Capítulo: 13
Quem diria que viajar pelo território conhecido como “Baixo LABIRINTO” seria tão difícil?
— Nah, sinto muito, Rei das Sombras, mas não posso ajudar a gente aqui — Cruz comentou, dando de ombros. — Se houvesse algum rastro recente, eu poderia nos ajudar a segui-lo, mas não vejo nada além de grama para onde quer que olho. Grama e uma lebre ou raposa ocasionalmente.
— Vincente, você pode nos ajudar? — perguntei.
— Bem, até posso, mas... — olhou para Cruz em busca de suporte. E o obteve, o que pareceu acalmar seus nervos um tanto. — Haha, quem diria que um dia eu ajudaria o próprio Rei das Sombras a formar um exército de monstros?
— Bah, sabe como é, todo Rei das Sombras que se preze tem um exército, né? Eu me sentiria envergonhado de enfrentar o Herói dessa geração sem um também.
— Hahaha! É, acho que tens razão. Mas, sabe, só nós três já contamos como um exército sozinhos — o Ladino tomou a dianteira do grupo e nos liderou numa direção, aparentemente, aleatória.
— Ah, eu sei bem disso. Especialmente depois daquela arena. Mas, vem cá, para onde estamos indo mesmo?
— Eu vi uns córregos nessa direção. Fluxos de água de pouco mais de uns dois dedos de largura, mas que eventualmente devem dar em um rio ou lago, e até onde sei, monstros precisam de água para sobreviver também, né?
— Sim, mas não é mais provável que tombemos num assentamento élfico ao invés de um campamento de monstros? Digo, se não me engano... a Cidado Lago não fica por aqui?
— Você nunca esteve na Skécia, né? — Vincente me perguntou sobre aquele país com um meio sorriso.
— Não, a última campanha sacra foi mais para as fronteiras da Confederação Frankna, e como aventureiro havia mais trabalho na direção oposta, pela Federação Monárquica de Vay’la — respondi.
— Faz sentido. O exército fez a limpa nos monstros ao Norte, então havia mais trabalhos de aventureiros ao Sul. Skécia, porém, fica bem no meio destes extremos, e não havia motivos para ele visitá-la — Cruz comentou, coçando a barba.
— Sorte a dele! — Vincente revirou os olhos. — Cara, não tem absolutamente NADA por aqui. Só grama. Grama e uma colina ocasionalmente. Só isso. Mesmo se você pegar uma direção aleatória e segui-la em linha reta, vai precisar andar por DIAS até ver qualquer mudança no cenário... que provavelmente vai ser a costa fria do Degelago. — referiu-se ao maior lago do continente, nascido do degelo da Cordilheira dos Rostos. — É por lá que se encontram os únicos assentamentos élficos do país, de resto só algumas vias e fortes ao longo da fronteira Sul. Basicamente, na direção que seguimos agora, é quase 100% garantido que não vamos tombar com outra pessoa.
— Ah, entendi. Mas Cruz gosta dessas coisas, não? Se mudou para o meio do mato, isolado e tal — apontei.
— É, bem, por mais que goste de contato com a natureza, essa paisagem em específico pode ser um tanto... repetitiva. Melancólica até, durante o inverno.
— E durante a primavera, e durante o verão, e durante o outono... Por Deus, quando estávamos em campanha, tudo o que eu queria era um bar ou cabaré, mas depois de um ano de batalhas, havia se tornado praticamente impossível importar bebidas alcoólicas, e nenhuma prostituta tinha interesse em seguir o exército para tão longe da civilização — os ombros de Vincente caíram.
— Ah, mas vocês estavam no grupo do Herói, poderiam muito bem só pegar o vinho dos nobres, não é?
— Que nada! Eu só era importante do lado do Cruz, por não ter sangue azul, não era muito respeitado quando sozinho.
— Olha, para ser justo, independentemente de quem a pessoa fosse, se algum mala sem alça de repente entrasse na minha tenda e exigisse meu vinho, eu também insistiria que ele saísse, se possível — Cruz respondeu ao amigo, rindo.
— Você está redondamente enganado se pensa que eles me VIAM enquanto eu... conquistava minha parte do álcool por direito!
— Isso parece só mais um motivo para os nobres não gostarem de você... — apontei.
— Não acredito que meus antigos brinquedos estão agindo tão casualmente ao lado daquele que deveria ser seu inimigo — a entidade comentou. — Pelo menos Celestino continua fiel aos seus valores — o Mago estava claramente lendo o livro que eu havia lhe emprestado, abalado por nossa última interação e pela forma com que Cruz respondia a mim. Mas fazer o que, a entidade deveria ser idiota demais para perceber detalhes óbvios como aquele. — Rebeldezinho, quando você inevitavelmente morrer em sua patética tentativa de cumprir seu objetivo, vou tomar sua alma para mim apenas para lhe fazer passar pelo destino mais cruel que sua mente simplória consegue imaginar — prometeu algo que nunca aconteceria.
҉
— ...E foi assim que eu capturei todos aqueles monstros para a arena que eu administrava! — Vincente explicou. Então, parou de repente. — Ah, parece que achamos os seus futuros subordinados, Haicard — o Ladino apontou para uma pequenina massa disforme no horizonte, que aos meus olhos quase que completamente mesclava-se com o terreno.
— Perfeito. Fiquem ao meu redor e não permitam que eles cheguem próximo demais de mim.
Poucos minutos depois, a massa discreta tomou forma: vinte seres elfanoides, altos, musculosos, de pele verde e com caninos inferiores protuberantes, aproximavam-se rapidamente, todos montados em criaturas deformadas e sem pelo, de pernas traseiras maiores que as dianteiras, e do tamanho de cavalos.
Uma vez que se tornaram distinguíveis para mim, alcançaram meu grupo em questão de segundos.
— WRAAGH! — um dos orcs urrou especialmente alto enquanto os demais nos cercavam por todos os lados, suas montarias selvagens grunhindo em nossa direção. — Elfos! Suicidas, hahaha! — os monstros gargalharam.
— Monstro. Nos leve ao seu acampamento — comentei, meu rosto parcialmente escondido pelo pesado capuz mágico que eu vestia, a face de uma pessoa aleatória que antes me disfarçava então substituída por pura sombra.
— Vamos sim, vamos sim... como cubinhos de car-!
— Mago — antes que o orc pudesse terminar de falar, apontei o dedo indicador direito para sua cabeça e convoquei Celestino.
E aparentemente ter se focado em ler o livro que lhe emprestei serviu para lhe esclarecer a mente o suficiente para me obedecer sem questionamentos naquele instante: seu disparo fora tão poderoso, certeiro e repentino que o corpo sem cabeça do orc líder assassinado ainda chegou a apontar seu machado em nossa direção, como se ordens de ataque estivessem prestes a sair de seu pescoço sangrento.
Mas ordem alguma se fez ouvir, ao invés disso, seu cadáver caindo para fora da sela, em silêncio.
— Você é o novo líder agora — indiquei outro orc, que encarava o corpo sem vida de seu antigo superior caindo ao chão. — Nos leve ao acampamento.
— Gah?! — o orc que eu havia indicado me encarou espantado.
— Espera! Por que Bruruk é o novo líder?! Eu sou-! — não precisei chamar por nomes daquela vez, quando meramente apontei para o reclamão.
Cruz apareceu bem em frente ao inimigo, mais rápido do que qualquer um de nós poderia acompanhar com os olhos, e num instante transformou toda a parte superior do reclamão em névoa vermelha com os punhos, seu soco tendo reduzido o tronco do orc a partículas tão finas que sequer caíram ao chão como sangue, mas flutuaram para longe, carregadas pelo vento.
Então, até as criaturas deformadas que serviam de montaria haviam se calado e pareciam se encolher.
Sem dizer uma outra palavra, por mais hesitante que eu estivesse, subi no monstro que suportava o antigo líder orc abatido no lombo.
E o líder orc que eu havia apontado nos guiou até uma colina a umas quatro horas de marcha daquele ponto, que diferentemente das demais havia sido modificada, com túneis irregulares cavados em toda sua face, como um formigueiro com dezenas de entradas, havendo também uma série de cercados feitos de ossos e couro seco ao redor do assentamento orc, contendo as criaturas que eles montavam, e aparentemente também criavam para alimentação própria. Me surpreendi quando notei que as criaturas, apesar da aparência ameaçadora, eram herbívoras.
— A-Aqui estamos... senhores — o orc líder apontado desceu de sua montaria e nos guiou através de uma multidão monstros, que urravam em nossa direção, aparentemente confundindo nossa presença com reféns para cobrar resgate ou carne fresca a ser oferecida aos membros de maior influência no assentamento.
Também deixando minha montaria para trás, entrei num dos corredores brutamente escavados, muito úmidos, e que usavam vigas de ossos para sustentação, e segui o orc líder recém-apontado.
— Ah, olhe aqui, rebeldezinho — a entidade apontou, soando estranhamente entusiasmada... para uma pilha de lama, na qual alguns orcs remexiam freneticamente. — Esse é um ponto de nascimento de orcs.
...Legal?
A entidade me encarou com decepção estranhamente evidente em sua face, apesar do rosto inexpressivo.
— Deixa quieto. Sua cabecinha minúscula não seria capaz de compreender mesmo.
Deixando aquela abobada de lado, andei até o final do corredor, e para minha surpresa, até um pequeno lago a céu aberto, a colina estendendo-se como um anel ao seu redor. Numa plataforma de ossos de frente para o lago, sentado num trono de crânios élficos, um orc especialmente grande e exibindo inúmeras velhas cicatrizes, vestindo apenas uma tanga e badulaques de ossos, nos encarava.
Um veterano da última guerra sacra, com certeza.
— Essa é a oferenda que você me traz... quem é você mesmo? — perguntou o orc cheio de cicatrizes.
— Bruruk, senhor Cavaleiro! — respondeu prontamente o orc que, apesar de ser quase duas cabeças maior que eu, parecia pequeno perto de seu líder. Mas antes de confirmar que éramos oferendas, me atirou um olhar assustado por sobre o próprio ombro, como se calculasse a quem preferia irritar.
Uma vez que eu havia me dado ao trabalho de ir até aquele fim de mundo para recrutar um exército, porém, preferi evitar ainda mais casualidades desnecessárias e respondi por Bruruk:
— Não sou oferenda, criatura. Sou seu novo mestre.
De forma semelhante ao meu próprio grupo pouco antes, um dos monstros que ladeava o Cavaleiro respondeu imediatamente e com violência, atirando uma machadinha em minha direção, que honestamente eu não teria sido capaz de evitar se não fosse por Cruz, quem parou a arma em plena trajetória, agarrando-a pelo cabo.
E uma vez que eu não morri com o ataque, o líder daquele assentamento de orc reconheceu nossa ameaça.
— Isso é o que veremos. Matem-nos! Wragh! — imediatamente após a ordem de seu líder, dezenas de inimigos atiraram-se sobre nós, empunhando machados, porretes e espadas toscas.
— Tentem não matar todos eles — foi minha resposta para aqueles que me guardavam, que eram um pouco eficientes demais.
Vincente desarmou, estapeou, e nocauteou uma série de orcs em meros instantes com o lado plano de seu par de adagas púgio; Celestino sequer precisou se mover para debilitar seus oponentes, movendo sua varinha como um maestro, e a cada sacudida derrubando um inimigo diferente com um feixe de luz; e Cruz empregou empurrões e tapas leves, “apenas” quebrando algumas mandíbulas e ombros, e atirando seus adversários vários passos para trás.
Em poucos segundos, mais de trinta orcs estavam incapacitados e atirados ao longo de toda a margem do lago.
— JÁ CHEGA! — o Cavaleiro levantou-se de seu trono macabro e tomou um pesado machado de duas mãos que descansava num suporte no encosto do móvel, levando seus subordinados a recuarem. — Você é o líder desses elfos, certo? Não importa o quão forte eles sejam, nunca seguiremos a você, se não passas de um mero frangote! Seus homens já provaram seu valor, agora falta você: me enfrente num duelo, sem truques, sem ajuda de seus subordinados, e em caso de vitória... considerarei ouvir qualquer que seja a besteira que você tenha a nos dizer — prometeu, apontando sua temível arma em minha direção.
— Olha só, se você não é sortudo? Você conseguiu mesmo a atenção do orc mais forte da região. Enquanto eu os criei para jamais se aliarem naturalmente aos elfos, devido ao seu Título, se você derrotá-lo... Ah, é. Você tem que derrotá-lo sozinho para ter qualquer sucesso. Acho que você não é tão sortudo assim, afinal — a Presença comentou, sarcástica.
A descrição de minha posição como Rei das Sombras revelava que, além de imortalidade parcial e uns Feitiços que eu ainda não podia usar, também aumentava meu carisma para com monstros grandemente, fazendo com que eles me vissem como um de seu tipo. Então enquanto normalmente seria apenas 100% impossível para um elfo formar uma aliança com qualquer tipo de monstro, as chances de tal empreitada dar certo para mim não eram nulas.
Por outro lado, os orcs me viam como um orc também, e isso significava que eu deveria obedecer às leis brutais da sociedade rústica dos monstros e me provar o mais forte para ter realmente qualquer autoridade.
— ...Pois bem — respondi, vagarosamente dando um passo adiante.
— Haicard, eu não vou poder te fortalecer discretamente, essa não é minha especialidade — Celestino cochichou, agitado.
— Não acho que posso envenenar esse cara sem que ele perceba também. Sempre considerei uma estocada no coração ou uma garganta cortada mais eficiente, então não entendo muito dessas coisas — acrescentou Vincente.
Eu sabia bem daquilo, e ainda assim eu não tinha escolha. Eu sequer pude perceber quando um dos subordinados de elite daquele orc atirou um machado contra mim, e presumivelmente o Cavaleiro era muitas vezes mais forte.
Imagens daquela batalha na Cidade do Abismo, quando eu ainda era membro do exército da Sacra Liga me vieram à mente. Daquela vez, eu tinha um esquadrão inteiro me dando suporte. Então seria diferente, e se eu quisesse realmente ter aqueles orcs sob controle, eu sequer poderia me aproveitar de minha imortalidade parcial e me permitir ser morto repetidas vezes e derrotar o monstro por exaustão. Não, minha vitória deveria ser absoluta, impressionante para eles. Aquilo não seria apenas a batalha mais difícil de minha vida, mas também uma encenação que poderia apenas se desenvolver perfeitamente.
— Lhe agraciarei com um... “duelo” — tirei meu manto, mas não o capuz, e deixei o pano marrom surrado cair ao chão atrás de mim, revelando que eu vestia minha velha armadura de aventureiro por baixo deste, com todos os bolsos, sacos e alças de sempre.
Minha proteção era um conjunto simples e repleto de marcas de uso constituído por camadas de algodão e couro sobre minhas juntas, e placas metálicas sobre as partes mais vulneráveis; uma armadura de excelente qualidade para um guerreiro solitário, mas longe de uma armadura de placas completa em qualquer campo. Exceto que eu havia feito algumas pequenas modificações desde a última vez que exibi aquele conjunto, desde o começo sabendo que aquele momento chegaria: tingi as partes macias de negro.
Era um traje básico, surrado e mais utilitário que intimidador, mas eu contava que, com a atitude certa, passaria exatamente a impressão desejada.
— Não existe atitude certa para isso, você parece estar vestindo um cosplay de baixa qualidade de um Rei das Sombras que se preze. Com uma única moeda de ouro, você pode comprar seu equipamento todo, e ainda sobraria troco. Sem falar que seu rosto não é nada-
Enquanto a presença irritante falava um monte de bosta, convidei o orc para o duelo, sacando a longa e fina espada de estoque, uma arma simples, mas elegante:
— Venha, monstro.
Ele veio, e quando meus olhos falharam em acompanhar os movimentos sobrenaturalmente velozes de meu oponente, confiei em minha intuição; o orc queria provar sua superioridade inata, mas desconfiava que eu era tão poderoso quanto Cruz e os outros, então tentaria me executar de forma rápida, que provasse que não me temia, e que ainda me tornaria um exemplo para todos aqueles que quisessem desafiá-lo: ele tentaria me decapitar num golpe horizontal pela frente!
— Ku-argh?! — meu desafiante recuou com um pulo quando minha espada abriu-lhe um talho de lado a lado sobre o músculo transverso do abdômen. Com olhos arregalados, tocou o ferimento e encarou os dedos pingando vermelho.
— Entendi, foi assim que você pegou ele... — a entidade deve ter lido minha mente. — Mas agora ele não vai repetir o mesmo movimento. Na verdade, ele vai te levar muito mais a sério.
— Você me desafiou, monstro, agora não desperdice meu tempo com sua covardia — comentei, tensionando todos os músculos sob minha proteção.
— Grr... — o orc empertigou-se e me rodeou lentamente, então muito mais cuidadoso. Não fiz questão de acompanhar-lhe com a cabeça ou corpo, porém, e quando este parou bem às minhas costas: — WRAGH! — avançou com a mesma velocidade de antes a partir do meu ponto cego.
E se eu não tivesse matado aqueles bandidos no esgoto, aquilo teria sido de fato um golpe decisivo. Mas eu havia derrotado aqueles bandidos, subido de Nível pela primeira vez em meses, e investido mais um ponto em Ocultismo, ao menos o suficiente para que então eu pudesse ativar Feitiços sem pronunciá-los audivelmente.
— Que?! — enquanto o orc mantinha seus olhos fixos em mim, eu havia encharcado a terra ao meu redor com água, tornando-a num lodo profundo, no qual seus passos afundaram-se e quase fizeram-no cair de cara ao chão. — Gaah! — coloquei outro corte superficial em meu oponente, dessa vez ao longo de sua face, sobre o nariz, e de uma bochecha a outra.
— Duas vezes... — comentei, propositalmente vago.
O Cavaleiro removeu-se do lodo, sua ansiedade visivelmente crescente, e correu na outra direção, me contornando pelo lado oposto.
— Porra! — apenas para ver-se pisando numa série de estrepes. — M-Minha força...! — que, é claro, estavam envenenados; não contaminou-se com últimamora suficiente para tirar a vida de oponentes de seu escalão, mas ainda era capaz de lhe enfraquecer.
— Três vezes — abri outro ferimento leve em meu oponente, dessa vez em seu braço. E quando o orc recuou, seus olhos arregalados, focando sua energia, que rapidamente esvaía-se, em defender-se, chocou a lâmina de seu machado contra a de minha espada, e viu-se eletrocutado por ainda outro feitiço, eletricidade percorrendo o corte de minha arma. — Quatro vezes — perfurei a coxa direita do orc.
— Seu... Maldito elfozinho insignificante! — vendo-se cada vez mais encurralado, o líder dos monstros locais decidiu arrancar contra mim numa última investida. E caiu na mesma armadilha da lama uma segunda vez, mas então, não deixei que escapasse, desfazendo o Feitiço, e permitindo que a terra na qual afundara se solidificasse ao seu redor num instante, imobilizando-o quase até o joelho. — Merd-! — coloquei a ponta de minha espada contra seu pescoço, meu rosto ilegível por trás das sombras mágicas do capuz.
— Cinco vezes. Em meros segundos de duelo, ainda que me contendo, tive cinco oportunidades de lhe matar, e não o fiz esperando que você compreendesse isso por si mesmo. Mas parece que isso não vai entrar na sua cabeça a menos que eu lhe diga de uma vez... você já perdeu. Submeta-se a mim, ou morra.
A multidão de orcs que a apenas alguns poucos segundos atrás urrava e torcia por seu líder, então via-se calada, e até meus (relutantes) companheiros mostravam-se perplexos.
— É-É minha derrota. Minha vida é sua para fazer o que quiser com ela, mestre.
— Eu já lhe disse, sou seu Rei, não seu mestre — comentei, embainhando minha espada e abrindo o menu de Títulos. — Seu novo Rei das Sombras — uma vez que exibi a janela para os monstros, os urros de regozijo soaram mais uma vez, e ainda mais altos que antes, até mesmo as criaturas mantidas em cercados do lado de fora grunhindo alto.
— ...Podia ser pior, eu acho — a entidade comentou, estranhamente difícil de ler naquele momento. Então, seu avatar desapareceu em frente ao meu olho.
Ela provavelmente só estava envergonhada após eu prová-la errada tantas vezes seguidas.
҉
— Agora, vão! Todas as tribos, todas as espécies inimigas dos elfos, tudo aquilo que nasce nas sombras deve prestar seus serviços a mim imediatamente! Partimos em três dias! — ordenei os orcs, sentado no trono de ossos.
— Ei — Cruz se aproximou de mim. — Como... Como você derrotou ele? Digo, sem ofensas, mas você-
— É fraco — Celestino intrometeu-se, seu semblante pesado, suas rugas especialmente profundas, suas olheiras inchadas, seus ombros caídos. — Como você pode ter derrotado aquele orc Cavaleiro, tantas vezes mais forte que você, com tamanha facilidade? — por um momento, pensei que ele me questionava com raiva, no intuito de tentar me humilhar e rebaixar mais uma vez. Mas encarando-o nos olhos, logo percebi que este não era o caso. Ele não buscava desesperadamente por minha punição, mas esperança. Ele havia acabado de terminar de ler o livro, pelo jeito.
— Eu sabia que iria ter de enfrentar algum monstro como ele cedo ou tarde nesta jornada. Seria preciso provar que possuo força imensurável. Então, me preparei para isso. Isso é tudo.
— Você se preparou? — Celestino repetiu, surpreso. — Só isso? Você derrotou um monstro que sequer conseguia acompanhar com os olhos porque “se preparou”? — assenti com a cabeça. E o Mago idoso, repentinamente, explodiu em risadas: — Hahahahaha! Entendo, entendo! O que é uma entidade acima dos divinos, quando temos alguém que se prepara do nosso lado, não é? Haicard, sinto muito pelos importunos pelos quais fiz você passar até agora. Por favor, me dê a mesma Missão que você deu para Cruz.
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