Desenredo - Capítulo: 11

 Capítulo: 11

 

— Se lê Herói Caído. Por Deus, Cruz, seu Título se lê agora como Herói Caído! Até suas Habilidades de luz se tornaram de sombras! — um elfo idoso, de longa barba e cabelos brancos, vestindo um manto azul escuro estampado com estrelas, o sol e a lua ficou de pé por trás de sua escrivaninha, batendo com ambas as mãos na tampa do móvel à sua frente. — Você perdeu a cabeça?!

— Celestino, meu amigo- — Cruz manteve uma postura tranquila e um tom de voz controlado, mas foi interrompido:

— Não me chame de amigo, pois amigos não tentam arrastar uns aos outros para as profundezas da escuridão! — o velho elfo estapeou o ar, irado.

— Apenas me dê uma chance para me explicar. Por favor, por tudo o que já passamos juntos — o Herói Caído suplicou, soando mais triste do que frustrado. Vinha refletindo muitos sentimentos melancólicos recentemente, não que eu pudesse culpá-lo.

— Se explicar? — o velho elfo parecia quase ferido, em dor, quando olhando para seu antigo companheiro. Então, tornou-se a mim com ódio tão fervente, a temperatura do escritório onde nos encontrávamos pareceu elevar-se. — Não. Eu já sei bem o que aconteceu. Esta... criatura usou de algum tipo de técnica demoníaca para lhe infestar a mente com parasitas manipuladores!

— Se você não vai dar ouvidos ao seu velho amigo, quem você já deveria bem saber ser incorruptível, por que não dá ouvidos ao Sistema? — abri uma janela, e logo a exibi ao velho enfurecido:

 

Título Missão: Desenredo

Objetivo(s): Derrotar o Herói da geração atual (Verônico).

Condições: Não é permitido ao Rei das Sombras Haicard, Mestre dos Sussurros, assumir qualquer posição governamental após a conclusão desta missão, e toda influência política, econômica, legal, e semelhante, além de tesouro e terras obtidos durante o desenvolvimento desta missão, não poderão ser desfrutados para fins pessoais não relacionados à conclusão desta missão.

Recompensa por conclusão: Fim do ciclo de Heróis e Reis das Sombras, fim da inserção forçada de todos os elfos no Sistema, Libertação do Continente Arsenal.

Punições por desistência e/ou falha: Morte.

 

— Você pode ter-

— Não vai dizer que eu posso ter alguma maneira de interferir com o Sistema, vai? — levantei uma sobrancelha, o interrompendo. — Se eu tivesse meios de fazer isso, por que não apenas me dar um milhão de pontos em cada um dos Atributos? Ou enviar uma mensagem falsa diretamente para o Herói, dizendo que ele é portador de uma doença incurável e extremamente contagiosa que se tornará ativa em alguns dias, e ele deve deixar este continente a fim de evitar tragédias?

— Eu não confio em você. Tem algo em seu olho, algo em sua postura, uma aura em você que não é encontrada em nenhum dos grandes homens e mulheres... Não, não possuis algo, lhe FALTA algo. Mesmo o Rei das Sombras que enfrentamos em nossa geração tinha certa dignidade que não possuis.

— Ele tem razão — a entidade comentou, olhando para a academia através das janelas do escritório, e apesar de seu tom seco, pude quase escutá-la rir do comentário do velho.

— Eu sei do que você está falando, amigo — Cruz levantou-se, me atirando um olhar de esguelha, suspeito. — E por isso as condições impostas para mim no contrato de missão que Haicard me fez são completamente diferentes.

 

Título Missão: Desenredo

Punições por desistência e/ou falha: Nenhuma.

 

— Nenhuma punição? Nem condições especiais para sua submissão? — Celestino coçou a barba, analisando a missão mais de perto.

— Ele parece completamente confiante de que a nobreza deste objetivo sozinho é o suficiente para garantir minha ajuda. E por isso mesmo eu aceitei esta missão. Se ele estiver falando a verdade, podemos acabar com esta guerra infinita de uma vez por todas, e se ele estiver mentindo. Caído ou não, ainda sou um Herói, e ainda tenho o necessário para matar um Rei das Sombras.

— Parece que todo mundo nessa sala te odeia — a entidade tentou jogar sal na ferida, mas falhou miseravelmente, pois eu não poderia me importar menos com o que aqueles velhos pensavam de mim, e muito menos sobre os pensamentos daquela coisa ridícula visível apenas para mim. — Ele está tentando se fazer de durão, coitado. Todo mundo se importa com a opinião alheia, especialmente quando vem de seus ídolos nacionais. É por isso que eu existo.

Bufando, Celestino sentou-se de volta à sua cadeira e olhou através da entidade e da janela para os prédios e gramado da enorme academia de magia da qual era diretor. Aquelas instalações cobriam um espaço maior que assentamentos inteiros, e cada edifício lá havia sido construído com algum tipo de Feitiço, e não eram menos elegantes que mansões de nobres em altas posições de liderança... até porque todas as pessoas que atendiam o lugar eram, de fato, nobres.

— Vou querer dar uma lida neste livro que você mencionou, mas não sem antes fazer uns testes para verificar a presença de magia no livro. E é melhor que ele contenha mesmo as respostas para esses termos crípticos da Missão como “Libertação do Continente Arsenal”.

— Perfeito — concordei.

— E também não vou aceitar Missão nenhuma. É praticamente impossível que você tenha encontrado uma forma de manipular o Sistema, mas prefiro não arriscar mesmo assim.

— Contanto que você colabore para a causa, eu não me importo.

— Tch! O pior é que eu realmente não consigo pensar em como você pode estar nos manipulando.

— Você pode pensar em formas como eu posso estar mentindo para vocês no caminho — me levantei da cadeira e puxei o capuz de linho sobre minha cabeça; quando sua sombra cobriu minha face, magicamente um novo rosto foi projetado por sobre o meu próprio. Aquele era um dos itens que eu havia tomado emprestado de Cruz; como esperado, alguém se fingiu de aventureiro sem ser reconhecido por tantos anos tinha formas de se mover discretamente pelos reinos do continente. — Tem mais uma pessoa que quero recrutar à causa, e tempo é um recurso preciosamente escasso quando se tem um Herói me caçando bem à minha cola.

— Eu sei bem de quem você fala, mas certamente podemos esperar um momento antes de partir. Montar provisões, discutir estratégias, ou a natureza desta tarefa, pelo menos até eu terminar este livro do qual vocês falam?

— Não, Celestino, ele tem razão. Se ficarmos aqui por muito tempo, rumores vão começar a se espalhar sobre os estranhos que o velho diretor está abrigando e nesse momento as redes de informantes de toda Álfheim devem estar desesperadas por qualquer informação sobre Haicard, qualquer atividade suspeita é uma pista, e você não quer ver sua preciosa academia se transformando num campo de batalha, não é?

— Urgh, você não mudou nada mesmo após todos esses anos, nunca me dá tempo de apropriadamente estudar! — apesar de reclamar, o velho barbudo sorria.

— Haha, infelizmente não há tempo para isso nesta guerra, amigo, mas uma vez que tudo se assentar, vais poder estudar o quanto quiser.

— Nem suas desculpinhas mudaram. Pois bem, vamos aos laboratórios no subsolo, lá existe uma passagem que vai nos permitir sair em segredo desta academia, e nos deixar um pouco mais perto do nosso objetivo.

— Você não vai avisar ninguém antes? — eu quis saber.

— Eles já estão acostumados com algum período de ausência por minha parte. Muitas vezes viajo devido a pesquisas, afinal.

— Mas você sabe para onde vamos? — perguntei, seguindo o velho diretor, que não precisava de capuzes para disfarçar sua aparência, ou a de Cruz, com magia.

— É claro, só há um lugar para o qual vocês podem estar se dirigindo. Para a morada de um certo Ladino!

Usando dos Feitiços de Celestino para transformar paredes em portas e o piso em escadarias, alcançamos o mais profundo nível da Academia de Magia Real do Sagrado Reino de Fanon em poucos minutos sem sermos detectados por ninguém.

Lá, havia uma extensa biblioteca e o que presumi serem complexos equipamentos de pesquisa mágica, mas apenas um par de mesas e cadeiras. E no centro da sala que não possuía portas ou janelas:

— Uma ruína divina — comentei.

— Um portal! — o Mago definiu o grande círculo de metal escuro e opaco, com três níveis de círculos menores concêntricos, cada um dos anéis exibindo dezenas milhares de complexos símbolos que variavam do tamanho de um pequeno grão de areia até o de um palmo. — Não foi fácil conseguir pôr as mãos numa dessas estruturas, já que a ordem dos historiadores as mantém sob controle extremamente restrito, mas durante minhas aventuras com Cruz, descobrimos esta ruína em particular e a mantivemos em segredo. Escolhi erguer a academia nesta localização para poder estudar tal construção. E depois de muitos anos de pesquisas... — Celestino alcançou o centro do círculo metálico, nos incentivando a segui-lo, abriu os braços e fechou os olhos. — Consegui reativar esta estrutura!

Num piscar de olhos, instantaneamente, e de forma desorientadora, nós três nos encontramos numa espécie de catacumba fedorenta e escura.

— Inicialmente, tentei alcançar o Paraíso, mas aparentemente é necessária uma estrutura diferente, especialmente modificada para tal. Já procurei o continente inteiro por esse portal, mas eu acredito que ele deva existir na catedral sede do Jornadismo, mas ainda não consegui inventar uma desculpa boa o suficiente para explorar o local sem levantar suspeitas.

— Onde estamos? — perguntei, zonzo, me apoiando numa parede úmida de rocha.

— Nos esgotos da cidade portuária de Desague Largo — Celestino explicou, e olhando ao redor, vi que os túneis onde nos encontrávamos pareciam ter sido, de fato, construídos por sobre uma estrutura idêntica àquela localizada no subsolo da academia, havendo partes expostas do metal sob a água turva e debaixo dos tijolos quebrados.

— Então essas coisas ainda funcionam... — pensei comigo mesmo.

— Surpreendente, não? Depois de você, Celestino foi uma das duas pessoas que mais chegaram perto da verdade em tempos recentes. Bem, as pessoas que mais chegaram perto da verdade e não foram mortas pela ordem dos historiadores. Ainda assim, nunca houve um único caso em que um de meus favoritos se tornou plenamente consciente de sua situação. No fim, ninguém quer admitir que tudo que lhes pertence, seu talento, beleza e vitórias não são frutos de seu próprio esforço — infelizmente, a entidade não havia perdido nosso rastro.

— Sabe, Celestino? Acho que você vai gostar do livro que te emprestei. Principalmente a parte que culpa a ordem dos historiadores por... bem, tudo — Cruz sorriu, tomando uma direção e seguindo, confiante, esgoto adentro.

— Mesmo que tenha uma fração de verdade neste livro, não significa que seja tudo verdade!

Propositalmente despojando-se de efeitos que dificultavam seu reconhecimento, Cruz e Celestino me guiaram através dos corredores labirínticos do subsolo, até uma porta metálica, como se já tivessem feito aquele caminho milhares de vezes antes. E considerando a pessoa com quem nos encontraríamos, eles devem mesmo ter feito.

Cruz estava prestes a bater na porta metálica, quando esta se abriu repentinamente e meia dúzia de homens brutos e mal encarados dela saíram, liderados por um careca especialmente mal encarado. Não foram embora antes de atirarem olhares zangados por sobre seus ombros para nós.

Atrás da porta maciça de ferro, o que um dia deve ter sido uma sala administrativa para os trabalhadores que cavaram aqueles túneis exibia uma série de luxos diversos, obras de arte finas decorando as paredes rústicas da sala no esgoto, pesados estofados de couro com monstros esculpidos em madeira para os pés escondiam manchas suspeitas no chão, e no centro da sala, uma grande escrivaninha em madeira sólida.

— Cruz? — sentado atrás da escrivaninha, um homem grisalho, de cabelo arrepiado, na altura dos ombros, e barba mal feita, soou confuso. O outro único aventureiro de classificação especial, “Cornélio Turbarão”.

— Vincente! Há quanto tempo, a- — antes mesmo que o Herói Caído pudesse terminar de cumprimentar seu amigo e antigo companheiro, aquele cujo verdadeiro nome era Vincente já havia saltado por sobre a escrivaninha e abraçado Cruz, rindo alto.

— HÁ QUANTO TEMPO! Por que você não veio visitar antes, Cruz? Estive tão entediado nos últimos tempos.

— Haha, pois é. Desculpa — pareceu genuinamente embaraçado. — Eu não vim à visita desta vez. Na verdade-

— Tá bom, eu topo, o que vamos fazer? — Vincente deu a volta na escrivaninha e começou a pegar uma série de objetos e embolsá-los.

— Vincente, por favor, me escute. Não estamos indo fazer um passeio no parque, isso é algo sério-

— Tá, tá, eu aceito essa Missão séria. Qual o objetivo da vez?

Uma vez que Cruz parecia genuinamente hesitante em admitir seu objetivo para o amigo que evidentemente confiava tanto nele, Celestino interferiu:

— Nós vamos ajudar o novo Rei das Sombras a derrotar o Herói desta geração. E a propósito, este homenzinho aqui é o tal novo Rei das Sombras.

— ...Hu? Tá bom, isso é inesperado — Vincente olhou para mim com curiosidade por um minuto. Então, deu de ombros. — Mas não é como se Cruz fosse se tornar um vilão agora, aposto que ele tem seus motivos. Vamos lá, então?

— Assim? Não vai nem me questionar?

— Hahaha! Qual é, Cruz, já passamos por isso há muitos anos atrás, não?

— Vincente... Nem sei o que dizer. Obrigado. E sinto muito por não ter visitado mais. Você sabe, os últimos anos-

— Eu sei, Cruz. Eu sei — Pela primeira vez desde que o vi, Vincente exibiu algo que não felicidade. Entristeceu-se, segurando um pingente em forma de frasco contendo algum tipo de líquido dourado. — Eu também sinto... Não, desculpa. Sinto muito por sua perda.

Curiosamente, até Celestino revelou um calar de pingente curioso, como se uma raiz seca, o qual encarou parte com saudosidade, parte com melancolia.

Todos os membros sobreviventes da equipe da última geração de Heroicos haviam se reunido e estavam em relativamente bons termos, e já começavam a pôr o papo em dia.

— Adoráveis, não? — a entidade perguntou. — Uma vez que você for estraçalhado por Verônico, talvez eu faça uma história slice of life sobre velhos superpoderosos, poderia ser interessante — não entendia do que ela falava, mas fiz questão de mandar-lhe se foder mentalmente mesmo assim. — Já você, não é nada adorável.

— Ei, que bom que deu tudo certo. Por que não fazemos como seu amigo aí sugeriu, e vamos logo embora daqu- — antes que eu pudesse terminar de falar, o chão sob meus pés cedeu. Literalmente.

Com um alto estrondo, a sala inteira afundou de uma vez só, os tijolos que compunham o chão tornados em migalhas por uma poderosa explosão que também destruíra minhas pernas por completo, liquefazendo minha pele, carne e ossos até meus joelhos.

A aterrissagem, infelizmente, também não fora nada gentil para com meu corpo, e estive muito mais ciente do que gostaria do fato de que minhas costelas e meu esterno haviam quebrado e seus fragmentos perfurado vários de meus órgãos.

Eu queria gritar e chorar e me debater, mas meu corpo via-se tão completamente afetado, que não pude fazer nada mais do que mover os olhos: então, Cruz, Celestino e Vincente viam-se completamente ilesos e prestando pouca atenção à minha figura soterrada por tijolos, e nós quatro estávamos bem no centro de uma grande arena cercada por altas arquibancadas cheias de pessoas suspeitas.

— Senhoras e senhores! — o careca especialmente mal encarado de antes sorria, triunfante do que parecia ser uma posição de honra na arquibancada da arena. — Para o espetáculo de hoje, veremos o quanto um aventureiro de classe especial, e convidados, consegue aguentar... até sua morte! — Anunciou, e o público vibrou de empolgação. — Abram os portões!

— Aargh! — finalmente, eu havia recuperado o movimento de meu torso, e a dor excruciante diminuíra apenas em uma fração. Frente aos meus próprios olhos, observei enquanto pedaços espalhados de ossos e carne, e bolhas de sangue saíam debaixo dos escombros, e eram atraídos para minhas pernas mutiladas, onde encaixavam-se como peças de um quebra-cabeças, e lentamente refaziam meus membros. Mas não rápido o suficiente. — Uma quimera?!

De um dos portões erguidos da arena saiu uma criatura pelo menos três vezes maior que um cavalo, cuja forma combinava um leão, um escorpião, e uma serpente, com o corpo da primeira besta, o número de pernas da segunda e o enorme pescoço da terceira; um monstro que necessitaria o trabalho conjunto de pelo menos três esquadrões de soldados ou quatro equipes de aventureiros hábeis para ser abatida.

— Que criatura nojenta, quimeras não são supostas a terem tal forma... — a entidade parecia incomodada, mas com o monstro se aproximando claramente sedento de sangue, tirei pouco prazer daquele fato. — Ter te libertado do Potencial já está afetando este mundo perfeitamente curado.

— Cala a boca por um segundo, puta merda...! — talvez por conta da dor e adrenalina, respondi à entidade em voz alta, ainda que num sussurro.

— Celestino? — por outro lado, Cruz soava completamente calmo, quase indiferente, sem sequer alcançar o cabo de sua espada, mesmo quando o monstro se pôs a correr a toda velocidade em nossa direção, exibindo uma arcada dentária composta exclusivamente por caninos pingando veneno.

— Eu adoraria estudar esta quimera estranha, mas estamos com pressa: Pulsão Estelar! — o velho mago apontou sua varinha para o monstro, e desta fora disparado um raio azul e amarelo brilhante, que moldou-se como água ao redor do corpo do monstro, e envolveu-o completamente. E uma vez que o raio dissipou-se, nada da quimera restara, além de uma pilha de cinzas incandescentes.

— Ho-Hooo... — o careca na posição privilegiada da arquibancada tinha um sorriso desconfortável, mas não parecia, afinal, muito menos confiante, de certo ignorante do poder da criatura que havia sido destruída num único ataque. — Parece que você trouxe alguns amiguinhos interessantes, Cornélio. Mas não importa. Temos companhia o suficiente para todos vocês! — o careca gesticulou para um assistente, e logo vários outros portões ao nosso redor se abriram, e destes saíram muitas mais criaturas tão ou ainda mais poderosas que a anterior; monstros fortes e em quantidade o suficiente para destruir uma cidade inteira.

— Ai, ai, talvez isso sirva de aquecimento para o que está por vir — Cruz girou seus ombros, alongando-se.

— Hehe, vamos ver se você não enferrujou nesses últimos anos, Cruz! — Vincente brincou.

Os três amigos absurdamente poderosos se atiraram contra a onda de monstros atiçada em sua direção, sem hesitar, exalando empolgação.

Quando finalmente minhas pernas foram reconstruídas pelo poder de meu Título, porém, meu foco foi dirigido para outra direção: o careca que observava Vincente com extremo rancor do ponto mais alto das arquibancadas.

— Você não tem outras coisas com as quais se preocupar agora? Como estes monstros que podem te estraçalhar num segundo, se assim desejarem? — a entidade perguntou, seguindo meu olhar.

— Se tem estes monstros em cativeiro, ele tem métodos de capturá-los, e isto pode ser ainda mais perigoso. Além disso, essa cara parece ser alguém do submundo, ele pode fazer informação sobre nós cruzar o continente inteiro em poucas semanas se escaparmos sem lidar com ele antes.

Me levantei de sob os escombros, e comecei a correr na direção do careca, mas muito antes que eu pudesse chegar nele, uma enorme criatura voou por cima de minha cabeça e caiu entre nós dois: estava ensanguentada, coberta de ferimentos, e havia perdido quase metade de suas escamas, mas mesmo com o pé na cova, o monstro era mais do que o suficiente para derrotar múltiplas equipes de aventureiros ou soldados do meu Nível, pois era nada menos que uma Amphisbaena, uma enorme cobra com uma cabeça em cada extremidade, e presas do tamanho de uma perna, que injetavam peçonha tão tóxica que seus vapores sozinhos me faziam chorar mesmo à distância.

E o pior de tudo, a criatura havia apanhado tão feio para Cruz, que decidira mudar de alvo após ser feita de boneca de pano e arremessada através da arena por um único murro que quase lhe tirara a vida.

— Sabe, a depender do nível de destruição de seu corpo, pode lhe levar semanas para se regenerar — a entidade apontou, observando com satisfação a cobra se empertigar.  — Me pergunto se isso seria tempo o suficiente para Verônico te alcançar?

Logo em seguida, uma das cabeças da serpente atirou-se sobre mim, e seus Atributos deviam ser imensuravelmente superiores aos meus, pois mal pude acompanhá-la com os olhos, tamanha era sua velocidade.

Mas tão injusta quanto era aquela luta, eu não havia deixado a casa de Cruz de mãos vazias, e não trouxe comigo apenas um capuz para disfarces:

— Ativar! — gritei, posicionando um pequeno bastão do tamanho de uma pena bem à minha frente com uma ponta voltada para o chão e a outra para o teto, e no instante seguinte este se estendeu numa lança com intrincadas gravuras de gladiadores, cuja longa e afiada lâmina perfurou o céu da boca da serpente que tentara me abocanhar por inteiro.

Abandonando o bastão ainda cravado na boca da serpente, sua ponta saindo por um dos olhos, contornei a criatura enquanto a outra cabeça movia o corpo em círculos à minha procura.

— Invocar Arma Número 4 — enquanto eu adoraria ser capaz de conjurar os Feitiços que me foram garantidos quando herdei o Título que me fez inimigo de todos os elfos, eu ainda não possuía Ocultismo alto o suficiente para tal, então me virei conjurando uma besta ao mesmo tempo que a segunda cabeça do monstro serpentino me encontrou, seu olhar quase paralisante. — Ativar — disparei uma seta de prata que tomei do baú de Cruz e ativei o segundo item mágico que havia tomado emprestado do Herói Caído.

— Hushaaa! — a Amphisbaena chiou, remexendo-se, presa na grande rede prateada, cujos pesos em cada ponta eram, na verdade, pequenas espadas gladius.

Aquilo não havia completamente imobilizado o monstro, porém, e a criatura atirou sua enorme cabeça ilesa contra mim, ainda que não pudesse abrir sua bocarra cheia de presas.

— Efeito Número 1 — ativei outro dos Feitiços que havia desenvolvido, e fui envolto numa nuvem de fumaça pouco maior que meu próprio corpo. — Efeito Número 2 — a fumaça fora soprada por uma brisa por mim criada, gerando um corredor escuro adiante de mim.

“BOOM!”, a criatura atirou-se de barriga sobre o corredor de fumaça que eu havia conjurado. Assim caindo em minha armadilha, pois eu havia parado de avançar assim que me cobri de fumaça, e havia conjurado os ventos para carregarem a fumaça adiante apenas para dar a impressão de que eu corria contra o monstro.

— Ativar — preferindo por algo menor que minha espada estoque a fim de evitar atingir espectadores inocentes, revelei o último dos equipamentos mágicos que havia tomado emprestado de Cruz, um tubo dourado cobriu minha mão direita, terminando numa lâmina semicircular na horizontal.

Saltando através da poeira levantada pelo baque da criatura, cravei a estranha arma bem no olho do monstro, a esclera da Amphisbaena mesclando-se com sangue e esguichando para fora da ferida que lhe impus.

— Hushaaaa!! — então as duas cabeças da serpente recuaram e remexeram-se de dor, machucadas demais, confusas demais para continuar qualquer perseguição.

Finalmente, pude me tornar ao careca que era evidentemente o mandante de toda aquela confusão e naquele exibia uma expressão aterrorizada, roendo as próprias unhas enquanto observando a luta de meus companheiros.

Correndo contra a arquibancada, não precisei de equipamentos mágicos chiques, mas apenas uma corda com gancho que carregava sob meu manto, e facilmente escalei o primeiro nível dos altos assentos.

— Quem é esse? De onde ele veio? Matem-no! — finalmente percebendo minha presença, o careca mandou seus capangas para cima de mim enquanto a plateia ao meu redor recuava e fugia ao perceber que a situação fugia do controle do mestre da arena.

Comparados com os monstros lá embaixo, porém, mesmo quando cercado por seis capangas estando sozinho, aquele confronto me pareceu significativamente mais fácil:

— Efeito Número 3 — conjurei e disparei uma bola de óleo flamejante contra um dos capangas que corria em minha direção, acertando-o em cheio no peito e forçando-o a rolar no chão e a tentar desesperadamente apagar as chamas.

— É um Mago! Rápido, sua fraqueza é combate corpo a corpo! — o careca instruiu seus capangas.

Assim que meu primeiro inimigo tentou me perfurar com sua espada, a diferença entre nós se viu clara; aqueles homens deveriam ser ex-soldados, talvez Nível: 8, mas haviam anos que eles faziam pouco mais que surrar vagabundos nos cantos sombrios dos esgotos daquela cidade, e eu havia continuado a trilhar um caminho de morte.

Movi meu tronco fora da trajetória da espada e lhe cortei fora o braço com um único movimento de minha estranha arma emprestada.

— Argh! — o capanga recuou, tentando estancar o sangramento com uma mão e sua camisa suja.

Antes mesmo que seu braço decepado caísse ao chão, porém, chutei-o com toda força contra outro oponente, e o membro voou contra meu alvo, girando descontroladamente enquanto ainda segurando sua espada: cravou-se em cheio na cintura do terceiro inimigo, lhe perfurando a bacia e trazendo-o ao chão imediatamente.

— Droga — infelizmente, porém, a diferença entre nossos Atributos não era tão gritante quanto aquela entre os meus e os do Herói, e então os três capangas restantes já estavam muito perto de mim para que eu pudesse fazer qualquer coisa. — Pur-ah! — três espadas curtas me perfuraram ao mesmo tempo e de três direções diferentes: uma através de meu pescoço, outra de meu peito, e outra do abdômen.

Felizmente, com a queda de antes, confirmei que perda de sangue ou mesmo “morte”, não eram o suficiente para me deixar inconsciente, contando que minha cabeça estivesse intacta: brandi minha lâmina horizontal contra o pescoço de um dos capangas, me banhando com o sangue do inimigo.

— O que?! — os outros dois guarda-costas do careca recuaram, levando consigo as lâminas que perfuravam meu corpo.

Apesar da dor intensa, a maior que eu já sentia desde... alguns minutos atrás, quando explodiram minhas pernas, respondi com minha lâmina atacando veementemente ambos os inimigos.

Lutando contra apenas dois oponentes ao mesmo tempo, eu havia retomado a vantagem, e rapidamente desarmei o capanga da esquerda, lhe cortei fora os dedos de ambas as mãos, e o chutei arquibancada abaixo, onde um dos monstros rapidamente o devorou, e o último de meus atacantes viu-se findado quando chutei sua cabeça contra um dos degraus da arquibancada, estourando-a como uma bexiga.

— E você é o próximo — falei com uma voz que quase não parecia a minha própria, tão rouco e ríspido soei devido ao ferimento ainda não completamente regenerado na minha garganta.

— Mas que...?! — o careca pareceu finalmente me levar a sério pela primeira vez.  

Corri em direção ao camarote, e com um par de pulos bem colocados, facilmente alcancei a posição do careca.

— Merd- — o homem tentou escapar, mas ao me mostrar as costas apenas me proporcionou um alvo mais fácil. — Kagh! — caiu ao chão, de olhos fechados... mas vivo.

— Por que você me parou? — perguntei ao Herói Caído, que segurava a ponta da arma que me emprestou, amassando-a por completo com apenas sua palma, me impedindo de alcançar meu alvo.

— Já basta. Você deu um susto grande o suficiente nele, ele não vai mais ser um problema — Cruz disse, e quando olhei para a arena abaixo, não vi nada além de dezenas de cadáveres de monstros que, sozinhos, exigiriam batalhões inteiros para serem abatidos. — Deixa isso de lado, e vamos logo dar início à próxima etapa de seu plano. Recrutar alguns monstros, não era?

— Ele tentou nos matar.

— Não vai tentar de novo.

— Mas o Herói vai. Ele viu nossos rostos e agora sabe o que vamos fazer a seguir, vai nos entregar assim que saímos daqui. — Eu não confiava que o careca estava realmente desacordado.

— Como você sabe? É igualmente possível que ele decida abandonar essa vida e se mudar para bem longe daqui depois dessa sova — Cruz soltou meu braço, dando de ombros.

Suspirei, desativando o arruinado item mágico que envolvia meu braço. Com um olhar de relance, logo percebi que os demais itens mágicos emprestados também haviam sido danificados pelo veneno e o debater-se do monstro contra o qual os usei.

— Você só tem medo de sujar as próprias mãos, mas a menos que você esteja disposto a sacrificar tudo, já estaremos condenados antes mesmo de termos uma chance — apesar de discordar totalmente com as conclusões de Cruz, ele era uma peça absolutamente indispensável se eu quisesse ter qualquer chance de vitória na luta por vir, não tentei ultrapassar sua “sugestão”.

— Hmm, eu me pergunto se isso é mesmo verídico? — Celestino comentou, flutuando até o camarote e coçando a própria barba. — Digo, mesmo se desconsiderarmos a última guerra sacra bem-sucedida de meu companheiro, ele sozinho conseguiu partir uma série de monstros lendários ao meio com as próprias mãos, enquanto você... precisou de três itens mágicos mais valiosos que ducados inteiros e muita sorte para ESPANTAR um único inimigo, que estava ferido, a propósito. No quesito de liderança, eu não acho que você realmente tem qualquer base para sobrepor uma ordem do Herói... ainda que agora Caído.

— Hmpm. Parece que o Mago está tentando te colocar em seu lugar, Rebeldezinho — a entidade apontou, cheia de graça.

E aquilo foi a gota d’água.

— Se vocês são mesmo tão incríveis assim, por que foram vocês que foram feitos de peões, enquanto eu fui amaldiçoado com este maldito Título? — Cruz desviou o olhar, já tendo lido o volume e conhecendo parcialmente a verdade pela qual lutávamos. Vincente cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha, confuso. Celestino, porém, estava desconcertado, como se tentando ignorar ruídos estranhos vindos da despensa, na esperança de que ratos não houvessem comido todos os seus grãos, mas com medo demais para abrir a porta e checar a situação. — Vocês jogam com regras que não vão funcionar do meu lado... ou no mundo por vir. E você sabe muito bem disso, covarde.

Dei as costas para o velho e deixamos os esgotos e a arena secreta imediatamente em seguida.

Se eu quisesse que aquela equipe de geriátricos tivesse qualquer chance contra meu oponente, eu precisava prepará-los muito mais ainda.

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