareciam tão dissimilares umas das outras.
— Tem certeza de que não estamos andando em círculos? — Cruz perguntou. — Mesmo com meus Atributos, não enxergo mais do que uns trezentos metros adiante.
— Não há dúvidas de que estamos no caminho certo — Kangar respondeu pacientemente. — Talvez seus Atributos estejam lhe falhando? A Cordilheira das Guardas é conhecida por pregar peças nos devotos d’A Grande Vontade conforme estes se aproximam delas.
— Se houvesse qualquer problema com os Atributos forte o suficiente para diminuir as capacidades de Cruz significativamente, eu já deveria estar morto de tão enfraquecido — comentei.
— Sim... Você já deveria estar — Kangar sorriu, intrigantemente.
Por mais que eu checasse meus Atributos, porém, não havia nada de estranho com eles.
— Cruz, cheque sua Percepção — pedi.
— Acabei de checar. Nada de anormal aqui — respondeu o Herói Caído, dando de ombros. Vincente e Celestino confirmaram o mesmo.
Seria aquela conversa apenas superstição dos locais? Estranho, considerando o quanto Kangar sabia sobre assuntos que deveriam ser segredos para todos os outros.
Meio à viagem, recebi uma mensagem de Rael, quem concordou em ceder informações quando lhe contei que seu pai havia sido provavelmente morto pelos historiadores: disse que a sociedade nobre via-se mais caótica que nunca, a informação do surgimento de quatro novos Reis das Sombras espalhou-se como fogo, e muitos reclamavam contra as requisições da igreja a fim de montar um outro exército sacro tão cedo, apontando que já haviam exaurido tantos recursos da terra quanto podiam, e sua população já havia decaído demais. Alternativas interessantes para serem exploradas no futuro, mas eu queria saber sobre Verônico, e o que li foi que ele e seu grupo deixaram a Cidade do Abismo há dias atrás.
O Herói finalmente admitiu que havia seguido numa direção completamente errada, mas naquele ponto isso pouco significava. A menos que ele pudesse usar os portais espalhados por aí, ainda que soubesse nossa localização, não seria capaz de nos alcançar. E diferentemente da última vez, ele não tinha pistas sobre a direção que seguimos em realidade, uma vez que o Duque de Cidado Lago via-se ao nosso lado, e não permitiria que tais dados vazassem, sob o risco de perder a própria vida.
҉
Ainda mais três dias depois, enquanto parávamos para fazer uma refeição, Vincente tirou um pequeno frasco de metal de um bolso interno e deste bebeu.
— Bah! 100% álcool, praticamente um veneno para pessoas de baixo Nível — exibiu orgulhoso. — Produto de um dos negócios que eu supervisionava naqueles esgotos. Geralmente, era diluída em água ou suco de frutas.
— Parece que eu não fui o único que desenvolveu gostos artesanais, então! — Cruz respondeu, sorrindo. — Sabe, eu também fiz itens praticamente incompreensíveis para pessoas de baixo Nível. As canecas de cerâmica que produzi, rapaz, você não acreditaria na qualidade delas!
— Elas me pareciam objetos bem compreensíveis — comentei. — Na verdade, eram completamente normais.
— Que?! — o Herói Caído ofendeu-se.
— Urgh... — o ogro não parecia interessado em minha discussão com Cruz, porém. Engolia em seco e babava, olhando fixamente para a bebida de Vincente.
— ...Você quer um gole, feioso? — ofereceu o Ladino, e o monstro balançou a cabeça em um sinal claro de confirmação. — Haha, certo, mas só um golinho então.
A criatura obedeceu e tomou um único gole do cantil metálico de Vincente.
— Bwargh! Bigadu! — agradeceu ainda, sorrindo.
— Hehe. Vem cá, Kangar, como você adestrou essas coisas, em? — Vincente quis saber, entretido. — Sabe, por mais ruim que uma pessoa seja, contanto que ela tenha emoções, ela pode ser salva de qualquer situação sombria que esteja vivendo em sua cabeça, e falo isso por experiência própria.
— Você nunca foi uma pessoa ruim, Vincente — Cruz suspirou.
— Ele tem razão, apenas mal guiado — Celestino concordou.
— Não, era sim. Podre, um imprestável — notando minha curiosidade, explicou: — Eu era um caçador de recompensas... e do tipo que fazia questão de sempre trazer meus alvos mortos. Cruz me mostrou que as coisas não precisavam ser assim, me impedindo de tirar a vida de um alvo, que veio a nos ajudar numa enrascada que sofremos pouco depois — falou quase envergonhado. — Mas monstros... eles não são assim. Ou pelo menos nenhum dos que encontrei em todos esses anos.
— De fato, senhor. Este ogro, bem como todos os nossos demais servos da Cordilheira das Guardas, é resultado de modificações físicas e mágicas executadas pelo meu povo. Tão removido de seus demais semelhantes, que sequer pode ser considerado o mesmo tipo de criatura.
— Hmphm. Para um povinho que se orgulha tanto em não depender de mim, vocês dependem bastante de minhas criações, não é? — a entidade comentou, olhando para o necromante por sobre o próprio nariz... e uma das pálpebras do homem tremeu, como se mal fosse capaz de engolir sua resposta.
҉
— Chegamos — apontou Kangar. — A Tumba dos Reis das Sombras.
A nossa frente, uma depressão no chão levava a uma larga estátua de mármore negro no formato de um elfo velho, muito magro, de cócoras, olhos fechados e dedos entrelaçados sobre as canelas.
— Infelizmente, meu povo não é capaz de abrir as portas desta estrutura devido a-
— Uma falha genética — intrometeu-se a entidade.
— ...A uma incompatibilidade mágica, digamos. Mas tenho certeza de que isso não será um problema para o senhor, Rei das Sombras — explicou e senti pena e compaixão pela única outra pessoa que entendia minha dor de aturar aquela entidade irritante.
— Pena e compaixão? Tem certeza de que não é ciúmes? — Por favor, cometa suicídio.
Deixando aquele incômodo de lado, me aproximei da porta, e uma janela do sistema apareceu perante mim:
Abrir a porta da Tumba dos Reis das Sombras?
Sim Não
Selecionei a opção correta, e logo os dedos das mãos da estátua desvencilharam-se, e suas mãos revelaram uma passagem descendente iluminada por velas de chamas verdes, que acenderam-se sozinhas.
Para o local de descanso final daqueles que deveriam ser os inimigos de toda a espécie élfica, a tumba era especialmente intricadamente projetada, uma larga câmara seguindo por quase trinta minutos de marcha de ponta a ponta, de superfície poeirenta de um negro mármore outrora reluzente, com o teto muito alto suportado por pilares no formato de monstros de vários tipos.
— Seu povo queria, originalmente, apenas atirar os cadáveres deles no fundo do oceano, acredita? Inaceitável — É claro, aquilo era tudo obra de uma certa entidade irritante.
Espalhados em intervalos regulares e cercados por esqueletos élficos, descansavam sobre plataformas altas e conectados por sulcos no chão, intricados caixões metálicos também decorados com imagens de monstros. As camas de descanso final dos Reis das Sombras de gerações passadas.
— Se meus antecessores estão dentro dos caixões, quem são esses? — questionei sobre os esqueletos atirados aos pés dos caixões e até sobre eles.
— Eu já ouvi falar sobre isso antes, mas preferi não acreditar em algo tão terrível... um mau hábito meu que venho tentando mudar — Celestino suspirou. — Os restos mortais do campeão de Demônia são amaldiçoados com sua energia sombria mesmo após a morte, e essa é capaz de corromper ou tirar a vida de tudo o que não é demoníaco. É por isso que são trazidos para este fim de mundo, e não mantidos num lugar seguro, apesar de seu extremo poder mágico.
— Então...
— Sim, estes são os esqueletos dos bravos coveiros que se sacrificaram para carregar os restos mortais daqueles escolhidos para infernizar os elfos até aqui. Descansem em paz.
— ...Nós vamos pôr um fim a isso também. Vamos nos apressar: procurem pelos restos mortais de Reis das Sombras que tenham sido Mestres da espada, da magia, do escudo, ou algo semelhante.
Fizemos exatamente como sugeri, e enquanto nos separávamos para investigar cada canto do complexo subterrâneo, Celestino, Kangar e eu seguimos os sulcos no chão e chegamos a uma escadaria ladeada por estátuas de diabos; os degraus levavam para andares ainda inferiores, e os sulcos terminavam em grades aos pés das estátuas.
Descendo os degraus, exploramos o último espaço daquela tumba, que mostrou-se muito menor e mais mal acabado, uma pequena sala ao fim de um corredor lotado de estátuas estranhas, rachadas, partidas, e cujos detalhes pareciam apagados pela ação do tempo. Ainda assim, havia algo de familiar nelas, porém...
Ah, é. Me lembravam uma certa pedra que eu costumava observar quando criança.
— O que é isso? — chegando ao fim do corredor, perguntei, observando o largo círculo de metal retorcido, como se tivesse sido parcialmente derretido em algum ponto do passado. Nele, uma série de objetos à primeira vista sem conexão um com o outro viam-se embutidos no metal fosco, uma série de pedras preciosas, ossos, lâminas, figuras de animais, de homens e mulheres, parcialmente submergidas na liga.
— Parece um portal distorcido? Sinto que ainda funciona, mas... tenho um mal pressentimento sobre isso. Não consigo dizer para onde esta coisa nos levaria se a usássemos.
— ...Distorcido, de fato — Kangar, que esforçou-se para manter-se plácido a viagem inteira, franziu o cenho e retorceu a boca encarando o objeto semelhante às ruínas divinas. — Isso é um sacrilégio... heresia.
— Heresia? Tem algo a ver com as antigas divindades? — sendo estranhados da Grande Vontade, não seria estranho se os necromantes ainda adorassem o que era considerado sagrado quatro mil anos atrás.
— Sim. Este não foi um portal construído por nós, muito menos por vocês. É apenas mais um escárnio do império por parte daquela coisa nojenta! — o necromante cerrou os punhos, e para Celestino deveria parecer que ele desviava os olhos do portal, mas eu vi que ele encarava a presença cheio de fúria.
— Têm certeza de que vocês têm tempo de ficarem zangados por aquele bando horrendo que corrigi? — a presença comentou.
Antes que eu pudesse questionar o comentário, um tremor abalou o túmulo, poeira caindo do teto mal acabado sobre nossas cabeças.
— O que foi isso? — Celestino perguntou. — Um ataque?
— Não há uma facção de monstros ou bandidos nesta área que se atreveria a fazer de meu povo um inimigo — Kangar comentou, deixando apenas uma alternativa de ameaça determinada a nos perseguir até o fim do mundo e forte o suficiente para provocar um pequeno terremoto.
— O Herói.
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