Desenredo - Capítulo: 12

Capítulo: 12


“Depois do fim da Primeira Era de Ouro e a queda do Império – que em sua época não possuía nome, mas foi postumamente denominado ‘Forte’ – houve um longo período de guerras onde dezenas de milhares de Lordes, Duques, Reis e autointitulados Imperadores governaram os territórios fragmentados da nação que um dia já uniu o continente, todo e cada um destes sonhando com a reunificação bélica.

Focaram-se exclusivamente no desenvolvimento da guerra, e aqueles que não o fizeram foram rapidamente exterminados, focaram-se no sonho do renascimento do Novo Império Forte, e para tal fim foram moldados e distorcidos os trabalhos, as estruturas sociais, os assentamentos, as tecnologias, a criatividade, os valores, e a própria natureza.

As guerras eram travadas em tal escala e intensidade que os motivos originais para as declarações de guerra entre vizinhos se perdiam na história de geração para geração, e os povos apenas sabiam que deveriam dizimar uns aos outros.

A matança era tamanha que os rios, a chuva e até a névoa da manhã foram perpetuamente manchadas de vermelho sangue. Montanhas foram mineradas até suas raízes, florestas cortadas até a última árvore, corpos de água vermelha drenados e seus leitos tornados em desertos. E quando os últimos recursos deste pequeno trecho de terra foram extraídos, enormes centros de reciclagem canibalizaram nações inteiras, incluindo seus habitantes: couro, carne e ossos humanos obtidos dos campos de batalha eram nada além de matérias-primas, a vida selvagem na região tendo sido completamente extinta em época.

Enquanto isso, os habitantes das milhares de nações deste passado distante foram desprovidos de individualidade e sujeitos a extremas transformações por sua elite regente: runas mágicas eram cirurgicamente cravadas em seus ossos, e a depender de sua casta social, partes desnecessárias de seus corpos eram sacrificadas a divindades de guerra por poder de combate superior, lealdade e virtudes humanas lhes eram ensinadas desde cedo, as crianças crescendo em instituições de ensino das tarefas de sua casta, sem contato com seus genitores.

Este período, posteriormente conhecido como Era Vermelha, perdurou por três mil anos.

Tempos difíceis para muitos, mas o que faz sofrer, enriquece a alma, e por esse mesmo motivo que os humanos conseguiram retirarem-se do fosso no qual colocaram-se originalmente.

A escassez e isolamento do Continente Bélico chegariam ao fim com o desenvolvimento de uma magi-tecnologia em particular: o portal; um engenho capaz de viajar qualquer distância instantaneamente, contanto que houvesse um outro portal no destino, feito antes impossíveis mesmo para os magos mais poderosos.

E com o descobrimento de terras além-mar durante os testes do portal, uma nova Era de Ouro partiu as nuvens vermelhas de poluição do Continente Bélico.”

- Trecho extraído do livro Guia Compreensivo da História de Álfheim, por Elarico Milemario Saudoso.

 

— E depois de destruírem meus negócios e matarem meus homens, eles fugiram naquela direção! — o homem careca, que era um influente membro do mundo do crime naquela cidade e tinha sua base de operações localizada nos esgotos, relatou todos os acontecimentos que decorreram no coliseu clandestino.

— E por que eles fizeram tudo isso? — perguntou Landa.

— Bem, sabe comé... — o careca sorriu sem jeito. — Houve alguns desentendimentos dentro da nossa boa organização, re-balanceamento de poderes e coisas do tipo. E quando... convidamos nosso antigo chefe para uma discussão diplomática, bem, os caras que vocês estão à procura estavam presentes, por algum motivo.

— Quem eram as pessoas além do homem imortal? — Leônico perguntou, encarando com relutância os cadáveres de monstros enormes e enormemente poderosos que empilhavam-se na arena. Para seu terror, um deles exibia até um par de armas mágicas de qualidade muito alta, ainda que então destruídas e envenenadas demais para serem usadas confortavelmente mais uma vez.

— Eu não sei, senhor Herói. Mas eles eram fortes. Muito. Na verdade, muito mais fortes que o próprio cara imortal, se me perguntar.

— Tão fortes quanto esse tal de Cornélio? — Saulo quis saber, perturbado pelo que via e ouvia.

— Sim, senhor.

— Entendo. Obrigado por suas informações. Em compensação, lhe permitiremos resgatar os cadáveres destas bestas e vendê-las, em vez de apreendê-las — Leônico dispensou o informante. — Apenas três pessoas fizeram isso tudo... Saulo, quantos soldados seriam necessários para obter um resultado parecido?

— Deitam-se dezessete destes monstros, logo... oitocentos soldados, mais ou menos. Como passei a maior parte do tempo ao seu lado, não posso lhe dizer como seriam exatamente divididas estas forças, porém.

— E o informante disse que os três eram elfos, assim como o Rei das Sombras atual... — Mariah franziu o cenho, sentindo as cicatrizes que lhe cobriam o corpo todo com a ponta dos dedos.

Cedo ou tarde, a Curandeira descobriria aquela verdade, afinal, e aconteceu mais cedo do que Saulo preferia. Mais do que todos, a garota tinha bons motivos para ressentir aqueles que taxava de traidores da espécie.

— Se é que eles são MESMO elfos, né — Landa deu de ombros. — Talvez seja algum tipo de ilusão, ou defeito esquisito. Tipo, sei lá.

— Ah! — ouvindo aquilo, Saulo teve uma ideia totalmente errada, e eu quase saltei do meu assento metafórico para tirar aquela ideia de sua cabeça. — Agora que você mencionou isso, acredito ter lido sobre um Feitiço muito antigo, de origens misteriosas, que era capaz de separar a essência de um ser em múltiplas partes. E vocês não acham que a divisão de funções da equipe do Rei das Sombras é estranha? Poder mágico, força bruta, ladinagem e cérebro...

— Você está sugerindo...! — Leônico, infelizmente, achou aquilo tudo muito plausível.

— Talvez... TODOS os suspeitos responsáveis por esta batalha sejam PARTES da essência do Rei das Sombras.

O clima tenso resultante da conclusão teria sido efetivo, se o Mago não estivesse completamente errado.

— Quatro Reis das Sombras ao mesmo tempo...

— E isso não é a única coisa preocupante sobre essa história, não é? — Landa apoiou-se na arquibancada, confortável. — Por que vocês acham que eles vieram para cá para começo de conversa? Pensem bem sobre o assunto.

— É claro que foi para buscar- Ah! — Saulo chegou a outra conclusão precipitada. — Ele vai buscar sua outra parte, a que estava recrutando o crime organizado para as forças do Rei das Sombras! — Maria e Verônico arregalaram os olhos e seus queixos caíram, assombrados pela revelação.

Landa, porém, mostrava-se serena, se séria.

— E enquanto esse tal de Cornélio falhou em recrutar os foras-da-lei para sua causa, nós não devemos assumir que os outros tiveram o mesmo resultado — a Ladina chutou uma pedra arena abaixo, e sobre os corpos dos monstros estirados na areia encharcada de sangue. — De outra forma, como teriam obtido estes monstros todos?

Quem dera se o rebeldezinho fosse competente daquele jeito. Da forma como as coisas estavam progredindo, era mais provável que ele fosse morrer no primeiro encontro que tivesse com Verônico.

— Os aventureiros de classe especial eram todos agentes de Demônia, montando secretamente um exército... — Meu campeão arrepiou-se. — Não há tempo a se perder! Vamos tentar refazer os passos do Rei das-, nãos dos Reis das Sombras e descobrir para onde eles foram daqui! —liderou seus companheiros esgoto adentro.

Com seus Atributos absurdamente altos, Verônico era capaz de enxergar em infravermelho, em visão termal, visualizar auras mágicas, e muitas mais funções que apenas fui empilhando em seu repertório de Habilidades. Foi logo capaz de encontrar pegadas nos corredores imundos dos esgotos sem muitas dificuldades.

O destino final que alcançaram, porém, mostrou-se inesperado para a equipe do Herói.

— Uma ruína divina? — Maria surpreendeu-se ao alcançarem o círculo metálico. — Aqui? Nos esgotos? Que ultraje! Assim que tivermos tempo, vou contactar os historiadores para que este lugar seja apropriadamente preservado!

— Então tenho más notícias para você, Maria: a gente provavelmente não vai ter tempo livre pelos próximos meses... ou anos! — Landa apontou, com um meio sorriso.

— É uma localização de fato interessante, mas para onde prosseguiram depois daqui, Verônico? — Saulo quis saber.

— Aqui. Os rastros acabam aqui.

— Eh? — o amigo do Herói quase não conseguiu esconder a surpresa, e por isso rapidamente abaixou-se para esconder seu rosto de Leônico, fingindo estudar a estrutura... ou, pelo menos, foi isso que o Mago pensou. Em realidade, uma voz sussurrava-lhe tão baixo em seu ouvido que nem mesmo ele era completamente consciente dela. E o que a voz relembrava-lhe, era o fato que apenas ele mesmo e seu mestre, Celestino, sabiam da verdadeira função daquele tipo de estrutura. Tentou desesperadamente pensar numa forma alternativa que seus inimigos pudessem ter usado para desaparecer daquela forma: — Talvez o trajeto que seguimos tenha sido um chamariz para nos distrair da verdadeira rota de fuga deles?

— Não, apenas uma das quatro faces do Rei das Sombras parece ter qualquer Habilidade furtiva decente, os outros não conseguiriam me enganar mesmo se tentassem seu melhor. Na verdade, acho que essa ruína pode ser um portal — Leônico, alheio aos tormentos de seu amigo, apontou justamente o que o Mago temia.

— P-Portal?!

— Sim. É um clichê desse tipo, né? Um círculo no chão, cheio de inscrições. Um portal que tenha uma aparência ainda mais típica do que essa, só se fosse um arco de pedra contendo uma cortina de energia dentro de si.

— Às vezes, eu seriamente queria saber de onde você tira essas coisas, senhor Herói.

— Ah, é! Acho que esse tipo de coisa não faz sentido para vocês, né? Haha! Enfim, o que você acha, Saulo? Consegue ativar esse portal?

— ...Eu consigo.

— “Portal”... o que é isso? — Mariah questionou, perdida na conversa dos rapazes.

— Bem, apenas fiquem no centro da estrutura metálica e observem.

O companheiro de Verônico era incapaz de programar o destino do portal da mesma forma como seu mestre, uma vez que aquelas engenhocas magi-tecnológicas usavam um sistema mágico completamente diferente, mas ainda poderia levar-lhes para:

“VUSH!”, um clarão cegou a equipe de meu campeão por um instante, e no instante seguinte, viram-se numa planície de grama alta e amarelada que estendia-se para além do horizonte.

— O Baixo Labirinto. Foi para cá que as quatro faces do Rei das Sombras fugiram.

Enquanto Mariah suspirava e Landa assoviava, ambas impressionadas, Verônico logo percebeu grama amassada, suas folhas tortas em apenas milímetros, imperceptível para qualquer outro ser vivo naquela esfera, mas aos seus olhos formando um caminho direto.

— Eles estiveram aqui, e apenas há alguns dias atrás. Vamos, ainda podemos alcançá-los antes que seja tarde! — liderou sua equipe adiante.

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“Oh, meu amado marido, hoje minha mãe me impediu de deixar o pavilhão real para atender um baile organizado a fim de apaziguar as crescentes angústias dos muitos nobres de nossa nação, pois, segundo ela, estou muito gorda e sou uma vergonha à realeza. Ela também disse que o motivo de minha aparência ser tão decadente é minha paixão pelo velejo, disse que o sal corrói minha pele, e que não me exercito o suficiente apenas girando um timão. Disse que é por isso que partiste. Vendeu meu barco por este motivo e convocou uma professora de dança, cujas aulas sou agora obrigada a atender. Meu querido, meu amado, minha alma gêmea prometida, pensas como minha mãe?

- Com amor, Princesa Criscina.”

“É claro que você não está gorda, Criscina. Que legal que você está fazendo aulas de dança, Criscina. Mas estou viajando agora, me aventurando, perseguindo o maior inimigo de todos os elfos, então não tenho muito tempo agora. Tchau, Criscina.

- Herói Verônico.”

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